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terça-feira, 20 de julho de 2010

Em homenagem ao "Didiá" e ao "Básico" falecidos em combate em 20 de Julho de 1971

(...) Em 20 de Julho de 1971, quando uma viatura Unimog 404, a gasolina, se dirigia à machamba, junto ao rio Litinguinha para levar elementos da população de Nangade aos trabalhos agrícolas, com três militares, accionou um engenho explosivo altamente reforçado, que causou a morte de dois militares da Companhia de Caçadores 3309, seis mortos civis, cinco graves e dois ligeiros, civis, além de um ferido ligeiro (Furriel).
A viatura ficou totalmente destruída. Mais tarde vieram a falecer dois feridos graves civis (...)
In: Relatório da Região Militar de Moçambique. Batalhão de Artilharia 2918. História da Unidade. Duodécimo fascículo (mês de Julho de 1971) página 2.

Albino Dias de Sousa. Soldado dos Serviços Básicos NM 07013070. Companhia de Caçadores 3309

(...) Depois de ter passado toda a noite de reforço num dos postos de defesa do aquartelamento de Nangade, Albino Dias de Sousa dirigia-se para a sua caserna para descansar, quando o Victor Manuel da Silva (1º Cabo condutor) que seguia num Unimog 404 com destino ao posto avançado das “Águas” o convidou para lhe fazer companhia. Sempre prestável como era sua característica, o Sousa subiu de imediato para a viatura, que tinha como missão levar elementos da população para os trabalhos agrícolas na machamba situada no vale do Rio Litinguinha, junto ao posto avançado de captação de água que era fornecida ao aquartelamento de Nangade.
A meio do trajecto da picada de acesso ao posto avançado cuja extensão era de cerca de três quilómetros, dá-se uma violenta explosão. O Unimog 404 tinha accionado uma mina anti-carro fortemente reforçada, e vitimou aqueles dois militares da Companhia de Caçadores 3309 no dia 20 de Julho de 1971, assim como 8 elementos da população, ferindo gravemente outros 3 e dois feridos ligeiros onde se incluía um Furriel adido à CCS do Batalhão de Artilharia 2918.
Albino Dias de Sousa nasceu em 17 de Fevereiro de 1949 na Freguesia de Lavra, concelho de Matosinhos. Era filho de Júlio Alves de Sousa e de Maria Dias da Silva. Na altura do seu falecimento era casado com Ana de Sousa Rosas e morava na Rua Caminho Novo, casa nº 30, Pampelido, Lavra. Ainda muito criança e apenas com 10 anos de idade, foi trabalhar como servente na construção da Petrogal em Matosinhos. Quando ingressou no serviço militar era operário da construção civil com a profissão de estucador, e foi incorporado em 20 de Julho de 1970 no Regimento de Infantaria (...)
In: "Do Tejo ao Rovuma. Uma breve pausa num tempo das nossas vidas". Moçambique 1971-1973. História da Companhia de Caçadores 3309, páginas 308 e 310. Carlos Vardasca. Alhos Vedros, 21 de Setembro de 2009.

Victor Manuel da Silva. 1º Cabo Condutor Auto Rodas NM 11694170. Companhia de Caçadores 3309

(...) No dia 20 de Julho de 1971, Victor Manuel da Silva e o Albino Dias de Sousa ambos da Companhia de Caçadores 3309 seguiam numa viatura Unimog 404, a gasolina, que se dirigia à Machamba, junto ao Rio Litinguinha (no Vale de Nangade) para levar elementos da população de Nangade aos trabalhos agrícolas. Aos cerca de 2 quilómetros do trajecto a viatura accionou um engenho explosivo altamente reforçado, ficando a viatura totalmente destruída e que causou de imediato a morte do Sousa.
O Victor, que fora cuspido para fora da viatura indo cair na mata sem qualquer ferimento, veio a falecer de seguida, dado que o Unimog 404 onde seguia, devido ao impacto da explosão, foi ao ar e, ao cair, caiu em cima dele o que provocou a sua morte. O mesmo acidente provocou ferimentos ligeiros num Furriel que estava adido ao Batalhão de Artilharia 2918 e que participava na construção da Estação de Tratamento de Águas, e fez também cinco feridos graves e dois ligeiros assim como a morte de mais seis civis. Mais tarde vieram a falecer dois dos feridos graves.
Victor Manuel da Silva nasceu em 10 de Maio de 1949 na freguesia do Lumiar em Lisboa, e era filho de António Patronilo da Silva (Estivador) e de Natalina Augusta da Silva (Vendedeira). Morava no Bairro Dr. Mário Madeira Lote 24 nº 188 na Pontinha. Ainda jovem foi estafeta num escritório em Lisboa e mais tarde, até ingressar no serviço militar, foi vendedor de roupas em mercados e feiras onde ajudava a mãe nessa actividade. Foi incorporado em 26 de Janeiro de 1970 no Grupo de Companhias do Trem Auto (GCTA) em Lisboa (...)


In: "Do Tejo ao Rovuma. Uma breve pausa num tempo das nossas vidas". Moçambique 1971-1973. História da Companhia de Caçadores 3309, páginas 317 e 318. Carlos Vardasca. Alhos Vedros, 21 de Setembro de 2009.

Foto 1: Albino Dias de Sousa (em tronco nu) na companhia do Soldado Condutor Auto Rodas NM 15189470, Eduardo da Silva Machado (com paradeiro desconhecido) em cima de uma Berliet minada, e do Furriel Miliciano NM 11260769, Domingos Manuel Gabriel da Silva, juntos da oficina da C.CAÇ. 3309 no Aquartelamento de Nangade. 1971
Foto 2: Albino Dias de Sousa (fazendo a continência) numa brincadeira com o 1º Cabo de Transmissões NM 16945270, Eduardo Manuel da Silva Trinta (falecido em 2005) junto da secretaria da C.CAÇ. 3309 em Nangade. 14 de Junho de 1971.
Foto 3: Victor Manuel da Silva (a olhar para o fotógrafo) junto do corpo do 1º Cabo Pedrosa da CCS do BART 2819, abatido a tiro numa emboscada desencadeada pela FRELIMO próximo Aquartelamento de Nangade em 10 de Maio de 1971.
Foto 4: Victor Manuel da Silva, junto de um bombardeiro T6 que se abastecia de combustível em Nangade, depois de participar numa operação de bombardeamento de bases da FRELIMO próximas do Lago Lidede. 1971.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

"A sorte não protege os audazes". 20 de Julho de 1971


Por me ter sido pedido por um camarada de armas da Companhia de Caçadores 3309 colaboração no relato do sucedido num acidente em Nangade, norte de Moçambique em 20 de Julho de 1971, e salvo algumas falhas de memória, aqui vai o que me recordo.

(...) Ainda estávamos no 1º semestre do ano de 1971, numa bela manhã de um sol derradeiro, estava eu junto ao depósito de géneros no inicio do aldeamento Macua no aquartelamento de Nangade quando ouvi uma grande explosão que facilmente identifiquei por ser o rebentamento de uma forte mina e, ao olhar para o vale que tinha uma vista fantástica do local onde me encontrava, logo me apercebi que havia acidente dado que há hora em que estávamos era normal que várias viaturas descessem ao vale; ora com pessoal para carregar água junto ao rio Litinguinha ou para levar gente para as machambas (hortas), ou até gente da população nativa que ali se deslocava para lavar roupa, percurso que de uma forma habitual era quase todos os dias feito pelo Sr. Comandante à época Tenente Coronel Vasconcelos Porto, zona absolutamente controlada pelas nossas companhias militares, e que nada fazia querer poder ser uma zona de grande risco.
Mas naquela manhã quis o destino que a 1ª viatura que desceu para o vale fosse aquele Unimog 404 que transportava 16 vidas, 14 negros civis habitantes das aldeias sobre o nosso controlo mais dois militares nossos da Companhia de Caçadores 3309, sendo um deles o 1º Cabo Condutor Victor (1) que se ofereceu para efectuar aquela missão e que levava com ele um camarada da sua companhia, o Albino Dias de Sousa (2) ao que mais tarde vim a saber este ia na viatura a seu convite dado que nunca tinha ido à Machamba, acabando os dois por morrer na dita explosão de uma mina anti-carro fortemente reforçada, assim como seis dos civis negros, ficando ainda mais 5 feridos graves e 3 ligeiros. Eu ao me aperceber do que estava a acontecer do local onde me encontrava, peguei rapidamente na minha bolsa de enfermagem que estava sempre por perto de mim e bem apetrechada, na minha arma, e corri para a descida acompanhado de mais uma meia dúzia de companheiros, que sem olhar a meios nos metemos numa viatura e chegamos ao local. Recordo que fui uma das primeiras pessoas a chegar junto dos sinistrados, “mortos e feridos por todo o lado com um forte cheiro a pessoas queimadas”, e aí de uma forma consertada com os outros companheiros batemos toda a zona a tiro com o objectivo de obrigar o inimigo a retirar-se caso por ali ainda houvesse alguém por perto.
Ao fazer uma rapidíssima inspecção ao sucessivo, como mandam as regras, comecei por assistir aos casos mais graves deixando os que já não tinha solução para mais tarde.
Depois de chegar o pessoal da Companhia de Artilharia 2745 que não tardaram e que nos foram proteger, então com as devidas precauções pedi que removessem à força de braços a viatura minada de onde retirei o cadáver do nosso camarada e meu amigo Victor, que antes desta operação era difícil vê-lo pois estava debaixo dos destroços da viatura minada.
Estava bastante esmagado embora a sua cabeça e cara não tivessem sido muito atingidas, quanto ao outro camarada, tinha alguns ferimentos mas à minha chegada também já estava morto no terreno. Julgo que o número elevado de mortos foi provocado pelo rebentamento, tendo em conta a forte onda de choque de calor e sobro que a potente mina produziu. Quanto aos restantes feridos foram todos evacuados por helicóptero a partir do local para o Hospital de Mueda e os mortos negros ficaram em Nangade. Os nossos militares feridos que seguiram em helicópteros para Mueda mais tarde foram enviados deste hospital para Nampula, onde eu posteriormente me desloquei para os visitar e apoiar.
Quando recordo a minha passagem por África sempre retrato o Victor, pois era um bom companheiro e um jovem de bom carácter, muito voluntarioso e bem humorado, e a propósito disto, lembro-me alguns dias antes da sua morte termos pessoal da CCS do Batalhão de Artilharia 2918 fora do arame em patrulha de reconhecimento na picada (onde o Acácio Pedrosa, Cabo de Transmissões da minha companhia morreu com um tiro na cabeça - 10 de Maio de 1971) um grupo de voluntários no aquartelamento ao saber da noticia quis sair de imediato para o mato para resgatar o cadáver, e o Victor, foi de rápido o condutor que se ofereceu para conduzir a Berliet "rebenta minas" que se deslocou ao local (...)

Espero que este relato sentido te ajude na elaboração da tua obra
(3)
Um abraço Amigo

Mário Fernando Silva
ex- 1º Cabo Enfermeiro
da CCS do Batalhão de Artilharia 2918

(1) Victor Manuel da Silva, 1º Cabo Condutor Auto NM 11694170 da Companhia de Caçadores 3309, falecido em combate em 20 de Julho de 1971.

(2) Albino Dias de Sousa, Soldado dos Serviços Auxiliares NM 07013070 da Companhia de Caçadores 3309, falecido em combate em 20 de Julho de 1971.

(3) Texto enviado por Mário Fernando Silva para ser editado no livro da História da Companhia de Caçadores 3309 com o título "Do Tejo ao Rovuma. Uma breve pausa num tempo das nossas vidas". Carlos Vardasca. Alhos Vedros, 2008
Fotos 1 e 2: Anúncio do jornal "O Século" do ano de 1971, informando do falecimento do Victor Manuel da Silva, e uma foto sua no Aquartelamento de Tartibo. Maio de 1971.
Foto: 3 e 4: O Albino Dias de Sousa na companhia dos seus pais e de uma criança sua amiga na vila de Lavra (Matosinhos) 1968, e numa foto tirada no Aquartelamento de Nangade. Abril de 1971.
Fotos 5 e 6: Os nomes de Victor Manuel da Silva e de Albino dias de Sousa inscritos no Mausoléu em homenagem aos combatentes tombados na Guerra Colonial. Belém, Lisboa.
Foto 7: Estado em que ficou o Unimog 404 após a explosão da mina anti-carro onde faleceram os companheiros Victor e Sousa. Nangade. Norte de Moçambique. 1971.

domingo, 20 de julho de 2008

"Os amigos que já não voltam"




(...) Decorria o dia 20 de Julho de 1971 e a manhã parecia ir ser igual a tantas outras. Há muito que a C.CAÇ. 3309 partira para Nova Torres (Aquartelamento junto ao rio Rovuma) ficando em Nangade apenas alguns condutores adidos ao Batalhão de Artilharia 2918 para "alinhar" nas colunas de reabastecimento. O Victor (1) (a quem faltava cerca de um mês para ir de férias à "Metrópole") conduzia um Unimog 404 em direcção ao posto das "Águas" situado num vale junto ao rio Litinguinha, na companhia do Sousa (2), 12 machambeiros (3) e um Furriel responsável pela construção da estação de captação das águas que eram bombeadas daquele rio para abastecer o Aquartelamento e as populações de Nangade. A meio do trajecto, (cerca de 1,5 quilómetros) inexplicavelmente e por ser tão próximo do aquartelamento, dá-se um violenta explosão de uma mina anti-carro altamente reforçada colocada pela FRELIMO na noite anterior, cujo cogumelo de fumo parecia ter escurecido todo o vale. De tão negro que era que parecia anunciar algo de trágico, que se veio a confirmar quando um pelotão da Companhia de Artilharia 2745 ali chegou e deparou com aquele cenário.
Espalhados no capim e pela picada, os corpos de oito machambeiros jaziam já inertes, enquanto os restantes agonizavam à espera dos primeiros socorros na companhia do Furriel que tivera apenas ferimentos ligeiros.
O Sousa teve morte imediata. O mesmo não aconteceu ao Victor (embora tivesse o mesmo fim) dado que com a explosão fora projectado para fora da viatura tendo caído no capim sem qualquer ferimento, sendo posteriormente atingido pelo Unimog 404 que devido ao impacto da explosão se elevara no ar indo cair em cima dele esmagando-lhe o corpo causando a sua morte.
A Companhia de Caçadores 3309 estava em Moçambique há apenas cinco meses quando ocorreram estas suas primeiras baixas em combate.
Faz hoje precisamente 37 anos que ocorreram aquelas baixas que muita consternação causaram na C.CAÇ. 3309, ficando aqui para eles (que eram dois bons amigos que já não voltam) um abraço solidário de quem sobreviveu (...)
Carlos Vardasca
20 de Julho de 2008
Foto 1: O Sousa em Nangade e o Victor no Aquartelamento de Nova Torres quando ali se deslocou em coluna de reabastecimento.
Foto 2: Estado em que ficou o Unimog 404 depois de explosão da mina anti-carro.
(1) Victor Manuel da Silva, 1º Cabo Condutor Auto Rodas NM 11694170 da Companhia de Caçadores 3309.
(2) Albino Dias de Sousa, Soldado dos Serviços Gerais NM 07013070 da Companhia de Caçadores 3309.
(3) Trabalhadores agrícolas naturais dos aldeamentos (Macua e Maconde) que ladeavam o Aquartelamento de Nangade.




sexta-feira, 20 de julho de 2007

As nossas primeiras baixas


(...) O aquartelamento de Nangade ficava situado num planalto (Planalto dos Macondes) e, na época, procedia-se à construção de uma estação de tratamento de àguas que passariam a ser bombeadas do rio Litinguinha, que ficava num vale a cerca de três quilómetros de distância. Naquele dia, de manhã, era necessário levar trabalhadores agrícolas membros da população local, que iam trabalhar nas machambas situadas junto àquele rio, e o Victor (Didiá) ofereceu-se para ser ele o condutor de serviço. Pelo caminho, encontrou o Sousa (Básico) também da Companhia de Caçadores 3309 que acabara de sair de reforço onde estivera toda a noite, convidando-o para ir com ele ao que este acedeu de imediato embora estivesse com mais vontade de se ir deitar.

- Anda daí "Básico", faz-me lá companhia: - nós não demoramos nada e voltamos num instante.

Depois de os trabalhadores agrícolas e um Furriel que estava adido ao Batalhão de Artilharia 2918 entrarem para o Unimog 404, O Victor inicou o percurso na picada com uma descida muito íngreme logo à saída de Nangade e que dava acesso ao vale, não se prevendo que algo de trágico estaria para acontecer.

Depois de terem percorrido cerca de dois quilómetros e meio e prestes a chegar ao posto avançado situado junto ao rio, dá-se uma violenta explosão de uma mina anti-carro altamente reforçada, causando a morte de 8 trabalhadores agrícolas, ficando cinco deles gravemente feridos, assim como o Furriel que também seguia na viatura que sofreu ferimentos ligeiros. O Sousa, teve morte imediata, mas o Victor, com a violência da explosão ainda foi cuspido para fora da viatura indo cair no mato sem qualquer ferimento, sendo no entanto esmagado pelo Unimog 404 que, devido ao impacto de explosão, se elevou no ar e foi precisamente cair em cima dele, esmagando-o, provocando a sua morte.

A Companhia de Caçadores 3309 estava em Cabo Delgado à apenas cinco meses quando no dia 20 de Julho de 1971 sofreu logo aqueles duas baixas de uma forma tão trágica. Em Tartibo, onde a C.CAÇ. 3309 estava estacionada, a notícia foi recebida com grande consternação e pesar, uma vez que tanto o Victor como o Sousa eram dois bons companheiros e amigos e, acima de tudo, dois excelentes camaradas (...)

Aqui fica a singela homenagem e um abraço solidário de quem sobreviveu.


Carlos Vardasca
20 de Julho de 2007


Nota: Na foto pode-se ver o estado em que ficou o Unimog 404 após a explosão, assim como as fotos do Victor e do Sousa.