terça-feira, 25 de setembro de 2007

... Finalmente, retirámos do aquartelamento de Nova Torres


(...) Viver em Nova Torres era insustentável. As constantes inundações do aquartelamento tornavam a vida ali bastante difícil, para além de ser uma posição fácilmente observável do outro lado da fronteira, e a necessidade de retirar daquela zona era uma questão de humanidade, pois o moral das tropas já vinha sofrendo algumas brechas, e os protestos, apesar de em surdina, já vinham subindo de tom embora circunscrito a um número restrito de militares mais esclarecidos. É com esse objectivo que se inicia no dia 25 de Setembro de 1971 a operação "OCULAR 2" para abertura do novo estacionamento da Companhia de Caçadores 3309 nas coordenadas 3946,2.1056,2. Nesta operação (de grande envergadura envolvendo vastos meios militares) estiveram envolvidos 3 Grupos de Combate da Companhia de Artilharia 2745, 1 Grupo de Combate da C.CAÇ. de Mocimboa da Praia, 2 Grupos de Combate da Companhia de Caçadores 3309, Grupo Especial 210, 11º Pelotão de Artilharia/GAC 6 (destinada a reforçar a C.CAÇ. 3309 com sede ainda em Nova Torres) 1 Pelotão da Companhia de Engenharia 2736 e 1 Esquadrão de Morteiros 81mm. Durante o período de construção do Aquartelamento, o 5º Pelotão de Artilharia da 2ª Bateria/GAC 6 efectuou em Nangade 40 tiros de Obus para as zonas prováveis de ataque inimigo. A operação de retirada de Nova Torres terminou em 01 de Outubro de 1971, com a totalidade da C.CAÇ. 3309 finalmente estacionada no novo Aquartelamento.
O novo Aquartelamento passou a denominar-se Tartibo, situado numa pequena elevação que o protegia das inundações constantes resultante da junção das águas dos rios Rovuma e Metumbué, mas que continuou a ser o prolongamento do inferno a que a Companhia de Caçadores 3309 esteve sujeita durante a sua permanência no norte de Moçambique, junto à fronteira com a Tanzânia (...)
Carlos Vardasca
25 de Setembro de 2007
Nota: Na foto, o momento da retirada de Nova Torres da Companhia de Caçadores 3309 rumo ao novo Aquartelamento de Tartibo.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Cá estou eu, desde 21 de Setembro de 1949.

(...) É verdade! já lá vão cinquenta e oito anos. Não penso viver outros tantos, mas lá que me dá vontade... lá isso dá.
Há quatro anos que a II Grande Guerra Mundial findara, quando a Gracinda, com 24 anos de idade, dera entrada no Hospital S.José (Enfermaria de Santa Bárbara) para me parir com três quilos e trezentas gramas. A minha mãe viera muito cedo para Lisboa, "arrancada" aos 16 anos da aldeia de S.Pedro de Agostém, no Concelho de Chaves, para procurar novos horizontes e participar no progresso que diziam estar a acontecer na capital, mas que as muralhas de granito e o páraco da aldeia se habituaram a esconder das jovens que tentavam tal odisseia.
Muito cedo se enamorou de um ordenança, que cumpria o serviço militar no Regimento de Artilharia Anti-Aérea nº 1 em Queluz, devido ao seu farto cabelo repuxado para trás, besuntado de espessa brilhantina que diziam parecer-se com Rodolfo Valentino, e que fazia furor das raparigas no Mercado da Ribeira.
Antes que alguma sopeira o levasse, a Gracinda nunca mais o largou e, devido a eles, cá estou eu desde 21 de Setembro de 1949 (...)

Carlos Vardasca
1949-2007
Nota: Na foto estão Carlos Vardasca (pai) Gracinda Vardasca (mãe) e Carlos Vardasca (filho)

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

03 de Setembro de 1971

(...) Como já vinha sendo hábito na época das chuvas, as águas do rio Rovuma e do rio Metumbué ao transbordarem das suas margens, alagavam totalmente o aquartelamento de Nova Torres que ficava situado entre aqueles dois rios. Foram dias dramáticos que a C.CAÇ. 3309 passou, ao ponto dos seus soldados terem que dormir em cima das árvores durante cerda de quatro semanas; receberem a sua correspondência e os víveres que eram lançados de helicóptero e que regra geral caiam dentro da água. Havia uma necessidade urgente de se encontrar uma outra posição mais elevada para se construir novo aquartalamento, e é com esse objectivo que no dia 03 de Setembro de 1971 três grupos de Combate da C.CAÇ. 3309 iniciam a Operação "BARCA 1" de patrulhamento e interdição da fronteira, sendo detectado um acampamento da FRELIMO com 5 palhotas. Foi efectuado um golpe de mão sobre o acampamento IN, sendo abatidos 5 elementos da guerrilha e capturadas duas Kalashnikov, assim como variado material de guerra. É precisamente neste local onde se situava a pequena base da FRELIMO, que mais tarde se vai construir o futuro aquartelamento da C.CAÇ.3309 a que se dá o nome de Tartibo, e onde esta Companhia irá passar os momentos mais dramáticos da sua missão no norte de Moçambique (...)
Carlos Vardasca
05 de Setembro de 2007
Nota 1: Na foto, elementos da C.CAÇ.3309 depois da conquista da base à FRELIMO.
Nota 2: Elementos retirados do Arquivo Histórico Militar. Região Militar de Moçambique. Batalhão de Artilharia 2918. História da Unidade, 14º Fascículo, página 1 (Setembro de 1971)

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

"...fomos para a guerra, mas nem todos eramos ingénuos..."


(...) É bastante compreensível que a grande maioria dos soldados tivessem ido para a guerra colonial com aquele espírito patriótico de "defender a pátria dos terroristas", embora transportassem em si todos os medos que lhe estavam associados, devido à sua participação num conflito com aquelas dimensões. O regime Marcelista assim o impunha, apoiando-se num povo com condições sócio-económicas muito frágeis, na sua grande maioria inculto e bastante vulnerável às "conversas em família". Uma pequena "minoria esclarecida" desertou, recusou-se a ir e por esse facto foi presa pela PIDE/DGS ou, por diversas circunstâncias, outros viram-se na obrigação de participar naquele conflito de má memória, sentindo que, se não fossem, as represálias do regime se fariam sentir sobre os seus familiares. Eu fui daqueles (entre muitos outros) que participei no conflito colonial com a perfeita convicção de para onde ia e o que estava em jogo (embora contrariado e com uma tremenda revolta dentro de mim) mas, apesar de tudo, todos nós, os que nos encontrávamos nessas circunstâncias, fomos para a guerra mas não eramos ingénuos.

Havia sempre formas de exteriorizar os nossos pensamentos (embora de uma forma bastante discreta) ora conversando em surdina, ou pintando nas paredes das casernas algo que se relacionasse com esse descontentamento. Sabendo das minhas convicções, alguns elementos da C.CAÇ. 3309 um dia disseram-me:

- É pá Braz! tu que tens algum jeito para o desenho, pinta lá qualquer coisa mais sujestiva aqui na oficina, para que as paredes não fiquem assim tão deslavadas.

Eu sabia muito bem o que eles queriam dizer com "sujestiva", mas havia que ter bastante cautela com aquilo que diziamos ou faziamos, porque haviam sempre olhos bem atentos aos nossos movimentos. Ainda estava bem presente em mim o famigerado movimento de contestação de Maio de 68 e da Guerra do Vietname que acompanhei com bastante interresse através dos jornais e da televisão; o festival de Vilar de Mouros (formato antigo) que assisti em 1968 com apenas 18 anos, onde ouvi pela primeira vez ao vivo Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira entre outros; o Festival de Woodstock em 1969 que assisti à distância; todo aquele aparato do movimento Hippie que vivi com bastante entusiasmo, assim como o programa Zip-Zip da RTP que de certa forma transmitiu coisas muito interessantes para a época.

Então, lembrei-me (e como na altura; 08 de Agosto de 1971, estava a decorrer o Festival de Vilar de Mouros onde actuaram Elton John, Manfred Mann, Quarteto 1111 entre outros, como foi o caso de Amália Rodrigues que me pareceu nada ter a ver com aquele estilo de festival, mas enfim...) de desenhar nas paredes da oficina da C.CAÇ. 3309 no aquartelamento de Nangade, algo alusivo aos movimentos hippies e que está exposto na foto, que fiz acompanhar com os nomes dos camaradas que faziam parte da "Ferrugem" (1) e das suas terras de origem para lhe dar um ar mais discreto e inofensivo.

A coisa parecia ingénua, mas a mensagem de protesto e de contestação à guerra estava lá, (Make Love Not War) tanto que o "grafitti" não foi lá muito do agrado do nosso capitão que ainda insinuou para que o apagasse-mos. Entretanto, e como ele foi destacado para o aquartelamento de Tartibo, aquelas paredes, para nossa satisfação continuaram decoradas ao nosso gosto. Era naquela oficina que se faziam os grandes petiscos e nos refugiavamos da rotina do "arroz com peixe", mas também era ali que, encharcados em "Laurentinas" ou "2M" e empanturrados por galinhas gamadas nos aldeamentos" que os nossos desabafos se transformavam em lamentos e estes em protestos, e se exteriorizavam as nossas inquietações, embebidas em revolta por nos terem enviado para aquela guerra "sem jeito nem prosa" (...)


(1) Denominação atribuída aos militares com a especialidade de Condutores e Mecânicos da Companhia de Caçadores 3309.


Carlos Vardasca
24 de Agosto de 2007

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

23 de Agosto de 1971


(...) Decorria o dia 23 de Agosto de 1971, e a coluna de reabastecimento seguia lentamente num movimento agonizante, debaixo de um calor abrasador que nos encharcava o camuflado e nos queimava o rosto carregado de incertezas. Tendo saído de Palma pela manhã com destino ao aquartelamento de Pundanhar, antes deste aquartelamento e ao quilómetro 10, a viatura onde eu seguia accionou uma mina anti-carro que me projectou do volante para as traseiras da viatura, onde apenas sofri pequenas escoriações num braço e sem qualquer gravidade. Como logo de seguida a coluna fora atacada com armas automáticas pelos guerrilheiros da FRELIMO, só após o cessar do tiroteio é que se pode tratar dos soldados feridos em virtude do rebentamento da mina. Ao lado da Berliet com a parte de frente totalmente destruída, agonizava um soldado africano das nossas tropas e pertencente à Companhia de Caçadores 2703 estacionada em Pundanhar, que, ao saltar da viatura após o rebentamento da mina anti-carro, accionou uma armadilha colocada na berma da picada, onde um dos estilhaços da granada lhe perfurou profundamente a cabeça, ligeiramente acima do olho. Antes de chegar o enfermeiro, ainda tive tempo de lhe tapar o ferimento com vários lenços e até com parte do meu camuflado que rasguei na tentativa de lhe estancar o sangue, mas, tal era a profundidade do ferimento que o sangue não parava de sair em golfadas. Passados quase 35 anos, parece que ainda estou a ouvir aquele soldado a implorar-me (e mais tarde ao enfermeiro que entretanto chegou) que o salvasse, dizendo ao mesmo tempo (no meio da sua agonia que o fazia triturar as palavras à medida que ia desfalecendo) como se adivinhasse a sua "sorte":

- Salvem-me, porque ainda quero ver os meus filhos a brincar no aldeamento onde nasci...

- Salvem-me por favor, porque ainda quero ouvir o som dos batuques da minha aldeia, e cheirar a mandioca esmagada no pilão pelos braços frágeis da minha mulher...

Não cheguei a saber o nome deste soldado porque não pertencia à minha Companhia, mas seguia ali na coluna de reabastecimento fazendo parte de um pelotão de protecção à mesma. Antes de o helicóptero de evacuação chegar, já o soldado africano tinha falecido apesar dos esforços do enfermeiro, sendo evacuado para o Hospital de Mueda, assim como outros feridos com alguma gravidade em resultado da emboscada que se seguiu ao rebentamento da mina anti-carro, e às várias armadilhas que rebentaram e que estavam espalhadas pela mata circundante.

Porque também alguns soldados moçambicanos foram vítimas da violência colonial. Porque a "bota colonialista" também esmagou e enlutou mulheres moçambicanas, aqui fica um abraço solidário de quem sobreviveu.

Carlos Vardasca
23 de Agosto de 2007

Nota: Na foto, o momento da evacuação do 1º Cabo Atirador NM 13382970 da Companhia de Caçadores 3309, António Natálio Sequeira Serrinha, gravemente ferido em 14 de Julho de 1971.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

"a liberdade de escolhermos os nossos livros"


(...) desde muito criança que tenho hábitos de leitura. Nem sempre os livros que passaram pelas minhas mãos foram os melhores, mas era o que se arranjava na altura. Tive experiências traumatizantes no que se relaciona com o acesso à leitura mas, neste caso, por imposição do colégio onde me encontrava internado. Quando a Guerra Colonial começou, em 1961, tinha eu 11 anos, e encontrava-me no Colégio Nuno Álvares Pereira em Lisboa e, por paradoxo que pareça (isto contado ninguém acredita) todas as noites, antes de nos deitarmos e apesar da nossa tenra idade, obrigavam-nos (como se nós percebesse-mos alguma coisa do que se estava a passar) a ouvir os comentários do famigerado comentador do regime Ferreira da Costa, que, via rádio, informava o país dos últimos acontecimentos em Angola. Um dia, para nosso espanto, foram-nos distribuídos (o que nunca deveria ser feito a crianças daquela idade) pequenos livros, cujas ilustrações se referiam ao conflito colonial em Angola, onde se podiam ver famílias de colonos e seus colaboradores massacrados pela UPA. É claro que o objectivo do regime era tentar moldar o pensamento daquelas crianças, e torná-las permeáveis à assimilação, através do medo, a uma lógica colonialista em que muitas delas (como foi o meu caso) mais tarde foram obrigadas a participar.

Vejam lá! isto tudo a propósito de leitura. De facto as conversas são como as cerejas. Apesar de naquela "clausura" do colégio e da manipulação das consciências de que muitas crianças foram vítimas na maioria das instituições do Estado Novo, cada uma delas hoje tem personalidade própria, e os seus hábitos de leitura não têm nada a ver com os que lhes tinham sido impostos. Isto tudo para vos dizer que, como já vem sendo hábito quando vou de férias, levei para ler dois livros bastante interessantes (aliás, um já ia quase meio lido) e que me deram bastante prazer. Um deles foi, "A ilha da trevas" de José Rodrigues dos Santos, romançe que retrata a situação em Timor-Leste desde a invasão indonésia até à independência. É de facto um livro dramático sobre a história de um povo sofrido, mas que soube lutar pela sua liberdade. O outro, "mais leve", com o título, "As mulheres do meu pai" de José Eduardo Agualusa, que nos transporta para o fascínio de África, revela-nos a intensa procura da personagem pelas mulheres de seu pai, que se reparte por Angola, África do Sul e Moçambique. Este livro é escrito de uma forma que, à medida que nos vamos envolvendo na sua história, vamos "saboreando" os vários frutos tropicais, sentindo a humidade do cacimbo e o fascínio do pôr do sol em África.
Se querem saber a minha opinião, são de facto dois livros que se recomendam (...)


Carlos Vardasca
23 de Agosto de 2007

sexta-feira, 20 de julho de 2007

As nossas primeiras baixas


(...) O aquartelamento de Nangade ficava situado num planalto (Planalto dos Macondes) e, na época, procedia-se à construção de uma estação de tratamento de àguas que passariam a ser bombeadas do rio Litinguinha, que ficava num vale a cerca de três quilómetros de distância. Naquele dia, de manhã, era necessário levar trabalhadores agrícolas membros da população local, que iam trabalhar nas machambas situadas junto àquele rio, e o Victor (Didiá) ofereceu-se para ser ele o condutor de serviço. Pelo caminho, encontrou o Sousa (Básico) também da Companhia de Caçadores 3309 que acabara de sair de reforço onde estivera toda a noite, convidando-o para ir com ele ao que este acedeu de imediato embora estivesse com mais vontade de se ir deitar.

- Anda daí "Básico", faz-me lá companhia: - nós não demoramos nada e voltamos num instante.

Depois de os trabalhadores agrícolas e um Furriel que estava adido ao Batalhão de Artilharia 2918 entrarem para o Unimog 404, O Victor inicou o percurso na picada com uma descida muito íngreme logo à saída de Nangade e que dava acesso ao vale, não se prevendo que algo de trágico estaria para acontecer.

Depois de terem percorrido cerca de dois quilómetros e meio e prestes a chegar ao posto avançado situado junto ao rio, dá-se uma violenta explosão de uma mina anti-carro altamente reforçada, causando a morte de 8 trabalhadores agrícolas, ficando cinco deles gravemente feridos, assim como o Furriel que também seguia na viatura que sofreu ferimentos ligeiros. O Sousa, teve morte imediata, mas o Victor, com a violência da explosão ainda foi cuspido para fora da viatura indo cair no mato sem qualquer ferimento, sendo no entanto esmagado pelo Unimog 404 que, devido ao impacto de explosão, se elevou no ar e foi precisamente cair em cima dele, esmagando-o, provocando a sua morte.

A Companhia de Caçadores 3309 estava em Cabo Delgado à apenas cinco meses quando no dia 20 de Julho de 1971 sofreu logo aqueles duas baixas de uma forma tão trágica. Em Tartibo, onde a C.CAÇ. 3309 estava estacionada, a notícia foi recebida com grande consternação e pesar, uma vez que tanto o Victor como o Sousa eram dois bons companheiros e amigos e, acima de tudo, dois excelentes camaradas (...)

Aqui fica a singela homenagem e um abraço solidário de quem sobreviveu.


Carlos Vardasca
20 de Julho de 2007


Nota: Na foto pode-se ver o estado em que ficou o Unimog 404 após a explosão, assim como as fotos do Victor e do Sousa.