sábado, 29 de dezembro de 2007

"... que 2008 seja mais solidário"


(...) Nas férias do colégio, aquela criança habituara-se desde muito cedo a vasculhar os jornais que encontrava em cima das mesas da taberna do senhor Eduardo, quando ali se dirigia a pedido do pai para comprar meio litro de vinho para o almoço. De início, interessava-se apenas pelas tiras de banda desenhada, que o faziam folhear o jornal até à última folha sem se interessar pelas outras e, conforme foi crescendo, já se ficava pelas notícias de primeira página, tal era já o seu interesse pelas questões que preocupavam o mundo. Ainda em criança (pelos seus dez anos de idade) todos os tostões que amealhava dos recados que fazia às vizinhas lá do pátio, faziam-no correr para a papelaria na rua Direita em Santarém e aí comprar o jornal "O Século" (que custava 1 Escudo) alimentando sempre a ideia de que (quando já fosse adulto) aqueles conflitos e a miséria que grassavam pelo mundo ali retratados, há muito já estariam resolvidos.
Hoje, aquele miúdo feito homem, não só verifica que não foram resolvidos mas que se agravaram, e que pareçem não ter fim à vista. Embora por motivações diferentes, as guerras continuam a traçar novas fronteiras mas injustas; a fome, o êxodo das populações famintas fugidas dos conflitos étnicos forjados pelo ocidente, continuam a ser ignorados; as matérias primas continuam a ser saqueadas do continente africano com a conivência dos seus dirigentes ao serviço de interesses neo-coloniais, enquanto a norte do planeta se vive na opulência e se semeia (salvo raras execpções de uma imensa minoria) a indiferença façe àquela realidade. Por isso, aquele miúdo hoje feito homem, ainda não se esqueçeu de uma frase lida num desses jornais, dita por um dirigente africano numa conferência internacional, e que dizia:
"Quando os brancos chegaram a África,
nós tinhamos as terras e eles a bíblia.
Eles ensinaram-nos a rezar de olhos fechados
e, quando os abrimos, eles tinham as terras
e nós a bíblia"
Jomo Keniatta
Volvidos tantos anos e apesar de tudo, e por pensar que o egoísmo ainda é a arma de arremesso daqueles que fazem da indiferença o seu modo de vida, e que olham para o lado fingindo ignorar (do alto do seu conforto) as tragédias que pareçem não ter fim à vista, aqui fica o desejo do tal miúdo feito homem, de que (apesar de ser uma hipótese muito remota) 2008 seja um ano mais solidário (...)
Carlos Vardasca
30 de Dezembro de 2007

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

XVIII Encontro Nacional da C.CAÇ. 3309


Amigos. Vai realizar-se no próximo dia 08 de Março de 2008 em Matos da Ranha - Pombal, Restaurante "Litoral", o XVIII Encontro Nacional da Companhia de Caçadores 3309 ou seja, o 35º Aniversário do seu regresso de Moçambique em 06 de Março de 1973. O Encontro realiza-se pelas 10,00 horas com o Mata-Bicho e aperitivos de Boas-Vindas. Pelas 12,00 horas realiza-se na Capela de Nsrª da Boa-Viagem uma Celebração Eucarística em memória dos camaradas falecidos, e pelas 13,00 horas o almoço de convívio.

Ao cair da tarde, para despedida, há bolo de aniversário regado com champanhe da região, assim como a tradicional animação com música ao vivo.

A avaliar pelos Encontros anteriores, vai ser um dia bastante animado, de convívio fraterno, onde se recordam algumas vivências e se abraçam amigos de longa data.

Caso manifestes interesse em ir, podes contactar com o João Arteiro (telef:252638359/telem:965804751/e-mail: joaoarteiro@sapo.pt) cujas marcações podem ser feitas até ao dia 03 de Março de 2008.

Aproveito para informar que no Sábado seguinte, dia 16 de Março de 2008, realiza-se na mesma localidade e respectivo restaurante (Litoral), o Almoço de Confraternização do Batalhão de Caçadores 3834 (CCS, C.CAÇ. 3309, C.CAÇ. 3310 e C.CAÇ. 3311), estando a sua organização a cargo de João Russinho Marques (telef:219813340/telem:969093325/e-mail: geral@jtmelectronica.com).

Compareçam e recordem em concívio, um pedaço das nossas vidas "que nos foi roubada sem jeito nem prosa".

Carlos Vardasca
26 de Dezembro de 2007

Foto: Cartaz do XVIII Encontro Nacional da Companhia de Caçadores 3309.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

"...o que sobra é para os mendigos"


(...) Não é intencional, mas quantos de nós, nesta noite de natal e no aconchego do nosso lar, enquanto mergulhamos nas travessas inundadas de couves e bacalhau, não reparamos que não nos sobra tempo para nos lembrarmos de quantos vegetam nas arcadas do Terreiro do Paço em Lisboa; pelas ruas escuras da Ribeira do Porto ou num qualquer recanto do interior esquecido das capitais, aconchegados do frio num pedaço de cartão, que por sinal já fora guarida de um qualquer brinquedo ofertado a um dos nossos familiares.

Neste dia, as carrinhas de várias organizações de solidariedade circulam pelos lugares que já conhecem de tanto os decorarem anualmente por estas alturas, e tão depressa esquecidos quando as câmaras e os holofotes se desviam para registar mais um anúncio de uma ridícula plástica da Lili Caneças.

O mundo de facto está cada vez mais desigual, e até pareçe que convém à sociedade manter alguns desafortunados para os exibir anualmente numa espécia de "montra", onde as reportagens exibem uma caridadezinha sazonal para que os "abastados da sorte" sintam a sua consciência um pouco mais tranquila, por terem introduzido no "bornal dos peditórios" uns magros centimos para descarga da sua consciência, como se isso os ilibasse das culpas de uma certa indiferença militante que roça as margens de um certo desprezo exibicionista, associado ao mais vil egoísta sentimento mercantilista.
Nesta noite de natal, este singelo contributo vai para todos aqueles que neste momento se debatem entre o aconchego da alma num qualquer resguardo feito cartão iluminado pelos holofotos do momento, e a luta intensa entre a ilusão de que a sua vida nómada será resolvida nas passerelles das manchetes dos telejornais, onde são lembrados anualmente, para tão depressa serem esquecidos num virar de página, entre a opulência e a arrogância atroz de um qualquer jogador de futebol que exibe a sua renúncia a um contrato pelos "míseros milhões de Euros" (...)
Carlos Vardasca
25 de Dezembro de 2007

domingo, 23 de dezembro de 2007

"...Entre o Kaúlza e o Cerejeira, venha o diabo e escolha"


(...) Em épocas natalícias era habitual os aquartelamentos serem visitados por altas individualidades militares, sempre acompanhadas por entidades religiosas, o que comprovava que a igreja sempre esteve de "braço dado" com o Estado Novo e conivente com a política colonial. Aguardava-se em Nangade no dia 26 de Dezembro de 1971 a visita de Kaúza de Arriaga, General Comandante-Chefe em Moçambique, e falava-se que o Cardeal Cerejeira o acompanhava nessa missão "envagelizadora" das tropas situadas a norte, mais concretamente no Planalto dos Macondes. Nas casernas e nas tendas, por vezes as conversas situavam-se à volta daquela visita, para uns com alguma expectativa e regozijo, enquanto que para outros (uma imensa minoria mais esclarecida) a visita era tratada com alguma indiferença, ouvindo-se com frequência dizer-se no interior das tendas:

- Entre o Kaúza e o Cerejeira venha o diabo e escolha, pois comem os dois da mesma gamela".

O Cardeal do regime acabou por não fazer parte da comitiva, e a maioria dos soldados, uns por mera curiosidade outros incitados pelos seus comandantes, tal como as populações dos aldeamentos que para ali foram levados pelo Administrador de Posto com a conivência dos Régulos, lá foram esperar o General à pista de aterragem de terra batida, enquanto que ao longe, numa das casernas ouvia-se:


Ora vai para o mato,
oh meu malandro,
por causa de ti
é que eu aqui ando
é que eu aqui ando
é que eu aqui ando...


Lembro-me que naquela altura entrou na caserna um Furriel da CCS do Batalhão de Artilharia 2918 estacionado em Nangade, de alcunha o "Coca-Cola", que era hábito participar nos nossos petiscos, e dizer, manifestando alguma preocupação:


- Epá malta, não cantem essa merda - então não sabem que nestas alturas Nangade fica apinhada de PIDES por todos os lados?
- Alguns deles misturados na comitiva e outros disfarçados de fotógrafos? (...)
Carlos Vardasca
23 de Dezembro de 2007
Foto: Kaúlza de Arriaga passa revista ao Agrupamento de GEs em Nangade. Por detrás do General e fardados de GEs, podem ver-se o então Alferes Diamantino e o Furriel Vilela da C.CAÇ. 3309, destacados para comandar aquela força de intervenção composta somente por naturais da então Província de Moçambique.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

"...Uma insólita prenda de natal"


(...) O Planalto dos Macondes era uma das zonas nevrálgicas no norte de Moçambique onde se fazia sentir a influência da FRELIMO, sendo por esse facto alvo de várias operações por parte de forças operacionais do exército, dos comandos assim como das tropas Paraquedistas.

Foi com esse objectivo que dois Grupos de Combate do Batalhão de Caçadores Paraquedistas 31 acamparam em Nangade durante algum tempo, cuja missão era serem helitransportados para atacar a Base BOANE da FRELIMO próximo do lago Lidede. Dessa força de Paraquedistas fazia parte o Duarte, meu velho amigo e companheiro de Santarém, que durante a sua permanência em Nangade me possibilitou usufruir do rancho melhorado que aquela força de paraquedistas proporcionava aos seus soldados, comparado com o incaracterístico "arroz com peixe" que nos era servido repetitivamente até à exaustão no rancho do Batalhão de Artilharia 2918 estacionado em Nangade. Nessa base da FRELIMO então destruída foram capturadas algumas armas e vários documentos considerados importantes, assim como algumas caixas com propaganda ideológica onde se encontravam vários exemplares do Tomo 1 das Obras Escolhidas de Mao Tsetung. Como em todas as operações, há sempre quem queira ficar com algum "troféu" para recordação, e o Duarte, sabendo das minhas convicções (que por acaso também as partilhava), sem que o comandante do seu grupo de combate se apercebesse (claro que não foi só ele) escondeu nos bolsos do camuflado alguns exemplares daquela obra, apesar das ordens em contrário do mesmo oficial, que ordenou que tudo o que fosse encontrado teria que ser entregue para averiguações. Estavamos na noite do dia 24 de Dezembro de 1971, e quando aquela força de Paraquedistas regressou da operação já com a noite a abater-se sobre o Aquartelamento, a primeira coisa que o Duarte fez, foi (antes de se deslocar para o seu acampamento) dirigir-se ao abrigo onde me encontrava e, acenando-me para que viesse ao seu encontro mas fora do abrigo, dizendo-me baixinho:

- Toma! - eu sei que isto não tem nada a ver com a época mas é a minha prenda de natal. Acrescentando:

- Envolvi-o num velho papel de jornal que encontrei no caminho para o encobrir, mas vais gostar:
- Só peço que não o abras à frente dessa malta toda pois nós nem sabemos em quem confiar.
A minha curiosidade fez com que, mesmo antes de chegar à caserna, rasgasse o papel de jornal onde aquela insólita oferta vinha envolta e (depois de me aperceber do que se tratava) para minha satisfação mas ao mesmo tempo preocupação, refugiei-me na caserna a folhear as páginas daquela obra que já eram naquela altura (embora em surdina) a minha fonte de inspiração ideológica.
Mais tarde, e ainda no mesmo Aquartelamento mas em outras circunstâncias que não interessa ainda descrever (mas que o farei em outra altura que considere adequada) foram-me oferecidos outros volumes da mesma obra que ainda hoje os guardo (apesar de já não me rever naquelas teorias) dentro do "baú das minhas memórias" e relacionadas com aquele conflito, para onde fui enviado "sem jeito nem prosa" (...)
Carlos Vardasca
22 de Dezembro de 2007
Foto: Exemplar do Tomo 1 das Obras Escolhidas de Mao Tsetung (edição em português) encontrado na Base BOANE da FRELIMO, próximo do Lago Lidede (Coord. 3931,9.1101) pelo Duarte, 1º Cabo Atirador do Batalhão de Paraquedistas 31.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Onde ficou o natal?


Onde ficou o natal?


No meu caminhar incerto
entre ruas iluminadas,
vejo espelhados nas montras, sorrisos,
são crianças fascinadas.


Mas nas montanhas cobertas de neve
onde o frio esconde canseiras,
faces rosadas, carentes,
brilham ao crepitar das lareiras.

Nuns, brilha uma felicidade encenada
por compromissos sazonais,
noutros, uma infância moldada
pela broa que escasseou nos bornais.

Há brinquedos que esperam sozinhos
em montras prenhes de carências,
outros, tão depressa morrem nos sótãos
numa solidão parida de opulências.

As crianças não devem crescer assim,
separadas por muros, por medos,
se os sorrisos são universais,
porquê só no natal?
se todos nós somos brinquedos.


Carlos Vardasca
Poema escrito em 18 de Dezembro de 2003
Foto: Elementos da C.CAÇ. 3309 festejam o natal de 1971 no Aquartelamento de Tartibo.

sábado, 15 de dezembro de 2007

"...Oxalá não tivesse sido assim"


(...) Quantas vezes no nosso dia a dia nos confrontámos com histórias (que roçavam quase o ridículo) contadas por vezes em jeito de uma pseudo-heroicidade inexistente e ainda no rescaldo do entusiasmo da participação no conflito colonial, muitas vezes contadas por quem, apesar de ter sido mobilizado, sempre observou a Guerra Colonial das cidades e nunca "saiu do arame farpado" e não viveu (e ainda bem que não) todos os dramas porque passaram quem convivia diáriamente de perto com os dramas ocorridos na frente de combate. O ano passado, no Café da Júlia, e porque calhou em conversa, contei a um amigo meu um episódio passado com a Companhia de Artilharia 2745, que a Companhia de que eu fazia parte a foi render nas margens do rio Rovuma na fronteira com a Tanzânia. Ele não acreditou, ao ponto de ridicularizar o que acontecera, dizendo que era mais uma das histórias de quem se queria vangloriar (como se o episódio não fosse apenas o resultado do dramatismo e das condições adversas com que eram confrontados a maioria dos soldados que foram destacados para a frente de batalha). Fiquei impressionado com aquela falta de sensibilidade e, por esse facto, fui a casa buscar o relatório dessa operação militar(1) dando-o a ler a esse meu amigo que, depois de se confrontar com a realidade ali relatada, e porque também como eu é de "lágrimas fáceis" pediu-me, emocionado, desculpa pela sua ignorância. Esse relatório, de quatro páginas e que descrevia uma operação militar de cinco dias efectuada pela C.ART. 2745, dizia a determinado momento o seguinte:


(7) (...) Em 12 de Novembro de 1970 a C.ART. 2745 manteve-se na mesma zona conforme ordens recebidas, já com bastantes problemas de água, uma vez que o percurso a corta mato foi extenuante e o reabastecimento insuficiente face às necessidades. Nesse dia grande parte do pessoal deixou de comer por não ter água para acompanhar a comida, e começaram a surgir desmaios e delírios.

(8) Em 130300NOV70, aproveitando a frescura da noite e aproveitando a seiva de raízes para mitigar a sede, iniciou-se a marcha para W, pelo lado norte da picada e sempre perto desta, à mínima distância de segurança para evitar accionamento de armadilhas IN das bermas da picada e, em 130800BNOV70 atingiu-se o local coord.3952.1056,6 onde o agrupamento ficou reunido à espera de água.

Nesta ocasião, mais de 10% do pessoal estava inoperacional, os estimulantes das bolsas de enfermeiro estavam a esgotar e foi necessário dar soro a beber a um militar que apresentava sintomas de desidratação. Militares houve que, contra tudo o que está indicado e fora da vigilância dos graduados beberam urina, pelo que foram severamente admoestados. Outros ainda arranjaram forças para abrir um poço numa lângua e, como não houvesse água, chuparam a terra húmida.

Em131300BNOV70 chegou a coluna vinda de Nangade com água e racções de combate, fez-se o reabastecimento, ministraram-se comprimidos toni-hidratantes ao pessoal, todos foram obrigados a comer, pois a maioria o não fazia havia mais de um dia, e pelas 14,00 horas iniciou-se o regresso ao quartel onde se chegou em 131900BNOV70 (...)


(1) Relatório de Operações nº12/70 de 13 de Novembro de 1970, assinado pelo Capitão de Artilharia, Comandante da C.ART. 2745 José Fernando Jorge Duque.


Foto: Elementos do 3º Pelotão da Companhia de Caçadores 3309 em patrulha na picada ente os Aquartelamentos de Nangade e Tartibo. Norte de Moçambique 1971.

" ...Quando a segurança vinha do ar"


(...) Apesar de aparentarem ser uma relíquia (que o eram de facto, pois já vinham do tempo da guerra da Coreia) os Bombardeiros T6 devolviam-nos alguma segurança, quando nos sobrevoavam durante as acções de patrulhamento ou durante as operações de reabastecimento no interior da mata densa. Na maioria dos casos, eram chamados de emergência, quando a FRELIMO desencadeava fortes ataques às colunas de reabastecimento, tendo como missão bombardear as posições de onde partiam os ataques e aliviar a pressão exercida sobre as nossas tropas, sendo um dos factores de persuasão para que a FRELIMO não consumasse os seus intentos como por vezes tentou, ou seja, (para além de outros factores de ordem miltar causando o maior número de vítimas) apoderar-se das mercadorias, armamento, e dificultar a circulação das nossas tropas nos acessos às fontes de abastecimento.
Havia determinadas zonas na mata que nos causavam imensos calafrios pelo simples facto de ali passarmos, devido ao acidentado do terreno, pela altitude do capim ou pela mata cerrada que não deixava vislumbrar nada à sua frente, pois eram zonas onde normalmente aconteciam emboscadas e sempre com fins dramáticos para as nossas tropas.
No momento em que atravessávamos essas zonas críticas, o T6 era por vezes chamado para nos prestar protecção aérea, e a simples presença daquele bombardeiro, com o seu roncar ensurdeçedor por cima da copa das árvores, fazia crescer em nós algum alívio e um sentimento de aparente segurança, que (embora não fosse partilhado por todos) nos transmitia (para além de espantar momentâneamente alguns dos nossos medos) confiança e alguma certeza de que a chegada ao nosso destino estava melhor assegurada.
Um dia, no Aquartelamento de Nangade, quando eu e malta da C.CAÇ. 3309 nos aproximámos da pista para ver mais de perto aquele bombardeiro que os EUA nos tinham vendido para nos "ajudarem a travar o avanço do comunismo em África", ouvi um reporter de um jornal Sul Africano que ali se encontrava a cobrir as operações, dizer para um piloto de um T6 que estava a ser reabastecido de combustível:
- Então voçês ainda pilotam esta sucata americana que sobrou da guerra da Coreia?
- Se fosse na África do Sul à muito que este "monte de lata" já tinha sido derretido numa qualquer siderurgia. Ao que o piloto respondeu:
- Pois é... mas apesar desta "lata" abanar por todos os lados, ainda me sinto mais seguro lá em cima do que embrenhado na mata como são obrigados a andar os nossos soldados (...)
Carlos Vardasca
15 de Dezembro de 2007
Foto: Bombardeiro T6 na pista do Aquartelamento de Nangade.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

"era um magro pré que não se perdia na profundidade dos nossos bolsos"


(...) Um dia destes fui ao meu sótão buscar a àrvore de natal e, quando dei por mim, já estava a vasculhar, ávido de curiosidade, numas caixas de cartão onde geralmente se guardam tralhas que deixaram de ter um lugar de destaque nas gavetas das nossas casas. No meio de toda aquela azáfama, veio-me parar às mãos um pequeno envelope meio amarelado pelo tempo, escrito em letra de forma que dizia: - o meu primeiro pré em Moçambique. Cheio de curiosidade, "parecendo mais um menino a rasgar os envelopoes dos cromos da bola", deparei que no seu interior coabitavam junto de uma nota de mil escudos "novinha em folha", outra de cem, e mais alguns trocos em moedas da então colónia de Moçambique. Vieram-me à memória as parcas coisas que podiamos comprar com aquele magro salário elevado a pré, meras "quinhentas" moçambicanas que não chegavam a perder-se na profundidade dos nossos bolsos, mas na cantina do monhé; na cantina do Aquartelamento onde as "Laurentinas" refrescavam gargantas secas, mas também numa momentânea incursão ao interior de uma qualquer palhota coberta de colmo, onde os corpos se entrelaçavam e arfavam de prazer que se prolongava até de madrugada, antes que o cacimbo trespassasse as paredes de cana de bambú e de argamassa, e levassem a jovem negra para o trabalho árduo da machamba.
Agora que encontrei aquele dinheiro, retirei-o logo do sótão e guardei-o junto de outras memórias que também me são próximas, sem deixar no entanto de me recordar que aquele magro pré nunca me toldou as ideias, nem serviu de moeda de troca entre o "ter que estar ali", os valores e a razão (...)
Carlos Vardasca
13 de Dezembro de 2007
Foto: Nota de Mil Escudos de Moçambique, do período colonial.

"O nosso Pentágono"


(...) Depois de ter sido rendida no Aquartelamento de Tartibo pela Companhia de Artilharia 3506, em 18 de Fevereiro de 1972 a Companhia de Caçadores 3309 regressou a Nangade, onde de facto já se respirava alguma segurança embora aparente. Por questões de estratégia militar, mais tarde houve necessidade de construir um novo aquartelamento, mais próximo do itinerário que ligava os aquartelamentos de Nangade, Pundanhar e Palma (e de zonas onde se situavam os trilhos de infiltração da FRELIMO no norte de Moçambique) tendo o aquartelamento de Tartibo sido abandonado. Mais uma vez a C.CAÇ. 3309 foi chamada a intervir em 23 de Setembro de 1972, mas desta vez somente com o 3º Pelotão, que foi destacado para participar na construção do novo aquartelamento da C.ART 3506 a que se deu o nome de MUIDINE. Em operações de reabastecimento daquele aquartelamento, ainda lá me desloquei algumas vezes e, em todas elas, a sensação de isolamento era atroz e de uma violência inesquecível. Como era possível, que naquele amontoado de tendas, com um perímetro defensivo muito pequeno, protegido apenas por montes de areia em todo o seu redor e sem qualquer árvore que lhe emprestasse qualquer sombra, vivessem quase duzentos homens, para não falar do perigo que espreitava a cada instante vindo da mata circundante. Foi um alívio quando (após a construção daquele aquartelamento), no dia 25 de Outubro do mesmo ano o 3º Pelotão da C.CAÇ. 3309 regressou a Nangade, com os seus soldados extenuados, como se tivessem regressado de uma tempestade de areia, cobertos de uma camada de pó fino que não lhes deixava ver a expressão colectiva de exaustão. Foi de facto uma aventura desgastante (entre tantas outras vividas pela C.CAÇ.3309, como foi um dos casos, a "epopeia trágico-marítima" de Nova Torres), ter sobrevivido naquele isolamento e em condições tão precárias, a avaliar pela foto aérea de MUIDINE (irónicamente construido em Pentágono) tirada de helicóptero, que retrata bem a sensação de abandono e de desprezo a que foram votados todos os soldados que por ali passaram. Por isso não é estranha a frase de um piloto de helicóptero que ali se deslocou pela primeira vez para levar o correio e víveres, quando do ar deparou com a violência daquele "degredo":
- Porra! é uma sensação muito estranha que se vive daqui de cima, tal é o isolamento a que esta malta foi sujeita:
- Estes gajos até pareçe que foram mandados para aqui de propósito para morrer! (...)
Carlos Vardasca
13 de Dezembro de 2007
Foto: Vista aérea do Aquartelamento de MUIDINE.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

"... Quando os protestos se enterravam num abrigo"


(...) Em redor do aquartelamento haviam vários abrigos onde nos refugiávamos dos ataques da FRELIMO, muitos deles foram até adoptados como casernas onde muitos soldados preferiram dormir (abandonando as tendas) até ao final da sua Comissão, pois ali se sentiam mais seguros para garantirem o tal regresso tão desejado mas que a cada dia se tornava cada vez mais incerto. Mas havia um abrigo que tinha uma característica muito particular. Para além de nos garantir alguma segurança contra o disparo das granadas de morteiro de 82mm com que a FRELIMO por várias vezes flagelava o aquartelamento, este abrigo tinha uma particularidade que lhe conferia alguma originalidade digna de ser recordada. Para além da sua função de proporcionar meios de protecção e defesa em caso de ataque ao aquartelamento, nele funcionava uma pequena e típica "tasca", onde se afogavam tristezas e se alimentavam alguns amores adiados, assim como outros tantos já "traídos pela distância e esquecidos pela ausência".

À noite, após o regresso das patrulhas ou das colunas de reabastecimento; de se rasgarem os "bate-estradas"(1) e se saborearem os odores das notícias de uma aldeia bem distante que fumegava pelos telhados de ardósia, era ali no fundo daquele abrigo que, entre três dedos de conversa e um trago de bagaço onde se mergulhava a dor, que se iludiam também os nossos medos e algumas incertezas.

Era no fundo daquele abrigo que, ao som de um rádio meio desconjuntado ou de uma guitarra que gemia ais de solidão enquanto se emborcava um café intragável, que se viviam momentos de conjura pelos os horrores da guerra, envoltos numa nuvem espessa de fumo que exalava da "Suruma", planta elevada à categoria de tranquilizante colectivo que, depois de fumada, "espantava outros medos" por outras tantas batalhas que se adivinhavam espreitar pela madrugada.

À custa de um gerador que roncava pela noite dentro, a luz ténue de tons avermelhados que iluminava aquele abrigo e todas as angústias de muitos que o frequentavam, não conseguia no entanto ofuscar o pensamento de outros que faziam daquele recanto meio escuro uma pequena "Ágora"(2) meio contida, onde o protesto sussurrado ao ouvido soava a sopros de conjura; não abafava a raiva disfarçada de patriotismo e a revolta prenhe de ingenuidade, que se abraçavam num lamento comum, e que, numa amálgama de cumplicidades, iam ganhando contornos de descontentamento por uma guerra que cada vez "cavava mais fundo a legitimidade da nossa presença" (...)


(1) Aerograma.

(2) Praça de discussão pública na antiga Grécia.


Carlos Vardasca
30 de Novembro de 2007

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

"Os 15 anos da minha carcaçinha"


(...) Há momentos de felicidade na nossa vida que nunca ninguém os irá conseguir apagar de nós. Eu, ao contrário de alguns mortais, ao longo da minha existência não tive muitos, mas os poucos que tive o privilégio de viver, fui sabendo saborear o seu fascínio e conviver com todos eles, com a noção de que aqueles momentos foram alguns dos pedaços da minha vida que jamais alguém os irá arrancar de mim. O nascimento de uma segunda filha (a exemplo do que acontecera com a primeira) é sempre motivo de uma tremenda felicidade, e foi precisamente o que aconteceu há quinze anos quando nasceu a minha "Carcaçinha".
A Mafalda faz hoje 15 anos que nasceu no Hospital do Barreiro no dia 29 de Novembro de 1992, e, na noite anterior, não "preguei olho" à espera que aquele rebento respirasse os primeiros ares deste mundo tão injusto.
Era tão pequenina que, num acto de ternura, me lembrei de dizer no momento quando a "arranquei" dos braços da Odília e lhe peguei ao colo:
- Olha a minha filhota já chegou... pareçe um carcaçinha (lembrando-me dos pequenos papo-secos).
E assim, ao longo de todos estes anos e em momentos da nossa convivência que tem sido constante e salutar, continuei a tratá-la desta forma, o que envolve um imenso carinho numa designação carregada de afectos (...)
Carlos Vardasca
29 de Novembro de 2007

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

"...No aconchego do aquartelamento"


(...) Entre nós, e apesar da instabilidade vivida em função dos perigos vividos no nosso dia a dia, ainda sobravam alguns momentos para fortificar o espírito de camaradagem e solidificar a nossa amizade. Quando sabiamos que camaradas nossos estavam para chegar de uma operação (coluna de reabastecimento ou de uma acção de patrulhamento), havia sempre alguém (que tinha ficado no aquartelamento) que se lembrava de atestar os chuveiros (bidões vazios de combustível dos helicópteros) para que, quem acabado de chegar, tivesse a oportunidade de se "libertar das angústias embebidas em suores e de se sacudir do pó barrento que lhes invadia as entranhas". À noite, e sempre que o Furriel Gabriel tivesse recebido as suas "famosas encomendas da Metrópole", a malta reunia na oficina mecânica para aí conviver e soltar algumas raivas acumuladas. Mas nestas coisa dos petiscos havia sempre um ritual a cumprir:

Malta! - dizia o Furriel Gabriel - eu tenho aqui umas coisas que recebi hoje lá da "Santa terrinha" e agora desenrrascem-se:

- Entre todos organizem-se, e haja quem compre as cervejas:

- Já sei também que compete ao Foz (1) ir "comprar" as galinhas ao aldeamento, e da forma tão característica que ele tem, e que é de "bastante agrado dos nativos".
- Quanto ao resto já sabem - logo à noite, e no sítio do costume, há petisco.
Eram assim passadas as noites nos "intervalos entre combates", e que regra geral acabavam sempre encharcadas em "Laurentinas e 2M" e que não ajudavam em nada a conter a revolta. Outros, os mais conservadores, entoavam até à exaustão a canção de Paco Bandeira tão em voga na altura, e que dizia:
Lá longe, onde o sol castiga mais,
não há suspiros nem ais,
há coragem e valor...
Perante tanta lamúria, meio desconjuntada pelo álccol mas que não lhes toldava as ideias, ouvia-se quase em surdina por entre o som das latas de cerveja que se abriam em catadupa:
- Epá, essa canção tem cá uma letra mais reaccionária e patrioteira que até enjoa!
- Cada um chora ao som da música que tem à mão (resposta imediata de quem se sentia atingido).
Era nesta diversidade de opiniões e na partilha de cumplicidades que decorriam os nossos petiscos, quando não eram interrompidos quando chegava a "hora Maconde":
- Morteirada...morteirada - gritava alguém que passava a correr pelo local e batia com tanta violência na porta:
- Todos para os abrigos... os cabrões dos "Turras" estão a atacar Nangade e as putas das granadas estão a cair mesmo dentro do aquartelamento (...)
Carlos Vardasca
21 de Novembro de 2007
(1) Alcunha do Soldado Condutor Eduardo da Silva Machado, que desde que regressámos de Moçambique até hoje, nunca mais deu "sinais de vida", e parece "vegetar pelas agruras da vida" e em parte incerta.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

...aquela giringonça não funcionou


(...) Chegou a uma altura em que as picadas eram intransitáveis devido ao constante rebentamento de minas anti-carro, e à destruição sistemática de viaturas militares, com a consequente perda de vidas que aquelas operações de reabastecimento implicavam. Tentando minimizar os efeitos destruidores das minas que eram colocadas nas picadas, uma "mente brilhante" lembrou-se de adaptar um Unimog (Pincha), comandado à distância, dotado de rodas em cimento colocadas à frente do mesmo, e que devido ao seu peso accionaria as minas que por ventura estivessem montadas na picada. Nos testes efectuados dentro do aquartelamento (Nangade) aquela giringonça funcionou lindamente, dado que o terreno era plano e os obstáculos não eram os mesmos com que iria enfrentar na picada. Para as crianças e adultos dos aldeamentos, cada vez que se procedia aos testes daquele "rebenta minas" a risada era total e sempre acompanhada de comentários:

- "Ai ué! - não admira branco fazer avião voar; meter sardinha dentro de um lato fechada, agora fazer os caro andar sozinho... chi, fazer mesmo cabeço de preto andar mesmo nos roda"!

- "Quando FRELIMO ver isto nos mato vai rir maningue e vai achar branco maluco mesmo..."

Aquela engenhoca, na primeira coluna em que participou, não chegou a transpor a primeira curva que se situava ao quilómetro 3, e teve que ser transportada de volta para o aquartelamento. A ideia era de facto muito interessante e com alguma originalidade, mas nas circunstâncias em que tinha que actuar e à irregularidade do terreno, tornou-se um impeçilho à movimentação das colunas militares e teve que ser retirada de "circulação". Sem utilidade, e encostado a um canto da oficina, era agora motivo de galhofa para as crianças nativas, que dali copiaram o modelo para um dos seus brinquedos que construiram em arame, e que com um pequeno pau o empurravam de olhos fechados dizendo em jeito de chacota para os colegas:
- Sai dos frente pá; - olha que este caro não ter olho para ver os picada! (...)
Carlos Vardasca
09 de Novembro de 2007

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Ainda transporto alguma fragilidade nas minhas emoções...


(...) Todos nós, os que tivemos a sorte de regressar das zonas de conflito, ainda hoje sentimos (uns menos outros mais) algumas fragilidades que tentam desmoronar as nossas emoções. No meu caso, e sentindo-me um privilegiado se comparado com outras situações bem mais dramáticas, ainda hoje, sinto alguma fragilidade emocional quando confrontado com situações que me levam a recordar alguns factos vividos no teatro de operações. Após ter regressado de Moçambique, eram os foguetes das festas das aldeias que me transtornavam, pois recordavam-me o rebentamento das granadas de morteiro quando a FRELIMO atacava os nossos aquartelamentos e as colunas de reabastecimento. Felizmente, e com o passar dos tempos, esse tormento desvaneceu-se, e é com alguma naturalidade que assisto aos fogos de artifício. Embora já liberto daquele tormento, actualmente, ainda sinto uma pequena preocupação do foro emocional e que está relacionado com o som característico dos helicópteros Alouette III. Diáriamente, quando me desloco ao Parque José Afonso na Baixa da Banheira para aí fazer o meu circuito de manutenção, já por várias vezes me confronto com aquele barulho vindo daquelas aéronaves que ocasionalmente sobrevoam o parque vindas da Base Aérea do Montijo, e, acto instantâneo, as lágrimas correm-me pela minha face quase que em cascata como se quisessem inundar as minhas emoções.

Durante a minha permanência na guerra colonial (1971-1973), sempre tive uma relação de proximidade com os Alouette III, devido às colunas militares de reabastecimento em que participei, operações militares essas em que na generalidade ocorriam confrontos com a FRELIMO, resultando daí situações bem dramáticas para quem nelas participava.

Eram os Alouette III que se deslocavam com bastante frequência às picadas ou aos aquartelamentos, para evacuar os mortos e feridos resultantes dos ataques e das emboscadas de que eramos alvo, e aquele som muito característico mas tremendamente ensurdecedor a que fomos sujeitos e que estava sempre associado a momentos de tragédia, ficou gravado em muitos de nós, ao ponto de, passados que são 34 anos do meu regresso, ainda hoje me tolda a resistência e me fragiliza emocionalmente, fazendo com que as lágrimas se soltem à sua passagem, como se fosse uma criança (...)

Carlos Vardasca
06 de Novembro de 2007
Na foto: Evacuação de um soldado morto numa emboscada da FRELIMO, efectuada na picada entre Pundanhar e Palma, em 10 de Maio de 1971.

Nem me apetecia olhar para baixo ...


(...) Marcava no calendário o dia 03 de Novembro de 1972, quando o Nord Atlas se fez à pista do Aquartelamento de Nangade, para dar início à rendição de parte da Companhia de Caçadores 3309 para o Aquartelamento de Balama. A impaciência reinava na pista, pois todos nós estávamos bastante ansiosos por abandonar Nangade, e deixar para trás momentos de angústia e sofrimento. Dentro de cada um de nós partia também a imagem dos nossos companheiros que tombaram em combate, e a certeza de que a pátria jamais lhes seria grata. Eu fazia parte desse 1º escalão de rendição, dado que o resto da Companhia seguiria só no dia 13 do mesmo mês de coluna militar até Palma, Aquartelamento junto à costa banhada pelo Índico, para embarcar na Corveta "General Pereira D'Eça" no dia 21 de Novembro de 1972 rumo a Porto Amélia (Pemba). Junto à pista de terra batida e encostado a uma árvore, de mochila às costas e a G3 ao ombro como que a descansar "de sonos bastas vezes interrompidos", eu sentia-me como que "uma criança que sorri de felicidade", por ver tão perto a minha retirada daquele planalto de má memória. Finalmente o Nord Atlas estacionara na pista envolto numa poeira avermelhada, e a ansiedade apoderou-se de todos nós, desejando correr de imediato na sua direcção, penetrar na sua fuzelagem e de lá não sair mais. Antes do embarque vieram-me à memória imagens da minha infância, que me recordaram a imensa alegria quando me aproximava de um carroçel numa qualquer feira, desejoso de montar um dos seus cavalos de pau. Ali estava eu; antes criança e agora feito soldado, impaciente por entrar naquele avião como se fora um brinquedo, "e nele me aconchegar e ali adormecer".

Quando o Nord Atlas levantou voo e já sobrevoava a densa mata e o Aquartelamento de Nangade ia ficando mais longe, instintivamente, e contrariando a minha vontade pois prometera não fazer, olhei por uma das janelas e, num gesto simples e em jeito de homenagem, acenei na direcção do aglomerado de palhotas de telhado de colmo que ladeavam o Aquartelamento, parecendo ver nos seus alpendres alguns amigos da população com quem convivi e ali deixei, alguns deles (é a primeira vez que o digo públicamente) há muito que sabia lutarem em trincheiras opostas (...)
Carlos Vardasca
03 de Novembro de 2007
Foto 1: Embarque da C.CAÇ. 3309 no Nord Atlas em Nangade.
Foto 2: Aquartelamento e aldeamentos de Nangade.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

... foi um autêntico inferno (01 de Outubro de 1971)


(...) Decorria o dia 1 de Outubro de 1971, e a Companhia de Caçadores 3309 acabava de chegar ao novo Aquartelamento de Tartibo, depois de se ter retirado de Nova Torres devido às cheias constantes que inundavam a totalidade do Aquartelamento, e que se faziam sentir na época das chuvas, com a junção das águas dos rios Rovuma e Metumbué. O local onde fora construído o novo Aquartelamento de Tartibo tinha sido até ao mês de Setembro uma pequena base da FRELIMO, e, por esse facto, previa-se que a permanência da C.CAÇ. 3309 naquele local não iria ser pacífica. Fazendo uma avaliação errada da situação, o Capitão da C.CAÇ. 3309 ordenou que a Companhia de Engenharia 2743, que ainda procedia à construção de valas e abrigos que se retirasse para Nangade, sendo sua opinião de que os seus serviços já não eram necessários pois a sua Companhia construiria o resto da protecção necessária ao Aquartelamento. Eram cerca de 17h 45m e o dia já começara a escurecer (em África escurece bastante cedo) quando (sem que as pancadas de Moliére se fizessem ouvir) o primeiro ataque da FRELIMO se desencadeou com o disparo de 15 granadas de morteiro 82mm, das quais 9 caíram dentro do Aquartelamento. Deste primeiro ataque ao Aquartelamento de Tartibo (seguir-se-iam mais três com intervalos de 15 minutos entre cada um deles) resultou um ferido grave, atingido em todo o corpo com estilhaços de uma granada de morteiro 82mm, que foi precisamente cair e rebentar na vala onde o 1º Cabo Pedro Manuel Gaspar Augusto (mais conhecido por "Almada") se tentava proteger do violento ataque. Em Nangade, apesar dos 20 quilómetros de distância, ouviam-se perfeitamente os rebentamentos e adivinhava-se o inferno por que passava a C.CAÇ. 3309 naquele momento, pois, via rádio, ouviam-se os apelos dramáticos dos Rádio-Telegrafistas em Tartibo pedindo com urgência a intervenção da força aérea, com o objectivo de afugentar os guerrilheiros que, naquele dia, pareciam (pela violência do ataque) determinados em querer reconquistar aquela base que já fora sua. Depois de 45 minutos debaixo de fogo (com um último ataque às 18h 30m) finalmente as hostilidades cessaram e procedeu-se à avaliação dos estragos e ao levantamento das baixas sofridas. O "Almada", depois de transportado aos ombros de um companheiro, agonizava agora no posto médico onde lhe eram prestados os primeiros socorros. Como o helicóptero de evacuação então pedido não se pode deslocar ao local do conflito, pois há muito que a noite se abatera sobre o Aquartelamento, a agonia do "Almada" prolongou-se até ao dia seguinte, sempre com uma equipa de enfermagem ao seu lado, incansável, ministrando-lhe até respiração boca a boca durante toda a noite na tentativa de o salvar. No dia seguinte, logo pela madrugada, o "Almada" é transportado para o helicóptero de evacuação e levado para o Hospital de Mueda, sendo posteriormente evacuado para o Hospital de Lourenço Marques (Maputo) onde veio a falecer ainda a caminho daquela unidade hospitalar no dia 02 de Outubro de 1971.
Em homenagem ao "Almada" e a todos os que naquela guerra absurda tombaram "sem jeito nem prosa", aqui fica um abraço solidário de quem sobreviveu.
Carlos Vardasca
01 de Outubro de 2007
Foto 1: O "Almada" aos 9 anos de idade.
Foto 2: Evacuação do "Almada" no Aquartelamento de Tartibo, no dia seguinte ao ataque (02 de Outubro de 1971).
Foto 3: Chegada do corpo do "Almada" ao Hospital de Mueda.
Foto 4: O "Almada" aos 22 anos no Aquartelamento de Nova Torres antes da retirada para Tartibo.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

E a Mónica aí está, desde 26 de Setembro de 1974


(...) Vivia-se de facto uma época muito conturbada. Recentemente chegado da guerra colonial e ainda com os traumas das experiências vividas naquele conflito, "mergulhei com todo o entusiasmo no mar de gente" que em radiante euforia, se congratulava com a queda do regime Marcelista em 25 de Abril de 1974. Talvêz por isso, "e por ter mergulhado tão fundo sem ter tempo de vir à superfície respirar a realidade", não dei demasiada importância "às coisas tão belas e tão tamanhas" que a vida então me proporcionava. A guerra tinha-me transformado num "bloco de gelo que se recusava derreter à mínima demonstração de afecto" o que punha em causa a minha estabilidade emocional e a relação afectiva com os outros. É em 26 de Setembro de 1974, que se dá a minha primeira explosão de alegria, com o nascimento da minha filha Mónica no hospital de Alhos Vedros. Ainda me lembro do dia quando cheguei do trabalho e pedi que me deixassem vê-la, apesar do adiantado da hora e de já não estar na hora da visita. Uma enfermeira trazia ao colo aquela "boneca", bem embrulhada numa manta e, passados que são 33 anos, ainda recordo essa imagem com bastante saudade como se a tivesse gravada no meu peito.
Mais tarde, volvidos alguns anos, e por imposição de lógicas e valores meramente egoístas que não importa agora recordar, reconheço que fizeram de mim um "pai ausente", ao "arrancarem de mim aquela boneca", tal como outros fizeram aos brinquedos que não tive tempo de ter na minha infância. Mas, apesar da distância no tempo e passados que são agora os 33 anos do seu aniversário, a minha filha Mónica continua a ser para mim "aquele pequeno pássaro que muito me encanta ouvir o seu cantar".
Depois de há muito ter reaprendido a dar valor "às coisas tão belas e tão tamanhas", transporto hoje dentro de mim uma imensa alegria, por essas "coisas" me terem devolvido um outro pedaço de felicidade que me fora "arrancado" mas a que tinha direito.
Neste seu dia de aniversário, só desejo à Mónica que a sua vida continue a ser uma constante e imensa "explosão alegria", e que a felicidade continue a transbordar do seu sorriso "como a àgua que se desprende da cascata e mergulha num rio enfeitado de nenúfares" (...)


Carlos Vardasca
26 de Setembro de 2007

terça-feira, 25 de setembro de 2007

... Finalmente, retirámos do aquartelamento de Nova Torres


(...) Viver em Nova Torres era insustentável. As constantes inundações do aquartelamento tornavam a vida ali bastante difícil, para além de ser uma posição fácilmente observável do outro lado da fronteira, e a necessidade de retirar daquela zona era uma questão de humanidade, pois o moral das tropas já vinha sofrendo algumas brechas, e os protestos, apesar de em surdina, já vinham subindo de tom embora circunscrito a um número restrito de militares mais esclarecidos. É com esse objectivo que se inicia no dia 25 de Setembro de 1971 a operação "OCULAR 2" para abertura do novo estacionamento da Companhia de Caçadores 3309 nas coordenadas 3946,2.1056,2. Nesta operação (de grande envergadura envolvendo vastos meios militares) estiveram envolvidos 3 Grupos de Combate da Companhia de Artilharia 2745, 1 Grupo de Combate da C.CAÇ. de Mocimboa da Praia, 2 Grupos de Combate da Companhia de Caçadores 3309, Grupo Especial 210, 11º Pelotão de Artilharia/GAC 6 (destinada a reforçar a C.CAÇ. 3309 com sede ainda em Nova Torres) 1 Pelotão da Companhia de Engenharia 2736 e 1 Esquadrão de Morteiros 81mm. Durante o período de construção do Aquartelamento, o 5º Pelotão de Artilharia da 2ª Bateria/GAC 6 efectuou em Nangade 40 tiros de Obus para as zonas prováveis de ataque inimigo. A operação de retirada de Nova Torres terminou em 01 de Outubro de 1971, com a totalidade da C.CAÇ. 3309 finalmente estacionada no novo Aquartelamento.
O novo Aquartelamento passou a denominar-se Tartibo, situado numa pequena elevação que o protegia das inundações constantes resultante da junção das águas dos rios Rovuma e Metumbué, mas que continuou a ser o prolongamento do inferno a que a Companhia de Caçadores 3309 esteve sujeita durante a sua permanência no norte de Moçambique, junto à fronteira com a Tanzânia (...)
Carlos Vardasca
25 de Setembro de 2007
Nota: Na foto, o momento da retirada de Nova Torres da Companhia de Caçadores 3309 rumo ao novo Aquartelamento de Tartibo.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Cá estou eu, desde 21 de Setembro de 1949.

(...) É verdade! já lá vão cinquenta e oito anos. Não penso viver outros tantos, mas lá que me dá vontade... lá isso dá.
Há quatro anos que a II Grande Guerra Mundial findara, quando a Gracinda, com 24 anos de idade, dera entrada no Hospital S.José (Enfermaria de Santa Bárbara) para me parir com três quilos e trezentas gramas. A minha mãe viera muito cedo para Lisboa, "arrancada" aos 16 anos da aldeia de S.Pedro de Agostém, no Concelho de Chaves, para procurar novos horizontes e participar no progresso que diziam estar a acontecer na capital, mas que as muralhas de granito e o páraco da aldeia se habituaram a esconder das jovens que tentavam tal odisseia.
Muito cedo se enamorou de um ordenança, que cumpria o serviço militar no Regimento de Artilharia Anti-Aérea nº 1 em Queluz, devido ao seu farto cabelo repuxado para trás, besuntado de espessa brilhantina que diziam parecer-se com Rodolfo Valentino, e que fazia furor das raparigas no Mercado da Ribeira.
Antes que alguma sopeira o levasse, a Gracinda nunca mais o largou e, devido a eles, cá estou eu desde 21 de Setembro de 1949 (...)

Carlos Vardasca
1949-2007
Nota: Na foto estão Carlos Vardasca (pai) Gracinda Vardasca (mãe) e Carlos Vardasca (filho)

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

03 de Setembro de 1971

(...) Como já vinha sendo hábito na época das chuvas, as águas do rio Rovuma e do rio Metumbué ao transbordarem das suas margens, alagavam totalmente o aquartelamento de Nova Torres que ficava situado entre aqueles dois rios. Foram dias dramáticos que a C.CAÇ. 3309 passou, ao ponto dos seus soldados terem que dormir em cima das árvores durante cerda de quatro semanas; receberem a sua correspondência e os víveres que eram lançados de helicóptero e que regra geral caiam dentro da água. Havia uma necessidade urgente de se encontrar uma outra posição mais elevada para se construir novo aquartalamento, e é com esse objectivo que no dia 03 de Setembro de 1971 três grupos de Combate da C.CAÇ. 3309 iniciam a Operação "BARCA 1" de patrulhamento e interdição da fronteira, sendo detectado um acampamento da FRELIMO com 5 palhotas. Foi efectuado um golpe de mão sobre o acampamento IN, sendo abatidos 5 elementos da guerrilha e capturadas duas Kalashnikov, assim como variado material de guerra. É precisamente neste local onde se situava a pequena base da FRELIMO, que mais tarde se vai construir o futuro aquartelamento da C.CAÇ.3309 a que se dá o nome de Tartibo, e onde esta Companhia irá passar os momentos mais dramáticos da sua missão no norte de Moçambique (...)
Carlos Vardasca
05 de Setembro de 2007
Nota 1: Na foto, elementos da C.CAÇ.3309 depois da conquista da base à FRELIMO.
Nota 2: Elementos retirados do Arquivo Histórico Militar. Região Militar de Moçambique. Batalhão de Artilharia 2918. História da Unidade, 14º Fascículo, página 1 (Setembro de 1971)

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

"...fomos para a guerra, mas nem todos eramos ingénuos..."


(...) É bastante compreensível que a grande maioria dos soldados tivessem ido para a guerra colonial com aquele espírito patriótico de "defender a pátria dos terroristas", embora transportassem em si todos os medos que lhe estavam associados, devido à sua participação num conflito com aquelas dimensões. O regime Marcelista assim o impunha, apoiando-se num povo com condições sócio-económicas muito frágeis, na sua grande maioria inculto e bastante vulnerável às "conversas em família". Uma pequena "minoria esclarecida" desertou, recusou-se a ir e por esse facto foi presa pela PIDE/DGS ou, por diversas circunstâncias, outros viram-se na obrigação de participar naquele conflito de má memória, sentindo que, se não fossem, as represálias do regime se fariam sentir sobre os seus familiares. Eu fui daqueles (entre muitos outros) que participei no conflito colonial com a perfeita convicção de para onde ia e o que estava em jogo (embora contrariado e com uma tremenda revolta dentro de mim) mas, apesar de tudo, todos nós, os que nos encontrávamos nessas circunstâncias, fomos para a guerra mas não eramos ingénuos.

Havia sempre formas de exteriorizar os nossos pensamentos (embora de uma forma bastante discreta) ora conversando em surdina, ou pintando nas paredes das casernas algo que se relacionasse com esse descontentamento. Sabendo das minhas convicções, alguns elementos da C.CAÇ. 3309 um dia disseram-me:

- É pá Braz! tu que tens algum jeito para o desenho, pinta lá qualquer coisa mais sujestiva aqui na oficina, para que as paredes não fiquem assim tão deslavadas.

Eu sabia muito bem o que eles queriam dizer com "sujestiva", mas havia que ter bastante cautela com aquilo que diziamos ou faziamos, porque haviam sempre olhos bem atentos aos nossos movimentos. Ainda estava bem presente em mim o famigerado movimento de contestação de Maio de 68 e da Guerra do Vietname que acompanhei com bastante interresse através dos jornais e da televisão; o festival de Vilar de Mouros (formato antigo) que assisti em 1968 com apenas 18 anos, onde ouvi pela primeira vez ao vivo Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira entre outros; o Festival de Woodstock em 1969 que assisti à distância; todo aquele aparato do movimento Hippie que vivi com bastante entusiasmo, assim como o programa Zip-Zip da RTP que de certa forma transmitiu coisas muito interessantes para a época.

Então, lembrei-me (e como na altura; 08 de Agosto de 1971, estava a decorrer o Festival de Vilar de Mouros onde actuaram Elton John, Manfred Mann, Quarteto 1111 entre outros, como foi o caso de Amália Rodrigues que me pareceu nada ter a ver com aquele estilo de festival, mas enfim...) de desenhar nas paredes da oficina da C.CAÇ. 3309 no aquartelamento de Nangade, algo alusivo aos movimentos hippies e que está exposto na foto, que fiz acompanhar com os nomes dos camaradas que faziam parte da "Ferrugem" (1) e das suas terras de origem para lhe dar um ar mais discreto e inofensivo.

A coisa parecia ingénua, mas a mensagem de protesto e de contestação à guerra estava lá, (Make Love Not War) tanto que o "grafitti" não foi lá muito do agrado do nosso capitão que ainda insinuou para que o apagasse-mos. Entretanto, e como ele foi destacado para o aquartelamento de Tartibo, aquelas paredes, para nossa satisfação continuaram decoradas ao nosso gosto. Era naquela oficina que se faziam os grandes petiscos e nos refugiavamos da rotina do "arroz com peixe", mas também era ali que, encharcados em "Laurentinas" ou "2M" e empanturrados por galinhas gamadas nos aldeamentos" que os nossos desabafos se transformavam em lamentos e estes em protestos, e se exteriorizavam as nossas inquietações, embebidas em revolta por nos terem enviado para aquela guerra "sem jeito nem prosa" (...)


(1) Denominação atribuída aos militares com a especialidade de Condutores e Mecânicos da Companhia de Caçadores 3309.


Carlos Vardasca
24 de Agosto de 2007

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

23 de Agosto de 1971


(...) Decorria o dia 23 de Agosto de 1971, e a coluna de reabastecimento seguia lentamente num movimento agonizante, debaixo de um calor abrasador que nos encharcava o camuflado e nos queimava o rosto carregado de incertezas. Tendo saído de Palma pela manhã com destino ao aquartelamento de Pundanhar, antes deste aquartelamento e ao quilómetro 10, a viatura onde eu seguia accionou uma mina anti-carro que me projectou do volante para as traseiras da viatura, onde apenas sofri pequenas escoriações num braço e sem qualquer gravidade. Como logo de seguida a coluna fora atacada com armas automáticas pelos guerrilheiros da FRELIMO, só após o cessar do tiroteio é que se pode tratar dos soldados feridos em virtude do rebentamento da mina. Ao lado da Berliet com a parte de frente totalmente destruída, agonizava um soldado africano das nossas tropas e pertencente à Companhia de Caçadores 2703 estacionada em Pundanhar, que, ao saltar da viatura após o rebentamento da mina anti-carro, accionou uma armadilha colocada na berma da picada, onde um dos estilhaços da granada lhe perfurou profundamente a cabeça, ligeiramente acima do olho. Antes de chegar o enfermeiro, ainda tive tempo de lhe tapar o ferimento com vários lenços e até com parte do meu camuflado que rasguei na tentativa de lhe estancar o sangue, mas, tal era a profundidade do ferimento que o sangue não parava de sair em golfadas. Passados quase 35 anos, parece que ainda estou a ouvir aquele soldado a implorar-me (e mais tarde ao enfermeiro que entretanto chegou) que o salvasse, dizendo ao mesmo tempo (no meio da sua agonia que o fazia triturar as palavras à medida que ia desfalecendo) como se adivinhasse a sua "sorte":

- Salvem-me, porque ainda quero ver os meus filhos a brincar no aldeamento onde nasci...

- Salvem-me por favor, porque ainda quero ouvir o som dos batuques da minha aldeia, e cheirar a mandioca esmagada no pilão pelos braços frágeis da minha mulher...

Não cheguei a saber o nome deste soldado porque não pertencia à minha Companhia, mas seguia ali na coluna de reabastecimento fazendo parte de um pelotão de protecção à mesma. Antes de o helicóptero de evacuação chegar, já o soldado africano tinha falecido apesar dos esforços do enfermeiro, sendo evacuado para o Hospital de Mueda, assim como outros feridos com alguma gravidade em resultado da emboscada que se seguiu ao rebentamento da mina anti-carro, e às várias armadilhas que rebentaram e que estavam espalhadas pela mata circundante.

Porque também alguns soldados moçambicanos foram vítimas da violência colonial. Porque a "bota colonialista" também esmagou e enlutou mulheres moçambicanas, aqui fica um abraço solidário de quem sobreviveu.

Carlos Vardasca
23 de Agosto de 2007

Nota: Na foto, o momento da evacuação do 1º Cabo Atirador NM 13382970 da Companhia de Caçadores 3309, António Natálio Sequeira Serrinha, gravemente ferido em 14 de Julho de 1971.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

"a liberdade de escolhermos os nossos livros"


(...) desde muito criança que tenho hábitos de leitura. Nem sempre os livros que passaram pelas minhas mãos foram os melhores, mas era o que se arranjava na altura. Tive experiências traumatizantes no que se relaciona com o acesso à leitura mas, neste caso, por imposição do colégio onde me encontrava internado. Quando a Guerra Colonial começou, em 1961, tinha eu 11 anos, e encontrava-me no Colégio Nuno Álvares Pereira em Lisboa e, por paradoxo que pareça (isto contado ninguém acredita) todas as noites, antes de nos deitarmos e apesar da nossa tenra idade, obrigavam-nos (como se nós percebesse-mos alguma coisa do que se estava a passar) a ouvir os comentários do famigerado comentador do regime Ferreira da Costa, que, via rádio, informava o país dos últimos acontecimentos em Angola. Um dia, para nosso espanto, foram-nos distribuídos (o que nunca deveria ser feito a crianças daquela idade) pequenos livros, cujas ilustrações se referiam ao conflito colonial em Angola, onde se podiam ver famílias de colonos e seus colaboradores massacrados pela UPA. É claro que o objectivo do regime era tentar moldar o pensamento daquelas crianças, e torná-las permeáveis à assimilação, através do medo, a uma lógica colonialista em que muitas delas (como foi o meu caso) mais tarde foram obrigadas a participar.

Vejam lá! isto tudo a propósito de leitura. De facto as conversas são como as cerejas. Apesar de naquela "clausura" do colégio e da manipulação das consciências de que muitas crianças foram vítimas na maioria das instituições do Estado Novo, cada uma delas hoje tem personalidade própria, e os seus hábitos de leitura não têm nada a ver com os que lhes tinham sido impostos. Isto tudo para vos dizer que, como já vem sendo hábito quando vou de férias, levei para ler dois livros bastante interessantes (aliás, um já ia quase meio lido) e que me deram bastante prazer. Um deles foi, "A ilha da trevas" de José Rodrigues dos Santos, romançe que retrata a situação em Timor-Leste desde a invasão indonésia até à independência. É de facto um livro dramático sobre a história de um povo sofrido, mas que soube lutar pela sua liberdade. O outro, "mais leve", com o título, "As mulheres do meu pai" de José Eduardo Agualusa, que nos transporta para o fascínio de África, revela-nos a intensa procura da personagem pelas mulheres de seu pai, que se reparte por Angola, África do Sul e Moçambique. Este livro é escrito de uma forma que, à medida que nos vamos envolvendo na sua história, vamos "saboreando" os vários frutos tropicais, sentindo a humidade do cacimbo e o fascínio do pôr do sol em África.
Se querem saber a minha opinião, são de facto dois livros que se recomendam (...)


Carlos Vardasca
23 de Agosto de 2007

sexta-feira, 20 de julho de 2007

As nossas primeiras baixas


(...) O aquartelamento de Nangade ficava situado num planalto (Planalto dos Macondes) e, na época, procedia-se à construção de uma estação de tratamento de àguas que passariam a ser bombeadas do rio Litinguinha, que ficava num vale a cerca de três quilómetros de distância. Naquele dia, de manhã, era necessário levar trabalhadores agrícolas membros da população local, que iam trabalhar nas machambas situadas junto àquele rio, e o Victor (Didiá) ofereceu-se para ser ele o condutor de serviço. Pelo caminho, encontrou o Sousa (Básico) também da Companhia de Caçadores 3309 que acabara de sair de reforço onde estivera toda a noite, convidando-o para ir com ele ao que este acedeu de imediato embora estivesse com mais vontade de se ir deitar.

- Anda daí "Básico", faz-me lá companhia: - nós não demoramos nada e voltamos num instante.

Depois de os trabalhadores agrícolas e um Furriel que estava adido ao Batalhão de Artilharia 2918 entrarem para o Unimog 404, O Victor inicou o percurso na picada com uma descida muito íngreme logo à saída de Nangade e que dava acesso ao vale, não se prevendo que algo de trágico estaria para acontecer.

Depois de terem percorrido cerca de dois quilómetros e meio e prestes a chegar ao posto avançado situado junto ao rio, dá-se uma violenta explosão de uma mina anti-carro altamente reforçada, causando a morte de 8 trabalhadores agrícolas, ficando cinco deles gravemente feridos, assim como o Furriel que também seguia na viatura que sofreu ferimentos ligeiros. O Sousa, teve morte imediata, mas o Victor, com a violência da explosão ainda foi cuspido para fora da viatura indo cair no mato sem qualquer ferimento, sendo no entanto esmagado pelo Unimog 404 que, devido ao impacto de explosão, se elevou no ar e foi precisamente cair em cima dele, esmagando-o, provocando a sua morte.

A Companhia de Caçadores 3309 estava em Cabo Delgado à apenas cinco meses quando no dia 20 de Julho de 1971 sofreu logo aqueles duas baixas de uma forma tão trágica. Em Tartibo, onde a C.CAÇ. 3309 estava estacionada, a notícia foi recebida com grande consternação e pesar, uma vez que tanto o Victor como o Sousa eram dois bons companheiros e amigos e, acima de tudo, dois excelentes camaradas (...)

Aqui fica a singela homenagem e um abraço solidário de quem sobreviveu.


Carlos Vardasca
20 de Julho de 2007


Nota: Na foto pode-se ver o estado em que ficou o Unimog 404 após a explosão, assim como as fotos do Victor e do Sousa.