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quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Ser Palestiniano, hoje!

Quando o velho cargueiro “Êxodos” atracou em 1947 em terras da Palestina, todo aquele amontoado de “emigrados” comoveu a opinião pública internacional, devido às condições degradantes em que vinham vivendo dentro daquela embarcação, sem o mínimo de condições básicas de sobrevivência, na ânsia de chegar à “terra prometida”.
As potências militares da altura, por uma questão de ordem religiosa, política e até económica; nomeadamente a Inglaterra que era a potência colonizadora na região, apresentaram ao mundo aquela e outras situações dramáticas que se seguiram como justificação para aquele povo ter o direito a uma pátria, criando na opinião pública um sentimento de solidariedade em redor de uma questão que aparentemente parecia ser legítima, dado o inquestionável prestígio que os judeus vinham granjeando com o findar da II Grande Guerra Mundial, por terem sido um povo perseguido pelo regime nazi, e que ninguém, perante este clima emocional e a força das armas inglesas que se colocaram ao seu lado ousou questionar.
Ao reconhecer-se aos Judeus (com base numa mera questão bíblica sem qualquer fundamento jurídico) o direito a uma pátria “encaixando-os” pela força das armas num território usurpado a um outro povo que ironicamente ainda teimam em não reconhecer, estava-se já, nessa altura, a tentar redesenhar o mapa do Médio Oriente em favor das potências ocidentais, “espetando uma cruz no coração da Palestina”, bem no centro do mundo árabe, cujo mapa tem sido várias vezes desenhado “bem ao jeito das Cruzadas” e que tem vindo, até aos nossos dias, a colocar os Palestinianos numa situação como se fossem uns estranhos na sua própria terra e violentados de forma tão cruel na sua identidade.
Por tudo isto, ser Palestiniano, hoje, é compreender a revolta de quem na sua própria terra se vê obrigado a vegetar indefinitivamente em tendas e rodeado de arame farpado; a ter que se deslocar dentro da sua pátria e identificar-se diariamente ao ocupante como se fosse um estranho dentro da sua própria casa; ver as suas terras invadidas ilegalmente por colonos que avançam com buldozers sob protecção militar israelita, ou a ser sistematicamente bombardeado e assistir à destruição das suas cidades e aldeias enquanto os colonatos vão proliferando, tentando colonizar todo o espaço que possa ser colonizável, reduzindo cada vez mais o espaço territorial Palestiniano, visando, a longo prazo, o seu controlo total.
Ser Palestiniano, hoje, é saber condenar a violência do ocupante israelita e compreender a angústia e o desespero daquele povo, mas é também, não aprovar os actos suicidas desencadeados por grupos extremistas contra alvos civis israelitas que na maioria dos casos vitimam inocentes, e que poderão, aos invés do pretendido, criar uma certa indignação mesmo na opinião pública israelita favorável à criação de um estado Palestiniano, alimentando novos inimigos quando o que se pretende é o contrário, ou seja, granjear um maior apoio na comunidade israelita e internacional a um verdadeiro processo de paz para a região e à criação de um Estado Palestiniano.
Ser Palestiniano, hoje, é desejar a paz por quem tantos já deram a vida, mas também é estar um pouco céptico e questionar como é que é possível que, passados que são cerca de cinquenta e seis anos, ver judeus que reivindicavam para si o direito a ter uma pátria, negar aos Palestinianos o direito a terem um estado seu, no seu próprio território, onde possam viver com dignidade, educarem os seus filhos e criarem uma sociedade próspera onde a convivência entre os diferentes povos seja uma realidade.
Ser Palestiniano, hoje, embora sedento de paz e ansioso por abandonar os campos de refugiados e regressar à sua pátria finalmente livre após a retirada israelita, é também desconfiar das recentes negociações à volta do duvidoso “Roteiro para a paz” desenhado por George. W. Bush com a aprovação amuada de Ariel Sharon; é estranhar o afastamento das negociações de Yasser Arafat e da Autoridade Palestiniana, e considerar muito suspeito que um “pistoleiro profissional e um falcão terrivelmente predador” se tenham reconvertido em “pombas brancas de ramo de oliveira no bico”, e venham agora falar de paz depois de terem semeado em seu redor um campo de mártires a troco de uns barris de petróleo.
Ser Palestiniano, hoje, é reconhecer que o que se passou no Iraque visou também enfraquecer a sua luta, e que não passou de mais um embuste com objectivos estratégicos, com fins económicos e obscuras intenções neocoloniais para o Médio Oriente, ornamentado com o falso resgate de Jessica Lynch que visou levantar a moral das tropas dos EUA tão necessitadas desde a derrota no Vietname.
Ser Palestiniano, hoje, é saber negociar com inteligência mas resistir à agressão israelita “não dando a outra face”; é não deixar tombar a bandeira que flutua prenhe de indignação que será o fertilizante que fará florescer a sua pátria; um verdadeiro Estado Palestiniano.

Carlos Vardasca

13 de Junho de 2003

In jornal “O RIO” nº 134 de 1 a 15 de Julho de 2003.

Nota: Embora escrito em 2003, este artigo mantêm toda a sua actualidade (apesar dos "falcões e dos predadores" e de outros intervenientes no conflito terem mudado de nome) no que se relaciona com a actual ofensiva israelita na Faixa de Gaza, que se insere (embora escudando-se por detrás de actos extremistas e reprováveis) na ocupação sistemática do território Palestiniano, como parte integrante da expansão sionista na construção da "grande pátria de Israel" com a cumplicidade dos Estados Unidos da América e de países europeus.




quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

"Que em 2009 os abraços não tenham apenas a duração de um dia"

(...) Pois é! Eles sempre disseram que era uma questão de "inadaptação" (e fazendo uma pequena adaptação, aproveitando o mote do desenho que possivelmente terá outra interpretação que não a minha) que levou a que os pobres fossem ficando cada vez mais pobres, mas eles, os ricos, aproveitando-se dessa "inadaptação", fingindo ignorar as suas causas, foram ficando cada vez mais ricos, questionando-se (ingenuamente, como se não soubessem das suas origens) de onde teria vindo tanto dinheiro para os seus cofres.
Os pobres, "esses coitados inadaptados", que nunca tiveram outro remédio senão tentar gerir os seus magros salários "que se foram perdendo na profundidade dos seus bolsos e a prolongar a sua extrema pobreza" (embora o produto do seu trabalho fosse alimentando ao longo dos séculos outras vidas faustosas) foram no entanto construindo bastas vezes utopias de que um dia o mundo seria mais justo, que tudo finalmente iria mudar e que nada ficaria com dantes.
Aparentemente submissos, mas sempre prontos a explodir de revolta "como um vulcão que expele lava pela encosta da montanha", alimentando sempre a ideia de que dos seus protestos "algumas migalhas cairiam para debaixo da mesa do farto manjar", os pobres foram ao longo da história conquistando alguns dos direitos que aliviaram e melhoraram a sua própria condição humana e o direito à sua própria existência, direitos esses que agora vêem ser ameaçados por quem deles se serviu "para que também pudessem participar do farto manjar".
Sem perderem de vista quem os traiu e que aquelas "migalhas" eram apenas "sobras" mas que foram arrancadas com a luta de quem não tolerava a escravidão, os pobres, "esses coitados inadaptados", decerto que irão continuar a resistir neste mundo de injustiças e a combater arduamente para aliviar um pedaço da sua própria servidão, mesmo que "nunca lhes venham a distribuir os talheres apropriados para garantirem a sua própria sobrevivência", tomando sempre consciência de nada lhes será dado sem que resulte da sua própria emancipação.
Que 2009 desperte os ainda submissos e os traga para o seio desta imensa onda de protesto que grassa pelo mundo, onde a insubmissão rejeite de vez "as sobras do farto manjar" e continue a resistir contra "o actual mundo dos que podem" e o substitua por "um outro mundo dos que sabem".
"Que em 2009 os abraços não tenham apenas a duração de um dia"
São os votos de
Carlos Vardasca
31 de Dezembro de 2008
Desenho: in "Diário de Notícias" de 30 de Dezembro de 2008. Cravo&ferradura, da autoria do cartonista "Bandeira".

domingo, 21 de dezembro de 2008

Uma noite na aldeia

Já se previa um inverno rigoroso. O manto de neve que cobria todo o distrito de Chaves há muito que também branqueava os campos em redor da aldeia de Moure, o que era sempre motivo de preocupação para os seus habitantes.
Os pastos rareavam. As cabras que era hábito a Gracinda levar para o pastoreio já raramente saíam do estábulo, e o telhado coberto de neve já não fumegava pelos intervalos das placas de ardósia mas apenas pela velha chaminé, onde o odor daquela sopa gordurosa juntava à mesma mesa a frágil adolescência de Gracinda e os restos de saudade que consumiam a mãe, que ainda chorava a ausência do marido em parte incerta, e a angústia de quem mal tinha forma nem como gerir os parcos dinheiros que moldavam a sua pobreza.
Bastante agasalhada, acabada de chegar do forno comunitário da aldeia onde fora buscar o pão amassado pela Ana dos Currais, fascinada por tanta iluminação e depois de transpor o arvoredo que circundava a casa de quem, sendo médico em Lisboa apenas ali vinha ficar em épocas festivas, Gracinda abeirou-se de uma das janelas e ali ficou estupefacta, contemplando maravilhada a enorme árvore de natal e um amontoado de papeis de embrulho já rasgados que se espalhavam por toda a sala, depois de terem envolvido o que era agora o fascínio das crianças daquela numerosa e abastada família.
Já passava da meia noite e a Gracinda antes de regressar a casa ainda foi dar de comer ao gado, acariciar uma das cabras que estava prestes a ter cria e espalhar algum feno pelo chão do estábulo para o tornar ainda mais confortável para os animais, tendo tempo ainda de passar pela casa da vizinha Cordoeira, certificando-se se o lume da lareira estava apagado, aconchegar-lhe os cobertores ao corpo e fazer-lhe um pouco da companhia que à muito se viu privada desde que o marido, operário da construção civil, falecera de forma trágica num acidente de trabalho num dos bairros de Paris.
Sozinha com a mãe, no meio de quatro paredes iluminadas por uma candeia de azeite que projectava as suas sombras na rudez das pedras de granito, Gracinda olhava inerte para a lareira e para o caldeiro de onde fumegava o mesmo odor que há muito lhe dava o sustento.
Enquanto a mãe Florinda ainda esbracejava num alguidar para amassar o resto da massa dos cuscurões, Gracinda, de olhos abrilhantados pelo lume da lareira, lembrava a enorme árvore de natal da casa do médico que não lhe cabia dentro do casebre, imaginando-se criança e a brincar com os brinquedos que não vira mas que idealizava bonitos, a avaliar pela beleza dos papeis de embrulho que agora jaziam amarrotados num dos caixote do lixo.
Atenta que estava aos sons que viessem do outro lado das paredes da casa, ao menor sinal que lhe soou Gracinda correu apressada para o estábulo onde se iniciara o parto de mais um caprino, ajudando ao seu nascimento, aligeirando as dificuldades da velha cabra que soltava bramidos de dor.
Exausta, e depois de ter avisado a mãe que iria ficar no estábulo nessa noite para vigiar o animal que acabara de nascer, Gracinda, sentindo-se frágil mas inundada de felicidade, enroscou-se numa velha manta e aconchegou-se junto do pequeno cabrito de quem grande parte da noite não desviou o olhar, acariciando-o com a mesma ternura como se fora um brinquedo que nunca recebera, acabando por adormecer enquanto recordava todos momentos em que nunca tivera tempo para brincar.
No dia seguinte e de regresso ao trabalho do campo na companhia da mãe, Gracinda mais uma vez acabou por verificar que afinal tudo estava tal e qual como dantes, apesar do pároco da aldeia anunciar todos os anos que o mundo iria mudar “com o nascimento do menino”.


Carlos Vardasca
21 de Dezembro de 2008

domingo, 17 de agosto de 2008

"No meu prédio também moram andorinhas"


Parecia estar exausta. Quando lhe peguei, não fez o mínimo gesto para fugir, parecendo mais assustada por mãos estranhas a envolverem sem entender para onde a levavam.
Era uma andorinha jovem e estava caída no passeio da minha rua, parecendo estranho ainda ali permanecer quando por aquele empedrado vagueiam alguns gatos e cães, também eles esfomeados e sem abrigo à procura de um recanto para dormir.
Peguei nela e levei-a para minha casa, improvisando na minha varanda um ninho à semelhança daquele de onde provavelmente teria caído, com duas tigelas sobrepostas, onde a Mafalda geralmente come os cereais, deixando uma pequena abertura na eventualidade da jovem andorinha querer sair depois de recuperada.
Por mera curiosidade, coloquei-lhe numa das patas uma pequena anilha amarela, para na eventualidade de a poder observar numa outra circunstância no seu vai e vem do ciclo migratório.
Sem forças, deitei-a dentro da tigela que envolvi com trapos para se tornar mais acolhedor, enquanto me entretia a apanhar moscas e outros insectos que colocava ao seu lado na companhia de pequenos pedaços de pão.
Por duvidar da sua capacidade de se alimentar, por vezes abria-lhe o bico, dando-lhe de beber e alimentando-a até que me pareceu nada mais querer, quando já a noite se tinha abatido sobre Alhos Vedros e a lua parecia ter ancorado no seu cais.
No dia seguinte, a tigela, promovida provisoriamente à categoria de ninho estava vazia, e no seu interior nada restava dos vários insectos e pedaços de pão ali colocados, tendo a andorinha seguido o seu caminho provavelmente para paragens distantes no norte de África.
Pensei nunca mais a ver, pois, como seria natural, era uma entre tantas andorinhas que no seu ciclo migratório nem sempre regressam ao mesmo sítio.
Este ano, chegada a Primavera, mais uma vez me atarefei a afugentar as andorinhas que teimosamente tentavam fazer o ninho nos recantos da minha varanda.
Ainda no seu início, derrubei por duas vezes um ninho ainda em construção e, perante tanta insistência minha, aquelas andorinhas acabaram por desistir indo fazer o ninho não muito longe dali, mesmo por cima da porta de entrada do prédio onde moro, no entrelaçado dos cabos eléctricos que serpenteiam aquela construção.
Achei curioso a sua teimosia em querer fazer o ninho sempre ali nas proximidades, até que reparei, quando uma delas pousou no parapeito da minha varanda (o que estranhamente passou a fazer com alguma regularidade) que numa das patas ostentava uma pequena anilha amarela, e foi então que compreendi a sua teimosia em querer fazer o ninho próximo do local de onde partira no ano anterior.
Embora não fale, os seus voos rasantes acompanhados por um piar harmonioso quando sobrevoa por cima de mim quando venho à varanda, parecem ser uma singela expressão de gratidão, agradecendo a hospitalidade que lhe foi dispensada num dos momentos trágicos da sua vida, enquanto que no seu redopio alimenta as suas duas crias que parecem já estar preparadas para quando se iniciar a sua primeira aventura na procura de outros locais onde a temperatura é mais acolhedora.
O prédio onde moro (onde se sustenta aquela pequena estrutura de argamassa onde moram agora quatro andorinhas) prepara-se para ficar mais vazio quando as noites frias indicarem que é tempo delas iniciarem a longa marcha, até que as alterações climáticas as tragam de novo à minha rua, onde a gratidão destas aves parece ter ofuscado aquela que alguns humanos há muito riscaram do seu vocabulário.

Carlos Vardasca
17 de Agosto de 2008

Nota: Artigo enviado para o jornal "O RIO", jornal regional e independente do Concelho da Moita.
* Com este artigo sigo para férias e regresso no final de Agosto.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

"E os abutres devoraram a Estação de Alhos Vedros"


A minha indignação por este acto bárbaro efectuado pela REFER, mas com o conhecimento da Câmara Municipal da Moita desde 2005, pode ser lida num artigo de opinião que enviei para o jornal "O RIO" com o título "Uma memória em escombros", na secção de política do mesmo jornal em:

Carlos Vardasca
02 de Junho de 2008
Fotos: Estação de Alhos Vedros antes e após a sua demolição em 30 de Maio de 2008




quarta-feira, 28 de maio de 2008

"Não me levem a Estação"


De facto isto nada tem a ver com a Guerra Colonial. Mas tratando-se de uma tentativa de violência direccionada ao património desta terra que me acolheu e ajudou a moldar a minha personalidade, considero ser também uma "guerra" contra a população a simples intenção da REFER em demolir a Estação de Alhos Vedros, o que me entristece.
Entristece-me ver esta Vila histórica aos poucos ser desprovida da sua memória colectiva, ficar cada vez mais pobre, mas rodeada de prédios amuralhados onde proliferam algumas "ex-colectividades" hoje transformadas em meras tabernas, onde o associativismo foi trocado pelo culto fácil do "agora pagas tu e depois pago eu até que a rodada calhe a todos".
A Estação de Alhos Vedros é um património da nossa Vila que deve ser preservado, preservação essa que não impedirá a normal e necessária modernização da Linha Barreiro-Praias de Sado (veja-se o exemplo da Estação do Pinhal Novo) pois a manutenção daquela estrutura centenária poderá ser útil para albergar outros equipamentos tão necessários e de que esta Vila está tão carenciada.
Se em tempos houve desinteresse da Câmara Municipal da Moita em assumir aquele equipamento quando lhe foi proposto pela REFER, há que assumir esse erro e "dar a volta ao texto" porque a "hipocrisia já não rende e para esse peditório já não dou mais".
Agora, há que juntar vontades e, todos juntos, defendermos a manutenção da Estação de Alhos Vedros, como parte integrante do nosso património colectivo e dar-lhe a utilidade que os responsáveis locais entenderem ser o mais premente.
Do Tejo ao Rovuma está solidário com a luta da população de Alhos Vedros, sugerindo a todos a leitura do blog: http://estacao-alhosvedros.blogspot.com/

Carlos Vardasca
28 de Maio de 2008

Foto: Estação de Alhos Vedros, da autoria de JJCN.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

"Entre o Maio de Chicago e o Abril em Portugal"

Entre o acontecimento que ficou conhecido como a Revolta de Haymarket em 1886 com uma manifestação operária nas ruas de Chicago, com a finalidade de reivindicar a redução da jornada de trabalho para as 8 horas e o 25 de Abril em Portugal, muita onda de indignação se gerou no mundo, às quais os povos souberam engrossar grandes torrentes de descontentamento e desencadearam movimentos de protesto contra as ditaduras, pela liberdade de expressão e organização sindical e pela libertação dos povos sujeitos à opressão colonial.
Entre a Revolta de Haymarket que continuou nos dias seguintes e que vitimou dezenas manifestantes e o Maio de 68 em França, gerou-se uma ruptura nas mentalidades por um novo conceito de ensino, pelo fervilhar de uma nova postura nas formas de estar e no modo de vida das sociedades. Em Maio de 68 os estudantes ao revoltaram-se contra as rotinas do Estado Burguês tiveram um papel primordial na defesa dos princípios da autodeterminação das Universidades com a ocupação de algumas delas como a de Sorbonne em França, e desencadearam um movimento de massas a que aderiu grande parte do operariado francês como forma libertadora de um estado autoritário e castrador das liberdades individuais, que teve reflexos emancipadores em todo o mundo e nas gerações seguintes.
Desde a Revolta de Haymarket em 1886 e o início da Guerra Colonial em 1961, muitos Impérios sucumbiram à força avassaladora dos ideais de liberdade que romperam com as grilhetas da escravidão, fazendo nascer em toda a África (que era um dos palcos para todas as formas de exploração humana e dos seus recursos naturais) vários movimentos de libertação com espírito nacionalista que se levantaram contra a opressão através da luta armada, expulsando o colonialismo dos seus territórios, respondendo aos vários apelos que ecoaram por toda a África e que apelavam ao levantamento dos povos contra o sistema colonial, inspirados em frases que ficaram célebres, entre as quais também se dizia:
Quando os brancos chegaram a África,
nós tínhamos as terras e eles a bíblia.
Ensinaram-nos a rezar de olhos fechados
e quando os abrimos,
eles tinham as terras e nós a bíblia.(1)
Desde a Revolta de Haymarket em 1886 até à Guerra do Vietname que durou desde 1959 a 1975, muitos mitos de invencibilidade caíram por terra como se fossem "tigres de papel", personificada na derrota dos EUA frente aos guerrilheiros Vietcong que lhes infligiram uma humilhante derrota no campo de batalha, assim como todos os Impérios coloniais que ruíram como se fossem "um baralho de cartas".
Recordar a Revolta de Haymarket nos dias de hoje e neste 1º de Maio de 2008, é envolvermo-nos em outras formas de luta mais actuais contra o conceito neoliberal do pensamento único, que tenta também em Portugal (com a cumplicidade dos vários governos que se têm alternado no poder desde o 25 de Abril), amordaçar e aniquilar a liberdade individual dos cidadãos, criar-lhes dificuldades no acesso ao ensino, à saúde e ao emprego, acentuar as desigualdades sociais, limitar-lhes a criatividade e formatar-lhes as ideias para melhor gerir o seu domínio à escala mundial.
Sendo este um dos lados mais perversos da globalização em curso, penso que os trabalhadores não devem desistir de lutar por uma Europa mais social, onde os valores da solidariedade seja um dos factores do progresso e da emancipação dos povos, onde se respeite a verdadeira identidade cultural das nações, por uma Europa que sirva as aspirações dos povos e não das multinacionais.
Carlos Vardasca
1º de Maio de 2008
Fotos: Cartaz de Maio de 68 e manifestação nas barricas nas ruas de Paris.
(1) Jomo Keniatta

quinta-feira, 24 de abril de 2008

"Parto de Abril"


Poemas trilhados pela denúncia
Prosas rasgadas na censura,
Ventos que não sopram de feição,
Grades, algemas, qual tortura.


Gentes que suam sem protesto,
Fatos de ganga gastos de cansaço,
Rostos silenciados pela noite,
Presos, carentes de um abraço.


Noite submersa manhã revolta,
Gargantas secas gritos roucos,
Fardas ingénuas na penumbra,
Vampiros do regime, depostos, loucos.


Ruas inundadas de mudança
Nascem, correm multidões mil,
Liberdade arrancada parida da revolta,
Abraça o nascer de Abril.


Carlos Vardasca
24 de Abril de 2008

Foto de Alfredo Cunha

"Tão tarde pela madrugada"


(...) Quando os homens são maiores que o chão que pisam não há limites para a ambição. Chegara pois o tempo do Infante que via sempre um pouco mais para além do horizonte; um homem que não cabia no chão que lhe deram.
Foi por isso que Portugal ficou maior que Portugal.
Portugal do tamanho da visão de um homem.
Portugal hiperbólico, ubíquo. global.
O Infante ia à frente da história e levava consigo a nação inteira, e a história teve que seguir atrás de Portugal.
Ainda a Europa toda pensava que o mar acabava onde começava o medo e o Infante inventou o mar para além do medo e deu-lhe Portugal como dono.
E Portugal cresceu até onde existia mundo; porém nenhuma pátria é suficientemente grande se não deixar crescer os homens dentro de si.
E também nenhum despotismo é suficientemente eficaz para evitar que um dia os negreiros se transformem em escravos.
E assim chegara o tempo do segundo infante, o descobridor de Portugal para aquém do medo, o navegador às arrecuas, o anti-Infante.
Já a Europa toda sabia que a liberdade era a maior dimensão humana e Portugal ainda cultivava a pequenez do medo.
Portugal implodido, paroquial, microcéfalo, autofágico.
Que imperialista pode ser tão tacanho que a sua ambição ocupe apenas o espaço dentro das próprias botas?
Em Portugal, homens livres, só os que estavam na prisão.
Os jovens combatiam em distantes paragens enquanto os seus pais se sentiam cativos em casa.
Os camponeses abandonavam a terra solteira, partindo como fazem as andorinhas quando já não acreditam na Primavera.
E quando os filhos da pátria regressavam finalmente a casa; a juventude amortalhada de silêncio, o último grito congelado no rosto; traziam no sítio destinado à alma, o relento pútrido da guerra longínqua.
Um manto de viuvez cobria as aldeias e os campos e uma dor calada asfixiava a esperança no peito.
Portugal estendido pelo mundo inteiro e os portugueses dentro de casa com falta de ar.
Mas nenhum tirano pode mobilizar a coragem do seu povo para defender um império distante e impor que viva cobardemente na sua pátria.
Por isso não faltaram vozes ocultas a traficarem a esperança nas esquinas cúmplices da noite.
Há sempre quem mantenha o lume aceso, mesmo quando ele esmorece na alma dos homens.
Há sempre quem sopre, sopre de mansinho, como quem passa a palavra, para que no âmago do carvão mais escuro se mantenha uma, ainda que ténue, brasa de esperança.
Que longa que foi a noite. Como tardava a amanhecer. Como é sempre mais difícil dobrar o insignificante Cabo Bojador, dentro de nós.
Porém finalmente os portugueses descobriram Portugal, acordando nele.
Nunca as armas foram empunhadas tão rente à poesia.
Nunca antes os soldados combateram dançando com o povo.
Nunca o ar madrugara tão leve.
E o Adamastor façanhudo que nos asfixiava transformou-se num rato, temendo a vingança daqueles que anoiteceram oprimidos e amanheceram livres.
Os tiranos tremeram.
Os esbirros assanharam-se inutilmente de pavor.
E os muito, muito estúpidos ainda continuam a perguntar-se porque vieram de repente todos os portugueses para a rua.
Os portugueses apenas navegaram mais uma vez para além do medo.
Os portugueses vieram para a rua só para respirar.
Manuel Bastos
23 de Abril de 2008
Foto: Manifestação popular junto ao Teatro Trindade no dia 26 de Abril de 1974 (foto de Guilherme Silva)

quinta-feira, 10 de abril de 2008

"Um regresso inglório"


(...) Dizem alguns historiadores, que a batalha de La Lys na I Grande Guerra Mundial (1914-1018) travada em 9 de Abril de 1918, foi mais um pretexto para Salazar criar (anos mais tarde) mais um mito para glorificar a epopeia além fronteiras das tropas portuguesas. Na verdade, as tropas alemãs nessa batalha impuseram uma estrondosa derrota às tropas portuguesas, tendo morrido nas nossas trincheiras cerca de 7 mil homens e feitos 6585 prisioneiros. As tropas portuguesas, que na sua grande maioria eram oriundas dos meios rurais, intervieram naquele conflito mal preparadas, mal armadas e sem o mínimo de preparação para nela intervirem, ao ponto de, num clima extremamente frio usarem fardas de verão, dormirem com mantas enlameadas devido ao estado degradante das trincheiras onde estavam posicionados, e sujeitas ao abandono a que foram votados por Lisboa. Daniel Vardasca (meu avô) participou nessa batalha e foi feito prisioneiro dos alemães até ao final do conflito. Em miúdo, e durante as férias do colégio que as ia passar a Santarém, ouvia em casa do meu avô várias histórias passadas naquele período, que foram bem marcantes para quem as viveu. Durante a sua prisão no campo de prisioneiros, dizia ele, que devido à escassez de alimentos, apanhavam ratos que circulavam pelas velhas casernas e os assavam, depois de devidamente esfolados. Com o final da I Grande Guerra Mundial e a libertação de todos os prisioneiros portugueses, estes foram embarcados em vários navios e enviados para Lisboa. Num deles, o vapor "Carvalho Araújo", chegou o meu avô a Lisboa, e sobre a sua chegada lembro-me de uma outra história contada por si. Segundo ele, Maria Branca Vardasca (sua mulher e minha avó) foi esperá-lo ao Cais de Alcântara, assim como milhares de familiares dos soldados que regressavam dos campos de prisioneiros. O meu avô estava irreconhecível, de barba e cabelo bastante grandes, muito sujo e muito magro que estava, que a própria mulher não o reconheceu, quando esta se lhe dirigiu a perguntar se o Daniel Vardasca vinha naquele navio.
Admirado e extremamente comovido por a mulher não o reconhecer, abraçou-a com tanta força e chorou no seu ombro demoradamente, até que a sua presença fora reconhecida e a minha avó se apercebeu de quem a abraçava (...)
Carlos Vardasca
10 de Abril de 2008
Foto: Corpo Expedicionário Português na despedida para a frente de batalha, e Daniel Vardasca a quando da sua incorporação na Guarda Nacional Republicana.

domingo, 23 de março de 2008

"A minha África"


(...) Quando se partilha de uma certa tranquilidade, é sempre o momento propício para rever alguns filmes que nos fascinaram pela sua história, pela beleza paisagística, e pelo sopro dos ventos de África que nos trazem o cheiro do capim queimado, ao som da excelente música escrita por John Barry. "África minha" é uma dessas belezas da Sétima Arte que preenche de uma certa nostalgia quem por lá andou, embora noutras circunstâncias que eram de facto bem diferentes. Quando recordo África não é pelas mesmas razões da história desse belíssimo filme, mas por outras que foram moldando o meu tempo e o modo como hoje ainda as vivo. Ao olhar África a esta distância, recordo-me do momento em que embarquei no Niassa e os meus olhos pareciam fotografar o seu pôr-do-sol; as queimadas que diziam iluminar a noite na mata densa invadida pela escuridão, assim como o choro angustiante das hienas que rondavam os aquartelamentos. Quando me recordo de África, assalta-me a memória as cumplicidades partilhadas com os meus companheiros no fundo do porão do navio que nos transportou para aquele inferno; os momentos gélidos quando a Companhia de Caçadores 3309 mergulhou no Índico para fazer a sua aproximação às praias de Palma e os momentos dramáticos vividos nas margens do rio Rovuma. África obriga-me a recordar imagens de rara beleza mas que não as podíamos beber com a contemplação que exigia o momento, pois caminhávamos exaustos pelo capim com outras preocupações que nos prendiam a respiração e nos estrangulavam a alma, não fosse o sopro de uma bala nos "rasgar aquele quadro pintado sobre a copa dos embondeiros e das acácias" e nos fazer tombar na berma da picada. Ainda hoje África me recorda o rufar dos tambores por cada companheiro tombado sem jeito nem glória, ao serviço de "uma pátria que os pariu e os enjeitou" para endeusar falsos heróis que bebiam na mesma gamela dos fazendeiros e se espojavam nos lucro dos cafezais. A África que me recordo traz-me à memória as longas noites ensurdecedoras dos batuques, iluminadas pelas fogueiras que ajudavam a clarear o Planalto dos Macondes, e que ajudavam a queimar as memórias de tantas infâncias agora distantes, enquanto o orvalho da manhã transformava em gotas o cacimbo que teimosamente escorria sobre o capim. África recorda-me o imponente pôr-do-sol que se escondia para lá das montanhas da Tanzânia, e que no seu recolhimento deixou escurecer a juventude de milhares de jovens que nele se aqueciam, para tombarem sem jeito nem prosa "ao serviço de uma pátria que não os mereceu e deles se serviu em troca de nada". Não posso recordar as fascinantes paisagens de África e do seu deslumbrante pôr-do-sol, sem me lembrar das baixas ocorridas em combate por parte do Batalhão de Caçadores 3834:
Companhia de Caçadores 3309 - 4
Companhia de Caçadores 3310 -14
Companhia de Caçadores 3311 - 1
Assim como dos seus feridos em combate, alguns deles com alguma gravidade:
Companhia de Comando e Serviços - 3
Companhia de Caçadores 3309 - 23
Companhia de Caçadores 3310 - 44
Companhia de Caçadores 3311 - 10
A África que eu recordo é tudo isto, mas também os encontros onde nos reunimos anualmente com uma imensa felicidade, onde homenageamos todos aqueles que já não estão connosco e que, "no seu sono eterno" nos fazem ainda recordar os laços de camaradagem que se fortaleciam com o clarear da savana e o troar dos canhões que jamais os farão apagar da nossa memória (...)
Carlos Vardasca
23 de Março de 2008
Foto: Pôr-do-sol em Cabo Delgado. Moçambique 1971

terça-feira, 18 de março de 2008

"Quem cala consente"

Bartoon por Luis Afonso
Jornal "Público" de 18 de Março de 2008

sexta-feira, 14 de março de 2008

"...Até parecia que mordia a madeira"


(...) Nunca cheguei a saber onde aprendera a arte da marcenaria. De início, quando chegou ao aquartelamento de Nangade, os seus olhos pareciam que brilhavam cada vez que via um pedaço de madeira que pudesse ser moldado. Quem o queria ver nas horas vagas, era sentado num pequeno banco com o pequeno madeiro entalado entre os joelhos, manuseando as ferramentas até alterar a sua fisionomia, exibindo um tique que lhe era muito característico. A sua língua saía fora dos lábios e ficava entalada entre os dentes, as suas sobrancelhas gesticulavam numa dança que evidenciava alguma fonte de inspiração e, os seus olhos, quase encostados ao punção, como que a indicar-lhe o caminho que devia percorrer no trajecto da arte de bem moldar. O que é certo, é que daqueles pedaços de madeira sem vida surgiam sempre pequenas flores desenhadas em relevo, envoltas por um emaranhado de outros ornamentos que faziam lembrar pequenas peças de arte esculpidas por um mestre entalhador. O Duarte, devido ao seu característico tique que o acompanhava sempre que tentava dar vida àqueles pequenos tarolos, ficou mais conhecido como o "Mordedor de madeira"(1), a quem todos nós lhe chamávamos de uma forma tão afectiva que lhe provocava um ligeiro sorriso pois sabia que da nossa parte longe estava a ideia da mera chacota.
Raro foi o oficial ou Furriel da C.CAÇ. 3309 que não solicitasse os serviços do "Mordedor de madeira", sendo uma das formas de durante algum tempo este ter escapado às incursões na mata, ficando no Aquartelamento embrenhado na moldagem em pequenas mobílias de alguns arabescos, que entrelaçava em cavidades que à força rasgava empunhando com arte os vários punções, que depois de muito esforço e arte davam forma em pequenos enfeites que com muita mestria esculpia na madeira (...)
Carlos Vardasca
14 de Março de 2008
Foto: Depois do rebentamento de uma mina anti-carro na viatura conduzida pelo "Mordedor de madeira", a viatura está a ser preparada para ser rebocada.
Na foto estão o "Mordedor de madeira" com um ligeiro sorriso nos lábios por ter escapado ileso daquela explosão, o João Luís dos Santos Nabais (falecido em 07 de Maio de 2007) de lenço preto ao pescoço junto ao rodado, e o Alfredo Bernardino Pereira (falecido em 1975 ) em pé e de tronco nu, todos da Companhia de Caçadores 3309.
(1) Alcunha do Soldado Condutor Auto Rodas, António Duarte da Silva Pereira.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

" ...não podia ficar indiferente"



(...) Como já vem sendo hábito, e porque o poder dos mais fortes sempre se tem sobreposto ao dos mais fracos, assistimos (a exemplo do que aconteceu com a Conferência de Berlim em 1884-1885 que esquartejou o continente Africano ao sabor do apetite das potências coloniais) ao retalhar do continente europeu por imposição dos EUA, que assim desta forma debilitam o "velho continente" forjando conflitos (mas sempre longe das suas fronteiras), criando-lhe dificuldades para que o Euro não passe a ser a moeda de referência, destronando o Dólar nas trocas comerciais entre países. A declaração unilateral de independência por parte da província do Kosovo instigada pelos EUA (território que legitimamente é parte integrante da República Sérvia, conforme reconhecimento das Nações Unidas) faz parte da estratégia dos EUA de estender a sua influência aos países da ex-Europa de Leste e aproximar-se das fronteiras da Rússia.
Para que não hajam dúvidas, a tão proclamada aspiração de independência do Kosovo nada tem a ver com o legítimo direito dos povos das ex-colónias portuguesas ou do povo de Timor-Leste a libertarem-se do jugo colonial e da ocupação Indonésia. São questões tão diferentes que merecem um breve esclarecimento. Na província do Kosovo não se assistiu a nenhuma ocupação como se verificou nas antigas colónias e num outro contexto em Timor-Leste. O que aconteceu foi que, para fugirem à miséria e procurarem um modo de vida mais desafogado, muitos albaneses efectuaram ao longo de vários anos, vários surtos migratórios da Albânia para o sul da então Jugoslávia (juntando-se a muitos muçulmanos que já ali habitavam) tornando-se desta forma a população maioritária naquela província do Kosovo, também devido aos fortes índices de natalidade daquele povo muçulmano que contrastava com a baixa natalidade do povo Sérvio.
Apesar desta realidade, pergunta-se então:
- Que legitimidade tem uma minoria étnica em reivindicar a soberania de um território que não lhe pertence mas que a acolheu, só porque os seus protagonistas que gozam de algum prestígio nacionalista (para além de se refugiarem na hegemonia populacional) se sentem protegidos pelos "senhores da guerra" e pelos poderosos cartéis da corrupção e do tráfico de armas?
Vamos supor que aqui entre nós se desencadeia um surto migratório de populações espanholas para uma qualquer província do nosso país, e aí, ao longo dos tempos, passam a constituir a maioria da população desse território e se sentem no direito de reivindicar a sua autonomia.
Como é que nós portugueses então reagiríamos, se assistisse-mos ao esquartejar da nossa pátria por interesses que nos eram alheios?
Perante mais esta violação da soberania de um estado, ficou cada vez mais claro para quem ainda tinha dúvidas (com a declaração unilateral da independência do Kosovo) que o direito internacional só é respeitado conforme as conveniências das potências hegemónicas, mesmo que para isso criem um estado artificial (cuja inviabilidade o fará viver permanentemente sob a ocupação estrangeira) onde a legitimidade da sua existência sirva apenas para alimentar a instabilidade no continente europeu, e ali dar guarida a interesses que nada têm a ver com a convivência étnica que era uma das características daquela região dos Balcãs, antes de se instalar a instabilidade (que se provou ser importada mas que tanto Sérvios, Bósnios e Muçulmanos não podem deixar de ser também responsáveis) e que deu origem aos conflitos já conhecidos e ao desmembramento da ex-Jugoslávia por ordem do Pentágono.
Como eu não poderia ficar indiferente, aqui fica o meu contributo para a compreensão desta questão, que aliás, ainda vai fazer correr muita tinta na imprensa mundial de referência, que decerto irá denunciar e não deixará impune mais esta fraude com mais uma violação do direito internacional, a exemplo de outras tantas, como foi o caso da monstruosa mentira da existência de armas de destruição maciça no Iraque, e que provocou milhares de vítimas inocentes só para saciar os apetites hegemónicos do "Império" (...)

Carlos Vardasca
22 de Fevereiro de 2008
Mapas recolhidos do "Google" e do "Mundo Diplomático".

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

" ... O assalto à cidadela fortificada"


(...) Foi num ápiçe que o li. Bastaram dois "pedaços" de leitura: um da parte da manhã e outro à noite, para me debruçar sobre aquelas 224 páginas e concluir com bastante agrado a leitura daquele romance. É de facto uma excelente obra. "Eldorado" não nos fala da guerra que consumiu a nossa juventude em África, mas de outra, também dramática e muito actual, e que a cada momento devolve corpos disformes, exaustos, às costas do sul da Europa, sacudidos pelas tempestades do Mediterrâneo. Fala-nos dos imigrantes do norte de África que se aventuram no "assalto à Europa fortificada", pois aí dizem encontrar os celeiros repletos enquanto nas suas barrigas se "saboreia a escassêz". Dos vários (não muitos) que já vem sendo hábito ler ao longo do ano, "Eldorado" foi o primeiro livro que li em 2008, e a sua história comovente, é uma espécie de "murro no estômago das nossas consciências", quando nos confrontamos com a atitude do Comandante Salvatore Piracci que, depois de ter passado vinte anos a patrulhar a costa Italiana na protecção das fronteiras marítimas, mas também a recolher náufragos abandonados em alto mar pelos passadores e traficantes sem escrúpulos, decide abandonar tudo e encetar a mesma viagem mas no sentido inverso.

É um livro que se recomenda. De leitura fácil, que não obriga o leitor a exercitar outras interpretações para além daquilo que está a ler, não deixando no entanto de ter uma narrativa muito sóbria e bem marcante do drama daqueles povos que "ousam meter-se a caminho para inventarem uma terra prometida"

Se aquele Comandante acabou por reconhecer que em "cada vida que salvou, houve um sonho que se desfez", então por que razão continuamos "do alto das nossas muralhas a atirar setas para aquelas ordes de invasores", impedindo-os de partilhar dos nossos celeiros e das riquezas que autrora lhes saqueámos?

Carlos Vardasca
18 de Fevereiro de 2008

"Eldorado"
Autor: Laurent Gaudé
Edições ASA
224 páginas
Preço: €12,00

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

" ... Já cá canta a pensão do Vietname"



(...) Em Novembro de 2007 esteve cá em casa uma visita inesperada. Quando tocaram à campaínha, pensei ser o carteiro que me vinha trazer mais um álbum de fotos de guerra que me têm sido enviados com alguma regularidade pelos meus companheiros da ex-C.CAÇ. 3309, mas não. Quando abri a porta, vi o Pilhas Secas" (1) ironicamente todo sorridente, exibindo um pequeno impresso:
-Epá Braz, sabes o que é isto? - finalmente começei a receber a "pensão do Vietname".
Durante o almoço conversámos sobre o assunto, e ambos concordámos que aquela verba se tratava de uma ninharia atribuída anualmente aos ex-combatentes pela sua participação em zonas de conflito, verba essa que seria decerto muito mais compensatória se fosse distribuída a quem de facto mais necessitaria dela.
Os parcos 107 Euros atribuídos anualmente (cerca de 8 Euros mensais), para além de não compensar ninguém pelo esforço de guerra a que foi obrigado devido à política colonial dos "velhos do Restelo", também não são de modo algum uma forma de dignificar os ex-combatentes (como dissera na altura o então ministro da defesa Paulo Portas). Quando na altura se falava em legislar sobre essa matéria (e embora não estivesse ainda abrangido por ela) tive a oportunidade de escrever para o então ministro da Defesa onde dizia, entre outras questões, o seguinte:
- Começando por discordar dos fundamentos da mesma lei, os fins que a mesma visava associada a objectivos meramente eleitoralistas, e independentemente da verba que viesse a ser atribuída, eu dizia que pela minha parte (e decerto pela parte da maioria dos ex-combatentes) prescindiria de a receber em favor daqueles que realmente estão mesmo necessitados desse complemento de reforma por muito ridícula que ela fosse, como se veio a comprovar após a aplicação da referida lei.
Eu referia-me aos ex-combatentes com stress de guerra pós-traumático, que ainda hoje transportam consigo os horrores da guerra com graves consequências na sua vida familiar; aos estropiados, invisuais e amputados que são aos milhares e que vivem com bastantes dificuldades na atribuição de próteses e meios de locomoção; enfim a uma imensidão de ex-combatentes que se vêm abondonados por uma sociedade que se serviu deles e agora os ingnora, no sentido de verem melhoradas as suas condições de existência e aumentadas as parcas pensões que actualmente usufruem e delas tentam sobreviver.
É claro que aquela carta foi logo atirada para o "arquivo geral" (2) como tantas outras que os governantes ou os seus assessores fingem não entender, continuando a não dar as respostas adequadas à dimensão com que este drama merece ser tratado.
Estou-me a lembar de um dos últimos casos de que tive conhecimento, e que decerto aconteceu por falta de acompanhamento, de que um ex-Alferes com quem convivi em Nangade e passámos horas amargas e de muita ansiedade nas picadas no norte de Moçambique, se suicidara no passado dia 10 de Dezembro de 2007 em circunstâncias muito estranhas. Há muito que sofria de stress de guerra, decidindo últimamente refugiar-se numa das matas da Marinha Grande, escondendo o seu carro camuflando-o com a vegetação "para que não fosse visto pelo inimigo", e aí sobreviver durante quinze dias, alimentando-se de pequenas raízes e de lapas que aproveitava colher com a maré vazia, como se estivesse a lutar pela sobrevivência numa operação em pleno conflito colonial, acabando por termo à vida de uma forma tão inglória, ao fim de 36 anos do seu regresso de África (...)

Carlos Vardasca
08 de Fevereiro de 2008

Fotos: Posto de Rádio do Aquartelamento de Nova Torres e Manuel José Rodrigues Alexandre (Pilhas Secas), ex-Furriel Miliciano de Transmissões da C.CAÇ. 3309, junto do Obus 14 no Aquartelamento de Tartibo.

(1) Alcunha atribuída àquele militar como referência à sua especialidade.
(2) Vulgarmente conhecido por caixote do lixo.






sábado, 2 de fevereiro de 2008

" ... As viúvas do Império"


(...) Era a alegria da criançada da aldeia, quando o carteiro aparecia lá no cerro junto à casa do ti Zé das Cabras e descia com a sua velha Zundap até ao centro do lugarejo. As crianças corriam a avisar os pais da sua chegada, indo estes concentrar-se junto da venda do Ti Juvenal onde o carteiro era hábito deixar a correspondência para que aquele fizesse a sua distribuição. Naquele dia, e depois de deixar a maioria da correspondência na venda, o carteiro dirigiu-se na direcção da casa da Maria Perpétua com um pequeno impresso que retirara da sacola, tendo dito ao Ti Juvenal que aquele telegrama tinha que ser entregue em mão ao destinatário. As pessoas ali concentradas e pressentido algo de estranho, acompanharam o carteiro até à casa da sua vizinha para se certificarem das suas desconfianças. Depois de entregue o telegrama à destinatrária, esta, como não sabia ler, pediu ao funcionário dos CTT (já com as mãos muito trémulas e afrontada de suores) que lhe fizesse o favor de ler o seu conteúdo, ao que este respondeu (já prevendo que tipo de informação ali vinha, pois já não era o primeiro telegrama que entregara vindo do mesmo organismo militar) não o poder fazer pois estava com muita pressa para entregar o resto da correspondência nas outras aldeias vizinhas, livrando-se daquela forma, de ser ele a transmitir o que já vinha sendo o motivo de muita angústia em grande parte das aldeias das redondezas.
A Ti Zulmira a muito custo e com bastante receio do seu desfecho, lá se ofereceu para ler aquele pedaço de papel emanado do Chefe do Estado Maior das Forças Armadas, ficando estupefacta com o que acabava de ler só para si, abraçando a Maria Perpétua com tanta força dizendo-lhe (inundada em lágrimas que caiam por cima do seu ombro) ao mesmo tempo que lhe saía do peito um desabafo entre soluços mas tão forte, que parecia querer avisar toda a aldeia:
- O seu Amílcar morreu vizinha Perpétua...é o que diz aqui!
- O seu filho morreu em combate em Moçambique!
Logo toda a aldeia se concentrou no largo da fonte a comentar o ocorrido:
- Então eles não diziam que já não havia guerra e que os feridos ou mortos que houvessem era tudo devido a acidentes de viação? - comentava uma jovem aldeã bastante comovida, pois conhecera o Amílcar desde os tempos da escola primária.
- Isso é tudo mentira menina! - respondeu a mulher do Ti Juvenal - continuando:
- Eles pensam que nos enganam (disse dirigindo-se a todos os presentes no largo) mas o meu filho, a quem faltam três meses para regressar daquele inferno, tem-me escrito de lá e contou-me que só na sua Companhia (1) já tinham morrido 14, e ficado feridos uns 44, e tudo por causa lá dos pretos que os atacam ora no aquartelamento ou na mata, por onde eles andam com o capim até por cima das orelhas (...)
Carlos Vardasca
02 de Fevereiro de 2008
Desenho de Carlos Vardasca. 1988
(1) Companhia de Caçadores 3310, estacionada no Aquartelamento de Omar na Província da Cabo Delgado, no Norte de Moçambique.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

" ... Há mestres que nunca se esquecem"

(...) Antes de assentar praça no CICA 5 (1) em Lagos, ainda fiz uma incursão embora que breve na Marinha Mercante. Embarquei no navio "Benguela" em 18 de Novembro de 1968, e a bordo daquela geringonça que mais parecia uma lata flutuante, percorri toda a costa ocidental de África desde S.Tomé e Príncipe até à Baía dos Tigres, assim como a oriental desde a Cidade do Cabo até Porto Amélia (Pemba), até ser incorporado no exército em 27 de Julho de 1970. A bordo do "Benguela" conheci o cozinheiro Sungo, personagem bastante interessante originário do enclave de Cabinda, natural da aldeia de Tchinzaze e pertencente à etnia Kongo. O meu camarote ficava em frente do dele, e era com bastante frequência que ouvia o seu potente rádio sintonizar uma estação que debitava uma "lamuria" que eu não entendia. Mais tarde (e porque estabelecemos uma relação de confiança e até de amizade, e soube que ele partilhava das minhas ideias anti-colonialistas) me confidenciou, que aquilo que eu chamava "lamuria" era a "Voz dos Combatentes de Cabinda", transmitida no seu dialecto da mata pelos guerrilheiros da FLEC (2). O cozinheiro Sungo era um excelente profissional de cozinha e uma pessoa muito carinhosa, mas ao mesmo tempo muito revoltado com o comportamento da maioria da tripulação do navio (em especial dos empregados de mesa) que troçavam dele de uma forma tão cruel sempre que se aproximava a hora das refeições:
- Então "escarumba", o comer já está pronto? Repetindo a frase até à exaustão com o objectivo de o provocar:
- Seus racistas de merda - respondia indignado até as lágrimas lhe inundarem a face negra. Devido à nossa diferença de idades, sempre me tratou por "miúdo" e era com bastante ternura que comigo se libertava dos seus silêncios e desabafava os seus lamentos. Sabendo das minhas preferências musicais, um dia de regresso de uma longa viagem de seis meses e quando o "Benguela" estava atracado no Cais da Rocha de Conde Óbidos em Lisboa, levou a sua esposa ao meu camarote e me ofereceu um LP dos Beatles (Sargeant Pepper's Lonely Hearts Club Band) que ainda hoje o conservo como recordação sua. Recordo tão bem esse dia, porque foi no dia em que a PIDE inesperadamente irrompeu pelo navio a dentro e arrancou o Sungo do Camarote, assim como a esposa que ali se encontrava de visita, e os levou presos, acusados de conspiração política. Mais tarde, soubemos que fora o padeiro de bordo que o denunciara, pois há muito que o vigiava fingindo-se seu amigo. Só voltei a ver o velho Sungo quando já tinha regressado de Moçambique e logo após o 25 de Abril de 1974, numa manifestação no Rossio contra a Guerra Colonial, onde me disse emocionado quando me viu, que a esposa falecera na prisão vítima das torturas que lhe foram infligidas pelos "chacais do regime", como era seu hábito dizer quando se referia àquela polícia política Marcelista.
Para além das muitas referências que ajudaram a moldar a minha personalidade, o velho Sungo é também uma delas, porque foi com ele que, antes de participar naquele conflito tomei mais consciência da questão colonial e do sabor amargo da repressão, sobre quem apenas queria ser livre e desprezava a humilhação racial.
Não sei se Sungo já faleceu, mas constou-se que logo após a independência das ex-colónias regressou à sua aldeia no interior de Cabinda, e lá construiu uma pequena casa com telhado de colmo, onde sempre dizia querer passar os seus últimos dias (...)

Carlos Vardasca
23 de Janeiro de 2008

(1) Centro de Instrução e Condução Auto
(2) Frente de Libertação do Estado de Cabinda, organização de guerrilha do norte de Angola, fundada em 04 de Agosto de 1963

sábado, 19 de janeiro de 2008

"... Deambulando pelos subúrbios do céu"


(...) Apesar do seu pseudo-marialvismo e de ser uma personagem que aparentava alguma perturbação emocional, que possívelmente escondia a ausência de afectos, eu gostava muito dele. Comecei a conviver mais com ele já no Regimento de Infantaria nº 9 em Viana do Castelo, onde a nossa Companhia (Companhia da Caçadores 3309) aguardava embarque para Moçambique. Sabia-se que era de origem humilde (como todos nós) e com o pai emigrado nos EUA, mas não deixava no entanto de exibir um snobismo sem consistência quando dizia com algum exibicionismo que morava na Foz do Douro. O "Foz"(1) como ficaria a ser conhecido entre nós, tinha as suas origens em S.Pedro de Agostém, próximo de Chaves, e por isso mesmo tentava esconder a sua ruralidade fingindo ser daquele zona "chique" do Porto. Depressa nos demos conta disso, mas não lhe atribuímos qualquer importância pois privilegiámos essencialmente a solidificação da nossa amizade tão necessária para os momentos conturbados que iríamos viver na frente de batalha. Enviados para o norte de Moçambique, mesmo para o centro do conflito no Planalto dos Macondes, onde "o sol castigava mais", alguns de nós, na véspera de saída para o mato, procurávamos refúgio no fundo do abrigo (a nossa tasca) impregnando-nos de "Suruma"(2), para nos esquecermos do "inferno" para onde éramos enviados sem saber se dele regressávamos. O "Foz", mais vulnerável e fragilizado, deixou-se "agarrar", partindo para outros consumos que aos poucos lhe vidraram o olhar e lhe toldaram as ideias. Regressado da guerra e apesar dos nossos esforços para o encontrarmos, ninguém mais soube da sua existência, dizendo-se que deambulava pelos labirintos escuros das ruas do Porto no consumo de estupefacientes. Um dia, estava eu em casa a almoçar e a ver o programa TOP-MAIS na RTP1, fiquei espantado e ao mesmo tempo esperançado com o que vi. Estava a passar um video-clip do Pedro Abrunhosa com a canção "Quem me leva os meus fantasmas", ao mesmo tempo que iam passando imagens dos "sem abrigo" da cidade do Porto, quando me fixei numa das personagens por não me ser totalmente estranha. Embora mais velho, de gorro enfiado na cabeça talvez para esconder a calvície e de barba espessa para encobrir a magreza, os seus olhos, apesar de profundos, ainda transmitiam o mesmo brilho (embora mais baço) quando nas casernas falava das "meninas da Foz" e mais tarde dos corpos esbeltos das negras do aldeamento de Palma. Sem demora, entrei em contacto com o site daquele cantor para me certificar se de entre aqueles "sem abrigo" que se dispuseram a participar naquele video-clip, se algum deles se chamava Eduardo da Silva Machado. Fiquei de facto muito emocionado quando me confirmaram a sua identidade. Contactei de novo aquele site para me informarem do seu paradeiro e para que lhe transmitissem a identidade de quem andava à sua procura, dizendo no entanto que aceitaria e respeitaria todas as hipóteses que por ele fossem colocadas, entre elas, dar-lhe o meu contacto para nos encontrarmos e conversarmos sobre a sua "odisseia", ou de querer manter o seu anonimato e continuar a viver nos "subúrbios do céu", como era seu hábito dizer quando dizia estar "em viagem" pelos odores da erva queimada.
O "Foz" parece ter optado por esta última, dado que nunca mais recebi qualquer informação a seu respeito. É pena, pois todos na C.CAÇ. 3309 há muito que o procurávamos para o receber entre nós e, se possível, ajudá-lo a "afugentar os seus fantasmas", contribuindo para minorar as suas dificuldades, convidando-o a participar nos nossos Encontros que realizamos anualmente, tentando indicar-lhe um "novo rumo para a sua viagem" que parece continuar a ser muito atribulada (...)
Carlos Vardasca
19 de Janeiro de 2008
(1) Alcunha de Eduardo da Silva Machado, ex- Soldado Condutor Auto Rodas NM 15189470 da Companhia de Caçadores 3309.
(2) Planta da África oriental, nociva como ópio, que os nativos costumam fumar.
Foto: O "Foz" ao volante de um Unimog 404, quando a C.CAÇ. 3309 foi forçada a retirar de Nova Torres para ocupar o novo Aquartelamento de Tartibo.

sábado, 29 de dezembro de 2007

"... que 2008 seja mais solidário"


(...) Nas férias do colégio, aquela criança habituara-se desde muito cedo a vasculhar os jornais que encontrava em cima das mesas da taberna do senhor Eduardo, quando ali se dirigia a pedido do pai para comprar meio litro de vinho para o almoço. De início, interessava-se apenas pelas tiras de banda desenhada, que o faziam folhear o jornal até à última folha sem se interessar pelas outras e, conforme foi crescendo, já se ficava pelas notícias de primeira página, tal era já o seu interesse pelas questões que preocupavam o mundo. Ainda em criança (pelos seus dez anos de idade) todos os tostões que amealhava dos recados que fazia às vizinhas lá do pátio, faziam-no correr para a papelaria na rua Direita em Santarém e aí comprar o jornal "O Século" (que custava 1 Escudo) alimentando sempre a ideia de que (quando já fosse adulto) aqueles conflitos e a miséria que grassavam pelo mundo ali retratados, há muito já estariam resolvidos.
Hoje, aquele miúdo feito homem, não só verifica que não foram resolvidos mas que se agravaram, e que pareçem não ter fim à vista. Embora por motivações diferentes, as guerras continuam a traçar novas fronteiras mas injustas; a fome, o êxodo das populações famintas fugidas dos conflitos étnicos forjados pelo ocidente, continuam a ser ignorados; as matérias primas continuam a ser saqueadas do continente africano com a conivência dos seus dirigentes ao serviço de interesses neo-coloniais, enquanto a norte do planeta se vive na opulência e se semeia (salvo raras execpções de uma imensa minoria) a indiferença façe àquela realidade. Por isso, aquele miúdo hoje feito homem, ainda não se esqueçeu de uma frase lida num desses jornais, dita por um dirigente africano numa conferência internacional, e que dizia:
"Quando os brancos chegaram a África,
nós tinhamos as terras e eles a bíblia.
Eles ensinaram-nos a rezar de olhos fechados
e, quando os abrimos, eles tinham as terras
e nós a bíblia"
Jomo Keniatta
Volvidos tantos anos e apesar de tudo, e por pensar que o egoísmo ainda é a arma de arremesso daqueles que fazem da indiferença o seu modo de vida, e que olham para o lado fingindo ignorar (do alto do seu conforto) as tragédias que pareçem não ter fim à vista, aqui fica o desejo do tal miúdo feito homem, de que (apesar de ser uma hipótese muito remota) 2008 seja um ano mais solidário (...)
Carlos Vardasca
30 de Dezembro de 2007