sexta-feira, 9 de novembro de 2007

...aquela giringonça não funcionou


(...) Chegou a uma altura em que as picadas eram intransitáveis devido ao constante rebentamento de minas anti-carro, e à destruição sistemática de viaturas militares, com a consequente perda de vidas que aquelas operações de reabastecimento implicavam. Tentando minimizar os efeitos destruidores das minas que eram colocadas nas picadas, uma "mente brilhante" lembrou-se de adaptar um Unimog (Pincha), comandado à distância, dotado de rodas em cimento colocadas à frente do mesmo, e que devido ao seu peso accionaria as minas que por ventura estivessem montadas na picada. Nos testes efectuados dentro do aquartelamento (Nangade) aquela giringonça funcionou lindamente, dado que o terreno era plano e os obstáculos não eram os mesmos com que iria enfrentar na picada. Para as crianças e adultos dos aldeamentos, cada vez que se procedia aos testes daquele "rebenta minas" a risada era total e sempre acompanhada de comentários:

- "Ai ué! - não admira branco fazer avião voar; meter sardinha dentro de um lato fechada, agora fazer os caro andar sozinho... chi, fazer mesmo cabeço de preto andar mesmo nos roda"!

- "Quando FRELIMO ver isto nos mato vai rir maningue e vai achar branco maluco mesmo..."

Aquela engenhoca, na primeira coluna em que participou, não chegou a transpor a primeira curva que se situava ao quilómetro 3, e teve que ser transportada de volta para o aquartelamento. A ideia era de facto muito interessante e com alguma originalidade, mas nas circunstâncias em que tinha que actuar e à irregularidade do terreno, tornou-se um impeçilho à movimentação das colunas militares e teve que ser retirada de "circulação". Sem utilidade, e encostado a um canto da oficina, era agora motivo de galhofa para as crianças nativas, que dali copiaram o modelo para um dos seus brinquedos que construiram em arame, e que com um pequeno pau o empurravam de olhos fechados dizendo em jeito de chacota para os colegas:
- Sai dos frente pá; - olha que este caro não ter olho para ver os picada! (...)
Carlos Vardasca
09 de Novembro de 2007

1 comentário:

José disse...

Alguém escreveu: “Um povo sem memória, é um povo sem futuro!”

A memória dessa famigerada guerra, se outro valor não tem – Não é o caso. – tem pelo menos o condão de – Sobretudo neste tempo de desencanto em que os "socialistas" nos desgraçam o futuro. – nos lembrar que sem Abril, muitos dos que por aqui passam e correm os olhos pela tua prosa, entre eles eu, teríamos ido parar a África e muito provavelmente teríamos tido a sorte do Almada, que tu viste morrer, mas também a do José, a do Manuel da Fonte Nova, a do Fernando Charrua… rapazes pouco mais velhos que eu, que partiram para África e nunca mais voltaram.
[Minto! O Charrua voltou… Ainda hoje me arrepio todo quando na minha lembrança de quando em vez ecoa o estrondo da salva de tiros que um pelotão da “tropa” de Portalegre, disparou à porta do cemitério de Castelo de Vide…]

Obrigado Carlos!

José Carrilho