sábado, 13 de agosto de 2011

"Os povo está com os Rita, pá!



Estava uma tarde bastante encalorada, como já era hábito acontecer no Aquartelamento de Nangade. Apesar da temperatura tórrida que se fazia sentir, o Rita[1] cumpriu o que há muito prometera, ou seja, medir forças entre as viaturas militares Berliet e Mercedes, já que sempre foi muito convicto de que a viatura francesa era muito mais potente do que a alemã, e tirar teimas com um outro Soldado que teimava em dizer o contrário.
E assim aconteceu. As duas viaturas dirigiram-se quase que silenciosas para a pista de aterragem, “assemelhando-se aos gladiadores que nos coliseus romanos se preparavam para se digladiarem entre a vida e a morte”, sendo a Berliet conduzida pelo Rita e a Mercedes por um Soldado Condutor da CCS do Batalhão de Artilharia 2918 de que não me recordo do nome. Alinhadas as viaturas bem ao fundo da pista, com as traseiras viradas uma para a outra, e eis que se dá início à “disputa entre a C.CAÇ. 3309 e o B.ART. 2918”, luta personificada por dois “tarados do volante” e duas viaturas já um pouco “gastas de cansaço pelas noites mal dormidas na densa mata”.
Quem assistia àquele espectáculo, “deu por mal empregue a compra do bilhete”, dado que a poeira que se levantou no fundo da pista tornava impossível qualquer visibilidade sobre aquela contenda. Apenas se ouviam as acelerações muito violentas e o roncar angustiante dos motores, quando de repente se fez silêncio, com o Rita a surgir do meio de toda aquela poeira com os braços levantados em sinal de vitória, logo seguido pelo seu oponente que de cabeça em baixo mas com um ligeiro sorriso admitia a derrota. Quando a poeira assentou, é que se verificou o estado em que ficou a Mercedes, de desconjuntada que estava e com a traseira toda amolgada, havendo indícios na pista que esta tinha sido arrastada pela força devoradora da Berliet, o que deu azo a um comentário mais ousado e deveras intencionado de alguém que assistia:
Assim se vê a força da democracia francesa perante o militarismo alemão.
Alertado pelo barulho e pela poeira que se levantou, o Tenente-coronel Vasconcelos Porto[2] veio a saber do ocorrido chamando os intervenientes à sua presença, ameaçando-os de uma “valente porrada”.
Não sei o que aconteceu ao Soldado Condutor da CCS do B.ART. 2918, mas quanto ao Rita passou-se o seguinte:
Para quem o conheceu bem, era um militar que andava sempre nos aldeamentos a cortejar as jovens e onde gozava de algum prestígio junto delas, oferecendo-lhes capulanas[3] e outras bugigangas que elas muito apreciavam, gozando por isso de alguma simpatia entre as populações nativas, e que por isso o notaram um pouco triste.
Eh, nosso Cabo Rita! O que é que tu tem? Parece maninge triste, pá!
Depois de as pôr ao corrente do que se tinha passado, e perante a eminência de o Rita ser castigado e transferido para outro Aquartelamento, logo se gerou uma corrente de solidariedade em defesa daquele Cabo Mecânico, ao ponto de as populações de ambos os aldeamentos[4] se concentrarem defronte ao edifício da Messe de Oficiais, apelando à boa vontade do Tenente-coronel gritando numa histeria colectiva:
Meus Tenente-coronel, os povo está com os Rita pá!
― Meus Tenente-coronel, os povo está com os Rita pá!
De tanto gritarem o seu apelo naquele estridente slogan que repetiam até à exaustão, aquele oficial foi obrigado a interromper a sesta e, em prol da pseudo política Psico-social enveredada pelo regime e de que era fervoroso defensor, e de que tanto dependia o seu êxito naquelas paragens do norte de Moçambique, conseguiu acalmar a população ali concentrada, prometendo que nada iria acontecer ao Cabo Rita, não deixando no entanto, de dizer ao oficial que o acompanhava e com a manifestação já dispersa e de maneira que mais ninguém o ouvisse:
Porque será que um “meia-leca” de merda destes consegue ter tantos admiradores no meio desta pretalhada?
Carlos Vardasca
13 de Agosto de 2011
Foto 1: O José Rita Ferreira junto da esposa no Encontro Nacional da Companhia de Caçadores 3309 em 2006.
Foto 2: O Rita junto de elementos da população no aldeamento Macua. Aquartelamento de Nangade. Moçambique 1972.

[1] José Rita Ferreira, 1º Cabo Mecânico Auto NM 17487970 da Companhia de Caçadores 3309.
[2] Comandante do Batalhão de Artilharia 2918, estacionado em Nangade.
[3] Tecidos coloridos que serviam de vestes às mulheres das populações nativas.
[4] Aldeamentos das etnias Maconde e Macua.

1 comentário:

Antonio Saramago disse...

É um prazer passar por aqui e reviver episódios.