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sábado, 3 de fevereiro de 2018

Ainda a propósito do Furriel Castro Guimarães (Desaparecido em Combate em Moçambique) e carta enviada ao programa da SIC "Linha Aberta".

(Clicar no documento para o ampliar)
 
 

Exmos Senhores
Ainda a guerra do ultramar. Não para relatar factos bélicos, nem políticos, pois esses, embora nem sempre bem, têm vindo a ser trazidos ao conhecimento geral através dos midia.
Aqui, venho apenas expor a falta de justiça e consideração que a pátria tem para com o militar, cuja morte aconteceu em pleno teatro de guerra, no norte de Moçambique, fronteira norte do distrito de Cabo Delgado, com a Tanzânia.
Relatórios militares entregues ao tempo, da operação militar em que este facto ocorreu, considerou quem mandava, que o Fur  Mil GE (Grupos Especiais) João Manuel de Castro Guimarães foi um desaparecido.
É desaparecido, porque o seu corpo, nunca foi resgatado, por imposição do Comando, que inviabilizou os meios militares para tal.
A Pátria não se quis envolver nesse processo.
O corpo, foi levado, isso sim, pelas forças regulares tanzanianas. (Ver blog “ Do Tejo ao Rovuma”), sendo que o mesmo se encontrava ainda em território, naquela ocasião, português.
A Pátria quis esquecer este episódio.
Será por tudo isto e por muito mais que aqui ainda não fica dito, que o seu nome não consta no monumento erigido em memória dos que lá ficaram.
E a família?  Ninguém oficialmente,  teve o cuidado de a esclarecer. Também ela foi usada como carne para canhão.
Foi o seu  ente familiar um desertor? 
Foi raptado?
Foi abatido pelos seus homens, como se chegou a admitir em vários meios, onde se inclui a família?
É bom lembrar  que fazíamos parte de um corpo de voluntários, sendo a sua composição totalmente nativa.
Se desaparecido,  como e porquê?
Seria o mínimo a justificar, junto dos familiares.
Nunca tiveram uma resposta afirmativa para esta questão.
Tem o signatário feito alguns escritos sobre este assunto ao longo de vários anos, mas a parede de fumo que se gerou sempre, impede ou impediu que se impusesse a verdade e a Pátria  fizesse a justiça moral que se impunha. Colocar o seu nome no lugar que,  mal ou bem,  perpetua e honra os que lá pereceram.
Fui o responsável pelo Grupo Especial que procedeu à operação em que aquele militar tombou e,  possuo o conhecimento total dos factos que foram reportados em relatório para o Comando Chefe, Gen Kaulza de Arriaga.
É certo que já passaram mais de 40 anos. Pela ordem da vida, não sei se ainda terei muito mais tempo para fazer esta denuncia.
Aquele momento, é para mim, AGORA e SEMPRE.
Está dentro de mim. O que é que posso fazer?
Para mim, a divisa “Ninguém fica para trás”, faz com que me sinta desinquieto  com esta situação.
Possivelmente,  para a Pátria ,   esta divisa,  não se aplica ou aplicou.
Muito apreciaria que,  através dos meios que têm ao v/dispor, fosse dado conhecimento público desta velha ocorrência, provavelmente uma entre muitas.
Somos um povo de memória curta quando convém, mas entendi que o v/programa tem  na sua génese, o perfil para  fazer desinquietar algumas consciências.
Daí,  ter recorrido a VExas., e espero que possa, com a v/ajuda, que a história se cumpra.
Apelo   também ,  para  a  delicadeza  que este  assunto merece,  tanto  mais  que  o  militar  em  referência  é familiar do atual bastonário do Ordem dos Médicos.
Tenho alguns documentos que poderão ser utilizados para ajudar ao esclarecimento dos factos.
Fico à v/inteira disposição.
Com consideração,
Filipe Manuel Cardão Pinto
Ex militar na guerra do ultramar e comandante, à época, do GE 212 em  Nhica do Rovuma em Moçambique (Fronteira com a Tanzânia)
Tlm  936260394

Nota: Carta enviada ao programa da SIC "Linha Aberta".

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Furriel Castro Guimarães (Desaparecido em Combate)

O Furriel Castro Guimarães em Lamego (1970) e na picada entre Pundanhar e Nhica do Rovuma (Moçambique, 1972)
O Furriel Castro Guimarães (fardado de preto) junto de outros militares. Palma. Moçambique 1972
 
Carta enviada pela Liga dos Combatentes ao Comissariado de Mtwara (Tanzânia)

Subject: Portuguese Military presumably buried in Mtwara

Dear Sir,
The Combatants League of Portugal greet your excellence and wish you the best personal and professional achievements in your position.

On the subject in title, we communicate that the Combatants League is an institution under the Ministry of National Defense from Portugal ,with the mission of treat all matters related to former combatants of Portugal, in particular to identify places where Portuguese soldiers fallen rest in all warlike confrontations that occurred and where Portugal has been present, since the Great War(1914-18), to the present day.

In November 1972 a Portuguese soldier died near the Tanzania, in a sand zone existing in Rovuma river, and we have reports saying that probably he has been taken to Kitaya , and later to Mtwara. This happened during the Overseas Portuguese War and unlike other cases, was never ascertained the place where he is buried.

Inside the mission of the Combatants League above related and taking into account the desire to proceed with the location of the grave of the referred military – Furriel (military rank) - Castro Guimarães (Name), we request information about the existence of that soldier's grave Portuguese military in Mtwara, and possible identification of the same, allowing to transmit the information to the family, and the beginning the process translation of the remains to Portugal.

We also request that the information be provided in case it is located the grave, so that the family can be informed, and some information on how we can proceed to accomplish the translation, including how to obtain authorization from the Government of the United Republic of Tanzania, leading to the beginning of the administrative process of translation to Portugal of his remains.

Looking for your answer to our request, other form of contact is my personal email –
faguda@gmail.com

Yours faithfully,

Fernando Aguda, Major-General and Vice-President of the Combatants League

Tradução da carta enviada pela LIga dos Combatentes ao Comissariado de Mwtara (Tanzânia)

Assunto: Militar português presumivelmente morto em Mtwara
Exmo. Sr.

A Liga de Combatentes de Portugal cumprimenta V. Exa. A deseja –lhe os melhores êxitos pessoais e profissionais.
Relativamente ao assunto referido em título, comunicamos que a Liga de Combatentes é uma instituição sob a alçada do Ministério da Defesa Nacional de Portugal, com a missão de tratar de todos os assuntos relacionados com os antigos combatentes de Portugal, em particular para identificar lugares onde soldados portugueses caíram em combate, como os confrontos que ocorreram e onde Portugal esteve presente, desde a I Guerra Mundial de 1914/18.
Em Novembro de 1972 um soldado português morreu perto da Tanzânia, numa zona de areia existente no rio Rovuma e temos relatórios dizendo que provavelmente foi levado para Kitaya e mais tarde para Mtwara.
Isto teve lugar durante a Guerra no Ultramar e ao contrário de outros casos, nunca mais foi descoberto o lugar onde o referido soldado foi enterrado.
Dentro da Missão da Liga dos Combatentes, acima referida, e tendo em conta o desejo de prosseguir com a localização da sepultura do referido militar – Furriel Castro Guimarães, solicitamos informação acerca da existência da sepultura do soldado português em Mytwara, e possível identificação do mesmo, permitindo transmitir a informação para a família, e o começo do processo de trasladação dos seus restos mortais para Portugal.

Aguardando a vossa resposta,
Subscrevo-me

Fernando Aguda – Major-General e Vice-Presidente da Liga de Combatentes

Furriel Castro Guimarães (Desaparecido em Combate)

                    No extenso areal que se vê, foi o local onde o Furriel Castro Guimarães foi morto em combate. Ao fundo, pode ver-se a rio Rovuma e o Planalto do lado de Moçambique. Foto tirada da margem esquerda do rio Rovuma. Aldeia de Kitaya (Tanzânia) Foto de G.C. 2013
 
Conclusões da reunião com o
Sr. General Fernando Aguda
da Liga dos Combatentes

No dia 15 de Janeiro pelas 11,00 horas, eu e o meu amigo Filipe Pinto[1] fomos reunir em Lisboa com o Sr. General Fernando Aguda, responsável da Liga dos Combatentes pelo processo relacionado com a missão nos cemitérios e desaparecidos em combate na Guerra Colonial.
 A reunião decorreu de forma cordial, onde foram expostas as razões que nos levaram a marcar a presente reunião, dado terem surgido dados novos, no que se relaciona com a possibilidade de se continuar a investigação na procura da localização exacta onde o Furriel Castro Guimarães poderá estar sepultado.
 Depois de nos ser dito que a Liga dos Combatentes já estava atenta a este assunto, mas que não interviu por ainda não se saber da localização exacta da sepultura, foi entregue àquele responsável da Liga um dossier completo com documentos relacionados com aquele militar desaparecido em combate no dia 15 de Novembro de 1972 nas margens do rio Rovuma, onde também estão descritas todas as diligências e os contactos efetcuados até ao momento e relacionadas com este caso.
Num dos documentos entregues e escrito em 27 de Dezembro de 2012, é descrita a intervenção de um nosso amigo que trabalha em Moçambique, que num gesto de solidariedade e espírito humanista se prestou a colaborar nesta investigação, tendo ido à Tanzânia, mais concretamente à aldeia de Kitaya[2] entrevistar membros da população e responsáveis locais sobre o caso em concreto.
No mesmo documento a Liga dos Combatentes é informada de que, devido a esta prestimosa colaboração e aos depoimentos de um membro da população entrevistado (que assistiu ao incidente já descrito e onde adianta alguns pormenores sobre o mesmo) que confirmou que o corpo do Furriel Castro Guimarães esteve de facto em Kitaya depois de ser abatido, tendo sido levado posteriormente numa viatura militar para Mtwara[3].
Para dar maior credibilidade à existência de novos factos que sustentam a tese da continuação das investigações sobre o caso Furriel Castro Guimarães, é também referido nesse documento entregue na Liga dos Combatentes de que um responsável local da aldeia de Kitaya que acompanhou as entrevistas, se deslocou a Mtwara e, com base nos depoimentos recolhidos nas mesmas, questionou o responsável regional desta localidade sobre a possibilidade de o corpo do Furriel Castro Guimarães ter sido de facto transportado e sepultado naquela cidade.
Por se tratar de um assunto que já mereceu a atenção de responsáveis do governo tanzaniano a nível ministerial[4], o Comissário Regional de Mtwara disponibilizou-se a colaborar, adiantando no entanto de que a troca de informações sobre este assunto deveria passar a partir de agora a um outro nível mais oficial, ou seja, com a troca de correspondência entre a Liga dos Combatentes de Portugal e o representante do Comissariado Regional de Mtwara na Tanzânia.
Por este facto, foi entregue ao General Fernando Aguda da Liga dos Combatentes o endereço do Comissariado Regional de Mtwara[5], tendo aquele oficial garantido que, em face destes novos elementos então surgidos, muito em breve e com alguma urgência irá fazer um ofício dirigido àquela entidade, no sentido de indagar da possibilidade de os restos mortais do Furriel Castro Guimarães estarem em Mtwara e, se for esse o caso, qual a localização exacta da sua sepultura.
Aquele General da Liga dos Combatentes comprometeu-se a, assim que o ofício estiver elaborado e for enviado para as entidades tanzanianas, que me disponibilizará uma cópia, para que eu a possa incorporar no meu arquivo documental de que disponho sobre o caso em concreto.
No final da reunião perguntei ao Sr. General o seguinte:
Embora seja ainda muito prematuro falar sobre esta questão, mas se por ventura estas diligências resultarem no aparecimento do local onde o Furriel Castro Guimarães está sepultado, qual o passo seguinte que a Liga dos Combatentes irá encetar?
Sobre esta questão foi respondido por aquele oficial:
Na eventualidade de essa hipótese vir a acontecer, a Liga dos Combatentes, depois de formalizar todos os procedimentos necessários à obtenção da autorização para se deslocar àquele país, deslocar-se-á à Tanzânia para fotografar o local da sepultura, comunicando de imediato aos familiares do Furriel Castro Guimarães (e a mim também) da confirmação da sua existência, sendo da responsabilidade destes a possível exumação e transladação dos restos mortais deste seu familiar para Portugal.
Como conclusão, fico esperançado de que as diligências a efectuar pela Liga dos Combatentes tenham o resultado há muito desejado, e que o caso Furriel Castro Guimarães “Desaparecido em Combate” culmine com a dignificação do seu nome ao se reconhecer finalmente de que não se tratou de nenhum desertor[6]; resulte na restituição dos seus restos mortais à pátria para junto dos seus familiares e, finalmente, na colocação do seu nome no Monumento em homenagem aos Combatentes falecidos na Guerra Colonial em Belém, de onde nunca deveria ter sido ignorado.

Carlos Vardasca
Alhos Vedros, 16 de Janeiro de 2013



[1] Filipe Manuel Cardão Pinto, ex-Furriel Miliciano da Companhia de Caçadores 3309 e destacado para comandar o GE 2012 no aquartelamento de Nhica do Rovuma, de onde fazia parte o Furriel Castro Guimarães.
[2] Aldeia tanzaniana.
[3] Cidade tanzaniana.
[4]  Segundo o Comissário local de Kitaya, estiveram nesta aldeia representantes do governo tanzaniano a nível ministerial a indagar sobre o mesmo caso, provavelmente influenciados pela carta que eu escrevi ao Embaixador da República Unida da Tanzânia creditado em Paris (França) no dia 15 de Novembro de 2010.
[5] Mtwara Regional Comissioner. Mtwara P.O. Box 544 Mtwara. República Unida da Tanzânia.
[6] Condição atribuída ao Furriel Castro Guimarães pela hierarquia do exército do Estado Novo.

sábado, 4 de agosto de 2012

O que resta do Aquartelamento de Balama

Um aspecto da vida quotidiana da população de Balama.
O que resta das antigas instalações do Aquartelamento de Balama, onde esteve estacionada a Companhia de Caçadores 3309 de Novembro a Março de 1973.

Estas fotos e outras mais, foram-me enviadas por um amigo meu que actualmente trabalha já algum tempo em Moçambique, e que vai contactando comigo com alguma regularidade. Um dia, no ano de 2011, este amigo visualizou o blogue "Do Tejo ao Rovuma", e ficou extremamente sensibilizado pelo caso do desaparecimento em combate do Furriel Castro Guimarães, e que desde logo se prontificou a colaborar comigo na procura do possível local da sua sepultura em terras da Tanzânia. 
Dado estar numa posição privilegiada para estabelecer os contactos que considerar interessantes para desvendar este episódio ocorrido em 15 de Novembro de 1972, este meu amigo, das diversas vezes que me contactou, umas vezes telefonicamente de Moçambique ou quando se deslocou de férias a Portugal, por diversas vezes me informou da evolução da investigação que muito amavelmente e desinteressadamente aceitou encetar, tendo ultimamente chegado ao contacto com um elemento da população que lhe disse ter estado envolvido naquela operação nas margens do rio Rovuma em 1972, que deu origem à captura do Furriel Castro Guimarães dos GEs 212 estacionados no Aquartelamento de Nhica do Rovuma.
Não podendo adiantar mais pormenores sobre o caso em concreto devido à complexidade do assunto, apenas me informou que aquela pessoa com quem contactou lhe confirmou (porque diz ter assistido ao acto em si) que o corpo do Furriel Castro Guimarães foi sepultado em Kytaia, na mesma sepultura com outros dois soldados portugueses (fora do cemitério, conforme ritual Macua) o que revela uma outra questão, pois, se assim se confirmar, comprova-se a existência de mais soldados portugueses (para além do Furriel Castro Guimarães) sepultados em cemitérios da Tanzânia, mais concretamente na aldeia de Kytaia, o que possivelmente poderá não ser do desconhecimento da Liga dos Combatentes.
Dada a extrema complexidade e às incertezas que por ventura poderão rodear todas estas informações relacionadas com este assunto, mas também para que não se levantem falsas expectativas sobre a resolução deste caso, este meu amigo não quis adiantar mais pormenores (o que se compreende), até que se saiba algo mais em concreto sobre a veracidade destas informações e da verdadeira localização da referida sepultura.

Carlos Vardasca
04 de Agosto de 2012 

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Desaparecido em Combate

Companheiro, camarada e amigo e todos aqueles que queiram interiorizar aquele fatídico acontecimento.
Por si só, a atitude político militar assumida pelas autoridades portuguesas à época, bem como as actuais, é demonstrativa do que representa o povo para o poder instalado. Numa palavra, nada.
Servem-se dele a seu belo prazer, não para o bem e para o mal; isso é nos casamentos, mas apenas para o mal.
Nunca cultivei grandes princípios de natureza política, costumo até dizer que me considero “ não alinhado “.
Tudo isto para não deixar em claro o teu último artigo sobre o “ Caso Guimarães “.
Se bem te lembras quando iniciámos os nossos comentários sobre este assunto, a que mais tarde deste eco no teu blogue, alertei-te para as dificuldades que irias encontrar, no sentido do esclarecimento total deste acto de guerra, que deu origem infelizmente ao desaparecimento deste nosso camarada, e amigo pessoal do signatário, como também, aquele que o viu vivo pela última vez, com excepção dos militares GE’s 212 que o acompanhavam.
Dificuldades provenientes do tempo decorrido entre o acto em si e a altura em que começaste a trazer à luz do dia, e ao conhecimento publico, tão triste acontecimento.
Para mim, directo participante neste acontecimento, o que mais me entristece é e foi, a forma como as autoridades, quer no tempo próprio, quer a esta longa distância, se demarcaram de procurar a verdade.
Tratou-se sem dúvida de um caso embaraçoso, mas não houve vontade política de qualquer espécie, no sentido de trazer paz à família, bem como a mim próprio, pois ainda tenho na mente este acontecimento e que desaparecerá somente, quando eu também já por cá, não andar.
A forma como as autoridades trataram este assunto à época, “ seu filho desaparecido”, não se sabe se vivo ou morto…”, sem nunca mais voltarem à carga, demonstra bem o seu empenho no esclarecimento de questões complicadas.
Éramos e mais contemporaneamente falando, somos, carne para canhão
Vê-se agora com a tal crise. Quem a paga? O soldado desta guerra. O povo.
Meu amigo; o teu esforço valeu e vale a pena. Este caso passou a ser do conhecimento de muitos camaradas nossos, e talvez nos ajude a ver melhor “a carta que somos neste baralho” de interesses que não são por certo, os nossos.
Deixemos o Guimarães em paz. Ele merece este nosso carinho. Ele sabe como nós gostamos dele.
Filipe Cardão Pinto
Ex-responsável pelo Grupo Especial GE’s 212 
do Aquartelamento de Nhica do Rovuma
Cabo Delgado. Moçambique
16 de Novembro de 2011
Foto: O Furriel Pinto à saída do Aquartelamento de Nhica do Rovuma, no comando do Grupo Especial GE’s 212, no início de uma operação de reconhecimento. Cabo Delgado, Aquartelamento de Nhica do Rovuma. Moçambique 1972.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

"Um esforço que tem sido inglório"

Faz hoje precisamente trinta e nove anos, que aquele cenário dramático ocorreu nas margens do rio Rovuma, na fronteira com a Tanzânia.
O desaparecimento em combate do Furriel Castro Guimarães no dia 15 de Novembro de 1972 é sobejamente conhecido através do meu artigo de opinião intitulado “Desaparecido em Combate” e da sua constante divulgação no blogue “Do Tejo ao Rovuma”, tendo sido uma luta constante (através de contactos permanentes com os diversos organismos e entidade oficiais) com o objectivo de (numa primeira fase) se chegar o mais perto possível da aldeia de Kytaia na Tanzânia (onde supostamente se pensa ter sido sepultado pelas autoridades tanzanianas) e numa fase posterior (se ainda for possível) recuperar os seus restos mortais e devolvê-los à pátria.
Apesar dos vários pedidos de colaboração enviados às diversas entidades e organismo oficiais contactados, até ao momento nada de novo há a registar, limitando-me hoje apenas a descrever as diligências por mim efectuadas no sentido de contribuir para a resolução deste caso.
 04 de Maio de 2008 Elaboração do artigo “Desaparecido em Combate” e enviado à Comunicação Social: Jornais Expresso, Público, Correio da Manhã, Diário de Notícias, Jornal de Notícias, Revista Visão, Revista Sábado e jornal “O RIO”, Rádio Televisão Portuguesa (RTP), assim como a vários órgãos de comunicação social de Moçambique.
07 de Maio de 2008  Divulgação de “Desaparecido em Combate” junto da Liga dos Combatentes, Associação de Veteranos de Guerra, Associação dos Deficientes das Forças Armadas, dos Blogues “Guerra do Ultramar” e “Luís Graças & Camaradas da Guiné”, Arquivo Histórico Militar, Associação de GE-GEP, Associação 25 de Abril, Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra, APOIAR (Associação de Apoio aos Ex-Combatentes Vítimas do Stress de Guerra) Coronel Câmara Stone, Adido Militar de Defesa na Embaixada de Portugal em Maputo (Moçambique) e Amnistia Internacional.
13 de Maio de 2008 “Desaparecido em Combate” enviado em carta a todos os Grupos Parlamentares de Assembleia da República.
15 de Maio de 2008 “Desaparecido em Combate” enviado à Embaixada de Moçambique em Portugal.
26 de Maio de 2008 “Desaparecido em Combate” enviado para o Ministério dos Assuntos dos Antigos Combatentes de Moçambique.
17 de Julho de 2009 “Desaparecido em Combate” enviado ao Tenente Coronel Álvaro Diogo da Liga dos Combatentes.
23 de Novembro de 2009 “Desaparecido em Combate” enviado ao Presidente de Moçambique Armando Guebuza, à FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) e à Associação dos Combatentes da Luta de Libertação Nacional (Moçambique).
07 de Abril de 2010 “Desaparecido em Combate” enviado à Comunidade Católica de Stº Egídio radicada na Tanzânia, e ao Padre José Alexandre da Paróquia S. Miguel Arcanjo da Comunidade Missionária Boa Nova radicada na aldeia de Malema em Moçambique.
10 de Setembro de 2010 Encontro em Alhos Vedros com o Padre José Alexandre dos Missionários da Comunidade da Boa Nova, a quando da sua deslocação a Portugal, onde lhe expus pessoalmente todo o processo relacionado com o Furriel Castro Guimarães, onde prometeu toda a sua colaboração.
15 de Novembro de 2010 “Desaparecido em Combate” enviado em carta ao Embaixador da República Unida da Tanzânia em Paris (França).
11 de Agosto de 2011 Carta enviada ao Padre José Alexandre dos Missionários da Comunidade da Boa Nova radicada na aldeia de Malema (Moçambique), a relembrar-lhe do caso do Furriel Castro Guimarães, saber se das diligências que disse ir efectuar se já tinha alguns dados concretos sobre o mesmo.
Tem sido de facto um esforço inglório, tendo em conta as individualidades e organismos oficiais contactados, sem que de qualquer das partes haja pelo menos uma resposta, à excepção da Liga dos Combatentes, que se comprometeu intervir no caso desde que se saiba o local exacto onde aquele militar poderá estar sepultado, bem assim como da colaboração prometida do Padre José Alexandre.
Apesar destes contratempos e reconhecendo que este caso é bastante complexo e de difícil e demorada resolução, nada me demove desta missão de tentar saber onde se encontram sepultados os restos mortais do Furriel Castro Guimarães e devolvê-los à pátria, mas também exigir que o seu nome seja inscrito no Monumento dos Combatentes em Belém, ao lado dos seus companheiros que tombaram na Guerra Colonial, de onde foi arredado por o regime do Estado Novo o ter injustamente considerado um desertor (versão contrariada por todos os militares que presenciaram aquela operação a quando do seu falecimento em combate nas margens do rio Rovuma no dia 15 de Novembro de 1972) e que a democracia saída do 25 de Abril de 1974 ainda não lhe soube restituir a dignidade.
Carlos Vardasca
15 de Novembro de 2011

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Furriel Castro Guimarães. Desaparecido em combate em 15 de Novembro de 1972

Faz precisamente hoje, dia 15 de Novembro de 2010, 38 anos que o Furriel Castro Guimarães faleceu em combate, abatido por forças tanzanianas nas margens do rio Rovuma (e levado para aquele país onde se supõem estar sepultado na aldeia de Kytaia) quando participava numa operação integrado num dos grupos de combate dos GEs 212 estacionados no Aquartelamento de Nhica do Rovuma (Norte de Moçambique - Província de Cabo Delgado).
Anualmente, "Do Tejo ao Rovuma" aqui lhe presta a devida homenagem, e assim o fará (mesmo reconhecendo a sua complexidade) até que se conclua este processo, que se deseja com a descoberta do local da sua sepultura e a transladação do seus restos mortais para Portugal e para junto dos seus familiares.
Várias diligências já foram efectuadas com o objectivo de obter contactos que nos levem cada vez mais próximos daquela aldeia tanzaniana, o último dos quais (do qual já prestamos essa informação neste espaço) com o padre José Alexandre da Missão dos Missionários da Boa Nova radicados em Moçambique na localidade de Malema, que prometeu colaborar com esta causa e encetar os contactos necessários para a resolução da mesma.
Mais recentemente, fui contactado aqui em Alhos Vedros pelo Diamantino Fernandes, ex-1º Cabo Transmissões da CCS do Batalhão de Cavalaria 3837, que no dia 23 de Outubro se deslocou a Moçambique (mais concretamente à povoação de Nangololo, onde se desloca com alguma regularidade) que não quis seguir viagem sem falar comigo sobre este caso, para que durante a sua estadia naquele país tentar, junto de contactos que diz ter junto de ex-guerrilheiros, hoje altos quadros da FRELIMO, contribuir também para a resolução do mesmo.
Hoje mesmo, decidi "abrir uma nova frente", alargando os contactos, ao escrever uma carta ao Embaixador da República Unida da Tanzânia em Paris, que reproduzo em baixo (em Portugal não existe embaixada deste país) com o objectivo de usar a sua influência e interceder junto das autoridades do seu país para que se investigue a existência de alguma sepultura daquele soldado português na aldeia de Kytaia.
Dando seguimento ao lema "Ninguém deve ser deixado para trás" a ele continuaremos a ser fieis.
Em jeito de homenagem, aqui fica um abraço solidário de quem sobreviveu.

Carlos Vardasca
15 de Novembro de 2010
Foto 1: O Furriel Castro Guimarães com as idades de 15 e 22 anos.
Foto 2: O Furriel Castro Guimarães em Palma (fardado de negro) junto de outros seus companheiros. 1972
Foto 3: O Furriel Castro Guimarães em Moçimboa do Rovuma (em tronco nu, na primeira fila em cima) junto dos seus companheiros da CCS do Batalhão de Caçadores 3874. 1972

De: Carlos Alberto Correia Braz Vardasca
Rua António Hipólito da Costa nº 5 – 1º Esqº
2860-045 Alhos Vedros - Portugal
Telef: 212020157
Telem: 963899868
E-mail: carlosvardasca@netcabo.pt
Blogue: http://dotejoaorovuma-cabel.blogspot.com/

Para: Embaixada da República Unida da Tanzânia
13, Avenue Raymond Poincaré – Paris


Exmo. Sr. Embaixador

Sou um ex-militar envolvido na Guerra Colonial durante a ocupação de Moçambique por Portugal, e vinha por este meio solicitar a vossa prestimosa colaboração para o seguinte caso que irei tentar resumir.
Em 15 de Novembro de 1972, um Grupo de Combate do exército português deslocou-se do Aquartelamento de Nhica do Rovuma[1] com o objectivo de recolher informações do outro lado da fronteira (Tanzânia), se existiam populações oriundas de Moçambique enviadas para ali para trabalhar em machambas[2] para abastecer de alimentos os guerrilheiros da FRELIMO, que naquela altura lutavam contra a ocupação do seu território pelo exército português.
Após aquele Grupo de Combate ter chegado às margens do rio Rovuma e ter deparado com movimento de populações na margem norte do rio (do outro lado da fronteira) o militar que comandava aquela força de intervenção[3], inadvertidamente começou a percorrer um extenso areal que se formara no meio do rio e que se estendia até muito perto do outro lado da fronteira com a Tanzânia, com o objectivo de encetar conversa com algumas mulheres que lavavam a roupa no rio e tentar recolher as informações que constavam do objectivo da operação.
Apesar de ter sido avisado pelos companheiros dos perigos que corria, ele continuou a percorrer o areal e, já muito próximo da margem do rio do lado da Tanzânia, ouviram-se dois tiros e o seu corpo ficou caído no areal.
Sabendo dos riscos que tal intervenção poderia acarretar e como já estava a escurecer, ninguém daquela força de intervenção se arriscou a ir recuperar o corpo, tendo aguardado para o dia seguinte para tomar qualquer posição sobre a forma de resgatar o corpo do militar abatido.
No dia seguinte, e ao observar-se o areal onde o corpo se encontrava, o mesmo já tinha desaparecido, pensando-se que possivelmente teria sido levado pela maré ou por qualquer animal selvagem.
Cancelada a operação e chegados ao Aquartelamento de Nhica do Rovuma, um dos soldados do Grupo de Combate envolvido naquela operação ouviu noticiar em dialecto Swahili através de uma rádio da Tanzânia, que anunciava terem as forças Tanzanianas capturado um soldado português, descrevendo as suas características assim como o tipo de arma e alguns objectos pessoais que trazia consigo.
Decorridos alguns meses, o exército português também consegue ter acesso a um jornal da Tanzânia em língua inglesa, onde é noticiada a captura do mesmo militar, sendo a notícia ilustrada com algumas fotos, onde se pode ver o corpo do militar abatido a ser exibido junto de oficiais do exército tanzaniano, o que comprova que, por ter sido um militar abatido em combate, possivelmente algum destino foi dado ao seu corpo, tendo sido sepultado em algum local, o que se presume ter sido na aldeia de Kytaia[4], dado ser a povoação tanzaniana mais próxima do local onde ocorreu o incidente em 15 de Novembro de 1972.
Tendo-o colocado ao corrente do que ocorrera naquela data, venho solicitar por esta forma que o Sr. Embaixador interceda junto das entidades oficiais responsáveis por este tipo de assuntos, no sentido de indagarem junto de responsáveis locais da aldeia de Kytaia, se alguém se lembra da ocorrência daquele incidente (algum ex-guarda fronteiriço, membro da população ou até mesmo algum ex-guerrilheiro da FRELIMO que ali se tivesse fixado) e poderem informar em que local foi sepultado o referido militar português, para que os seus restos mortais, depois de formalizadas todas as questões legais, possam ser transladados para Portugal e para mais próximo dos seus familiares.
Certo que o Sr. Embaixador reconhecerá tratar-se de uma questão humanitária, tendo em conta que os familiares do referido militar há muito anseiam recuperar o seu corpo para lhe prestarem a devida homenagem, aguardo com alguma brevidade uma resposta sua a este apelo, agradecendo desde já a sua prestimosa colaboração para a resolução deste caso, que após 36 anos do fim do conflito colonial que envolveu Portugal e Moçambique ainda não foi possível resolver.
Sem outro assunto de momento, muito atenciosamente

Alhos Vedros, 15 de Novembro de 2010

Carlos Alberto Correia Braz Vardasca
*Carta para o Embaixador da República Unida da Tanzânia

[1] Destacamento militar das tropas portuguesas situado a norte de Moçambique, na Província de Cabo Delgado.
[2] Terrenos de cultivo.
[3] Furriel Miliciano NM, João Manuel de Castro Guimarães, do Grupo Especial 212 do exército português, estacionado no Aquartelamento de Nhica do Rovuma (Província de Cabo Delgado, norte de Moçambique).
[4] Aldeia situada no sul da Tanzânia próximo do rio Rovuma, rio que faz fronteira com a República de Moçambique.

sábado, 11 de setembro de 2010

"Cada vez mais próximos de Kytaia"

O caso do Furriel Castro Guimarães, abatido numa operação em 15 de Novembro de 1972 nas margens do rio Rovuma, levado por oficiais tanzanianos para a Tanzânia e sepultado em lugar incerto (possivelmente na aldeia de Kytaia) é sobejamente conhecido de todos que se interessam por questões relacionadas com a Guerra Colonial, dos dramas vividos e dos comportamentos de quem nela interveio (e onde também se provou que nem todos nós “fomos bons rapazes”, contrariando o fervor patrioteiro de alguns ex-combatentes e da forma como se insurgiram contra as infelizes declarações do escritor António Lobo Antunes) tema aliás bastante divulgado no blogue http://dotejoaorovuma-cabel.blogspot.com, onde se procura encontrar pontos de contacto que nos levem cada vez mais próximo daquela aldeia tanzaniana e saber ao certo o local possível da sepultura daquele militar.
Dos vários contactos efectuados e conforme informação prestada anteriormente, cheguei ao contacto com os Missionários da Boa Nova, missão católica radicada em Malema, vila moçambicana relativamente próximo da cidade de Nampula, mais concretamente com o Padre José Alexandre, neste momento de férias em Portugal e com o qual me encontrei no dia 10 de Setembro de 2010 (no Bairro Gouveia, em Alhos Vedros onde tem familiares) dado que ele parte de novo para Moçambique já na próxima Segunda-feira, dia 13, e era urgente colocá-lo ao corrente deste caso e pedir-lhe a colaboração que lhe fosse possível.
Colocado ao corrente de todos os contactos e diligências por mim efectuados e de todos os documentos que escrevi e relacionados com o caso “Furriel Castro Guimarães, desaparecido em combate” que relatam o ocorrido nas margens do rio Rovuma em 15 de Novembro de 1972, o Padre José Alexandre ficou bastante sensibilizado com os factos de que passou a ter conhecimento, prontificando-se de imediato a colaborar neste caso, manifestando o interesse em utilizar os contactos privilegiados e a influência que tem junto das populações devido à sua actividade de Missionário que exerce em Moçambique desde 1968.
Na conversa que mantive com o Padre José Alexandre ao longo de cerca de duas horas, ele adiantou alguns pormenores das diligências que iria efectuar, nomeadamente junto da população da etnia Maconde que habita próximo da Malema mas que com alguma frequência se desloca à Tanzânia para visitar os seus familiares do outro lado da fronteira, ou para tratar de negócios, tentando junto deles recolher informações (alguns deles ex-guerrilheiros com altos cargos na hierarquia local da FRELIMO e bastante prestigiados junto das populações) no sentido de que se possam recordar do ocorrido naquela data ou que, uma vez de visita à Tanzânia, recolham informações junto de responsáveis daquela aldeia (autoridades locais, ex-guardas fronteiriços, ex-combatentes da FRELIMO ou até mesmo junto das populações) e saber se alguém viveu ou se recorda daquele acontecimento e saiba informar onde as autoridades tanzanianas sepultaram aquele militar português.
Aquele Padre, que demonstrou ser muito culto e conhecedor da história de Moçambique, fazendo uma breve análise da distribuição das várias etnias pelo seu território (revelando-se conhecedor da obra “Os Macondes de Moçambique” da autoria de Jorge Dias e Margot Dias
[1]) e uma retrospectiva histórica do período antes e do início do colonialismo, do conflito da guerra colonial (mostrando-se bastante conhecedor das dificuldades por que passavam os nossos soldados durante aquele período e da localização dos vários aquartelamentos isolados nas matas de Cabo Delgado e do Niassa, dos ataques que a FRELIMO lhes infligia com alguma agressividade e frequência) assim como dos conflitos que se geraram após a independência daquela ex-colónia, como a guerra civil que opôs a FRELIMO e a RENAMO e das dificuldades a nível social bem recentes com que se depara a população moçambicana.
Na conversa que mantive com ele durante cerca de duas horas, deu-se ao pormenor de me confidenciar que há alguns anos, no âmbito da sua actividade missionária, baptizou e casou um casal da etnia Maconde que habita agora em Malema e que se reconverteram ao cristianismo, dizendo ele que esta família (que se desloca também com alguma regularidade à Tanzânia) será uma das que com quem também irá contar para colaborar na procura do local onde possivelmente se encontram os restos mortais do Furriel Castro Guimarães.
Foi de facto uma conversa bastante animadora (ficando cada um de nós com os contactos pessoais) a avaliar pela prontidão com que aquele missionário se predispôs a colaborar nesta causa que considerou nobre, mas também muito promissora tendo em conta as várias possibilidades de contactos que foi adiantando, manifestando alguma convicção e expectativa de que os seus resultados (embora nada imediatos) possam vir a ser animadores.
Reconheço, desde que me envolvi neste caso por via do meu amigo ex-Furriel Pinto da Companhia de Caçadores 3309 (naquele tempo destacado para comandante dos GEs 212 estacionados no Aquartelamento do Nhica do Rovuma e companheiro do malogrado Furriel Castro Guimarães) que me vejo envolvido numa espécie de “odisseia ainda sem fim à vista”, mas que a abracei com a convicção de que “nada é impossível” e que “nenhum combatente deve ser deixado para traz” apesar das dificuldades que o caso encerra, tendo em conta os anos volvidos e a dificuldade de se encontrar o local exacto onde possivelmente poderá estar sepultado aquele militar e, na eventualidade de o mesmo ser localizado, transmitir a sua localização à Liga dos Combatentes e esta prosseguir as diligências (contactando os seus familiares, como é óbvio) para a transladação dos seus restos mortais.
Para além de considerar este gesto com alguma carga humanitária de que me orgulho de nele me ter envolvido, considero também que tem como uma das finalidades e objectivos devolver a dignidade àquele militar, contando e dando a conhecer a sua verdadeira história (contrariando a versão oficial do exército) de que o Furriel Castro Guimarães não é nenhum desertor (como erradamente se fez constar oficialmente) mas mais um combatente tombado em combate e, por esse facto, que os seus restos mortais sejam devolvidos à pátria e para junto dos seus familiares, e que o seu nome seja dignamente inscrito no Mausoléu dos ex-combatentes falecidos em combate na Guerra Colonial erigido em Belém, de onde foi e continua injustamente e incompreensivelmente arredado.

Carlos Vardasca
10 de Setembro de 2010

1] Obra editada pela Junta de Investigações do Ultramar. Centro de Estudos de Antropologia Cultural. Lisboa 1970.

domingo, 5 de setembro de 2010

Liga dos Combatentes procura campas em Moçambique

(...) Uma equipa da Liga dos Combatentes vai percorrer Moçambique de sul para norte, entre os próximos dias 4 e 22 de Setembro, numa "acção de reconhecimento" de locais onde estejam corpos de militares portugueses mortos durante a Guerra Colonial, disse o presidente da instituição ao DN.
Segundo o general Chito Rodrigues, a nova missão insere-se no projecto de "Conservação das Memórias" desenvolvido pela Liga e visa, no caso de Moçambique, identificar os restos mortais de militares portugueses para depois os concentrar e trasladar para o cemitério de Languenhe, em Maputo.
Neste cemitério já existe um talhão dedicado aos combatentes portugueses mortos durante a guerra naquela antiga colónia lusa, a exemplo do que sucede na Guiné ou em França, aqui por causa dos soldados que participaram na I Grande Guerra.
Esta nova missão da Liga dos Combatentes vai ter lugar depois de a instituição ter dado por concluídos os trabalhos similares realizados durante os últimos anos na Guiné-Bissau, com o apoio directo de uma equipa de antropólogos liderados pela professora Eugénia Cunha (...)


In: Jornal "Diário de Notícias"
26 de Agosto de 2010


Com o início desta missão agora em terras de Moçambique, abre-se uma nova frente para a identificação dos locais onde foram sepultados os nossos companheiros tombados na Guerra Colonial. Espero, e depois de se resolverem os casos mais imediatos e de mais fácil localização, que a Liga dos Combatentes se interesse pelo assunto relacionado com o Furriel Castro Guimarães (falecido em combate em 15 de Novembro de 1972 e sepultado em terras da Tanzânia) tendo em conta os elementos que já lhes forneci (embora a localização da sua sepultura ainda seja uma incógnita) e outros dados que entretanto eu futuramente poderei fornecer.
Esta convicção está relacionada com a investigação que estou a efectuar em paralelo e em várias frentes, onde se inclui (a mais recente) junto da missão católica "Missionários da Boa Nova" sediada em Moçambique, mais concretamente com o Padre José Alexandre (neste momento de férias em Portugal) e com o qual irei tentar entrar em contacto para o colocar a par do assunto relacionado com o caso do Furriel Castro Guimarães, e pedir pessoalmente a colaboração daqueles Missionários na procura (junto de outras entidades) da localização da sua sepultura em terras da Tanzânia (Aldeia de Kytaia) e a restituição à pátria dos seus restos mortais, para junto dos seus familiares.
"Nada é impossível".
Apesar de reconhecer as dificuldades que este processo encerra, tudo farei junto das entidades possíveis para a identificação do local onde os militares tanzanianos sepultaram o corpo do Furriel Castro Guimarães, depois de o terem abatido em 15 de Novembro de 1972 nas margens do rio Rovuma, no âmbito da "Operação BAGA 6", quando este militar comandava um Grupo de Combate dos GEs 212 aquartelados em Nhica do Rovuma.

Carlos Vardasca
05 de Setembro de 2010