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sábado, 19 de dezembro de 2009

"Uma linda missão em tempo de guerra" (Parte 1)

Nunca me tinha visto naquela situação. Apesar de tudo, foi uma experiência única que ainda hoje recordo como sendo a mais linda missão em que me envolvi em tempo de guerra, e que me deu a oportunidade de partilhar e receber uma extraordinária lição de vida.
Tudo aconteceu no ano de 1971, em plena Guerra Colonial e quando a Companhia de Caçadores 3309 de que eu fazia parte foi destacada para o aquartelamento de Nova Torres
[1], tendo alguns de nós por motivos operacionais ficado estacionados em Nangade[2].
Acabado de chegar em rendição individual para substituir um seu companheiro falecido em combate, o Morais, oriundo da aldeia de Vilar dos Ossos, chegara a Nangade num dos períodos mais conturbados do conflito colonial, e quando a FRELIMO desencadeava uma das ofensivas mais intensas após a Operação “NÓ GÓRDIO” e desde o início da sua luta armada de libertação do jugo colonial.
Sem saber ler nem escrever, e depois de algumas tentativas em se socorrer de quem o fizesse para se manter em contacto com a família (mas que por esse facto fora alvo de alguma chacota), o Morais
[3] refugiava-se no fundo do abrigo que nos servia de tasca e onde afogávamos as saudades da distância, sempre meio amargurado, emborcando copos de bagaço uns atrás dos outros, iluminado por uma luz muito ténue que os geradores a muito custo lá conseguiam emprestar àquele recanto, que também nos servia de refúgio quando o aquartelamento era atacado.
Estávamos em finais de Novembro do ano de 1971 e aproximava-se o mês do natal.
Ao descer para o abrigo, logo me dirigi ao pequeno balcão e me fiz acompanhar de uma Laurentina
[4] que me ajudou muitas vezes a saciar a secura das noites tropicais e, ao aperceber-me da presença do Morais num dos seus recantos, acerquei-me dele apesar de o conhecer muito recentemente, perguntando-lhe o porquê de tanta tristeza.
Encharcado em álcool o que tornava o seu vocabulário um pouco desconjuntado, cedo me apercebi dos motivos da sua angústia e de imediato me prontifiquei a erradica-la das suas preocupações, oferecendo-me para lhe escrever e ler a sua correspondência enquanto ele estivesse naquele aquartelamento.
Na noite seguinte, voltámo-nos a encontrar no abrigo (agora já decorado por um pequeno arbusto coberto por várias latas de cerveja vazias que substituíam as bolas de natal) e mesmo ali delineei os contornos do que viria a ser (na opinião do Morais, que me confessou mais tarde), uma das mais lindas prosas de natal que a sua jovem mulher (que deixara grávida de seis meses na Metrópole) já recebera.
Numa extraordinária experiência que muito gratificante se tornou para mim do ponto de vista humano, tornei-me, durante a permanência do Morais naquele aquartelamento seu confidente, lendo e escrevendo as cartas recebidas ou enviadas de e para os seus familiares, tendo especial significado os vários aerogramas
[5] que em seu nome escrevi para a sua mulher e as imensas cartas por mim lidas que esta lhe enviava.
Elaborado o rascunho, isolei-me na caserna e aí acertei os contornos finais do que tinha sido alinhavado no abrigo, imprimindo-lhe todo o vocabulário usual entre duas pessoas que se amavam e bruscamente separadas pela distância “sem jeito nem prosa”.
Sem nutrir qualquer simpatia pelo vocabulário litúrgico da época natalícia e sem dominar toda aquela fraseologia mercantilista e sazonal, esmerei-me no entanto em aplicá-la, socorrendo-me do que me fora inculcado aos oito anos de idade pelas freiras no colégio em S. João do Estoril, onde a minha relação com deus e com tudo o que se relacionasse com o foro religioso começou desde muito cedo a ser muito conflituosa, apesar de uma parte da minha educação ter sofrido aquele tipo de influência que ainda hoje considero ter-me sido imposta.
O helicóptero só vinha buscar o correio pelas onze horas da manhã e, mesmo ali junto da secretaria do seu Batalhão e “numa espécie de cerimónia que se assemelhava à largada de um pombo de correio” e antes de fechar o aerograma, fiz questão de lhe ler o que escrevera durante a noite com base no que fora acordado no fundo do abrigo, mas, claro, com algumas alterações que ajudaram a embelezar e a enriquecer o texto do ponto de vista sentimental e até mesmo religioso, o que foi do agrado do Morais, dado que desde criança se habituara às lamurias e ladaínhas do Pároco da sua aldeia.
Á medida que eu ia soletrando as breves linhas impressas pela minha SHEAFFER
[6] e que se acotovelavam no pequeno aerograma, os olhos do Morais não se descolavam dos meus lábios, insistindo para que voltasse a ler algumas das frases que considerava serem de uma beleza extrema, mas que o trabalho árduo do campo nunca permitiu que as aprendesse a exprimir.
Reparei sempre, no final da leitura de cada aerograma que lhe escrevia, que o seu rosto transpirava de alegria, exteriorizando uma certa fascinação pelo que acabara de ouvir.
― Porra Braz! Escreves tão bem! ― Quando a minha "miúda" receber este aerograma vai ficar tão feliz com as coisas lindas que escreveste:
― Até parece que és tu o marido dela
― Acrescentando, excessivamente emocionado:
― Como é que tu, que dizes não acreditar em deus nem nestas coisas do natal, e consegues escrever coisas tão lindas que até parece que andaste no seminário?
Foi de facto uma experiência muito gratificante e muito intensa do ponto de vista emocional, dado que em certos momentos cheguei a partilhar o calor afectivo trocado entre aquele companheiro e a sua jovem esposa, ao ponto de ambos termos por várias vezes chorado quando se tratava de responder ou ler algo mais pessoal e que mexesse bem fundo nos seus afectos.
De cada vez que o Morais recebia correspondência, lá vinha ele ter comigo sempre com o mesmo sorriso rasgado que transbordava de felicidade, mesmo que já tivesse recebido as cartas há alguns dias, ao que eu lhe dizia:
― Olha lá Morais! ― Então porque é que nestes dias que eu estive no mato não deste a ler a tua correspondência a outro soldado? ― Ao que ele respondia denotando alguma indignação, lembrando-se da chacota de que já fora alvo:
― Eu já não confio nessa malta; ― Eu não me importo de esperar mais um dia ou outro, mas as cartas lidas e escritas por ti têm outro sentido.
Quando na semana seguinte o helicóptero voltava ao aquartelamento de Nangade e no saco do correio trazia alguma carta da sua mulher, o Morais corria apressado de caserna em caserna à minha procura, por vezes perante a risota de alguns militares que presenciavam a sua azáfama e gracejavam em tom jocoso:
― Vai! ― Corre a contar-lhe os segredos da “tua Maria” e quando deres por ela já ele te roubou a tua miúda.
Indiferente aos gracejos, sentava-se ao meu lado debaixo de um cajueiro muito próximo do Obus 14
[7], olhando em redor certificando-se se mais ninguém estava presente, rasgando ele próprio uma das extremidades do envelope enquanto exteriorizava o seu contentamento:
― Olha! ― Pelo tipo de letra parece ser da minha Albertina.
Era deveras interessante vê-lo quase que a soletrar as frases que lhe ia lendo, como se as quisesse mastigar muito lentamente para lhe tomar bem o gosto.
Por vezes (e muito em particular uma das cartas que recebera naquele mês de natal de 1971) cheguei a ler a sua correspondência repetidas vezes e durante vários dias, tal era a necessidade do Morais em recordar os momentos de felicidade que aquelas cartas transportavam dentro de si (gabando excessivamente a minha paciência), dizendo-me por vezes, bastante emocionado e com algumas lágrimas a escorrerem-lhe pela face:
― Eu sei que não acreditas na existência de deus nem passas cartucho nenhum ao natal, mas olha amigo Braz:
― Deixa-me pelo menos e só por um bocadinho, “vender o meu peixe”:
Deus te pague ― Eu e a minha Albertina
[8] nem sabemos como te agradecer por nos teres proporcionado momentos tão felizes neste natal de 1971.

Carlos Vardasca
19 de Dezembro de 2009

[1] Aquartelamento das nossas tropas situado junto ao rio Rovuma, na fronteira de Moçambique com a Tanzânia.
[2] Aquartelamento situado no Planalto dos Macondes, a cerca de vinte quilómetros do rio Rovuma.
[3] Depois de ter acabado a sua comissão em Moçambique, o Morais dedicou-se aos estudos. Actualmente é um médico muito estimado pela sua simplicidade com que presta assistência nas aldeias vizinhas da sua terra, recebendo em troca, dos aldeãos mais carenciados, pequenos parcos haveres em produtos agrícolas como forma de pagamento das consultas que efectua.
[4] Marca de cerveja Moçambicana.
[5] Pequeno impresso distribuído pelo Movimento Nacional Feminino (MNF) que se enviava por correio aéreo, sem necessidade de sobrescrito ou qualquer custo para o seu envio, usado pelos militares destacados na Guiné, Angola e Moçambique durante a Guerra Colonial.
[6] Marca da minha esferográfica.
[7] Peça de artilharia pesada que fazia parte das defesas do aquartelamento.
[8] O Morais e a Albertina, depois de aquele ter concluído a sua comissão em Moçambique fortaleceram o seu casamento (que ainda hoje perdura) com o nascimento de mais dois filhos, para além daquele que nascera ainda o Morais estava a cumprir a sua comissão em Moçambique.

sábado, 16 de maio de 2009

Nós, a FRELIMO e a contra informação

(...) Na cantina, repleta de soldados que se encharcavam de Laurentinas[1] a comemorar o nascimento do filho do Juvenal, as atenções viraram-se por momentos para as notícias emanadas de um pequeno rádio que transmitia de Dar-Es-Salaam[2] ou de uma estação de rádio perdida algures na mata:
- “... Aqui Rádio da liberdade; voz da FRELIMO, transmitida das zonas libertadas do colonialismo: - O comité de libertação da nossa pátria informa que, neste momento, está prestes a ser tomado o aquartelamento de Nangade pelos nossos guerrilheiros, e exortamos todos os soldados aí estacionados e que ainda resistem, a renderem-se, porque o nosso inimigo não são eles mas sim, o regime opressor, que de Lisboa os envia para esta guerra para morrem inocentes...”
Perante a estupefacção dos presentes que comentavam o que acabavam de ouvir, alguém disse ironizando:
- Estes cabrões não têm juízo?!
- Então a malta está aqui descansadinha e beber umas cervejolas e eles dizem que nos estão a expulsar daqui?
- Oh Nabais, se não te importas, espreita aí pela janela e, se vires alguns turras, diz a eles para esperarem só um bocadinho, ou então, eles que aproveitem, entrem e bebam com a malta umas latitas de cerveja:
- disse o “Mogadouro”
[3] em tom jocoso, entornando sobre si o que restava da 2M[4] que já bebia a muito custo.
Braz, que acabara de ler a sua correspondência e permanecia encostado ao balcão feito de troncos de árvores, ouvia em silêncio a reacção às notícias, esboçando um leve sorriso, ao mesmo tempo que se juntava ao aglomerado das fardas camufladas, reagindo, de forma a tornar evidente tamanha incompreensão, na tentativa de esclarecer algum desconhecimento ou ignorância que ainda pairava nalgumas daquelas mentes:
- É pá! — vocês ainda não perceberam que isto é pura propaganda psicológica para levantar a moral dos guerrilheiros espalhados pela mata? - aliás: - continuou:
- Ainda ontem, se não ouviram, mas está ali o Almeida e o Pereira que não me deixam mentir; a rádio “Do Comandante ao Combatente” do Estado Maior General das nossas Forças Armadas também dizia:
- “...Neste momento, dois pelotões da Companhia de Caçadores 3309 estacionada em Nova Torres, atravessaram o rio Rovuma e apreenderam variado material de guerra aos terroristas em pleno território da Tanzânia, e desmantelaram vários aquartelamentos da FRELIMO que serviam de apoio às suas actividades subversivas”.
- Ora, todos nós sabemos que ontem não foi apreendido nenhum material de guerra nem a 3309 nesse dia saiu para o mato, muito menos entrar pela Tanzânia a dentro:
- Estas informações
- continuou Braz - tanto de um lado como de outro, são normais em tempo de guerra, e estes métodos eram já utilizados na Segunda Guerra Mundial tanto pelos Aliados assim como pelas forças nazis:
- Trata-se de pura guerra de contra informação com conteúdo ideológico, que visa minar a moral do inimigo
- concluía Braz, sendo interrompido pelo “Mogadouro” de uma forma tão agressiva:
- Lá estás tu com a tua mania de intelectual, sempre a defender a porra dos turras pá! - Se é isso que aprendes nos livros que andas a ler e se gostas assim tanto dos gajos pá, porque é que não te passas para o outro lado da barricada?! - disse “Mogadouro”, bem alto, depois de ter emborcado todo o conteúdo de outra lata de cerveja de uma assentada (...)


Carlos Vardasca
16 de Maio de 2009

in, "Fardados de Lama", páginas 91 e 92. Carlos Vardasca, Alhos Vedros 2008.

Foto: Da esquerda para a direita: Camelo, Leite, Braz (Carlos Vardasca) Nabais e o Almeida sentado em cima da Berliet, todos pertencentes à Companhia de Caçadores 3309. Aquartelamento de Nangade 1972.

[1] Marca de cerveja de Moçambique.
[2] Capital da Tanzânia.
[3] Alcunha do soldado Condutor Leite, por ser natural de Variz e morar em Vilarinho dos Galegos, concelho de Mogadouro.
[4] Marca de cerveja cuja abreviatura era alusiva a Maurice Mac-Mahon, presidente da República Francesa (1873-1879), que arbitrou em 1875 o litígio entre a Inglaterra e Portugal votando a favor das pretensões portuguesas sobre a administração da cidade de Lourenço Marques que ficou a pertencer a Moçambique.

quarta-feira, 11 de março de 2009

O Lobo e o Guerrilheiro

(...) Em África, no período colonial e nos aldeamentos mais recônditos de Moçambique, quem tinha uma motorizada já gozava (mais que não fosse aparente) de um certo estatuto social em relação aos que possuíam apenas uma bicicleta, assim como aos restantes que nada tinham como meio de transporte.
Em Nangade
[1], o “Bazuca”, mainato[2] que prestava serviços na oficina de mecânica da Companhia de Caçadores 3309, possuía uma Suzuky já um pouco desconjuntada e sempre com o depósito vazio, mas que, das raras vezes que se passeava com ela, lhe fazia rasgar um largo sorriso que deixava ver ao longe a sua dentição de um branco tão branco, que contrastava com a sua pele preta, mas muito preta, como gostava de sublinhar e que dizia exibir com orgulho.
Desde que o Lobo
[3] chegou a Nangade e o “Bazuca” passou a prestar serviço nas oficinas da Companhia de Caçadores 3309, estabeleceu-se entre eles um contrato deveras desvantajoso para o “Bazuca”, ao qual teve que se submeter pois de outra forma não teria acesso às contrapartidas que lhe eram propostas:
— Olha lá oh “Bazuca”! — disse o Lobo com aquela pose de ocupante com que a maioria dos soldados se dirigiam aos nativos:
— Vamos combinar uma coisa — enquanto o “Bazuca” ouvia meio desconfiado:
— Eu passo a arranjar gasolina para a moto, mas ando com ela durante o dia e tu só andas com ela à noite ... está combinado?
Sabendo das facilidades e das formas como se obter combustível por parte dos soldados daquela especialidade, o “Bazuca” não teve outro remédio senão aceitar embora um pouco descontente com o negócio, aproveitando no entanto para retirar alguns dividendos do mesmo:
— Eh nosso sordado! Se mesmo nos dia tu não andar, eu poder andar nos moto pá?
O Lobo, depois de achar tanta graça àquele português tão desarticulado, respondeu-lhe:
— Está bem “Bazuca”, eu estava a brincar, mas desde que não gastes toda a gasolina.
Como passou a ser frequente, o Lobo dirigia-se até à pista de aterragem de terra batida e aí acelerava inadvertidamente até ao seu final, tendo sido avisado por várias vezes do perigo que corria, tendo em conta que a mesma era circundada por uma densa mata podendo ser alvo de uma emboscada por parte da FRELIMO.
Numa das vezes que o fez, ao chegar ao final da pista e já a acelerar de regresso ao Aquartelamento, sai repentinamente da mata um guerrilheiro da FRELIMO que lhe pede boleia até Nangade, ao que o Lobo, sem se aperceber de quem se tratava nem da Kalasnhikov que o mesmo trazia a tiracolo e pensando ser um Machambeiro
[4] vindo das suas lides, lhe disse:
— Vai a pé preto d’um cabrão — continuando a toda a velocidade sem se ter dado conta do que estava a ocorrer naquele momento.
Depois de chegar à oficina e de ter ajudado os outros companheiros de especialidade a montar um motor numa Berliet, foi-se apercebendo da algazarra que se ouvia lá para os lados do Posto Administrativo de Nangade, assim como da correria desordenada que muitos soldados e oficiais faziam naquela direcção.
Quando o Lobo chegou ao local, já ali se havia concentrado uma multidão oriunda dos aldeamentos Macua e Maconde, assim como alguns oficiais da Companhia de Artilharia 2918 e o seu comandante Tenente Coronel Vasconcelos Porto, que se fazia acompanhar (como já vinha sendo hábito) por um agente da PIDE/DGS
[5] que tomavam conta da ocorrência.
Depois de se ter apercebido do que realmente tinha acontecido, ao Lobo apenas restou uma ligeira sensação de que a história lhe teria passado um pouco ao lado e nela ser reconhecido, se não tivesse recusado a boleia àquele desconhecido no final da pista.
Era de facto um guerrilheiro da FRELIMO que se entregava às nossas tropas com a sua Kalashnikov e alguma documentação, o que contribuiu para a identificação de alguns guerrilheiros que viviam infiltrados num dos aldeamentos e à localização de algumas das suas bases no interior da mata.
— Estás a ver meu alentejano de merda!se tivesses dado boleia àquele turra
[6] eras tu que levavas os louvores e agora eras um herói da pátria! — disse o “Garina”[7] rindo-se da forma tão despreocupada como o camarada de armas lidou com a situação — ao que o Lobo respondeu:
— Oh pá, eu quero lá saber disso! — Eu quase que nem olhei para ele quando o gajo saiu da mata: continuando, com o seu jeito característico bem untado de sotaque de Vila Viçosa:
Eu cá só me sinto herói quando estou a emborcar “Laurentinas” e 2M
[8], ou quando a proa do Niassa me levar a entrar na barra em Lisboa deixando para traz o farol do Bugio e, lá do alto meu monte, não avistar nenhum “Chico lateiro” que me faça lembrar este tempo de merda que aqui perdi (...)

Carlos Vardasca
11 de Março de 2009

[1] Aquartelamento situado no Planalto dos Macondes, no norte de Moçambique, próximo do rio Rovuma e da fronteira com a Tanzânia.
[2] Lavandeiro, ou membro da população que prestava outros serviços às tropas ali estacionadas.
[3] Joaquim António Aleixo Lobo, Soldado Mecânico Auto NM 00917070 da Companhia de Caçadores 3309
[4] Trabalhador agrícola.
[5] Polícia Política do Estado Novo.
[6] Adjectivo atribuído pelas nossas tropas aos guerrilheiros da FRELIMO.
[7] Alcunha do Alfredo Bernardino Pereira, Soldado Condutor Auto Rodas, NM 15407070 da Companhia de Caçadores 3309.
[8] Marcas de cerveja de Moçambique.

Foto 1: O Soldado Lobo quando escrevia à família no Aquartelamento de Tartibo. Moçambique 1972.
Foto 2: O lobo no XIX Encontro Nacional da Companhia de Caçadores 3309 realizado no passado dia 07 de Março de 2009 em Vila Viçosa (O Lobo está a abrir a garrafa de champanhe enquanto o ex- Capitão Hélio Moreira se atarefa no acto de partir o bolo de aniversário.
in: "Onde o sol castiga mais". Crónicas de guerra 1970-1973, páginas 18, 19 e 20. Carlos Vardasca, Alhos Vedros 2005

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Quando os "Checas" chegaram a Nangade.

(...) Depois de ter pernoitado em Pundanhar e percorrido mais cerca de cinquenta quilómetros, a coluna militar aproximava-se agora do seu destino.
Ainda as primeiras viaturas tinham acabado de entrar no aquartelamento de Nangade e já a recepção aos “Checas” era encenada com uma tal perfeição, não fora as câmaras de televisão de cartão contrastarem com a realidade dos silvos dos morteiros que disparavam compassadamente; do roncar dos Obus 14
[1] e do tagarelar das antiaéreas que, em coro, se faziam disparar do planalto em direcção ao morro que se erguia todo majestoso depois do extenso vale, em direcção ao Lago Nangade que antecedia o rio Rovuma e as escuras escarpas das montanhas da Tanzânia.
Os soldados saíam como ratos dos abrigos e disparavam rajadas de metralhadora exteriorizando o seu contentamento por verem chegar uma nova Companhia, enquanto alguns corriam pela pista de aviação improvisada, deambulando da viatura em viatura, não contendo a sua alegria na procura de algum conterrâneo.
- Epá! - Não há aí nenhum cabrão de Meimoa? - dizia um soldado com um excessivo entusiasmo, ao que o Nabais respondeu do alto da viatura sentado em cima de um amontoado de sacos de farinha:
-
Vamos por partes, cabrão és tu, mas de Meimoa sou eu.
- Olha o “contrabandista”! - gritou o outro de alegria ao reconhecer-lhe a voz.
Nabais, ao reconhecer o seu amigo de infância, saltou de imediato para a pista poeirenta (onde se abastecia um helicóptero que acabara de trazer o correio) e abraçou-o, apertando-o com tanta força que parecia querer esmagá-lo contra o seu peito.
-
Vocês tiveram muita sorte em não terem sido atacados na coluna - continuando a explicação para quem o ouvia:
- Nesta zona há maningue
[2] de turras e eles costumam, para além dos ataques normais aos aquartelamentos, atacar as colunas de reabastecimento quando sabem que nelas vêm companhias de “Checas” para alguma rendição - tranquilizava o amigo do Nabais.
Fazendo parte da encenação que tinha como objectivo impressionar as tropas acabadas de chegar e que agora já se encontravam formadas em frente à messe de oficiais, alguns soldados, que exibiam as divisas de capitão e de major, passeavam-se por entre a formatura implicando com tudo o que poderia ser objecto de chacota, provocando a gargalhada nos demais soldados que assistiam, perante a indiferença ou a risota contida de alguns dos oficiais que tinham emprestado os seus galões para a brincadeira, enquanto o furriel Champalimoud, enfermeiro do Batalhão de Artilharia 2918 se esforçava por registar aqueles momentos na sua velha Olympus.
-
Oh nosso soldado, então isto são modos de se apresentar na formatura? - todo molhado, com a barba por fazer e as botas todas enlameadas:
- Não foi assim que te ensinaram na puta da recruta pois não?
Ao que o soldado Saavedra da C.CAÇ. 3309, meio receoso mas indignado respondeu:
-
Meu capitão, como vê, acabei de chegar do mato e como é que eu fazia a barba?
- ...Com os teus cornos meu maricas; ― respondeu o primeiro, fingindo-se rabugento.
A indignação apoderou-se do Saavedra que de vermelho se parecia com uma caldeira de uma locomotiva a vapor pronta explodir. O soldado, que se passava por capitão, apercebendo-se do semblante carregado do soldado que traduzia a revolta interior que provocara, deu em rir à gargalhada abraçando-se de imediato ao Saavedra.
-
É pá, desculpa lá, eu fui longe demais!
-
Isto é apenas uma brincadeira que é tradição fazermos às tropas que chegam do novo aqui a Nangade.
- Não me leves a mal mas eu não sou capitão - ao que o Saavedra respondeu enfurecido mas esboçando um ligeiro sorriso:
-
Não és capitão, mas estavas prestes a ser um monte de merda tombado aí no chão, com um tiro nos cornos, se teimasses em levar a brincadeira mais longe.
Entretanto, pelo silêncio que se apoderou de toda a formatura, adivinhava-se já a presença do Tenente Coronel Vasconcelos Porto, comandante do aquartelamento de Nangade e pertencente ao Batalhão de Artilharia 2918, que numa pose que aparentava alguma arrogância, iniciava o seu discurso de boas vindas à 3309 aos 25 dias de Fevereiro de 1971 (...)


Carlos Vardasca
25 de Fevereiro de 2009

in: "Fardados de Lama", páginas 31,32 e 33. Carlos Vardasca. Alhos Vedros, 2007.

[1] Peça de artilharia pesada.
[2] Muitos, em dialecto Maconde.

Foto 1: O Saavedra, posa para a foto dentro do barco capturado pela C.CAÇ. 3309, quando guerrilheiros da FRELIMO tentavam atravessar o rio Rovuma vindos da Tanzânia (que se vê ao fundo). Aquartelamento de Nova Torres. Moçambique, 1971.
Foto 2: O Saavedra (ao centro e em tronco nu) na companhia do 1º Cabo Atirador Serrinha, do "Cartaxo" e de outro companheiro da Companhia de Caçadores 3309. Aquartelamento de Tartibo. Moçambique, 1971.
Foto 3: O Saavedra (o primeiro a conta da esquerda) na companhia do 1º Cabo Mecânico Silva e do Soldado Condutor Carlos Vardasca (Braz), junto da caserna que foi atingida com granadas de morteiro 82mm (é visível a vasta perfuração na chapa de zinco) num dos ataques da FRELIMO ao Aquartelamento da C.CAÇ. 3309. Tartibo. Moçambique, 1971

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

"A fala dos batuques"

(...) Ao entardecer e quando o sol já se deitara muito para lá do outro planalto, deixando o Aquartelamento de Nangade mergulhado num manto colorido da cor do fogo, já os sons vindos do aldeamento penetravam pelas casernas interrompendo a leitura das notícias da manhã trazidas pelo helicóptero, ou os rituais gatafunhos meio desconjuntados e impressos num bloco de linhas comprado na loja do "Monhé" que iriam rasgar sorrisos numa qualquer aldeia distante.
Vestidos a rigor, atirando para o lado os velhos camuflados rasgados e gastos pelo tempo enquanto os Obus 14 e as anti-aéreas vigiavam atentos muito para lá do arame farpado, os soldados lá seguiam rumo ao aldeamento com os trajes da "Metrópole" inundados de naftalina, na ânsia de impressionar alguma jovem negra, que da confusão do batuque ousasse partilhar a escuridão da palhota com um Zungo (1).
Latas velhas de óleo de palma; bidons vazios do combustível dos helicópteros; pequenas peles de gazela já ressequidas e mal esticadas numa tosca armação de bambu; latas de manteiga já um pouco ferrugentas, com um braço de madeira onde se esticavam quatro arames que entoavam sons repetitivos, desordenados, mas melancólicos, tudo servia para acompanhar os cânticos que nenhum de nós entendia, acompanhados por danças ritmadas por corpos negros, seios esbeltos, cuja beleza dos seus contornos as Capulanas coloridas por vezes deixavam a descoberto.
Da enorme fogueira de labaredas alterosas que iluminavam todo o largo, eram "cuspidas bolas de fogo" que tingiam o rosto de quem se aglomerava naquele círculo enorme, onde os Macondes entoavam outros "gritos guerreiros" que se faziam ouvir por todo o vale e que a maioria de nós não entendia, mas que soavam a protesto e tinham destinatário.
Sem nada entender que mensagem estava a ser transmitida, restava aos soldados, já com o cacimbo a vaguear pelos telhados de colmo e o som do pilão a "mastigar" a mandioca, regressar às casernas e mergulhar num curto sono que seria interrompido pelo roncar das Berliet e a azáfama de quem partia para mais uma operação de reabastecimento, que se embrenharia no interior deslumbrante do verde da mata, cenário paradisíaco "que se ofendia com a nossa indiferença", por vezes traiçoeiro, porque era dali que sopravam os ventos da revolta contra o ocupante e onde se escondia o destinatário das mensagens dos batuques (...)

Carlos Vardasca
27 de Outubro de 2008
Foto 1: Por do sol visto de Nangade com o Obus 14 em primeiro plano.
Foto 2: Por do sol nos Planaltos da Tanzânia visto do Aquartelamento de Nova Torres.
Foto 3: Preparativos para o Batuque no aldeamento Maconde em Nangade, acto festivo que se prolongaria pela noite dentro. Na foto pode ver-se (entre outros) em primeiro plano o 1º Cabo Auxiliar de Enfermagem NM 10147770, José Fernando Pinto Silva da Companhia de Caçadores 3309.
(1) Branco, em dialecto Maconde.



domingo, 28 de setembro de 2008

"Porra! logo me calhou um Mouro na equipa"


(...) Tudo voltara à normalidade, e o desafio de futebol entre a C.CAÇ. 3309 e a CCS do B.ART. 2918 estava prestes a começar, apesar do violento ataque que a FRELIMO desencadeara durante a noite ao Aquartelamento de Nangade.
Do planalto em frente viam-se perfeitamente os relâmpagos das saídas dos morteiros 82mm e do canhão sem-recuo utilizados no ataque, que com alguma violência faziam cair algumas granadas dentro do Aquartelamento mas sem consequências a registar, para além dos estilhaços de uma das granadas de morteiro 82mm que rebentou no centro do Aquartelamento e ficaram cravados nas paredes de uma das casernas. O ataque teve a duração de cerca de vinte minutos, tendo terminado quando o fogo serrado das nossas anti-aéreas e dos Obus 14 passaram a "pente fino" a encosta do planalto de onde se dirigia o ataque dos guerilheiros da FRELIMO.
Naquele dia o jogo de futebol que fora combinado entre a Companhia de Caçadores 3309 e a CCS do Batalhão de Artilharia 2918 realizou-se há hora combinada, apesar dos vários comentários ao ataque da noite que fez com que a maioria de nós não tivesse pregado olho com receio de uma nova ofensiva da FRELIMO, comentários que logo foram substituídos pelo delinear da estratégia e da táctica para o jogo, mas também pela inútil, incompreensível e desnecessária rivalidade saloia entre o norte e o sul quando se tratou de escolher a equipa da C.CAÇ. 3309.
Modéstia à parte e não sendo dos mais habilidosos, sempre tive algum jeito para manusear o esférico, sendo sempre um dos escolhidos (já em criança para as equipas do colégio e lá da rua quando ia de férias a Santarém, mas também ali no norte de Moçambique) para fazer parte da equipa da minha Companhia, embora surgisse sempre algum "desagrado" que vinha da parte de alguém que vivia muito para além das "terras do xisto":
- "Porra! logo me calhou um Mouro na equipa" .
É curioso que já naquela altura e tão longe das nossas terras de origem já se fazia sentir esta rivalidade tão provinciana e inexplicável num país tão pequeno, que se manifestava não só no futebol mas muito para além disso, desde as coisas mais mesquinhas, o que evidenciava algum atraso cultural que ao regime de então também não convinha resolver porque dele também dependia a sua sobrevivência.
O jogo lá se realizou, tendo a C.CAÇ. 3309 batido o B.ART. 2918 por 2-1.
No final do jogo e durante o petisco que depois se realizou entre as duas equipas, alguém me disse com alguma dose de ironia, exibindo (talvez inconscientemente) o seu bairrismo tacanho e exacerbado:
- "Epá Braz! parabéns pelos 2 golos, só tenho pena é de pertenceres aos Mouros lá de Lisboa" (...)

Carlos Vardasca
28 de Setembro de 2008
Foto 1: Antes do jogo decidi ficar com uma recordação daquele dia.
Foto 2: Equipa da Companhia de Caçadores 3309 que defrontou a da CCS do Batalhão de Artilharia 2918 no Aquartelamento de Nangade. Setembro de 1971.

sábado, 26 de julho de 2008

Nas Mercedes Benz? nem pó! Com elas não saímos para o mato.



(...) A actividade da FRELIMO naquela zona do Planalto dos Macondes eram bastante intensa, ora recorrendo a emboscadas ou à colocação de minas anti-carro nas picadas, sendo rara a coluna de reabastecimento em que uma ou duas Berliet não ficassem destruídas devido às fortes explosões produzidas por aqueles engenhos, com consequências muitas vezes dramáticas para muitos militares que nelas se faziam transportar, principalmente para quem as conduzia que foram as maiores vítimas daquelas armadilhas.
Em Nangade a escassez de viaturas Berliet já se fazia sentir, havendo a necessidade de colmatar aquela situação com a reposição do parque auto com a aquisição de novas viaturas para que as colunas de reabastecimento voltassem à sua normalidade.
Os rumores que já se ouviam nas casernas era que as novas viaturas já não eram Berliet mas Mercedes Benz, o que criou um descontentamento nos Condutores da Companhia de Caçadores 3309 que tinham ficado adidos à CCS de Batalhão de Artilharia 2918, pois eram eles que garantiam a realização das colunas de reabastecimento e participavam na sua condução.
Não era uma questão de marcas que os preocupava, mas tão só as diferenças que tinham um grande significado para quem as conduzia, pois viam a sua tarefa dificultada e a sua vida cada vez mais posta em perigo. Enquanto que às Berliet era possível desmontar as suas capotas (evitando que num rebentamento os condutores batessem com a cabeça na mesma), pára-brisas, portas e assentos, ocupando alguns daqueles espaços com sacos de areia para reduzir o impacto do rebentamento das minas, nas Mercedes Benz não era possível efectuar aquelas alterações nem inicialmente o Tenente Coronel Vasconcelos Porto estava lá muito receptivo a permitir tais modificações.
Quando o Capitão Hélio Moreira da C.CAÇ. 3309 lhe foi transmitir o descontentamento e o desagrado dos seus homens perante tal situação, propondo até uma alternativa (adiantada por eles) que seria serrar os tejadilhos das Mercedes Benz, logo aquele oficial da CCS respondeu bem ao jeito de um oficial do quadro:
- Nem pensar! As viaturas acabaram de chegar e já as vamos destruir arrancando-lhes o tejadilho? - Se tiverem que ser destruídas os Turras que as destruam, mas nós nunca!
- Oh meu capitão - disse o mesmo oficial insistindo:
- Diga lá aos seus soldados que as ordens são para se cumprir e quero-os prontos para quando se realizar a coluna de reabastecimento na próxima semana, pois já quase que não temos abastecimentos em Nangade.
Como o descontentamento se começou a generalizar também aos condutores da CCS, pois temiam também eles ter que conduzir tais viaturas perante a recusa dos condutores da C.CAÇ. 3309, a muito custo e após algumas conversações para desbloquear a situação lá foram as Mercedes Benz para a oficina para lhes ser retirado o tejadilho.
Parece que ainda estou a ouvir o "Tremoço" (1) numa das suas raras manifestações de contentamento quando as viu chegar da oficina:
- "Olha as meninas Mercedes foram ao cabeleireiro e arrancaram-lhes a peruca"!
Dotadas de melhor segurança para quem as conduzia, as Mercedes Benz lá foram para o mato desprovidas do seu tejadilho, sem portas, sendo colocado no seu lugar sacos de areia, tendo sido vencida mais uma batalha (embora quase silenciosa mas eficaz) contra o rigor, a prepotência e a insensibilidade militar de quem estava ali apenas para cumprir mais uma missão ao serviço do regime e "arrecadar mais uns trocos", em oposição aos que para ali foram empurrados sem que daquele pedaço térreo alguma vez tivessem reivindicado algo, embora fossem os guardiões de vastas plantações de algodão, propriedade de quem em Lisboa se "entretinha a abençoar os fiéis e a colaborar com a PIDE para silenciar os protestos" (...)

Carlos Vardasca
26 de Julho de 2008

Foto 1: O Soldado Condutor Gonçalves (Lixa) que incorporou mais tarde a C.CAÇ. 3309 em rendição individual, ao volante de uma Mercedes Benz já com o tejadilho serrado.
Foto 2: Primeira Berliet minada numa das primeiras colunas de reabastecimento sob protecção da Companhia de Caçadores 3309 no itinerário Nangade-Pundanhar (22 de Março de 1971).
(1) Alcunha de Licínio José de Jesus Lopes, Soldado Condutor NM 16985870 da Companhia de Caçadores 3309, natural da aldeia da Rasca (Setúbal) falecido em Agosto de 1999.




quinta-feira, 17 de julho de 2008

"Nangade, meu amor"



(...) A guerra também tinha os seu intervalos, embora "o cenário se mantivesse estático, lá no fundo do palco" tal como nos teatros, sempre pronto a levar à cena os horrores da guerra. Nangade (ao contrário dos minúsculos Aquartelamentos como Nova Torres, Tartibo e Muidine por onde deambulou a Companhia de Caçadores 3309, mais parecendo ter sido ali colocada por mero abandono) era um Aquartelamento que oferecia maior segurança. Protegido em todo o seu redor por duas fiadas de arame farpado, com postos de iluminação cuja luz (que era produzida por velhos geradores que pareciam roncar pela noite fora) incidia sobre aquela linha de defesa, Nangade era um Aquartelamento ladeado por dois aldeamentos das etnias Maconde (a norte) e Macua (a sul) que nos ofereciam em dias festivos batuques nocturnos até que pela manhã o cacimbo inundasse os telhados de colmo das palhotas, enquanto alguns soldados adormeciam nos seus alpendres encharcados de "Laurentinas".
De regresso das operações de combate, os soldados tinham à sua disposição chuveiros para desencardir as angústias e sacudirem o pó negro das matas que se entranhara no camuflado e inundara as entranhas, para depois, durante a noite, enquanto uns pareciam dormir um sono eterno, outros, de visita aos aldeamentos, enfiavam-se nas tabancas e aí se saciavam até à exaustão numa orgia prenhe de infidelidades, entrelaçados como as lianas até que o "orgasmo explodisse como uma bola de fogo".
À sua pista de terra batida chegavam com alguma regularidade Táxis Aéreos, DOs, Nord Atlas transportando abastecimentos vários ou tropas para ali enviadas para acções de combate à guerrilha, e outros meios aéreos como os T6 vindos das acções de bombardeamento de zonas controladas pela FRELIMO, assim como formações de helicópteros de transporte de grupos de combate para ataque às suas bases ou de passagem para Mueda transportando feridos ou mortos nessas mesmas acções.
Nangade estava bem defendida em termos de armamento pesado e ligeiro, dispondo de duas anti-aéreas que crivavam o planalto em frente quando a FRELIMO dali atacava com morteiros de 82mm, e vários Obuses 14, que batiam a zona como forma de prevenção ou respondendo a ataques da guerrilha que o fazia com alguma regularidade.
Na loja do Monhé, repleta de "bujigangas" que na falta de melhor nos faziam bastante jeito, amontoavam-se, por entre várias mercadorias, sabonetes Life Boy e frascos de Pó de Talco de má qualidade e do mais rasca do mercado, mas que nos aliviava das assaduras provocadas pelo calor e pelas longas caminhadas no interior da mata, das angustiantes acções de picagem na detecção de minas nas picadas ou dos patrulhamentos ao longo dos itinerários das várias picadas que ligavam os vários Aquartelamentos daquela zona do Planalto dos Macondes.
Foi aqui a Nangade que a C.CAÇ. 3309 chegou em 25 de Fevereiro de 1971 para depois ser tranferida para Nova Torres e mais tarde para Tartibo, voltando àquele Aquartelamento para dele sair em 13 de Novembro de 1972 com histórias bastante dramáticas para contar, depois de ter sido rendida pela Companhia de Artilharia 3506 e rodar para Balama (...)
Carlos Vardasca
17 de Julho de 2008
Foto 1: Os Furriéis Sobral, Neves e Arlindo da Companhia de Caçadores 3309 numa de "acção psicológica" no aldeamento Macua.
Foto 2: Aquartelamento de Nangade
Foto 3: Uma das anti-aéreas que faziam parte das defesas de Nangade.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Possivelmente serão pessoas diferentes




Foi com redobrada atenção que li o comentário de Fernando Ferrão, sobre um texto colocado por mim no blog com o título "Os homens requisitam-se, mas as Berliets custam 400 contos cada uma", comentário que desde já o agradeço e a que presto os esclarecimentos necessários com muito gosto.
Começo por referir que não coloco em causa o prestígio, a capacidade de chefia e o humanismo desse oficial a que se referiu aquele companheiro ex-combatente, mas gostaria de acrescentar que possivelmente não estaremos a falar da mesma pessoa, tendo em conta os dados que cita no seu comentário assim como os que vou explicitar. Digo que não é o mesmo oficial porque o que eu conheci em Nangade no período de 1971-1972, comandava a CCS do Batalhão de Artilharia 2918 embora fosse um oficial de Cavalaria (e não um Batalhão de Caçadores como refere aquele amigo) ao qual a minha Companhia (Companhia de Caçadores 3309) ficou adida, apesar de estar estacionada num outro aquartelamento junto ao rio Rovuma (Tartibo). Por outro lado, e a atestar que de facto estaremos possivelmente a falar de pessoas diferentes, nesse período quem estava em Moçimboa do Rovuma era a CCS do meu batalhão, o Batalhão de Caçadores 3834, e não a CCS do Batalhão de Cavalaria 2848, que poderia lá ter estado mas numa outra altura, possivelmente.
Conforme documentos que me foram cedidos pelo Arquivo Histórico Militar de Lisboa, o Batalhão de Artilharia 2918 de que fazia parte o Tenente Coronel Vasconcelos Porto a que eu faço referência, começou a ser rendido em Nangade pelo Batalhão de Artilharia 3876 no dia 27 de Janeiro de 1972, embora alguns dos seus efectivos lá permanecessem por mais algum tempo até à sua rendição total.
Acrescento que, no período em que eu estive em Nangade (de 25 de Fevereiro de 1971 a 03 de Novembro de 1972) as únicas companhias que ali estavam estacionadas eram (para além da CCS do Batalhão de Artilharia 2918), as Companhias de Artilharia 2745, a Companhia de Engenharia 2736 e mais tarde a CCS do Batalhão de Artilharia 3876 (que foi render o B.ART. 2918), assim como a Companhia de Artilharia 3506 que foi render a minha Companhia ao Tartibo em 03 de Fevereiro de 1972.
Quanto ao meu comentário, confirmo-o, assim como possivelmente a maioria dos soldados que passaram por Nangade naquele período, pois o assunto foi mais que comentado, se já não bastasse eu ter presenciado aquele episódio, uma vez que estava junto do alferes que comandava a coluna de reabastecimento quando ocorreu a emboscada e posteriormente o diálogo que se seguiu via rádio, para pedir o apoio aéreo para as evacuações a que faço referência no blog.
Prestados estes esclarecimentos, penso que a atestar pelos dados que o amigo Fernando Ferrão citou, fica mais claro que de facto se tratam de pessoas diferentes (embora com nomes idênticos) a que cada um de nós faz referência, agradecendo desde já a forma como colocou a questão.
Junto deste esclarecimento e a confirmar a veracidade da permanência daquele oficial em Nangade, junto um documento assinado por si no período quando estava naquele Aquartelamento a comandar a CCS o B.ART. 2918, assim como uma foto do mesmo junto do General Kaúlza de Arriaga e do então Governador Geral de Moçambique Engenheiro Pimentel dos Santos numa das suas visitas a Nangade, tirada na varanda da casa do Administrador de Posto junto daquele Aquartelamento.
Ao companheiro Fernando Ferrão, o meu obrigado e um abraço amigo.

Carlos Vardasca
29 de Abril de 2008
Foto: O Tenente Coronel Vasconcelos Porto entre o General Kaúlza de Arriaga, um ex-guerrilheiro da FRELIMO e o Governador Geral de Moçambique Eng. Pimentel dos Santos. Nangade, 17 de Julho de 1972
Documento: Comentário efectuado do pelo Tenente Coronel Vasconcelos Porto, a propósito da captura pela Companhia e Caçadores 3309 de um barco à FRELIMO no dia 25 de Junho de 1971. O documento tem no seu topo a referência ao B.ART. 2918 assim como a assinatura do referido oficial, o que comprova a sua estada em Nangade a comandar a CCS do Batalhão de Artilharia 2918.






sábado, 29 de março de 2008

É hora do tacho em Nangade

(...) Ao som de pancadas que tilintavam fortes num ferro pendurado no cajueiro, os soldados aproximavam-se em fila indiana da cozinha, respondendo àquele chamamento que indicava que se aproximava a "hora do tacho" em Nangade. Como aquele som era audível nos dois aldeamentos que ladeavam o Aquartelamento, as crianças corriam desordenadamente para junto da cozinha militar na ânsia de também poderem partilhar daquele "manjar", onde aguardavam, sentados de cócoras, até ao final pela sua distribuição pelos militares. Dos caldeirões negros fumegava um odor que nos recordava uma ementa bastas vezes ingerida (que não fosse a escassez de alimentos jamais seria tragada) onde, num acto de malabarista, a solidez do arroz o mantinha colado à marmita e o cachucho meio queimado há muito que adivinhava a sua sorte. Cada soldado, depois de receber o seu quinhão de um cozinheiro mal humorado, sentava-se onde podia; no chão à porta da caserna ou em mesas de madeira meio toscas, construídas com tábuas de barris já sem qualquer proveito, enquanto algumas crianças, sentadas em pontos estratégicos esperavam ansiosamente por qualquer sobra. Os seus olhos, onde o brilho há muito já perdera qualquer reflexo, olhavam-nos vigilantes, sempre atentos a qualquer movimento que lhes devolvesse qualquer esperança, em partilhar o resto do rancho que acabava sempre por sobreviver a um canto da marmita. Quem é que comia tranquilo sabendo à sua frente crianças desnutridas, famintas, que desesperadamente se debatiam com a fome, com os seus olhos a implorar compaixão? A comida do rancho não era farta nem sobre a sua qualidade havia qualquer dúvida; era simplesmente intragável, mas, à falta de melhor, lá se conseguia "empurrar" com a ajuda de um copo de "água de Lisboa" (1) que já vinha caldeada da Manutenção Militar, o que era notório pela sua transparência que deixava ver o fundo do copo. Era raro o militar que não deixava uns restos para saciar o apetite devorador da criança mais próxima (sempre a troco da lavagem da marmita) e era impressionante ver como as suas mãos frágeis, feitas em concha, tentavam levar à boca aqueles escassos bagos de arroz que a muito custo conseguira juntar, misturados com pequenas lasca de peixe que teimosamente se mantinham acomodadas às espinhas, e que serviam de complemento à sua dieta diária, composta (ano após ano) por farinha de mandioca triturada no pilão da família, e por massarocas de milho apanhadas nas machambas um pouco distantes e muito para lá do arame farpado (...)
Carlos Vardasca
29 de Março de 2008

Foto: Eu (de calções e meias até ao joelho) o Arteiro (de calções e camisa camuflados) e outros companheiros do Batalhão de Artilharia 2918, aguardamos na "bicha"a nossa vez para recebermos "arroz com peixe" junto à cozinha no Aquartelamento de Nangade.

quarta-feira, 5 de março de 2008

"...Nem os filmes viamos até ao fim"


(...) De quando em vez, e quando às chefias militares bem instaladas em Nampula lhes dava na real gana, lá vinham no helicóptero do correio umas bobinas com as maravilhas de "Sétima Arte", para nos retirarem alguns momentos ao desconsolo do isolamento. Os filmes eram projectados na parede de uma escola onde, e para o efeito, foi pintado eufemisticamente um ecran com a inscrição "Cine Nangade", que nos remetia (salvo as devidas dimensões) para a Avenida da Liberdade e o seu rodopio de néons que nos anunciavam bastas emoções, levadas à cena por um qualquer projeccionista de serviço. As populações dos aldeamentos Macua e Maconde que ladeavam o Aquartelamento também assistiam à sua projecção, mas raramente conseguiamos ver os filmes até ao fim. Na maioria das vezes, as fitas "enlatadas" traziam-nos aquelas "coboiadas" de raciocínio fácil onde o "rapaz" era o bom, e os índios expulsos selváticamente dos seus territórios e chacinados pela fúria colonizadora, apresentados sempre como os maus da fita. Era mesmo na altura, e quando as cenas nos ofuscavam fazendo esquecer o silêncio da noite pouco tranquilizador, que os céus se iluminavam com o lançamento de very-lights (cada um a sinalizar o local dos dois aldeamentos) informando a FRELIMO que do outro planalto se preparava para atacar o aquartelamento, que este se situava entre aqueles dois fachos luminosos. Momentos antes, e sem que os militares dessem pelo facto, já os elementos da população (na sua maioria miúdos e que pareciam estar avisados) se tinham ausentado à pressa daquela "sala de espectáculos" que não era à prova do cacimbo, para depois o Aquartelamento ser flagelado com alguma intensidade com disparos de morteiro 82mm e Canhão sem Recuo, cujas granadas caíam com alguma precisão no seu perímetro defensivo devido às coordenadas previamente anunciadas por aqueles objectos luminosos. Lembro-me que dos dois ataques (entre outros) mais intensos que Nangade sofreu enquanto a C.CAÇ. 3309 ali esteve estacionada, estavam a ser projectados nesses dias os filmes "D. Camilo na Rússia" com Fernandel (12 de Junho de 1971) e "O Príncipe Ladrão" com Tony Curtis e Piper Laurie (18 de Junho de 1971), e até parecia que a FRELIMO naqueles dias pretendia tomar de assalto o aquartelamento, dado os efectivos envolvidos naquelas duas operações, a intensidade e a duração do ataque que foram deveras perturbadores.
Ambas as projecções foram interrompidas no "melhor da fita", com os soldados a fugirem por todos os cantos e a refugiarem-se nos abrigos por entre laivos de patriotismo balofo:
- Cabrões dos turras pareçe que andam assanhados que nem os filmes nos deixam ver descansados (...)
Carlos Vardasca
05 de Março de 2008
Fotos: No Cine Nangade, na companhia do Soldado da C.CAÇ. 3309 Rangi Calá (de origem indiana).

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Planalto dos Macondes, 25 de Fevereiro de 1971


(...) Dispersos, e depois de uma noite mal dormida, tendo como colchão a terra batida do Aquartelamento de Pundanhar onde estava estacionada a Companhia de Caçadores 2703. Resguardados pelos telhados de colmo que pendiam das palhotas do aldeamento que se misturavam com as instalações militares, foi bastante cedo que aos militares da Companhia de Caçadores 3309 foi dada ordem de partida rumo ao Aquartelamento de Nangade.
Faltavam percorrer mais cinquenta quilómetros de picada, depois de termos deixado outros tantos para traz desde Palma até àquele Aquartelamento, percurso percorrido (por estranho que possa parecer) sem qualquer problema, dada a intensa actividade da FRELIMO naquela zona. Pelo caminho e ao longo da picada, fomos encontrando outros soldados que faziam protecção ao itinerário por onde seguia a coluna que transportava a C.CAÇ. 3309.
De aspecto bastante cansado, extremamente exaustos e com a farda meio rasgada cujos farrapos se colavam ao corpo devido à chuva intensa que se abatia sobre a mata, o que evidenciava no seu rosto muitos quilómetros de picada percorridos, lá os deixámos para traz meio escondidos por entre o capim, com as Berliets a acelerarem mais um pouco depois de nos terem certificado de que toda a picada foi patrulhada, transmitindo-nos confiança de que a coluna podia avançar sem problemas em direcção a Nangade.
Nas páginas do meu Diário marcava o dia 25 de Fevereiro de 1971, e a C.CAÇ. 3309 chegava a Nangade, tendo recebido à sua chegada uma recepção muito ruidosa por parte da Companhia de Comando e Serviços do Batalhão de Artilharia 2918 (comandada pelo Tenente Coronel Vasconçelos Porto) e alguns pelotões da Companhia de Artilharia 2745 (comandada pelo Capitão de Artilharia Jorge Duque) ali estacionados, sendo esta última a que iria ser rendida pela C.CAÇ. 3309.
Para impressionar (ou amedrontar) os "Checas" que se encontravam agora formados em frente ao edifício de Comando, as anti-aéreas, os Obus 14 e os morteiros 81mm que faziam parte do sistema defensivo daquele aquartelamento, "vomitavam" todos ao mesmo tempo "bolas de fogo" simulando que o Aquartelamento de Nangade estava a ser atacado pela FRELIMO, enquanto alguns soldados, exibindo as divisas de Capitão ou de Major, incomodavam as tropas acabadas de chegar:
- Olhe lá nosso soldado! - então isso são modos de se apresentar numa formatura com a barba grande, as botas todas enlameadas e o fardamento todo molhado?
Ao que o soldado Condutor Pereira (1) (de alcunha o "Garina") depois de hesitar um pouco lá respondeu, meio irritado e com o seu jeito tão característico, evidenciando o seu sotaque de Lisboa de onde era natural:
- Meu major, acabámos mesmo agora de chegar do mato, sempre debaixo de chuva, e diga-me lá onde é que queria que eu ligasse a máquina de barbear? - ao tronco de uma árvore era?
Ao que o falso Major respondeu de imediato (deixando escapar um ligeiro sorriso) exibindo um frágil autoritarismo e muito pouco convincente:
- Ligavas a máquina aos teus cornos, meu "Checa" de merda!
Percebendo que o soldado ficara perturbado com aquela resposta, o militar que se passava por Major retirou as divisas e abraçou-o, dizendo-lhe:
- Epá! - Desculpa lá, eu sei que fui um bocado bruto mas isto é tudo a brincar - continuando a desculpar-se:
- Eu sou soldado com tu, e isto é apenas uma brincadeira que faz parte da recepção aos "Checas".
- Se não levarmos esta puta de guerra a brincar acabamos por sair daqui todos loucos (...)

Carlos Vardasca
25 de Fevereiro de 2008

Foto 1: Elementos da C.CAÇ. 3309 na coluna militar que os levou até Nangade.
Em primeiro plano podem ver-se (entre outros) o Furriel Barbudo, o 1º Cabo Pinto e o Soldado Rodrigues (Barbeiro).
Foto 2: Vista aérea do Aquartelamento de Nangade no norte de Moçambique (ao centro), ladeado pelos aldeamentos da etnias Maconde e Macua.

(1) Alfredo Bernardino Pereira, Soldado Condutor Auto Rodas NM 15407070, falecido após o regresso da C.CAÇ. 3309 de Moçambique.









terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

"...Os livros que me acompanharam"

(...) Quando foi decretada a mobilização para Moçambique da Companhia de Caçadores 3309, todos nós viemos passar alguns dias a casa antes de embarcarmos, depois de nos termos apresentado em Viana do Castelo e desta cidade partirmos em direcção ao Cais de Alcântara em Lisboa. Em casa, e quando fazia as malas, para além de tudo o que era essencial levar, acomodei a um canto de uma das malas alguns livros. Alguns deles não primavam pela vulgaridade, mas sim pela carga emblemática que transportava a sua prosa e pela mensagem panfletária que transmitiam.
Embora já os tivesse lido vezes sem conta, considerava-os um pedaço de mim e dos quais não me queria separar.
Com a chegada da C.CAÇ. 3309 a Nangade, no norte de Moçambique, tratei logo de arranjar uns cunhetes de munições do Obus 14 vazios, e deles fazer uma estante, alinhando-os de forma a que todos os que coabitavam naquela caserna os pudessem folhear como se tratasse de uma "biblioteca pública", tendo por companhia outros exemplares, que mais tarde outros soldados se prestaram a preencher o espaço ainda vazio daquelas caixas de munições.
De todos os livros que levei (onde imperava a variadade de temas para além dos já citados) o mais lido era a "Lolita" de Vladimir Nabokov que o "Foz" dizia despertar-lhe outros suores, e que outros confessaram despertar-lhes sensações estranhas ao ponto de serem presa fácil da masturbação.
No meio daquele aperto de vários volumes que se acotovelavam uns contra os outros, conviviam lado a lado com a "Lolita" (sem que se deixassem seduzir), "Memed, meu falcão" de Yachar Kemal; "Para que a terra não esqueça" de Léon Weliczker; "A Rua" e a "Ponte", ambos de Manfred Gregor e um outro mais panfletário; "A Mãe" de Máximo Gorky, que o "Mogadouro" nem sequer tentava tocar-lhe, com receio que aqueles "Ventos de Leste" lhe retirassem a vontade de se alistar na GNR (como era sua intenção e que se concretizou) quando regressasse da guerra.
Tal como eu, todos aqueles livros sobreviveram àquele conflito colonial, embora mais gastos e empoeirados devido ao manuseamento um pouco desajeitado de alguns, obras que ainda hoje conservo como uma espécie de "troféus" resgatados depois de uma longa "odisseia literária", que ajudou a esquecer o isolamento apesar de teimosamente se mostrar sempre presente (...)

Carlos Vardasca
19 de Fevereiro de 2008

sábado, 12 de janeiro de 2008

" O mainato Raimundo"

(...) Cada vez que chegavam novas tropas a Nangade, junto das casernas e das tendas aglomeravam-se sempre muitas crianças dos aldeamentos que ladeavam o aquartelamento, na ânsia de encontrarem um novo "patrão". As mães, sabendo que os soldados necessitavam da sua roupa lavada, por não terem tempo de o fazer devido às operações militares onde se iriam envolver, para ali enviavam os seus filhos à procura de trabalho que lhes ajudasse a tornear a extrema pobreza em que viviam. Aquelas concentrações (salvo as devidas diferenças) assemelhavam-se às concentrações dos trabalhadores agrícolas no Alentejo, no centro das aldeias, onde os agrários ali iam contratar os mais aptos para a época da ceifa. No meio de toda aquela criançada lá estava o Raimundo, miúdo de 10 anos, de olhar muito brilhante e de sorriso sempre presente, que oferecia os seus préstimos (como todos os outros) pela módica quantia de pouco mais de 40 escudos. Antes de o escolher para "meu Mainato" ainda lhe perguntei:
- Como te chamas? - ao que ele me respondeu com alguma desenvoltura:
- Eu chamar Raimundo, aqui nos Nangade e em todo os Planalto dos Maconde pá! - acrescentando de seguida:
- Se tu me escolher para teu mainato, meu irmã ir lavar os teu roupa maningue bem!


Achei engraçada a forma como articulava o seu português meio desajeitado mas perceptível, e lá o escolhi para ser o "meu mainato" até ao final da minha comissão enquanto estive no Aquartelamento de Nangade. Comentou-se depois no aquartelamento, que os pais do Raimundo eram suspeitos de colaborarem com a FRELIMO, o que se confirmou mais tarde, quando o pai foi morto pelas sentinelas de um posto de vigia junto ao arame farpado localizado na área do aldeamento Maconde, quando (possivelmente vindo de uma das suas missões do interior da mata) tentava penetrar em Nangade pela calada da noite. Apesar desse acontecimento e contrariando todas as opiniões que me aconselhavam a fazer o contrário, Raimundo continuou a ser o "meu mainato". Era de facto um miúdo impecável. Parecendo adivinhar a minha chegada das operações de reabastecimento, lá estava ele à porta da caserna com a roupa que a irmã tratava com algum zelo, dizendo-me com alguma ternura:
- Olha patrão, tens aí os teu roupa. - Ainda está quente dos ferro pá!
Um dia, passados alguns meses e porque achei que à muito ele ganhava os mesmos 40 escudos que combinámos inicialmente, e porque tive muita pena dele quando o pai faleceu e a mãe fora feita prisioneira pela PIDE, acusada de também colaborar com os guerrilheiros, ficando a viver sozinho com a irmã e os dois irmãos mais novos, disse-lhe:


- Olha Raimundo, como a minha roupa vem sempre muito bem lavada e impecavelmente passada, e porque tu mereces, eu vou aumentar o teu salário para 50 escudos:
- O que é que achas? - disse-lhe eu - ao que ele me respondeu, sempre daquela forma tão característica mas muito meiga, e que sempre achei muito engraçada, devido ao esforço que fazia em tentar articular o seu português que lhe saía sempre muito desconjuntado:

- Se os patrão ter esse ideia, eu ficar maningue contente mas os probrema é sua, você é que sei!
Entendi ser aquela a forma mais simples de me querer agradecer, vendo-o correr muito contente em direcção ao aldeamento, possivelmente para dar a boa notícia à irmã.
Actualmente e se ainda for vivo, e ainda viver naquele planalto inóspito onde as acácias convivem e namoram com as sombras dos cajueiros, Raimundo tem neste momento 45 anos de idade, e decerto continua a não variar a sua alimentação muito para além do milho e da mandioca triturada no pilão, que sempre foi a base da sua alimentação, mas que por vezes era trocada pelos restos da ração que sobravam das marmitas dos militares (...)

Carlos Vardasca
12 de Janeiro de 2008
Foto: Raimundo e os seus dois irmãos mais novos.