sábado, 19 de abril de 2008

"Há festa no cais de Lourenço Marques"


(...) Depois de ter feito escala por Luanda em 05 de Fevereiro, nove dias depois o navio "Niassa" atracava no porto de Lourenço Marques (Maputo) a 14 de Fevereiro de 1971 pelas 10,00 horas. O navio pareceria "exausto".
Depois de encostar à muralha, o velho navio parecia querer descansar de uma viagem prenhe de angústias, onde as incertezas começavam a avolumar-se à medida que os soldados se aproximavam da frente de batalha. Foi ali naquele porto que a todo o Batalhão foram entregues as G3 e outro material bélico ligeiro, material esse que os iria acompanhar até aos diversos destacamentos onde iriam ficar estacionadas as diversas Companhias que compunham o Batalhão de Caçadores 3834. À chegada do navio "Niassa" àquele porto, aguardava-o no cais uma fanfarra do exército e um cordão de tropas da Polícia Militar.
Os primeiros, entoavam uma marcha triunfal, que pretendia exaltar o espírito "patrioteiro" de quem há muito fora "arrancado do aconchego familiar" e se sentia prisioneiro do enjoo, e os segundos, tentando prestar guarda de honra a um amontoado de jovens que, depois de viajarem "acorrentados" nos porões, se viam agora alvo de uma cerimónia efémera, elevados momentaneamente à categoria de "celebridades" que muito rapidamente seriam esquecidas.
Sobre a população civil, nem viva alma compareceu no cais para "glorificar" aqueles militares, que a uns ia proteger alguns interesses e permitir-lhes uma vida faustosa na capital, mas a outros (apesar dos fracos recursos), garantir um ilusório "novo riquismo" personificado na "criadagem que mantinham a troco de nada", e a exibiam como troféus nas fotos que enviavam para a "Metrópole".
Era frequente ouvir-se nos seus "bocejos coloniais" um total desprezo por tudo o que se passava mais a norte, dizendo, com alguma desenvoltura e arrogância, revelando um total desprezo por todos quantos foram "arrancados" dos seus lares e ali chegavam para proteger a sua opulência:
- Guerra aqui? Nós não sentimos nada! - essa coisa das minas e das emboscadas e ataques, isso é lá para cima para norte, e além disso não é nada connosco".
Indiferente a tudo isto, o "Niassa", esse monte de ferro que há muito devia estar num qualquer estaleiro de desmantelamento, largou do cais de Lourenço Marques no dia seguinte pelas 21,00 horas rumo a Nacala, onde chegaria pelas 16,00 horas, já sem a Companhia de Caçadores 3311 que desembarcara em Lourenço Marques para seguir aerotransportada para Negomano, seu local de destino, onde chegou no dia 18 do mesmo mês (...)

Carlos Vardasca
19 de Abril de 2008

Foto: Momento da chegada do navio "Niassa" ao porto de Lourenço Marques (Maputo) no dia 14 de Fevereiro de 1971, transportando a bordo, entre outros Batalhões, o Batalhão de Caçadores 3834 de que fazia parte a Companhia de Caçadores 3309.


1 comentário:

Dumuro disse...

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