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Por razões de ordem táctica, de 14 a 20 de Junho de 1972 inicia-se a Operação "INTEGRAL" comandada pelo Capitão Barros (1) onde participaram 2 Grupos de Combate desta Companhia, com o objectivo de fazer protecção às máquinas de Engenharia na abertura do itinerário entre Tartibo e as coordenadas (1059-3959) onde foi aberto o novo Aquartelamento de Muidine. Entretanto, 2 Grupos de Combate desmontaram a Aquartelamento de Tartibo, carregaram e transportaram todo o material da Companhia em coluna-auto para Muidine onde a Companhia de Artilharia 3506 ficou instalada, onde Grupos de Combate da Companhia de Caçadores 3309 ali se deslocaram por variadíssimas vezes em missão de protecção, mais concretamente o 3º Grupo de Combate que ali permaneceu de 23 de Setembro a 25 de Outubro de 1972.
É neste contexto, e no período de rendição da C.CAÇ. 3309 pela C.ART. 3506 que em Março de 1972 ocorre algo insólito, que comprova o espírito de camaradagem existente entre os soldados em teatro de guerra, mesmo que os actos de coragem sejam exercidos em circunstâncias também adversas, mas em que o inimigo não é a FRELIMO mas o próprio meio natural. Por ser um acto louvável, digno de registo e um exemplo que marca os heróis, passo a transcrever a seguinte Ordem de Serviço emanada do Batalhão de Artilharia 3876, que louva a acção do 1º Cabo Luís Filipe Lopes Gomes, da Companhia de Artilharia 3506:
(...) Que em treze de Junho de 1972, foi louvado o 1º Cabo NM 01535171 Luís Filipe Lopes Gomes, porque no dia dezasseis de Março de 1972, tendo-se oferecido voluntário para uma patrulha de barco no rio Metumbué, quando o grupo em que seguia foi atacado por um enxame de abelhas selvagens, ataque esse em que as abelhas se contavam por milhares e durou cerca de seis horas, deu mostras de abnegação e força de vontade surpreendentes.
Apesar de ser dos mais atingidos, quando viu que o seu comandante de Companhia já estava praticamente sem forças e estando todos metidos dentro do rio, esteve durante perto de duas horas a segurar fora de água a cabeça do Comandante de Companhia impedindo que o mesmo se afogasse. Quando mais tarde, depois do sol pôr no regresso rio acima, num barco em condições muito deficientes, foi ainda o 1º Cabo Gomes quem com muito sacrifício, apesar de gravemente doente e praticamente sem ver, conduziu o barco rio acima até à Companhia, podendo dizer-se sem receio de exagero, que se deve à sua actuação não ter havido consequências mais graves.
Demonstrou o 1º Cabo Gomes grande admiração, espírito de sacrifício e espírito de camaradagem, pelo que é digno de ser louvado e apontado como exemplo a seguir por todos os seus camaradas (...)
(Ordem de Serviço nº 112 de 13 de Junho de 1972 do Batalhão de Artilharia 3876)
In: Região Militar de Moçambique. Batalhão de Artilharia 3877. História da Companhia de Artilharia 3506, 3º Fascículo, período de 25 de Maio de 1972 a 25 de Junho de 1972, páginas 2 e 3. Arquivo Histórico Militar de Lisboa, 2008.
(1) Gabriel Monteiro Magno de Barros, Capitão da Companhia de Artilharia 3506 (de alcunha o "Capitão Pistolas") falecido em 28 de Abril de 1992.
Foto 1: Mapa da localização do Aquartelamento de Muidine. (Cedido pelo ex-Alferes Miliciano Bernardino Cassiano da Companhia de Caçadores 4243, que foi render a Companhia de Artilharia 3506 a Muidine). No mesmo mapa estão assinalados com uma cruz, os locais e as datas do falecimento em combate de militares da Companhia daquele ex-Alferes.
Foto 2: Vista aérea do Aquartelamento de Muidine, vendo-se no canto inferior direito uma extensa lângua onde as nossas tropas se abasteciam de água. No topo da foto pode ver-se o rio Rovuma e as montanhas da Tanzânia.
Foto 3: 1ª Secção do 3º Grupo de Combate da Companhia de Caçadores 3309 comandada pelo Furriel Leite (o único que não está em tronco nu), quando esteve em missão de protecção no Aquartelamento de Muidine.