domingo, 6 de maio de 2007

...e o meu filho não me escreve porquê?


(...) as cartas que lhe enviava com alguma assiduidade, deixaram de lhe ser entregues pelo Sr. carteiro durante pelo menos cerca de um mês. Eu adivinhava a preocupação da minha mãe (sempre em constante frenesim) mas estava impossibilitado de lhe escrever. Podia ter pedido a alguém no hospital que escrevesse por mim, mas o mais certo seria que, a diferença na caligrafia (mesmo que acompanhada das devidas explicações) ainda levantaria maiores preocupações. No dia 03 de Janeiro de 1972, a coluna de reabastecimento onde seguia, foi alvo de uma violenta emboscada pelos guerrilheiros da FRELIMO entre Palma e Pundanhar, tendo as nossas tropas sofrido algumas baixas. Eu tinha sido atingido com um tiro numa mão, e fora evacuado na picada de helicóptero para o Hospital de Mueda, onde permaneci durante um mês.

Nunca contei à minha mãe o porquê (justifiquei-me sempre com a distância e o atraso no correio), e até talvez nem adiantasse contar-lhe naquela altura porque ela também nunca viria a saber, dado que a PIDE "vasculhava" toda a correspondência, com o objectivo de encontrar nas "entrelinhas dos desabafos" algum lamento, que classificaria logo como um protesto ou uma mera "conspiração". Nem mesmo depois de ter regressado de Moçambique, a Gracinda ficou a saber os motivos da ausência de correspondência (...)

Como hoje é dia da mãe, aqui fica a minha confissão...esteja ela onde estiver...


Carlos Vardasca

06 de Maio de 2007

2 comentários:

Monica disse...

Já se tornou um vicio vir espreitar o teu Blog. Adorei rever a avó. Bjs

Carlos Vardasca disse...

Obrigado filhota

Esteja onde estiver, que a Gracinda descanse em paz, longe de uma vida intranquila que não a largou desde que saíu da sua aldeia para se aventurar em Lisboa.
Beijocas do pai