sexta-feira, 30 de novembro de 2012

"Do Tejo ao Rovuma". 2ª Edição do livro em preparação


Caros amigos
 Como provavelmente tereis conhecimento, a primeira edição de “Do Tejo ao Rovuma” esgotou-se com o seu lançamento no dia 28 de Setembro passado, mas também ao satisfazer os pedidos que me foram efectuados para serem enviados à cobrança. Neste momento, estou a preparar uma segunda edição, com o objectivo de realizar uma outra sessão de lançamento por altura do XXIII Encontro Nacional da minha Companhia (Companhia de Caçadores 3309) a realizar em Paredes de Coura no dia 09 de Março de 2013.
Por este facto, e tendo em conta os vários pedidos já efectuados após o dia do lançamento, mas também os que vierem a ser confirmados para aquela data, e porque tenho que contactar a editora sobre os exemplares que precisarei para satisfazer todos os pedidos, solicito a quem estiver interessado em adquirir um exemplar de “Do Tejo ao Rovuma” que até ao final do mês de Dezembro de 2012 faça o seu pedido para os seguintes contactos:
Carlos Alberto Correia Braz Vardasca
Rua António Hipólito da Costa nº 5 – 1º Esqº
2860-045 Alhos Vedros
Portugal
Telefone: 212020157
Telemóvel: 963899868
Um abraço
Carlos Vardasca

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

E a promessa vai-se cumprindo

Entrega do livro "Do Tejo ao Rovuma" ao Sr. António Santos, cunhado do Victor Manuel da Silva (Didiá). Praça do Bocage. Setúbal,15 de Setembro de 2012.
Entrega do livro "Do Tejo ao Rovuma" ao Sr. José Augusto, irmão do Pedro Manuel Gaspar Augusto ("Almada"), na sessão de lançamento da obra. Alhos Vedros, 28 de Setembro de 2012.

domingo, 30 de setembro de 2012

Sessão de apresentação do livro "Do Tejo ao Rovuma".

Mesa de apresentação da obra. Em primeiro plano o autor Carlos Vardasca, professor Joaquim Raminhos que moderou a sessão e o professor António Ventura a quem coube a apresentação do livro "Do Tejo ao Rovuma".
Um dos aspectos da sala, vendo-se a mesa e parte da assistência.
Aspecto geral da assistência, vendo-se na primeira fila ao centro, o director do jornal "O RIO" Brito Apolónia, que fez o registo da apresentação do livro para a comunicação social.

Discurso do autor durante a sessão de apresentação da obra

Caros amigos
O meu obrigado a todos pela vossa presença na apresentação do livro “Do Tejo ao Rovuma”. Aproveitando a vossa presença, queria no entanto deixar também alguns agradecimentos pois sem a sua contribuição esta obra não seria possível:
Os meus agradecimentos ao Arquivo Histórico Militar, Arquivo Histórico da Marinha de Guerra, Instituto Geográfico do Exército, Batalhão de Caçadores 10 em Chaves, mas também à prestimosa colaboração dos meus companheiros da ex- Companhia de Caçadores 3309 (alguns deles presentes nesta sala) que se dignaram enviar os seus álbuns e outros documentos, que possibilitou a recolha da maioria das fotos, documentos e outros testemunhos que ilustram a presente obra.
Por outro lado, queria agradecer à Câmara Municipal da Moita e à Junta de Freguesia de Alhos Vedros, que tiveram a amabilidade de me ceder este espaço da Biblioteca Municipal – Núcleo Cultural José Afonso, bem assim como os expositores.
Um agradecimento ao meu amigo e professor Joaquim Raminhos que aceitou participar na moderação desta sessão e, por fim, um agradecimento especial ao professor António Gonçalves Ventura, meu amigo que foi meu professor de história e também participante  na Guerra Colonial em Moçambique, que muita honra me deu ao gentilmente ter aceitado o meu convite para fazer a apresentação deste livro de que vos vou, em breves palavras, falar um pouco dele.
“Do Tejo ao Rovuma” é uma obra foto biográfica e documental que conta a história de cerca de 140 homens pertencentes à Companhia de Caçadores 3309, que foram mobilizados para combater em Moçambique durante o período colonial, conflito de má memória para a nossa juventude, que nela foi obrigada a participar e para onde foi enviada “sem jeito nem prosa”.
Guerra Colonial (pois é esse o nome adequado para uma guerra com aquelas características) que deixou marcas dramáticas em toda a nossa sociedade, ao ponto de ainda nos dias de hoje haver problemas familiares, resultantes das perturbações psicológicas de que muitos jovens foram vítimas por nela terem participado, muitos deles estropiados ou com graus de deficiência que lhes comprometeu de vez o futuro, outros, por terem falecido em combate (cerca de nove mil homens ao longo dos 14 anos de guerra) deixaram o nosso país repleto de pais angustiados e de imensas “viúvas do império”.
Esta obra que agora deposito nas vossas mãos foi fruto de uma intensa investigação que efectuei junto das entidades já referidas, e nasceu de uma vontade imensa em não deixar esquecer “um pedaço da nossa história”, de tentar recordar através deste registo histórico um pouco do nosso passado e os momentos conturbados neles vividos.
Por sentir que a edição deste testemunho era uma necessidade imperiosa e uma forma de preservar um pedaço da nossa história recente, de que tenho o imenso prazer de colocar à disposição de todos vós, tendo também como objectivo tentar preservar na nossa memória colectiva uma vivência por vezes dramática da nossa presença por terras de África, como participantes numa guerra colonial cujos interesses, apesar de nos serem estranhos, não deixaram de mutilar uma grande parte da nossa juventude que nela participou.
O título “Do Tejo ao Rovuma” resulta do facto da Companhia de Caçadores 3309 (de que eu fazia parte) ter embarcado no navio Niassa (ancorado no rio Tejo em 24 de Janeiro de 1971, onde fomos despejados no fundo dos seus porões como se fossemos uma vulgar mercadoria, enquanto que aos oficiais e sargentos lhes eram facultados camarotes com todas as comodidades), e ser destacada para o norte de Moçambique, na fronteira com a Tanzânia, nas margens do rio Rovuma, onde conviveu com a brutalidade da guerra, e de onde nem todos regressaram em 6 de Março de 1973.
Embora nesta obra se descreva cronologicamente e através de documentos oficiais os factos mais relevantes da vida destes militares por terras do Índico, “Do Tejo ao Rovuma” não pretende legitimar nem fazer o elogio da Guerra Colonial, pelo contrário.
Ao longo das suas 351 páginas, para além de relatórios de operações efectuadas pelas nossas tropas, descrições dos ataques da FRELIMO aos nossos aquartelamentos, descrição das circunstâncias em que ocorreram as nossas baixas em combate (alguns desses momentos ilustrados em fotos), irão encontrar também alguns textos escritos pelo autor mas também por outros seus companheiros que aceitaram prestar os seus depoimentos, onde se denota com alguma coerência e convicção uma visão crítica e uma denúncia política da Guerra Colonial.
“Do Tejo ao Rovuma” também não é indiferente à vida social das populações nativas, fazendo nas suas páginas uma pequena descrição dos usos e costumes das etnias mais relevantes em Cabo Delgado para onde a Companhia de Caçadores 3309 foi destacada; — os Macuas e os Macondes — esta última de onde era originária uma grande percentagem dos guerrilheiros da FRELIMO.
Nesta obra houve também a preocupação, para além da denúncia dos horrores da guerra, em descrever os vários momentos de angústia e de felicidade que se forjaram entre os militares, por vezes em condições dramáticas de sobrevivência, refugiados no interior dos abrigos a quando dos ataques da FRELIMO aos aquartelamentos, nas emboscadas de que eram alvo no interior da mata densa, ou dormindo semanas em cima das árvores para escapar às sucessivas inundações do seu aquartelamento pela junção das águas dos rio Rovuma e Metumbué devido à época das chuvas, onde, apesar de tudo, se solidificaram fraternas amizades que ainda hoje perduram, fruto da partilha dos vários silêncios que inundaram os seus medos por um regresso que por inúmeras vezes pareceu incerto.
Nas páginas deste livro não se contam façanhas heroicas nem se faz o elogio do herói tão ao gosto do Estado Novo (que por diversas vezes os tentou fabricar), mas tão só se conta o dia-a-dia dos cerca de 140 homens, que no próprio dia do seu embarque para a guerra no Cais de Alcântara já pensavam unicamente no seu regresso.
Nesta obra também se recordam os momentos fascinantes do dia 25 de Abril que veio pôr fim ao conflito colonial, mas também a convivência salutar e de extrema felicidade que se vive actualmente, quando os sobreviventes e verdadeiros protagonistas desta história se encontram anualmente em diversos pontos do país nos diversos Encontros Nacionais de confraternização.
Finalmente, em “Do Tejo ao Rovuma” faz-se, e com a devida honra, uma justa homenagem aos que da Companhia de Caçadores 3309 e das restantes Companhias do Batalhão de Caçadores 3834 tombaram em combate, e foram impedidos de regressar daquela odisseia trágico-marítima, para onde foram empurrados em defesa de um falso império que se adivinhava desmoronar em breve.
Foi em homenagem aos meus companheiros tombados em combate, ao Victor, ao “Almada” ao Sousa e ao “Alentejano”, e a todos aqueles que tombaram em defesa de uma pátria que lhes foi madrasta que escrevi “Do Tejo ao Rovuma”, e é a pensar em todos eles que aqui fica um abraço solidário de quem sobreviveu.
A todos vós que se dignaram estar presentes nesta sessão, mais uma vez o meu obrigado pela vossa presença.
 Alhos Vedros, 28 de Setembro de 2012
 O autor
Carlos Vardasca

sábado, 8 de setembro de 2012

"Do Tejo ao Rovuma" (sessão de lançamento e apresentação)

                                                Capa e contra-capa do livro

A todos os companheiros e amigos que se interessam por temas relacionados com "alguns pedaços da nossa história", mais concretamente sobre aquele conflito de má memória que foi a Guerra Colonial, informo-vos de que a obra da minha autoria intitulada, "Do Tejo ao Rovuma" vai finalmente ter a sua sessão de apresentação e lançamento.
A sessão irá decorrer no próximo dia
28 de Setembro (Sexta-feira) pelas 21,00 horas
na Biblioteca Municipal. Núcleo Cultural José Afonso, em Alhos Vedros.
"Do Tejo ao Rovuma" conta a história (em fotos e outros documentos) de cerca de cento e trinta homens pertencentes à Companhia de Caçadores 3309, que partiram da cidade de Chaves rumo ao norte de Moçambique, aquartelados nas margens do rio Rovuma na fronteira com a Tanzânia, onde conviveram com a brutalidade da guerra para onde foram enviados "sem jeito nem prosa". Onde viram os seus afectos violentados por verem tombar em combate companheiros seus com quem partilharam as saudades da distância, mas também pela revolta contida por terem sido arrancados do aconchego familiar e obrigados a participar num conflito "que não sentiam como seu".
É de facto (na sua devida dimensão) um documento histórico a preservar, pois nele está gravada "Uma breve pausa num tempo daquelas vidas".
Gostaria de poder contar com a vossa presença.
 
O autor
Carlos Vardasca
 
Nota: Para mais informações sobre a respectiva obra, podem contactar para os seguintes contactos:
Telefone: 212020157
Telemóvel: 963899868
             carlosvardasca@gmail.com
 

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Locais a visitar por terras do granito

Monsanto 2012
Monsanto 2012
Monsanto 2012
Castelo Rodrigo 2012
Belmonte 2012
Sortelha 2012
Almeida 2012

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Missão cumprida em "Terras do Demo"


Eu e a Odília na companhia da esposa do Nabais, a quem ofereci um exemplar de "Do Tejo ao Rovuma". Meimoa, 24 de Agosto de 2012
De visita ao companheiro Barbudo. Castelo Branco, 23 de Agosto de 2012
 
Quando iniciei e elaboração do livro sobre a história da Companhia de Caçadores 3309, a que lhe dei o título “Do Tejo ao Rovuma”, fiz uma promessa, que quando o mesmo estivesse concluído ofereceria um exemplar aos familiares dos nossos companheiros falecidos em combate.
Essa promessa vai ser cumprida muito em breve, tendo em conta que a referida obra já está concluída e editada.
Para além deste facto, havia uma outra “missão” por cumprir e que não pode ser concretizada, pela circunstância do seu destinatário ter falecido em 2007.
João Luís dos Santos Nabais[1] faleceu devido a doença prolongada, e foi também a quem prometi oferecer-lhe um exemplar, não só por ter colaborado e tornado possível este documento histórico, mas também por ter sido um dos grandes amigos com quem tive o prazer de partilhar momentos de grande camaradagem desde a recruta em 1970, passando pelo IAO, durante a nossa permanência no conflito colonial de 1971 a 1973, até à data do seu falecimento.
Se não bastasse este tão prolongado período de convivência, jamais esquecerei o facto de quando em Moçambique a 3309 foi chamada a participar na Operação de assalto à Base Beira (um dos principais redutos da FRELIMO no norte de Moçambique) ele, num acto de abnegação e de camaradagem, se ter oferecido para ir em meu lugar, por ter percebido e compreendido o meu estado de depressão ao saber que teria que participar naquela operação e em face do deficiente estado de saúde em que se encontrava a minha mãe naquela altura.
Não podendo cumprir esta “missão” de reconhecimento em sua vida (dado que a presente obra ainda não tinha sido concluída) neste mês de Agosto e durante as minhas férias passadas por terras do interior, desloquei-me a Meimoa (depois de ter estado em Castelo Branco com o Barbudo[2] que nos mostrou a cidade e ter visitado a belíssima povoação de Monsanto) para pessoalmente oferecer um exemplar de “Do Tejo ao Rovuma” à esposa do meu grande amigo Nabais.
Uma das fotos que se editam representa esse momento de extrema felicidade quando a esposa do Nabais recebeu o livro, querendo desde logo que eu e a minha esposa lá jantássemos e ficássemos para só partirmos no dia seguinte, ao que recusámos pois já tínhamos estadia marcada em Belmonte.
Considero-me extremamente feliz por ver esta “missão cumprida”, com a particularidade de ser em homenagem ao companheiro e amigo “Guerrilheiro da Malcata”[3] que sobreviveu à Guerra Colonial mas acabou por vir a falecer em “Terras do Demo”.

Carlos Vardasca
27 de Agosto de 2012


[1] Ex- Soldado Condutor da C.CAÇ. 3309 NM 15467570.
[2] João Carlos Barbudo, ex- Furriel Miliciano da C. CAÇ. 3309 NM 07055570.
[3] Como Nabais se auto intitulava quando se referia às suas aventuras por “Terras do Demo”.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

"Silêncio". Novo livro de Manuel Pedro Dias


AOS LEITORES
 O conflito armado que eclodiu no Ultramar português no início da década de 60 e que se manteve durante 13 longos anos, provocou, na grande maioria da sociedade portuguesa, profundas feridas que ainda hoje, muitas delas, se encontram por sarar.
 Não foram só os cerca de 9 000 mortos, bem como os milhares de feridos, as únicas vítimas daquela guerra indesejada aliás, todas o são.
Há que levar em linha de conta as famílias daqueles militares que, de modo diferente, também sofreram as agruras provocadas pela ausência dos seus entes queridos, em cujas condições e perigos em que viviam lhes eram totalmente desconhecidos. A angústia estava sempre presente: Foram as mães, as eternas e sempre sofredoras mães, acerca das suas condições de “guerreiras” de retaguarda já muito, felizmente, foi escrito, nós próprios o fizemos por diversas vezes; as esposas, muitas delas já com filhos, quando os maridos partiram, enfrentando de forma estóica a sua ausência, que, infelizmente, em muitos casos foi eterna; as noivas, sobre estas muito pouco se tem falado e o que foi dito, logo no início da revolução dos cravos, por pseudo escritores vanguardistas, era para atingir a sua honra, rotulando, a grande maioria, de infiéis.
Sempre nos insurgimos contra esta tremenda injustiça, quer em artigos que escrevemos em revistas da especialidade, quer ainda verbalmente nas várias tertúlias em que temos participado.
É do conhecimento geral que durante o período atrás referido a juventude masculina era praticamente toda mobilizada para combater nas três frentes de batalha: Angola, Guiné e Moçambique. Mas este factor, em nosso entender, não era condição “Sine qua non” para que a sua ausência fosse sinónimo de infidelidade por parte das mulheres. Nos dias de ontem, de hoje e de sempre, as “traições” existiram e continuarão a existir, não só por parte das mulheres, mas também dos homens, porque, então, confiná-las a um período específico? Pura maldade.
Foi ao voltar a ler essas injustas maledicências que nos ocorreu a ideia de enaltecer essas jovens que, de forma séria, souberam esperar, também com privações de muita ordem, pelos seus namorados ou maridos e também aquelas que por infortúnio destes, souberam honrar para sempre a sua memória. 
Devemos confessar que o nosso propósito era, somente, abordar este tema num mero artigo de opinião.
Mas, com o decorrer da escrita, fomo-nos apercebendo que podíamos ir mais além do que o simples artigo imaginado.
Assim, nasceu nova ideia: Abalançar-nos num trabalho mais amplo, tendo sempre como principal objectivo não fugir do pensamento inicial. 
Não obstante a história que se apresenta ser mera ficção, pelo que, qualquer semelhança entre os nomes referidos e a realidade ser pura coincidência, o certo é que, na verdade, a ficção ultrapassa, por vezes, a realidade.
Por nos parecer pertinente e para mais fácil entendimento, decidimos fazer uma breve apresentação das duas personagens principais que fazem parte desta história:
Miguel
Rapaz mobilizado, como furriel miliciano, para combater na Província de Moçambique. Toda a sua vida foi passada entre Vila Nova da Ribeira, de onde era natural e a sede do Concelho, onde estudara. As suas habilitações literárias, permitiram-lhe ingressar no Curso de Sargentos Milicianos.
Partiu para Moçambique, deixando na terra natal uma paixão inicialmente não correspondida. As suas lutas dividiam-se entre a conquista desse seu grande amor e combater o inimigo na grande imensidão das matas do Niassa, onde a sua unidade se encontrava estacionada num antigo aldeamento, já sem população, Xituengo.
e 
Mariana
 Que, apesar de sempre ter vivido na sua terra natal, era uma rapariga com alguma cultura já que os pais, que viviam do sustento das terras, com um certo esforço financeiro, conseguiram custear as despesas para que a filha estudasse em ensino particular na própria vila, obtendo assim o 2.º ciclo liceal. Além disso, era uma apaixonada pela leitura.
Enquanto não arranjava emprego na capital, era esse o seu desejo, foi permanecendo em Vila Nova da Ribeira.
Quer Miguel, quer Mariana, dado o seu gosto pela poesia, na troca de correspondência faziam-no, praticamente sempre em verso, embora, por vezes, a métrica poeto-silábica não fosse cumprida com rigor. Facto perfeitamente compreensivo dado o seu amadorismo nesta vertente literária.    
 “Silêncio” foi a primeira palavra que nos ocorreu ao pensamento para dar o título a este despretensioso livro. Posteriormente, pensámos noutros vocábulos mas, com o decorrer da escrita, o “Silêncio” foi ganhando forma, devendo ser, no entanto, interpretado num sentido lato da palavra e não limitá-lo a um só único significado.
Conseguimos, assim o julgamos, pois foi esse o nosso objectivo, que Mariana fosse paradigma e representasse as milhares de jovens que na geração de 60 e parte da de 70, que por cá ficaram aguardando, como já referimos, privando-se dos passatempos inerentes à sua juventude, enquanto lá longe, muito longe, se combatia.  
Este livro foi pensado também para dignificar os militares, na personagem de Miguel que, de algum modo, tão mal tratados foram em termos de conceito por certas franjas da nossa sociedade a qual, em certos casos, navega em termos de opinião, ao sabor das suas próprias conveniências políticas. Estas, por vezes, mudando de rumo de acordo com a direcção do vento.
Infelizmente, temos que admitir que a Guerra do Ultramar foi e continua a ser para as tutelas que nos têm e continuam a governar, um tema “maldito”.
Quer eles queiram, quer não, isso é um facto irrefutável, a Guerra do Ultramar faz parte da História Lusíada.
Assim, quem nela participou, tal como nós, não deve envergonhar-se em afirmá-lo.
Mas porquê falar dela com desprezo? Não sabemos.
Da nossa parte continuaremos, enquanto a mente não nos atraiçoar, a escrever, sem complexos, sobre o tema.
O Autor

sábado, 11 de agosto de 2012

"Uma carecada colectiva". (Memórias)

Numa operação da Companhia da Caçadores 3309 no rio Metumbué. O enfermeiro Azevedo está em primeiro plano de G3 ao ombro, e em destaque numa foto mais actual. Cabo Delgado. Na fronteira com a Tanzânia. Norte de Moçambique 1971.


Um dia, no decorrer do I.A.O na cidade de Chaves (Serra da Olga) o Comandante de Companhia reparou que o pessoal estava desenfiado e vai daí, mandou tocar a formar, ordenando o registo dos faltosos.
Na altura constou que tinham ido a uma festa numa aldeia ali próximo do acampamento compor o estômago.
Como castigo, mandou dar uma carecada a todos os que faltaram à formatura. O caricato da questão, foi que os Enfermeiros, que estavam dispensados das formaturas e mesmo sem terem ido à festa, encontravam-se na lista para a carecada. Como considerámos ser uma injustiça, pedimos ao Cabo Miliciano Enfermeiro Silva para falar com o Comandante, uma vez que tínhamos estado sempre os quatro no posto de socorros; não conseguindo o depoimento do então Cabo Miliciano Enfermeiro Silva, foi decidido entre os três Enfermeiros Azevedo, Cardoso e Silva recusar as carecadas.
Eu fui o primeiro a ser chamado e, ao dirigir-me para o local da carecada olhei para trás para ver a posição dos meus companheiros e qual a sua postura perante aquele facto. O Cardoso disse-me para não ter medo e para recusar a carecada pois nós estávamos solidários com a posição dele.
Entretanto, tocou para o almoço e as carecadas foram interrompidas. Depois da refeição, falámos com alguns Cabos Milicianos sobre o assunto. Eles conseguiram convencer o Cabo Miliciano Enfermeiro Silva a interceder junto do Comandante de Companhia, confirmando de facto a nossa presença no aquartelamento, uma vez que tínhamos estado sempre todos no posto de socorros. Assim nos safámos da respectiva carecada com toda a justiça, assim como de imitarmos o canto dos pássaros e de animais quadrúpedes em cima das árvores.
António da Silva Azevedo
ex- 1º Cabo Auxiliar de Enfermagem NM 05802970 da C.CAÇ.3309
Castelo Branco, 10 de Março de 2007

 In: “Do Tejo ao Rovuma. Uma Breve pausa num tempo das nossas vidas”, página 15. Carlos Vardasca, Alhos Vedros 2009.

domingo, 5 de agosto de 2012

Lembranças de tempos incertos

Um grupo de combate da Companhia de Caçadores 3309 tenta a muito custo transpor o rio Metumbué. Cabo Delgado. Norte de Moçambique 1971.
Eu desembarquei com a 3309 em PALMA.

Decorria o mês de Fevereiro do ano de 1971. Éramos quatro Furriéis em trânsito para Palma.
Um,  era o José Arruda (tinha gesso numa perna), dos Deficientes das Forças Armadas (cego), o Trigo que teve um acidente com uma Berliet antes da rampa, logo à saída da picada de Palma para Pundanhar (depois de evacuado não retornou) eu, João Rebola, levei com uma mina anti-carro na minha viatura na Operação Orfeu 1 (14 de Abril) - naquela treta do milho para a Base Beira, saímos no dia D -2) e depois apanhei com outra na picada de Palma para Quionga em 2 de Dezembro de 1971 (3 meses de hospitais, voltei em Março de 1972) e estive por lá até Agosto, até vir para o sul e o Torres, que felizmente não teve nada de grave.
Recebi aqui um e-mail com o vosso Blogue e, surpresa, encontrei algo que me diz qualquer coisa.
Eu andei sempre por perto e muitas vezes com pessoal  vosso, no mesmo teatro de operações.
Lembra-me das picagens para Pundanhar, onde vinha sempre um grupo da Companhia de Caçadores 3309 fazer a picagem intermédia.
Tenho ideia que havia motoristas vossos a alinhar nas colunas Nangade-Palma.
O meu irmão, era o vago mestre no Aquartelamento de Palma e eu, como mão sabia fazer mais nada, galgava na picada como os outros.
Quando tínhamos que ir para o Aquartelamento de Tartibo, era sempre um aperto.
Ainda me lembro de ir buscar o Alferes Leonardo ao Tartibo, e fizemos a coluna num dia, ida e volta. Ainda houve um acidente no rio Metumbué com outra das viaturas.
Lembro-me de entrar no Aquartelamento de Nangade à noite, quase às 21 horas, e no outro dia, logo cedinho estar a picar para Palma.
Outros tempos, mas só restam …os bons bocados que lá passámos.
 Um Abraço
 João Rebola
26 de Dezembro de 2011

sábado, 4 de agosto de 2012

O que resta do Aquartelamento de Balama

Um aspecto da vida quotidiana da população de Balama.
O que resta das antigas instalações do Aquartelamento de Balama, onde esteve estacionada a Companhia de Caçadores 3309 de Novembro a Março de 1973.

Estas fotos e outras mais, foram-me enviadas por um amigo meu que actualmente trabalha já algum tempo em Moçambique, e que vai contactando comigo com alguma regularidade. Um dia, no ano de 2011, este amigo visualizou o blogue "Do Tejo ao Rovuma", e ficou extremamente sensibilizado pelo caso do desaparecimento em combate do Furriel Castro Guimarães, e que desde logo se prontificou a colaborar comigo na procura do possível local da sua sepultura em terras da Tanzânia. 
Dado estar numa posição privilegiada para estabelecer os contactos que considerar interessantes para desvendar este episódio ocorrido em 15 de Novembro de 1972, este meu amigo, das diversas vezes que me contactou, umas vezes telefonicamente de Moçambique ou quando se deslocou de férias a Portugal, por diversas vezes me informou da evolução da investigação que muito amavelmente e desinteressadamente aceitou encetar, tendo ultimamente chegado ao contacto com um elemento da população que lhe disse ter estado envolvido naquela operação nas margens do rio Rovuma em 1972, que deu origem à captura do Furriel Castro Guimarães dos GEs 212 estacionados no Aquartelamento de Nhica do Rovuma.
Não podendo adiantar mais pormenores sobre o caso em concreto devido à complexidade do assunto, apenas me informou que aquela pessoa com quem contactou lhe confirmou (porque diz ter assistido ao acto em si) que o corpo do Furriel Castro Guimarães foi sepultado em Kytaia, na mesma sepultura com outros dois soldados portugueses (fora do cemitério, conforme ritual Macua) o que revela uma outra questão, pois, se assim se confirmar, comprova-se a existência de mais soldados portugueses (para além do Furriel Castro Guimarães) sepultados em cemitérios da Tanzânia, mais concretamente na aldeia de Kytaia, o que possivelmente poderá não ser do desconhecimento da Liga dos Combatentes.
Dada a extrema complexidade e às incertezas que por ventura poderão rodear todas estas informações relacionadas com este assunto, mas também para que não se levantem falsas expectativas sobre a resolução deste caso, este meu amigo não quis adiantar mais pormenores (o que se compreende), até que se saiba algo mais em concreto sobre a veracidade destas informações e da verdadeira localização da referida sepultura.

Carlos Vardasca
04 de Agosto de 2012 

domingo, 13 de maio de 2012

quinta-feira, 10 de maio de 2012

"No dia em que recebemos o catecismo"

Capa do exemplar "Missão em Moçambique"
Com distribuição maciça e com o objectivo de tentar “evangelizar” todas as tropas que partiam para a guerra Colonial, aquela espécie de “catecismo” também fez parte da minha bagagem rumo ao norte de Moçambique.
Do meu exemplar, não sei o que foi feito dele. Talvez tivesse ficado em Nangade dentro de um cunhete de munições do Obus 14 que fizera de biblioteca improvisada enquanto permaneci naquele Aquartelamento no Planalto dos Macondes, mas que por lá ficou perdido, a quando do meu embarque apressado no Nord Atlas que me levou de Nangade até Montepuez.
Recordo-me que durante a viagem a bordo do navio “Niassa” e embora já adivinhasse os seus fundamentos e objectivos ideológicos, li aquele “catecismo” como se de um romance se tratasse, pois aquela “cantilena salazarista” há muito que me vinham ensinando desde os bancos da escola.
Passados quarenta e um anos, voltei a folhear aquele manual colonial, graças ao meu amigo Atílio dos Santos[1] que teve a amabilidade de me enviar cópia de um exemplar.
Para além dos aspectos meramente informativos relacionados com a demografia, etnografia do território, entre outros, aquele “catecismo” intitulado pelo regime de “Missão em Moçambique”, tinha como principal objectivo moldar a consciência dos militares que eram enviados para o conflito colonial, caracterizando os vários movimentos inimigos com quem se iriam defrontar em combate, dando especial realce à FRELIMO[2] classificando-os de movimentos terroristas a soldo do comunismo russo e chinês, como se aqueles guerrilheiros não tivessem aspirações políticas próprias bem definidas e concretas, sobre as razões e da necessidade do início da luta armada pela libertação do seu país.
Quem fizer a sua leitura tendo em conta o seu contexto mas à luz dos fundamentos democráticos de convivência entre os povos e do seu direito à independência do jugo colonial, notará quanto ridícula era aquela linguagem difundida até à exaustão pelo Estado Novo, apesar do isolamento que a política colonial portuguesa vinha sofrendo a nível mundial e do reconhecimento dos Movimentos de Libertação na altura por parte da ONU[3].
Este exemplar de “Missão em Moçambique”, qual “catecismo colonial” impregnado de psicologia salazarista e de literatura pseudo-ingénua, que pretendia convencer os mais incautos sobre os verdadeiros interesses do regime naquelas parcelas de África hoje independentes, vai também fazer parte do meu “baú de memórias”, pequeno arquivo onde vai coabitar, entre outras coisas (sem qualquer saudosismo revanchista) com o crachá da minha companhia; com um bilhete de identificação de um guerrilheiro abatido em combate na picada Nangade-Pundanhar; com os quatro volumes das Obras Escolhidas de Mao-Tsé-Tung que me foram oferecidos e recolhidos numa das bases da FRELIMO. Bem assim como a uma nota de mil escudos com efígie de Gago Coutinho e outra de cem escudos com efígie de Aires Ornelas emitidas pelo Banco Nacional Ultramarino em 1971, que fizeram parte do meu primeiro pré ganho naquelas terras do Índico, e que ainda hoje me fazem recordar que “por um magro salário que se perdia na profundidade dos nossos bolsos”, aqueles eunucos depostos em 25 de Abril de 1974, nos obrigaram a combater povos cujo único objectivo era o rebentar das amarras que os aprisionava há 500 anos ao domínio e opressão colonial.
Carlos Vardasca
10 de Maio de 2012

[1] Atílio Carlos Rodrigues dos Santos, ex- 1º Cabo Operador Cripto da Companhia de Artilharia 2745.
[2] FRELIMO, Frente de Libertação de Moçambique.
[3] Organização das Nações Unidas.

domingo, 11 de março de 2012

Almoço de Confraternização do Batalhão de Caçadores 3834 (Moçambique 1971-1973)


É já no próximo dia 31 de Março de 2012 que se vai realizar o grande Almoço de Confraternização de todos quantos estiveram ligados à acção do Batalhão de Caçadores 3834 no norte de Moçambique de 1971 a 1973 e, por esse facto, estão todos convidados a comparecer nessa data para desfrutarmos de mais uns momentos de convívio e de fraterna confraternização.
O local da confraternização é o “Clube de Caçadores do Porto”, Quinta da Angra, Foz do Sousa. Porto.
Para facilitar o acesso ao local, as coordenadas para GPS são as seguintes:
N 41.138550º e W8.562580º
ou N 41º 8’ 18.78’’ e W8º 33’ 45.29’’
Ou seja, na Rotunda do Freixo, seguir pela EN 108, cerca de 8,4 kms em direcção a Entre-os-Rios. Seguir as indicações do “Clube de Caçadores do Porto” (antes de Aldeia Nova e da Foz do Sousa)
Programa
12,00 Horas – Concentração no “Clube de Caçadores do Porto”
13,00 Horas – Almoço (Aperitivos, sopa, filetes com creme de marisco, bifinhos à champignons com arroz de pinhão, bebidas, fruta ou doce e café (Preço por pessoa, 21,00€)
 As marcações devem ser efectuadas obrigatoriamente até ao dia 19 de Março, dado que não é possível garantir almoço sem a marcação prévia.
Contactos para:
Victor Vieira - Telemóvel: 966028468 – e-mail: furvieira3310@gmail.com
Albuquerque Dias917245685 – e-mail: albuquerquedias@gmail.com
João Pardilhó917598491 – e-mail: joao.pardilho@gmail.com
Aguardamos por todos vós, respectivos familiares e amigos, pois “aquilo sem a vossa presença não tem graça nenhuma”.
Até lá, um abraço

terça-feira, 6 de março de 2012

"Regressámos sim... mas alguns ficaram para trás"

Nem todos dormíamos quando as luzes da cidade de Lisboa já salpicavam num emaranhado de outras tantas que nos diziam estar próximo o nosso regresso. O Boieng 707 da Força Aérea saíra da cidade da Beira no dia 05 e, depois de várias horas de voo com escala em Luanda, sobrevoava agora por cima das sete colinas durante uns largos minutos, dado não haver de momento espaço na pista de aterragem, enquanto alguém me acordava dando largas à sua alegria:
Acorda lá Braz: ao mesmo tempo que soletrava com o seu característico e exagerado bairrismo nortenho:
 Mouro d'um cabrão, então não vês que já estás mesmo às portas das tuas muralhas".
Finalmente o avião lá pousou no Aeroporto da Portela às 01,00 horas do dia 06 de Março de 1973, e a primeira pessoa que vi por casualidade, foi a minha tia Ana, que fazia parte das funcionárias da limpeza que subiam para o avião, enquanto nós nos encaminhavamos para o autocarro que nos levaria até à gare do aeroporto.
Habituado ao calor tórrido de África, fiquei deveras impressionado quando a abracei devido os fartos agasalhos que envergava.
A noite estava muito fria, e entre o esfregar intenso das mãos que se escondiam por dentro de uma luvas grossas, lá desabafou por entre os dentes bem serrados, recorrendo-se da sua religiosidade que aprendera com o pároco de S. Pedro de Agostém, por onde escorriam as águas do Tâmega:
Olha o meu querido sobrinho! Afinal deus quis que voltasses - acabando por comentar:
A tua mãe Gracinda está ali dentro danadinha por te abraçar.
Transportados para o RAL1, ali fizemos o espólio de todos os nossos utensílios militares, e cada um despediu-se dos seus companheiros para de seguida rumar às suas terras de onde tinham partido há cerca de 26 meses.
Durante as despedidas, vieram-me as lágrimas aos olhos quando a minha mãe me perguntou se tinham morrido alguns companheiros meus, e me apercebi mais uma vez que de facto "já não estávamos ali todos". Interiormente, e refugiando-me no meu silêncio, "fiz uma espécie de chamada às tropas e, por muito que chamasse pelos seus nomes eles nunca mais iriam responder".
Teimosamente insistia:
Albino Dias de Sousa ...
António José Pereira ...
Pedro Manuel Gaspar Augusto ...
Victor Manuel da Silva ...
Decorria o dia 06 de Março de 1973 e, enquanto tentava dormir um pouco dentro do velho Chevrolet Bel Air do meu cunhado João Almeirão (que me transportava para Alhos Vedros onde passaria a morar), fui-me dando conta que de facto, "e por não terem respondido à chamada", que eu e os meus companheiros tínhamos regressado "mas que alguns tinham ficado para trás".
E porque hoje passam precisamente 39 anos do regresso da Companhia de Caçadores 3309 da Guerra Colonial em Moçambique, aqui fica para todos os que tombaram o abraço solidário de quem sobreviveu.
Carlos Vardasca
06 de Março de 2012
Foto: Boieng da Força Aérea que transportou a Companhia de Caçadores 3309 da cidade da Beira para Lisboa.