
(...) as cartas que lhe enviava com alguma assiduidade, deixaram de lhe ser entregues pelo Sr. carteiro durante pelo menos cerca de um mês. Eu adivinhava a preocupação da minha mãe (sempre em constante frenesim) mas estava impossibilitado de lhe escrever. Podia ter pedido a alguém no hospital que escrevesse por mim, mas o mais certo seria que, a diferença na caligrafia (mesmo que acompanhada das devidas explicações) ainda levantaria maiores preocupações. No dia 03 de Janeiro de 1972, a coluna de reabastecimento onde seguia, foi alvo de uma violenta emboscada pelos guerrilheiros da FRELIMO entre Palma e Pundanhar, tendo as nossas tropas sofrido algumas baixas. Eu tinha sido atingido com um tiro numa mão, e fora evacuado na picada de helicóptero para o Hospital de Mueda, onde permaneci durante um mês.
Nunca contei à minha mãe o porquê (justifiquei-me sempre com a distância e o atraso no correio), e até talvez nem adiantasse contar-lhe naquela altura porque ela também nunca viria a saber, dado que a PIDE "vasculhava" toda a correspondência, com o objectivo de encontrar nas "entrelinhas dos desabafos" algum lamento, que classificaria logo como um protesto ou uma mera "conspiração". Nem mesmo depois de ter regressado de Moçambique, a Gracinda ficou a saber os motivos da ausência de correspondência (...)
Como hoje é dia da mãe, aqui fica a minha confissão...esteja ela onde estiver...
Carlos Vardasca
06 de Maio de 2007
2 comentários:
Já se tornou um vicio vir espreitar o teu Blog. Adorei rever a avó. Bjs
Obrigado filhota
Esteja onde estiver, que a Gracinda descanse em paz, longe de uma vida intranquila que não a largou desde que saíu da sua aldeia para se aventurar em Lisboa.
Beijocas do pai
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