sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

"Uma noite de Natal diferente"



Era véspera de Natal. Para nós, aparte a nostalgia da época, seria mais um dia, na esperança de podermos continuar vivos.
Do posto de rádio, (palhota improvisada para aquele fim), o “Transmissões” veio ao meu encontro, com uma folha encriptada, com o grau de urgência” ZULU”.
Para mim, aquilo não era surpresa, pois era assim que o Subsector Avançado de Nangade se me dirigia, quando me empurravam para mais uma missão.
Mas, o estranho, estranho, e daí o ar preocupado do “Transmissões”, é que a origem da mensagem vinha do Comando Avançado de Porto Amélia.
Torci o nariz e disse cá para os meus botões:
- Hum, temos merda!!
Sim, porque era normal nas ocasiões festivas entrarmos de prevenção, pois os “caramelos” do outro lado gostavam de nos flagelar nessas ocasiões.
Bem! mas lá fomos desencriptar a mensagem.
Ao fim de algum tempo, a surpresa desfez-se e olhei para a malta que estava ali e gritei-lhes com um ar, diria, patético.
- Ei malta. - “O comandante do Sector Avançado de Porto Amélia e o seu séquito vêem fazer a consoada connosco!
São dois ou três hélios, e trazem rancho melhorado, dizia a mensagem, mas dizia mais …
Questionava, se estavam salvaguardas as condições de segurança necessárias para receber tão altas individualidades.
            Quais as condições de habitabilidade…
Quantos efectivos tínhamos …
Respondi que:
- Temos um pelotão de Pundanhar que faz a manutenção e segurança do aldeamento de Nhica do Rovuma…
- Temos, um pequeno grupo de milícias que colabora na proteção interna do aldeamento…
- Temos um Grupo de GEs …
- Temos uma secção de artilharia, composto por, salvo erro, dez homens …
- Somos quatro graduados e cerca de 25 militares metropolitanos…
A logística que poderíamos oferecer era apenas uma palhota, que funcionava simultaneamente, como messe, camarata, depósito de material de guerra … enfim; era o que se podia arranjar.
Após o envio da mensagem, também encriptada, aguardámos com anseio pela resposta.
Entretanto, lá nos íamos embonecando para receber as individualidades.
A meio da tarde de 24 de Dezembro recebemos a dita mensagem, cujo texto após o seu desencriptar, continha mais ou menos o seguinte:
- “ Por razões inesperadas, não é possível a presença do Brigadeiro XPTO nesse aquartelamento. Votos de Bom Natal ”. 
De raiva, colocámos algum bacalhau desidratado que ainda restava, em água, mandámos cosê-lo, devidamente acompanhado de esparguete. Se calhar pensavam que havia batatas, não? E fizemos entre nós uma bela consoada.
Mais tarde, cerca da meia-noite, mandei formar os GEs no centro do aldeamento, onde lhes dirigi umas palavras sobre o Natal.
Fizemos uma salva de G3, como se de fogo-de-artifício se tratasse e mandei toda a gente para o arame farpado, não fosse o diabo tecê-las, pois o IN não festeja.
E a noite do Natal, foi passada na santa paz das trincheiras, pois o que queríamos, era estar vivos e bem vivos…
… Afinal tínhamos tudo para comemorar:
A cabana do presépio, essa, era a palhota onde há cerca de dois anos vivíamos.
A vaquinha do mesmo, como diz o povo, e em termos figurativos, foi a sorte que sempre nos acompanhou.
O burrinho, melhor dizendo, os burrinhos, fomos todos nós.
O menino, simbolicamente, era a esperança em melhores dias.
Ficaram aqui a faltar os Reis Magos, pois esses não tiveram tempo de programar o azimute nos helicópteros.
Este é um conto de Natal diferente, não se reporta a 2015 anos atrás, mas apenas e somente a 43 anos passados.

Filipe Cardão Pinto[1]
19 de Dezembro de 2015



[1] Ex-Furriel Miliciano da Companhia de Caçadores 3309, destacado para chefiar o Grupo Especial (GEs) 212, destacado no aquartelamento do Nhica do Rovuma em Cabo Delgado, Norte de Moçambique na fronteira com a Tanzânia (1971-1973)

Na foto: O furriel Pinto junto de elementos da população do aquartelamento do Nhica do Rovuma.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

"Fardados de lama". Lançamento dia 20 de Novembro de 2015

(Capa e contra capa do livro)
(Clicar nas fotos para as ampliar)

Caros amigos e familiares
É com imenso prazer que vos convido para estarem presentes no lançamento do meu próximo livro (Romance autobiográfico), intitulado "Fardados de Lama". A obra vai ser lançada no Núcleo Cultural José Afonso (Biblioteca Municipal de Alhos Vedros) no dia 20 de Novembro de 2015 (Sexta-feira) pelas 21,30 horas, e contará com a presença de José Colaço Barreiros (autor do prefácio) e será apresentada por Mário Tomé (Capitão de Abril).
Compareçam, pois eu gostaria de contar com a vossa presença

sábado, 21 de março de 2015

"MISSÃO CUMPRIDA"


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Hoje cumpri uma promessa que tardava em ser concretizada. Fui ao NÚCLEO CULTURAL JOSÉ AFONSO, vulgarmente conhecido por Biblioteca Municipal da Moita, oferecer um exemplar do meu livro "DO TEJO AO ROVUMA". Restam-me ainda dois exemplares que irei oferecer ao ARQUIVO HISTÓRICO MILITAR e ao INSTITUTO GEOGRÁFICO DO EXÉRCITO, pela colaboração prestada na pesquisa efectuada para a conclusão da referida obra. Para além da oferta à LIGA dos COMBATENTES mas também porque sempre fiz questão de o fazer, foram também oferecidos exemplares na altura do seu lançamento, a cada um dos familiares dos meus companheiros da COMPANHIA DE CAÇADORES 3309 falecidos em combate, ao serviço de uma pátria que lhes foi madrasta, num conflito colonial de má memória. Concluída esta "última missão", informo que quem quiser adquirir um exemplar do livro "DO TEJO AO ROVUMA" deverá contactar a editora EUEDITO (geral@euedito.com).

sexta-feira, 20 de março de 2015

Carta ao amigo Joaquim Coelho

       
                                   

 Caro amigo Joaquim Coelho

 Recebi agora mesmo uma mensagem em seu nome em que dizia que o meu pedido de adesão ao grupo Picadas de Cabo Delgado tinha sido aceite. Não sei se sabe, eu já pertenci a esse grupo (no qual gostava bastante comentar, dado que também estive em Moçambique - Cabo Delgado (1971-1973) mas porque a minha permanência ali e porque o ambiente se estava a tornar insustentável em termos de participação e respeito pela livre opinião de cada um se estava (e continua) a deteriorar, decidi sair.
Este mau ambiente relacionava-se com atitudes menos correctas por parte de um dos seus administradores desse grupo, que impunha os seus pontos de vista, não aceitando opiniões diferentes, chegando ao ponto de me excluir desse grupo sem consultar os restantes administradores, situação que ocorreu em paralelo com a minha decisão de sair.
Não sei em que contexto é que foi aceite a minha entrada de novo no grupo, dado que não fiz qualquer novo pedido de adesão.
Em todo o caso, fico contente por da sua parte ter manifestado interesse na minha adesão, mas antes de o fazer gostaria de saber o seguinte: 1. Se esse senhor (sabem perfeitamente a quem me estou a referir) ainda é administrador do grupo.
2. Se ainda o é, pergunto se ele vai continuar a não aceitar opiniões diferentes (embora as possa criticar e apresentar os seus pontos de vista contrários, como é óbvio), contrariamente ao que acontece em outros grupos de ex-militares onde o ambiente é muito mais democrático e onde se prima pelo respeito e pela diversidade de opiniões sem se recorrer ao “lápis azul”.
  Se assim for, eu não estou disponível para aderir de novo ao grupo, pois não estou com paciência para continuar a aturar (de uma forma depreciativa) tantas manifestações colonialistas, nem conviver com “falsos heroísmos pseudo-patrióticos” que ignoram e até desprezam a vontade dos povos colonizados em assumirem a sua autodeterminação e independência, preconizando uma solução neocolonial onde os privilégios coloniais se manteriam.     
Para que tenha conhecimento e se for consultar os meus comentários nesse grupo, irá reparar que eu nunca ofendi ninguém nem faltei ao respeito a quem quer que seja.
As minhas divergências com esse senhor (que são do meu ponto de vista salutares e que promoviam uma discussão interessante, mas num ambiente totalmente diferente daquele) prendiam-se com;
¾ A concepção que cada um de nós tinha sobre as características daquele conflito e do seu conceito sobre se era uma Guerra Colonial ou Guerra do Ultramar;
¾ Sobre o papel que Portugal desempenhava em África;
¾ Sobre o comportamento das nossas tropas e da FRELIMO no teatro de guerra e se esta organização era (ou não) uma organização terrorista ou um movimento de libertação, que sempre considerei ser;
¾ Sobre o comportamento de algumas tropas ditas de "elite" para com os abusivamente e depreciativamente tratados por aqueles de "tropa macaca", numa clara manifestação de tacanha vaidade e de “pseudo-superioridade moral”;
¾ Sobre a questão de classificar (ou não) de traidores aqueles que desertaram para escapar ao conflito colonial, dado que para estes (contrariamente aos outros) participar naquela guerra nada tinha de patriótico nem a ver com os seus conceitos e valores de defesa da pátria;
¾ Mas também sobre a legitimidade do 25 de Abril (que constantemente alguns – na sua grande maioria contestavam) e da forma como se desencadeou todo o processo de descolonização, onde vulgarmente se classificavam (e ainda se classificam) os seus protagonistas de traidores.
São de facto pontos bastante polémicos mas muito importantes para se debater em espaços como estes grupos (mas sempre ignorados ou ostracizados) que vão muito para além da organização de "petiscos" (que são óptimos e excelentes momentos de convívio) ou comentar no grupo meras “larachas ou vulgaridades” sem qualquer contexto histórico ou social, o que por vezes acontece nesse grupo (e na maioria – felizmente nem todos - dos grupos onde se comentam questões relacionadas com a Guerra Colonial) do qual me desvinculei. Portanto amigo, antes de eu começar a comentar de novo no Picadas de Cabo Delgado gostaria que me esclarecesse os pontos a que me refiro neste texto, e se estes assuntos que descrevi continuam a ser proibitivos (só para alguns, mas livres para outros que utilizam o seu “poder autoritário”) de serem comentados.

 Os meus agradecimentos.

Um abraço.

Alhos Vedros, 19 de Março de 2015

Carlos Vardasca

PS: Desculpa lá amigo. Depois de uma pesquisa que fiz, verifiquei que esse grupo nada tem a ver com aquele a que me referi no texto. Em todo o caso, agradeço desde já o teu convite que muito me lisonjeia, embora tivesse reparado que esse grupo se chama também Picadas de Cabo Delgado (nome idêntico ao outro de má memória) e que as suas postagens são quase exclusivamente e mais relacionadas com os ex-militares que estiveram no conflito colonial, mais concretamente em Angola.

terça-feira, 17 de março de 2015

"Uma breve crónica de Pateira de Fermentelos" (7 de Março de 2015)


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Uma breve crónica de Pateira de Fermentelos

Pateira de Fermentelos, aos sete dias do mês de Março do ano de dois mil e quinze
Almoço/convívio CCAÇ,3309-Bcaç. 3834
A semana começara chuvosa e triste, nuvens pardacentas infestavam os céus e nada de bom augurava para o nosso convívio. Felizmente a cara do tempo transformou-se e fez-se sol radiante. O Encontro, na questão do tempo, iria ser um sucesso. E foi…
Na foto de grupo, todos solicitavam celeridade ao repórter fotográfico. O sol batia nas testas carecas da maioria dos convivas.
Não tivemos celebração eucarística devido a problemas pessoais e inadiáveis do nosso Capelão, mas todos os camaradas falecidos foram recordados em cerimónia simples e deveras emotiva.
Oitenta e duas pessoas nas quais estavam incluídos ex-militares, familiares e amigos, fizeram a festa anual de confraternização. O sorteio teve várias ofertas, que serviram de prémios. E que prémios!...
Depois, deslocamo-nos à discoteca para alegremente bailarmos e saborearmos o bolo de aniversário regado com o delicioso vinho espumoso da região.
E o Martins?...quem diria…foram um par de bailarinos natos…
A apresentação do bolo foi magnífica. O Serrinha, a Pilar, o Diamantino e a Carla, vestidos a rigor, brindaram-nos com um espetáculo deveras engraçado e delirante. Foi um dos pontos altos deste convívio. 
Aos poucos e poucos notava-se a debandada e os rostos então risonhos, demonstravam uma certa tristeza. Até p’ro ano camarada. Abraços e beijos, carinhosos e de conforto. É sempre triste a partida…haja esperança.
Alguém (familiar de militar) exclamava: “já fui a alguns convívios, mas nunca como este. Nota-se mais alegria, mais abraços e mais carinhos. Em suma, mais camaradagem”. 
É sempre bom a gente ouvir destas coisas. Isto, nos faz continuar...
Até ao ano camaradas. 2016 está à porta e já nos espera…talvez em VNGaia.

A organização

Arteiro & Pepino