quarta-feira, 12 de agosto de 2009

De Nangade até à cidade da Beira

(...) Decorria o mês de Abril de 1972, e todos os motivos eram pretexto para fugirmos ao troar ensurdecedor dos obuses, às colunas de reabastecimento e ao isolamento dos aquartelamentos, que toldavam a nossa liberdade aprisionada entre o arame farpado e o olhar atendo de quem da mata espreitava a todo o momento os nossos movimentos.
Depois de em 1971 ter ido para Nampula tirar a carta de Lista Branca, que me possibilitou mais tarde no regresso à "Metrópole" trocá-la pela civil (que me custou apenas 500 escudos) em 03 Abril de 1972 decidi ir de férias para a cidade da Beira na companhia do meu camarada Camelo (1) também da Companhia de Caçadores 3309.
Recordo-me que tinha pedido à minha mãe Gracinda para me enviar quinze contos para as férias, ao que ela me perguntou muito entusiasmada:
- Com esse dinheiro que me pedes, porque é que não vens cá passar as férias a Santarém?
Compreendi a sua saudade de me voltar a ver e abraçar de novo, mas não resisti em lhe responder num dos últimos aerogramas que lhe escrevi antes de ir de férias:
- Olhe mãe, só quinze contos são para pagar a viagem de avião para Lisboa e com esse dinheiro passo aqui umas férias como nunca passei na minha vida.
Resignada, lá decidiu enviar-me o dinheiro, que não era mais do que algumas das minhas poupanças resultantes da minha passagem pela Marinha Mercante e das parcas remessas que eram enviadas do meu salário desde que chegara a Moçambique, mais concretamente à frente de combate na fronteira com a Tanzânia.
Eu e o Camelo fomos de Táxi-Aéreo de Nangade até Nampula, e daqui para a cidade da Beira num Boieng 737.
O Camelo, como tinha família na cidade da Beira pois tinha um irmão na Força Aérea ficou em casa dele, e eu hospedei-me na Pensão Castanheirense ali próximo da Praça do Município bem no centro da cidade, onde partilhava a minha mesa às refeições com um colono barrigudo e técnico de elevadores, que ainda me tentou convencer a ficar a trabalhar em Moçambique (embora eu não percebesse nada de elevadores) depois de terminar e minha comissão naquela ex-colónia portuguesa.
Embora hospedados em locais diferentes, eu e o Camelo encontrava-mo-nos todos os dias para "emborcarmos" as nossas "Laurentinas" que intercalávamos com as "2M" no café "CAPRI", situado na Praça do Município, bem perto do "Supermercado António Teixeira", ou na esplanada do "SCALA" em frente à "Companhia de Seguros Império" e próximo do "Supermercado Cardoso Lopes".
À noite, com a baforada do calor tropical a convidar-nos para uma ida até ao "Moulin Rouge" depois de uma sessão de cinema no "Novo Cine", ao deambularmos pelo centro da cidade cruzámo-nos com algumas senhoras de tez ocidental que se passeavam pela praça principal da cidade da Beira, que "vasculhavam" de olhos esbugalhados as montras da "Casa Bulha", da "Sissi" e da "Sapataria Guimarães", enquanto os maridos (alguns deles oficiais generais que da cidade decidiam dos destinos de quem na frente de batalha tentava gerir os vários medos de um regresso incerto) pontapeavam uma tosca caixa de madeira de um miúdo - descalço e semi-nu - que insistia em lhes querer engraxar os sapatos, quebrando-lhe todo o material necessário para as "engraxadelas", enquanto diziam com toda a sua arrogância pincelada com poses colonialistas:
- Sai daqui preto d'um cabrão - então não vês que as senhoras querem passar?
Ao fim de um mês de férias bastante relaxante, onde finalmente consegui passar uma vista de olhos pelos meus livros preferidos mas sem esquecer os meus companheiros e o que se estaria a passar naquele momento na frente de batalha, o meu regresso a Nangade já foi bem mais turbulento.
Da cidade da Beira para Porto Amélia fui num velho DAKOTA (onde seguiam poucos civis mas repleto de militares também regressados de férias ou outros que vinham em rendição individual) que tremia tanto que mais parecia uma gelatina, tendo visto o caso "mal parado" quando sobrevoávamos uma zona de forte turbulência que nos deu a impressão de que todas aquelas latas que o revestiam se queriam soltar, o que decerto pouparia algumas balas à FRELIMO se aquela lata ferrugenta se despenhasse na mata densa algures no norte de Moçambique (...)
In: "Quando o sol castiga mais. Crónicas de Guerra. 1970-1973", página 120. Carlos Vardasca. Alhos Vedros 2005.

(1) Francisco Joaquim Camelo, Soldado Condutor Auto Rodas NM15391770 da Companhia de Caçadores 3309.
Fotos 1 e 2: No dia do meu embarque no Táxi-Aéreo em Nangade para Nampula. Nangade, 03 de Abril de 1972.
Foto 3: O meu companheiro de aventura nas férias na cidade da Beira, quando participava na evacuação de um soldado morto em combate na picada de Pundanhar para Palma. (o Camelo está em tronco nu). Na mesma foto pode ver-se também (em primeiro plano e de farda negra) a participar na operação de evacuação, o Furriel Diamantino da C.CAÇ. 3309 mas graduado em Alferes e destacado nos GEs 207.
Foto 4: Praça do Município na cidade da Beira. A Pensão Castanheirense ficava logo a seguir ao pequeno prédio de cor amarelada situado entre os dois edifícios mais altos. Cidade da Beira, 1971 (foto retirada da Internet).
Carlos Vardasca
13 de Agosto de 2009

1 comentário:

às vezes apenas se flutua... disse...

Já cá cheguei(da n/conversa de
ontem à noite na B.B.) puxa vida,
vou ter mtº. que ler e ver tanta
foto, vou ficar a conhecer mtº.
mais sobre o tema que trata o
seu blogue.Vou passar a vir por
aqui.O meu blogue é generalista,
e só ultimamente lhe comecei a
dar alguma atenção.