segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

"...o que sobra é para os mendigos"


(...) Não é intencional, mas quantos de nós, nesta noite de natal e no aconchego do nosso lar, enquanto mergulhamos nas travessas inundadas de couves e bacalhau, não reparamos que não nos sobra tempo para nos lembrarmos de quantos vegetam nas arcadas do Terreiro do Paço em Lisboa; pelas ruas escuras da Ribeira do Porto ou num qualquer recanto do interior esquecido das capitais, aconchegados do frio num pedaço de cartão, que por sinal já fora guarida de um qualquer brinquedo ofertado a um dos nossos familiares.

Neste dia, as carrinhas de várias organizações de solidariedade circulam pelos lugares que já conhecem de tanto os decorarem anualmente por estas alturas, e tão depressa esquecidos quando as câmaras e os holofotes se desviam para registar mais um anúncio de uma ridícula plástica da Lili Caneças.

O mundo de facto está cada vez mais desigual, e até pareçe que convém à sociedade manter alguns desafortunados para os exibir anualmente numa espécia de "montra", onde as reportagens exibem uma caridadezinha sazonal para que os "abastados da sorte" sintam a sua consciência um pouco mais tranquila, por terem introduzido no "bornal dos peditórios" uns magros centimos para descarga da sua consciência, como se isso os ilibasse das culpas de uma certa indiferença militante que roça as margens de um certo desprezo exibicionista, associado ao mais vil egoísta sentimento mercantilista.
Nesta noite de natal, este singelo contributo vai para todos aqueles que neste momento se debatem entre o aconchego da alma num qualquer resguardo feito cartão iluminado pelos holofotos do momento, e a luta intensa entre a ilusão de que a sua vida nómada será resolvida nas passerelles das manchetes dos telejornais, onde são lembrados anualmente, para tão depressa serem esquecidos num virar de página, entre a opulência e a arrogância atroz de um qualquer jogador de futebol que exibe a sua renúncia a um contrato pelos "míseros milhões de Euros" (...)
Carlos Vardasca
25 de Dezembro de 2007

2 comentários:

julia disse...

Todos sonhamos com vidas perfeitas, mas basta-nos faltar o salário para sermos também "sem-abrigo". É nesse sentido que este país caminha onde cada vez se vêem mais desigualdades. Resta a esperança que algum dia a vida melhor para todos e que não existam pessoas a dormir na rua nem guerras no mundo.
Um abraço e Bom Natal

Carlos Vardasca disse...

Obrigado amiga Júlia

Que os afectos nunca nos abandonem, e que nos vão sobrando para os podermos espalhar por quem mais deles se encontra necessitado.
Um abraço de um ex-Indesitiano
Carlos Vardasca