quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

24 de Janeiro de 1971. "Uma viagem de regresso incerto"


(...) O tempo não estava muito diferente do dia de hoje, só que naquela manhã um bando de gaivotas sobrevoava o Niassa, talvez em direcção a uma das lixeiras da cidade de Lisboa, depois de desesperadas terem esperado em vão algum alimento de uma das traineiras que acabara a faina e fundeara no Tejo. As tropas já haviam desfilado defronte da tribuna apinhada de oficiais generais, ladeados por "serviçais ocasionais da caridadezinha" do MNF(1), e estavam agora a ser "empurradas" para o fundo dos porões daquele velho cargueiro, que há muito já deveria ter sido desmantelado num qualquer estaleiro de sucata. Eram cerca de 11,00 horas do dia 24 de Janeiro de 1971, e o Cais de Alcântara assistia ao embarque do Batalhão de Caçadores 3834 composto pela Companhia de Comando e Serviços, da Companhia de Caçadores 3309 (de que eu fazia parte) e das Companhias de Caçadores 3310 e 3311, todas elas com destino ao reforço das tropas estacionadas em Moçambique, dando continuação à ocupação colonial daquele território banhado pelo Índico.
No cais o descontentamento dos familiares era generalizado, ouvindo-se por entre laivos de patriotismo alguns desabafos quase que em surdina, que expressavam outros protestos, mas também uma forte angústia por verem partir mais um familiar, cujos braços deixariam de empurrar o arado e espalhar as sementes na terra, ou de atear o fumeiro até que o cheiro das chouriças trespassasse os telhados de ardósia. Pelas 12,00 horas e após cinco apitos estridentes, o Niassa largara do cais ao som dos gritos e do acenar dos lenços que se transformavam numa onda de ausência colectiva. Amontoados no fundo dos porões, onde outrora se apinharam fartas mercadorias e se respirava um ar de tons ocres que tornava a respiração sufocante, alguns soldados meio pálidos eram presa fácil do enjoo, com o Niassa a deixar-se embalar pelas ondas do Atlântico já muito para lá da Torre do Bugio, enquanto os oficiais e sargentos se "espreguiçavam" nos seus camarotes e se banqueteavam servidos por empregados de mesa nos salões do navio, numa desigualdade tão perversa que aguçava a revolta dos mais inconformados.
Faz hoje 37 anos que iniciámos aquela "odisseia trágico-marítima", dando início a "uma breve pausa num tempo das nossas vidas" de onde alguns de nós não regressaram, arrancados à força de uma vida já gasta de cansaço, "sem jeito nem prosa".
Aqui fica um abraço solidário de quem sobreviveu (...)

Carlos Vardasca
24 de Janeiro de 2008

(1) Movimento Nacional Feminino.
Fotos: 1. Gare Marítima do Cais de Alcântara no dia da partida do Niassa.
2. A bordo do Niassa, num último adeus.

1 comentário:

António disse...

Meu caro Carlos
Há muito que as lágrimas não me vinham tão espontâneas. Tudo o que dizes é da mais pura das verdades. Fui um dos "previligiados" na viagem do Niassa. Era oficial miliciano e para te dizer a verdade fui umas quantas vezes ao porão ver o meu pessoal e sou testemunha das condições em que os praças, permite-me a expressão, foram transportados... nem os animais. Pena que não se aborde também o âmbiente de "festa" em que fomos recebidos em LM quer pela população - (guerra, isso é lá para cima não é? - foi-me perguntado a mim na Pastelaria Princesa em LM) ou pelas madames do Movimento Nacional Feminino que nos deram uns beijinhos acompanhados de uns quantos aerogramas que conservo religiosamente os que me tocaram, bem como três bolas de futebol das quais duas estavam furadas, uns baralhos de cartas que à segunda lerpa foram para o lixo e mais não sei quê. Foi-lhes pedido, pois havia quem quizesse deixar de ser analfabeto e outros que queriam tirar, pelo menos, o antigo 2º ano. Prometeram os livros, pois os "professores" seriamos nós. Até hoje estou à espera de resposta. Tenho pena de não ter a tua verve mas os teus textos são lapidares. Continua e ... um abração Camacho