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domingo, 5 de agosto de 2012

Lembranças de tempos incertos

Um grupo de combate da Companhia de Caçadores 3309 tenta a muito custo transpor o rio Metumbué. Cabo Delgado. Norte de Moçambique 1971.
Eu desembarquei com a 3309 em PALMA.

Decorria o mês de Fevereiro do ano de 1971. Éramos quatro Furriéis em trânsito para Palma.
Um,  era o José Arruda (tinha gesso numa perna), dos Deficientes das Forças Armadas (cego), o Trigo que teve um acidente com uma Berliet antes da rampa, logo à saída da picada de Palma para Pundanhar (depois de evacuado não retornou) eu, João Rebola, levei com uma mina anti-carro na minha viatura na Operação Orfeu 1 (14 de Abril) - naquela treta do milho para a Base Beira, saímos no dia D -2) e depois apanhei com outra na picada de Palma para Quionga em 2 de Dezembro de 1971 (3 meses de hospitais, voltei em Março de 1972) e estive por lá até Agosto, até vir para o sul e o Torres, que felizmente não teve nada de grave.
Recebi aqui um e-mail com o vosso Blogue e, surpresa, encontrei algo que me diz qualquer coisa.
Eu andei sempre por perto e muitas vezes com pessoal  vosso, no mesmo teatro de operações.
Lembra-me das picagens para Pundanhar, onde vinha sempre um grupo da Companhia de Caçadores 3309 fazer a picagem intermédia.
Tenho ideia que havia motoristas vossos a alinhar nas colunas Nangade-Palma.
O meu irmão, era o vago mestre no Aquartelamento de Palma e eu, como mão sabia fazer mais nada, galgava na picada como os outros.
Quando tínhamos que ir para o Aquartelamento de Tartibo, era sempre um aperto.
Ainda me lembro de ir buscar o Alferes Leonardo ao Tartibo, e fizemos a coluna num dia, ida e volta. Ainda houve um acidente no rio Metumbué com outra das viaturas.
Lembro-me de entrar no Aquartelamento de Nangade à noite, quase às 21 horas, e no outro dia, logo cedinho estar a picar para Palma.
Outros tempos, mas só restam …os bons bocados que lá passámos.
 Um Abraço
 João Rebola
26 de Dezembro de 2011

quinta-feira, 5 de março de 2009

Furriel, trouxeste água de Metrópole?

Amigo e Camarada Bráz,
Aqui te envio um pequeno contributo desses bons e maus tempos que passámos em terras de África.
Debruçado na amurada da corveta NRP "João Coutinho", a brisa fustigava-me o rosto naquela manhã de 23 de Fevereiro de 1971, quando olhava para as águas revoltas do Oceano Índico, cujas ondas eram continuamente sulcadas pela proa, num balancear contínuo a que nos habituáramos há 30 dias.
Os meus pensamentos variavam entre o passado recente no seio da família e dos amigos e um futuro incerto que o destino havia reservado, não só a mim, mas também a tantos outros que, comigo, seguiam no mesmo barco.
O nosso destino era a povoação de Palma, bem no norte de Moçambique, para daí serem percorridos 105 Km de picada até ao destino final: Nangade.
Dois dias de estadia e descanso em Porto Amélia (Pemba), haviam minimizado toda a ansiedade e incerteza do nosso destino. As suas praias e o sol tropical contribuíram para uma forte queimadura de costas que eu, inconscientemente, havia exposto, sabendo que, dois meses antes, estivera entulhado na neve da Serra da Olga – Chaves, onde havíamos tirado o I.A.O.
O balancear do barco deteve-se quando este entrou nas águas calmas da baía de Palma, ancorando a uma distância que me pareceu ter mais de um Km da praia onde desembarcaríamos, questionando-me eu como chegaríamos a terra. O meu espanto aumentou quando um batelão de chapa, quadrado, se aproximou da corveta rebocado a um pequeno barco a motor, e toda a C. Caç. 3309 se acomodou sobre ele com a tralha que lhe pertencia. Creio que a viagem até à praia demorou mais de meia hora, com a agravante de ter de parar a uns cem metros dela devido à baixa profundidade da maré vazia.
Chegámos à praia molhados, transportando cada qual o seu equipamento, perante um enorme alarido de alguns habitantes locais e das expressões eh checa…eh checa, proferidas por elementos dos dois pelotões da Companhia de Artilharia 2745, que nos iriam escoltar até Nangade.
No local designado, e, em condições precárias, cada qual se acomodou para passar a noite. Recordo-me que a passei no alpendre dum edifício, pertencente à Administração local, e que me pareceu ser uma escola.
Apesar da noite estar linda, não conseguia dormir. A realidade do presente e o destino incerto de cada um de nós, toldavam-me os pensamentos, para além da queimadura de costas não tolerar o chão duro onde estava deitado.
Embebido eu nos meus pensamentos, ouvi uma voz que, sussurrava:
Furriel! Furriel! e, olhando para o lado, vi vir na minha direcção um soldado de cor pertencente à Companhia de Artilharia 2745. Sentei-me e perguntei-lhe o que queria. Ele, receoso e em voz baixa, perguntou-me:
Furriel, trouxeste água da Metrópole? Perante tal pergunta fiquei intrigado, sem perceber que raio de água seria essa que ele queria – água da Metrópole? Instantaneamente ocorreu-me na ideia – Aguardente!
Senta-te ao meu lado — disse-lhe eu, enquanto punha a mão à mala que me servia de travesseiro e, abrindo-a, tirei uma garrafa de Constantino (brandy) que um amigo me oferecera quando gozei as férias de mobilização nos Açores e que, por mera sorte, ainda ali se encontrava. Tirei-lhe a rolha, e, na falta de copos, levei-a à boca. Bebi um trago e entreguei-lha dizendo:
Bebe. Após uma breve pausa levou-lha também à boca e bebeu uns bons tragos.
Obrigado Furriel, disse-me ele levantando-se, enquanto murmurava:
“Estamos acabando e vocês começando”.
Senta-te mais um pouco, disse-lhe eu, levando novamente a garrafa à boca. Sentou-se, e, após uns dedos de conversa a meia voz e termos ingerido uma boa quantidade de brandy, levantou-se dizendo:
Obrigado Furriel, vamos partir cedo e vou descansar.
Cambaleando, afastou-se sem eu lhe ter visto o rosto nem ele o meu. Foi quando me apercebi que apenas restava na garrafa um pouco de brandy. Acordei com o roncar das Berliets e Unimogs 404 anunciando o início duma picada que, após descanso duma noite em Pundanhar, terminaria em Nangade no dia seguinte. Era o início do destino da Companhia de Caçadores 3309.

Nordeste – Açores, 20 de Novembro de 2007

Norberto Manuel de Melo e Leite (O "Açoreano")
Ex- Furriel Miliciano NM 09168570 da Companhia de Caçadores 3309


Foto 1: O Furriel Leite junto do monumento em homenagem aos Combatentes de 1ª Grande Guerra 1914-1918, e em destaque uma foto sua actual. Ao fundo pode ver-se o edifício da messe de oficiais. Nangade 1971

Foto 2: O Furriel Leite na companhia do Furriel Barbudo (C.CAÇ. 3309) e um ex-guerrilheiro da FRELIMO (etnia Maconde), vulgarmente conhecido por "51". Aldeamento Maconde. Nangade 1972.

Foto 3: O Furriel Leite junto dos seus companheiros da 1ª Secção do 3º Grupo de Combate da Companhia de Caçadores 3309 no Aquartelamento de Tartibo. 1972

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Desembarque na praia de Palma

(...) As pequenas ilhas de Rongi e de Tecomati já tinham ficado muito para lá da ré da Corveta “João Coutinho”, e os coqueiros nas praias da Baía de Palma já se mostravam alinhados para receberem mais uns CHECAS[1]. A vila de Palma não tinha cais de atracagem e aquele vaso de guerra ancorou ao largo às 11.30 horas no dia 23 de Fevereiro de 1971.
A Companhia de Caçadores 3309 foi transferida para umas lanchas de desembarque que fizeram a sua aproximação a terra, não o conseguindo na sua totalidade dado à existência de vários bancos de areia na maré baixa que impossibilitaram o seu desembarque nas condições que se previam.
Separados da praia por largos canais com alguma profundidade, a maioria dos soldados tiveram que se lançar à água que lhes dava pelo peito, levantando bem alto os braços para protegerem a G3 e as mochilas, sentido as águas gélidas do Índico a inundarem-lhes as entranhas, apesar do calor que se fazia sentir.
Da praia surgiram vários elementos da população, geralmente jovens corpulentos, que se ofereciam para transportar às suas cavalitas algum soldado que se prestasse a recompensá-los com alguns trocos.
O FOZ, com o seu ar de marialva que sempre exibia, logo se prestou a pagar para que o transportassem para terra, não deixando no entanto de despejar um pouco da sua ironia quando me viu recusar a mesma oferta, fazendo a minha aproximação a terra com a água pelo peito, transportando com alguma dificuldade a mochila e a G3, dizendo:
— É pá Braz, com medo que te chamem colonialista, preferes encharcar-te até ao pescoço, mais parecendo um fuzileiro americano no desembarque na Normandia.
Não fui o único que escolhi aquela via, e foi com alguma satisfação que vi muitos companheiros meus a recusaram ser transportados aos ombros dos nativos, preferindo que a humidade das águas tranquilas da Baía de Palma lhes trespassasse o camuflado, do que adoptarem uma pose que lhes pareceu humilhante, bem ao jeito dos costumes coloniais.
Na praia, enquanto os soldados trocavam de roupa rodeados por crianças intranquilas que brincavam em seu redor, ora descendo dos coqueiros oferecendo-nos os seus frutos em troca de uma “quinhenta”, outros, os mais adultos, com as suas vestes muçulmanas muito brancas, amontoavam-se na praia curiosos, alguns deles com atitudes subservientes perante o ocupante, outros, murmurando em dialecto Maconde pragas que nenhum de nós entendia mas que denotavam algum descontentamento pela chegada de mais tropas àquela localidade:
Ukakwenu njungu, ashi asinavasinu shilambo shako
[2]: — levando à intervenção dos Cipaios[3] por ordem do Administrador do Posto, que acabaram por fazer algumas detenções e dispersar a multidão que se tinha aglomerado na praia.
No dia seguinte, a Companhia de Caçadores 3309 partia em coluna militar para Nangade onde chegou a 25 de Fevereiro de 1971, tendo no dia 24 passado primeiro pelo aquartelamento de Pundanhar, ao quilómetro 50, onde passou a noite, dormindo no chão, debaixo dos beirais dos telhados de colmo que pendiam das palhotas do aldeamento local, que se misturavam com os edifícios militares dentro do perímetro defensivo daquele pequeno aquartelamento no norte de Moçambique, na zona de intervenção de Cabo Delgado, próximo do rio Rovuma na fronteira com a Tanzânia (...)

Carlos Vardasca

23 de Fevereiro de 1971

in: "Onde o sol castiga mais. Crónicas de guerra 1970-1973", páginas 9 e 10. Carlos Vardasca. Alhos Vedros, 2005

[1] CHECAS, tropas que iniciavam a sua missão no teatro de operações.
[2] Vai-te embora branco, esta não é a tua terra, em dialecto da etnia Maconde.
[3] Polícia local.
Foto 1: Foto tirada logo após o meu desembarque em Palma.
Foto 2: Corveta NRP "João Coutinho" da Marinha de Guerra portuguesa, que transportou a Companhia de Caçadores 3309 de Porto Amélia (Pemba) até à povoação de Palma no norte de Moçambique, em 23 de Fevereiro de 1971.
Foto 3: Aspecto da praia de Palma onde se deu o desembarque da C.CAÇ. 3309.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

"... Cada vez mais próximo do inferno"


(...) Ainda as galinhas do mato se espreguiçavam no cimo das acácias e apenas alguns cães vadios, meio esqueléticos, vagueavam por entre as gruas do cais de Porto Amélia, e já as tropas eram convidadas a interromper o seu sono meio desconjuntado, e embarcarem naquele vaso de guerra que os aguardava na penumbra do cacimbo que se abatia sobre o seu convés.
Alguns trabalhadores portuários, que se faziam acompanhar por crianças seminuas que já era seu hábito deambular pelo cais, vasculhavam agora o amontoado de caixas da ração de combate vazias, na ânsia de encontrarem algo que lhes desse algum aconchego naqueles ventres disformes, indiferentes à movimentação militar que em silêncio subia o portaló e se acomodava nos diversos recantos do navio.
Eram cerca das 04,00 horas do dia 22 de Fevereiro de 1971, quando a Corveta NRP "João Coutinho" zarpou daquele cais rumo ao norte de Moçambique, transportando a bordo a Companhia de Caçadores 3309 com destino à povoação de Palma. Apesar do mar não estar muito intranquilo, por vezes, e como as ondas ao baterem contra o seu casco faziam salpicar farrapos de espuma que se espraiavam pelo convés, os soldados (que não tiveram direito a resguardarem-se no interior do navio) lá se protegiam como podiam, escondidos debaixo das capas de oleado, entrelaçados por entre as peças de artilharia ou debaixo das escadas que davam acesso à Torre de Comando, e aí se defendiam da borrasca que salpicava enfurecida do Índico.
Foi devido à ondulação que um militar da C.AÇ 3309(1) quando se preparava para saciar a sede, desmaiou, tendo partido quatro dentes, não podendo desembarcar em Palma e ter seguido no mesmo vaso de guerra para Porto Amélia, e dali ser evacuado para o Hospital de Nampula.
A Corveta NRP "João Coutinho", transportando muitas ansiedades espelhadas nos rostos prenhes de incertezas, depois de um dia de viagem fundeou ao largo da povoação de Palma ("cada vêz mais próximo do inferno") quando decorria o dia 23 de Fevereiro de 1971 pelas 11,30 horas, tendo a C.CAÇ. 3309 ali permanecido escassas horas para ser transportada em coluna militar para o Aquartelamento de Pundanhar e posteriormente para Nangade, bem no centro do Planalto dos Macondes, onde chegaria no dia 25 do mesmo mês para depois, e passados apenas três dias, ser enviada para a fronteira com a Tanzânia nas margens do rio Rovuma (...)
Carlos Vardasca
22 de Fevereiro de 2008

Foto 1: Corveta NRP "João Coutinho"
Foto 2: Vista da povoação de Palma
(1) Adelino da Assunção Pimenta Alvim, Soldado Rádio Telegrafista da C.CAÇ. 3309

quinta-feira, 24 de maio de 2007

"Vai-te embora branco, esta terra não é tua..."


(...) Depois de fazer a sua aproximação a terra com as águas do Índico pelo peito, de mochila e G3 bem alto para não se molharem, a Companhia de Caçadores 3309 chegava às praias de Palma no dia 23 de Fevereiro de 1971, debaixo de um alarido que parecia totalmente festivo, provocado pelo batuque ritmado produzido pela população local que se aglomerava junto à praia. Os miúdos, subiam aos coqueiros mostrando as suas habilidades na arte de bem transpor aquele obstáculo, apanhando aquele fruto que vendiam aos soldados a troco de uma "quinhenta", enquanto alguns soldados trocavam a roupa molhada mesmo ali bem por detrás do capim.

- Salama iambo: - saúdavam alguns nativos que se aproximavam dos soldados, tocando instrumentos de fabrico artesanal, enquanto outros, confiando no desconhecimento pelas tropas do seu dialecto, iam dizendo quase que em surdina mas em tom mais agressivo:

- Ukakwenu njungu, ashi asinavasiw shilambo shako (1) o que motivou uma grande movimentação com a interrupção nos festejos e correrias desordenadas pela praia, tendo as milicias locais (familiarizadas com o dialecto), colocadas estratégicamente pela PIDE no meio dos populares, feito alguns prisioneiros. Soube-se mais tarde que eram elementos muito jovens e simpatizantes da guerrilha da FRELIMO, que fizeram questão de estar presentes e mostrar o seu descontentamento pela nossa presença nas suas terras (...)


(1) Vai-te embora branco, esta terra não é tua (dialecto Maconde)


Carlos Vardasca
23 de Fevereiro de 1971

terça-feira, 1 de maio de 2007

Desembarque em Palma


(...) A Corveta NRP "João Coutinho" que transportava a C.CAÇ. 3309 para o norte de Moçambique, fundeou ao largo de Palma pelas 11.30 horas do dia 23 de Fevereiro de 1971. A C.CAÇ. 3309 foi colocada em lanchas de desembarque que, devido aos bancos de areia, não poderam chegar mesmo junto da praia, ficando ainda a alguma distância do local de desembarque. Com a água pelo peito, a maioria dos soldados fez a sua aproximação à praia com os braços bem levantados para proteger a G3 e as mochilas, enquanto que outros, numa atitude meramente colonialista (talvez inconsciente) eram transportados aos ombros de nativos que se prestaram a fazer aquele serviço a troco de umas "quinhentas".
Enquanto os coqueiros se inclinavam da praia para as águas do Índico "como que a saudarem a nossa chegada", os que eram transportados aos ombros dos nativos diziam para os que "mergulharam" as entranhas nas águas gélidas do Índico:
- Aqueles revolucionários de merda pensam que estão no desembarque da Normandia (...)

Carlos Vardasca
01 de Maio de 2007


segunda-feira, 30 de abril de 2007

Desembarque numa das praias do Índico


A Corveta NRP "João Coutinho" fundeara ao largo às 11.30 horas do dia 23 de Fevereiro de 1971, e fomos embarcados em lanchas de desembarque que nos levaram até às proximidades da praia de Palma.
Ao loge os coqueiros inclinavam-se sobre as águas límpidas do Índico parecendo dar-nos as boas vindas.
Devido aos bancos de areia, nem as lanchas de desembarque nos deixaram mesmo na praia, e tivemos que mergulhar com a água pelo peito, segurando bem alto a G3 e as mochilas, e foi assim que a C.CAÇ. 3309 fez a sua aproximação a terra.
Alguns nativos, a troco de algumas "quinhentas" lá transportaram alguns aprendizes de colonialistas (inconscientes ou não) nos seus ombros, enquanto alguém ao longe dizia para os restantes que preferiram encharcar as entranhas com as águas gélidas do Índico:
- Aqueles revolucionários de merda até parece que estão nas praias da Normandia.

Carlos Vardasca
30 de Abril de 2007