
(...) Depois de ter sido rendida no Aquartelamento de Tartibo pela Companhia de Artilharia 3506, em 18 de Fevereiro de 1972 a Companhia de Caçadores 3309 regressou a Nangade, onde de facto já se respirava alguma segurança embora aparente. Por questões de estratégia militar, mais tarde houve necessidade de construir um novo aquartelamento, mais próximo do itinerário que ligava os aquartelamentos de Nangade, Pundanhar e Palma (e de zonas onde se situavam os trilhos de infiltração da FRELIMO no norte de Moçambique) tendo o aquartelamento de Tartibo sido abandonado. Mais uma vez a C.CAÇ. 3309 foi chamada a intervir em 23 de Setembro de 1972, mas desta vez somente com o 3º Pelotão, que foi destacado para participar na construção do novo aquartelamento da C.ART 3506 a que se deu o nome de MUIDINE. Em operações de reabastecimento daquele aquartelamento, ainda lá me desloquei algumas vezes e, em todas elas, a sensação de isolamento era atroz e de uma violência inesquecível. Como era possível, que naquele amontoado de tendas, com um perímetro defensivo muito pequeno, protegido apenas por montes de areia em todo o seu redor e sem qualquer árvore que lhe emprestasse qualquer sombra, vivessem quase duzentos homens, para não falar do perigo que espreitava a cada instante vindo da mata circundante. Foi um alívio quando (após a construção daquele aquartelamento), no dia 25 de Outubro do mesmo ano o 3º Pelotão da C.CAÇ. 3309 regressou a Nangade, com os seus soldados extenuados, como se tivessem regressado de uma tempestade de areia, cobertos de uma camada de pó fino que não lhes deixava ver a expressão colectiva de exaustão. Foi de facto uma aventura desgastante (entre tantas outras vividas pela C.CAÇ.3309, como foi um dos casos, a "epopeia trágico-marítima" de Nova Torres), ter sobrevivido naquele isolamento e em condições tão precárias, a avaliar pela foto aérea de MUIDINE (irónicamente construido em Pentágono) tirada de helicóptero, que retrata bem a sensação de abandono e de desprezo a que foram votados todos os soldados que por ali passaram. Por isso não é estranha a frase de um piloto de helicóptero que ali se deslocou pela primeira vez para levar o correio e víveres, quando do ar deparou com a violência daquele "degredo":
- Porra! é uma sensação muito estranha que se vive daqui de cima, tal é o isolamento a que esta malta foi sujeita:
- Estes gajos até pareçe que foram mandados para aqui de propósito para morrer! (...)
Carlos Vardasca
13 de Dezembro de 2007
Foto: Vista aérea do Aquartelamento de MUIDINE.



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