segunda-feira, 14 de maio de 2007

Viagem de ida, sem volta...


Navios que partem indiferentes
sequiosos por sulcar o mar.
Nos porões homens exaustos,
angustiados, expulsos do lar.

Lenços levantados da dor
de uma separação inesperada,
Cais da Rocha, lágrimas sem rosto
por uma partida forçada.

África no horizonte,
ecoam estrondos de revolta,
corpos silenciados, vencidos,
numa viagem de ida, sem volta...



Carlos Vardasca
11 de Setembro de 1968

Na foto: Embarque da Companhia de Caçadores 3309 em 24 de Janeiro de 1971.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

10 de Maio de 1971


(...) Desde o dia 09 de Maio de 1971 que se iniciara a Operação "Baldeação", que consistia numa coluna de transporte, com vista a concretizar o 2º escalão de rendição em Nova Torres da Companhia de Artilharia 2745 pelos 3º e 4º Pelotões da Companhia de Caçadores 3309 que estavam em Nangade, e agora se juntavam ao resto da Companhia em Nova Torres. Nesta operação, aproveitou-se esta coluna para fazer o reabastecimento daquele aquartelamento. No dia 10 de Maio de 1971, ao proceder-se à descarga dos mantimentos das viaturas junto ao rio Metumbué, um elemento da C.CAÇ. 3309 accionou uma mina anti-pessoal a cerca de 10 metros da picada, ficando gravemente ferido, tendo-lhe sido amputada uma perna.

O companheiro em causa era o Soldado Atirador, NM 71269470 Elias Riça, que pertencia ao Grupo de Integração nº 55 oriundo daquela ex-colónia, e que fora incorporado na C.CAÇ. 3309 na sua missão no norte de Moçambique.

Ao recordar este facto passados que são 36 anos do ocorrido, presto aqui uma justa homenagem a todos os companheiros africanos que integraram o exército colonial, e que regressaram às suas terras estropiados pelos horrores da guerra, e aos que "não mais voltaram a ouvir os batuques nas suas aldeias, nem sentir o cacimbo das manhãs, envoltos nos seios quentes das suas mulheres" (...)

Para todos eles, um abraço solidário de quem sobreviveu.

Carlos Vardasca
10 de Maio de 2007
Na foto: Transbordo das mercadorias no rio Metumbué, onde se deu o acidente.

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Morreu o "guerrilheiro da Malcata"


(...) Era assim que ele se classificava. Habituado desde muito jovem a fugir à GNR, por montes e vales da serra da Malcata, no tráfico de café pelas fronteiras de Espanha que dizia ser o seu sustento. Sempre rebelde e "danado" por o terem arrancado daquelas cercanias e o enviarem para a guerra: - outras cercanias bem distantes mas onde outro perigo o espreitava por detrás de cada morro, refugiava-se nas "Laurentinas" que "emborcava" sem destino até que a conspiração servisse de mote a outros protestos em jeito de prosa.

A meio da noite, quando a coluna de reabastecimento ficou no aquartelamento de Pundanhar para no outro dia prosseguir para o aquartelamento de Nangade, acordei devido ao desconforto do local onde dormia e à chuva torrencial que se abatia sobre aquele posto avançado no norte de Moçambique. Dormia-mos no chão, debaixo do alpendre coberto de colmo das palhotas das populações locais que serpenteavam por entre as instalações militares.

Uma pequena luz que parecia emitir sinais de fumo e que brilhava na escuridão, fez com que me aproximasse à procura de alguém com quem conversar. Era o Nabais, que àquela hora ainda se fazia acompanhar pela latinha da "Laurentina" que dizia ser o "whisky dos guerrilheiros", e que navegava num monólogo envolto em "rabujice", produzindo um vocabulário meio desarticulado (ora contra a FRELIMO, contra os "Chicos", ora contra o pároco da aldeia que dizia "papar" as miúdas lá do lugarejo) , onde apenas se davam a entender meias frases:

- Cabrões, não me apanharam na Malcata e agora querem-me "limpar o sebo" aqui nos "subúrbios do céu". O seu destino começara ali mesmo a ser traçado. Após o regresso da guerra emigrou para o Canadá, onde se "aliviou" das dificuldades que lhe fizeram calcorrear por entre falésias e "trocar as voltas" aos algoses do regime (...)

João Luis dos Santos Nabais, ex-Soldado Condutor Auto Rodas da Companhia de Caçadores 3309, faleceu hoje, dia 07 de Maio de 2007 vítima de doença prolongada.

Ao "guerrilheiro da Malcata" aqui fica um abraço solidário do amigo


Carlos Vardasca

07 de Maio de 2007

domingo, 6 de maio de 2007

...e o meu filho não me escreve porquê?


(...) as cartas que lhe enviava com alguma assiduidade, deixaram de lhe ser entregues pelo Sr. carteiro durante pelo menos cerca de um mês. Eu adivinhava a preocupação da minha mãe (sempre em constante frenesim) mas estava impossibilitado de lhe escrever. Podia ter pedido a alguém no hospital que escrevesse por mim, mas o mais certo seria que, a diferença na caligrafia (mesmo que acompanhada das devidas explicações) ainda levantaria maiores preocupações. No dia 03 de Janeiro de 1972, a coluna de reabastecimento onde seguia, foi alvo de uma violenta emboscada pelos guerrilheiros da FRELIMO entre Palma e Pundanhar, tendo as nossas tropas sofrido algumas baixas. Eu tinha sido atingido com um tiro numa mão, e fora evacuado na picada de helicóptero para o Hospital de Mueda, onde permaneci durante um mês.

Nunca contei à minha mãe o porquê (justifiquei-me sempre com a distância e o atraso no correio), e até talvez nem adiantasse contar-lhe naquela altura porque ela também nunca viria a saber, dado que a PIDE "vasculhava" toda a correspondência, com o objectivo de encontrar nas "entrelinhas dos desabafos" algum lamento, que classificaria logo como um protesto ou uma mera "conspiração". Nem mesmo depois de ter regressado de Moçambique, a Gracinda ficou a saber os motivos da ausência de correspondência (...)

Como hoje é dia da mãe, aqui fica a minha confissão...esteja ela onde estiver...


Carlos Vardasca

06 de Maio de 2007

sábado, 5 de maio de 2007

"A minha miúda era a Laurentina"

(...) Foi de facto uma "miúda" que nunca me abandonou. Na altura, escrevia-me com a Hermelinda que tinha conhecido na recruta em Lagos no verão de 1970, e entre nós já havia um "trocadilho" que roçava a intimidade apesar da distância. Mas como "os amores de verão vão-se como a areia", senti-me de facto "apaixonado" pela "Laurentina" devido à constante proximiddade. Era de facto uma relação muito próxima, ao ponto de colaborarmos mutuamente na satisfação das nossas necessidades. Quando eu me sentia mais quente ela refrescava-me, e quando ela estava aquecida era eu que a dotava de toda a frescura para que ambos nos sentissemos saciados. A "Laurentina" nunca me abandonou, e nos momentos de maior tristeza era ela que me transportava para outras loucuras que me faziam esquecer o inferno onde me encontrava. Por vezes, numa atitude de "infidelidade" trocava-a pela "2M", que pela sua frecura também me saciava na ausência da "Laurentina" que por vezes escasseava na cantina.
Sob o seu efeito, cantei muitas vezes em grupo "lá longe onde o sol castiga mais", e ainda hoje me recordo de como era gratificante esconder os meus medos no seu "colo" (...)

Carlos Vardasca
05 de Maio de 2007

sexta-feira, 4 de maio de 2007

"A curiosidade matou o gato"


Peguei nesta frase apenas por a consierar muito sugestiva para classificar alguém como eu. Estou de facto a tentar escrever um livro foto biográfico, que relata a história da Companhia de Caçadores 3309 durante a sua missão em Cabo Delgado, na fronteira com a Tanzânia. O seu título é "Do Tejo ao Rovuma. Uma breve pausa num tempo das nossas vidas". Já tem cerca de 250 páginas, e penso editá-lo em Março de 2008, pois é quando a C.CAÇ. 3309 faz precisamente 35 anos do seu regresso de Moçambique. Para a elaboração do mesmo, tenho-me deslocado com alguma regularidade ao Arquivo Histórico Militar em Lisboa, onde já adquiri bastante documentação que servirá de suporte aos temas que serão desenvolvidos no livro, e tenho contado também com a excelente colaboração de muitos companheiros meus que pertenceram à C.CAÇ. 3309 com o envio de imensas fotos, que foram introduzidas no livro após alguma selecção que tinha que ser necessária, dada a sua diversidade, privilegiando as fotos em grupo ou as que encerram em si alguma história que tenha significado ser contada com a sua ilustração.

Portanto amigos, e principalmente para o amigo Vitor Baião (ex-Oficial Miliciano da C.CAÇ. de Moçimboa da Praia de 1967/68) que mostrou interesse em saber algo sobre o livro, aqui fica um pequeno "cheirinho" da situação em que se encontra a obra, e para aguçar ainda mais o apetite de quantos estão interessados na edição da mesma, aqui vos deixo a capa para já terem uma ideia do mesmo...
Carlos Vardasca
04 de Maio de 2007

Foi uma "carecada geral"


(...) Antes de ser mobilizada para Moçambique, a C.CAÇ. 3309 esteve acampada na Serra da Olga nos arredores de Chaves.

Naquele dia, a refeição que vinha do quartel (BC10) estava demorada, e os militares estavam "esfomeados", dado ter sido um dia intenso de preparação de combate com simulações de ataques com bala real.

Como a refeição não havia meio de chegar, um grupo de soldados (onde eu me incluia) decidiu descer a montanha e encontrar algo de comer na aldeia que ficava na encosta daquele morro.

As populações foram muito amáveis, pois, para além das coisas que comprámos ainda nos ofereceram algumas chouriças, pão e uns "golos" de bagaço que parecia ter-nos aquecido a alma.

Aquele acto foi considerado pelo nosso Capitão como uma "deserção das fileiras" e à medida que iamos subindo a montanha na direcção do acampamento (alguns com galinhas e outros víveres) o Capitão, no alto do trilho por onde iamos chegando, ordenava que todos subissem para cima das árvores e cacarejassem, "em homenagem às pequenas aves que transportavamos com tanto carinho" e como castigo pelo abandono do aquartelamento.

Alguns subiram de imediato para cima das árvores sem contestar a decisão, outros, porque acharam aquela estranha ordem uma humilhação, recusaram-se, preferindo ser castigados de outra forma. Assim, foi ordenada a todos quantos se tinham recusado subir para cima das árvores e servirem de chacota aos restantes militares, que apanhasem todos uma "valente carecada".

Escusado será dizer que, em pleno inverno e com o frio que se fazia sentir, todos nós nos sentimos "despidos", mas ao mesmo tempo conscientes que tinhamos resistido a uma humilhação que alguém que "não conheciamos de lado nenhum" nos queria impor. Foi de facto uma "carecada geral", mas uma "carecada voluntária e de protesto" (...)


Carlos Vardasca

04 de Maio de 2007