Mesa de apresentação da obra. Em primeiro plano o autor Carlos Vardasca, professor Joaquim Raminhos que moderou a sessão e o professor António Ventura a quem coube a apresentação do livro "Do Tejo ao Rovuma".
Um dos aspectos da sala, vendo-se a mesa e parte da assistência.
Aspecto geral da assistência, vendo-se na primeira fila ao centro, o director do jornal "O RIO" Brito Apolónia, que fez o registo da apresentação do livro para a comunicação social.
Discurso do autor durante a sessão de apresentação da obra
Caros amigos
O meu obrigado a
todos pela vossa presença na apresentação do livro “Do Tejo ao Rovuma”. Aproveitando
a vossa presença, queria no entanto deixar também alguns agradecimentos pois
sem a sua contribuição esta obra não seria possível:
Os
meus agradecimentos ao
Arquivo Histórico Militar, Arquivo Histórico da Marinha de Guerra, Instituto
Geográfico do Exército, Batalhão de
Caçadores 10 em Chaves, mas também à prestimosa colaboração dos meus
companheiros da ex- Companhia de Caçadores 3309 (alguns deles
presentes nesta sala) que se dignaram enviar os seus álbuns e outros
documentos, que possibilitou a recolha da maioria das fotos, documentos e outros
testemunhos que ilustram a presente obra.
Por outro lado,
queria agradecer à Câmara Municipal da
Moita e à Junta de Freguesia de
Alhos Vedros, que tiveram a amabilidade de me ceder este espaço da
Biblioteca Municipal – Núcleo Cultural José Afonso, bem assim como os
expositores.
Um agradecimento ao
meu amigo e professor Joaquim Raminhos
que aceitou participar na moderação desta sessão e, por fim, um agradecimento
especial ao professor António Gonçalves
Ventura, meu amigo que foi meu professor de história e também participante na Guerra Colonial em Moçambique, que muita
honra me deu ao gentilmente ter aceitado o meu convite para fazer a
apresentação deste livro de que vos vou, em breves palavras, falar um pouco
dele.
“Do Tejo ao Rovuma”
é uma obra foto biográfica e documental que conta a história de cerca de 140
homens pertencentes à Companhia de
Caçadores 3309, que foram mobilizados para combater em Moçambique durante o
período colonial, conflito de má memória para a nossa juventude, que nela foi
obrigada a participar e para onde foi enviada “sem jeito nem prosa”.
Guerra Colonial (pois é esse o nome adequado para uma
guerra com aquelas características) que deixou marcas dramáticas em toda a
nossa sociedade, ao ponto de ainda nos dias de hoje haver problemas familiares,
resultantes das perturbações psicológicas de que muitos jovens foram vítimas
por nela terem participado, muitos deles estropiados ou com graus de
deficiência que lhes comprometeu de vez o futuro, outros, por terem falecido em
combate (cerca de nove mil homens ao longo dos 14 anos de guerra) deixaram o
nosso país repleto de pais angustiados e de imensas “viúvas do império”.
Esta obra que agora deposito nas vossas
mãos foi fruto de uma intensa investigação que efectuei junto das entidades já
referidas, e nasceu de uma vontade imensa em não deixar esquecer “um
pedaço da nossa história”, de tentar recordar através deste registo
histórico um pouco do nosso passado e os momentos conturbados neles vividos.
Por sentir que a edição deste
testemunho era uma necessidade imperiosa e uma forma de preservar um pedaço da
nossa história recente, de que tenho o imenso prazer de colocar à disposição de
todos vós, tendo também como objectivo tentar preservar na nossa memória
colectiva uma vivência por vezes dramática da nossa presença por terras de
África, como participantes numa guerra colonial cujos interesses, apesar de nos
serem estranhos, não deixaram de mutilar uma grande parte da nossa juventude
que nela participou.
O título “Do Tejo ao Rovuma” resulta do facto da
Companhia de Caçadores 3309 (de que
eu fazia parte) ter embarcado no navio Niassa (ancorado no rio Tejo em 24 de
Janeiro de 1971, onde fomos despejados no fundo dos seus porões como se fossemos
uma vulgar mercadoria, enquanto que aos oficiais e sargentos lhes eram
facultados camarotes com todas as comodidades), e ser destacada para o norte de
Moçambique, na fronteira com a Tanzânia, nas margens do rio Rovuma, onde
conviveu com a brutalidade da guerra, e de onde nem todos regressaram em 6 de
Março de 1973.
Embora nesta obra se
descreva cronologicamente e através de documentos oficiais os factos mais relevantes
da vida destes militares por terras do Índico, “Do Tejo ao Rovuma” não
pretende legitimar nem fazer o elogio da Guerra Colonial, pelo contrário.
Ao longo das suas 351
páginas, para além de relatórios de operações efectuadas pelas nossas tropas,
descrições dos ataques da FRELIMO aos nossos aquartelamentos, descrição das
circunstâncias em que ocorreram as nossas baixas em combate (alguns desses
momentos ilustrados em fotos), irão encontrar também alguns textos escritos
pelo autor mas também por outros seus companheiros que aceitaram prestar os
seus depoimentos, onde se denota com alguma coerência e convicção uma visão
crítica e uma denúncia política da Guerra Colonial.
“Do Tejo ao Rovuma”
também não é indiferente à vida social das populações nativas, fazendo nas suas
páginas uma pequena descrição dos usos e costumes das etnias mais relevantes em
Cabo Delgado para onde a Companhia de
Caçadores 3309 foi destacada; — os Macuas e os Macondes — esta última de
onde era originária uma grande percentagem dos guerrilheiros da FRELIMO.
Nesta obra houve também
a preocupação, para além da denúncia dos horrores da guerra, em descrever os vários
momentos de angústia e de felicidade que se forjaram entre os militares, por
vezes em condições dramáticas de sobrevivência, refugiados no interior dos
abrigos a quando dos ataques da FRELIMO aos aquartelamentos, nas emboscadas de
que eram alvo no interior da mata densa, ou dormindo semanas em cima das
árvores para escapar às sucessivas inundações do seu aquartelamento pela junção
das águas dos rio Rovuma e Metumbué devido à época das chuvas, onde, apesar de
tudo, se solidificaram fraternas amizades que ainda hoje perduram, fruto da
partilha dos vários silêncios que inundaram os seus medos por um regresso que
por inúmeras vezes pareceu incerto.
Nas páginas deste
livro não se contam façanhas heroicas nem se faz o elogio do herói tão ao gosto
do Estado Novo (que por diversas vezes os tentou fabricar), mas tão só se conta
o dia-a-dia dos cerca de 140 homens, que no próprio dia do seu embarque para a
guerra no Cais de Alcântara já pensavam unicamente no seu regresso.
Nesta obra também se
recordam os momentos fascinantes do dia 25 de Abril que veio pôr fim ao
conflito colonial, mas também a convivência salutar e de extrema felicidade que
se vive actualmente, quando os sobreviventes e verdadeiros protagonistas desta
história se encontram anualmente em diversos pontos do país nos diversos Encontros
Nacionais de confraternização.
Finalmente, em “Do
Tejo ao Rovuma” faz-se, e com a devida honra, uma justa homenagem aos
que da Companhia de Caçadores 3309 e das restantes Companhias do
Batalhão de Caçadores 3834 tombaram em combate, e foram impedidos de
regressar daquela odisseia trágico-marítima, para onde foram empurrados em defesa
de um falso império que se adivinhava desmoronar em breve.
Foi em homenagem aos
meus companheiros tombados em combate, ao Victor,
ao “Almada” ao Sousa e ao “Alentejano”,
e a todos aqueles que tombaram em defesa de uma pátria que lhes foi madrasta
que escrevi “Do Tejo ao Rovuma”, e é a pensar em todos eles que aqui fica
um abraço solidário de quem sobreviveu.
A todos vós que se
dignaram estar presentes nesta sessão, mais uma vez o meu obrigado pela vossa presença.
O autor
Carlos Vardasca