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domingo, 1 de fevereiro de 2015

"TARTIBO MEU AMOR"







Olá Irmão Leite

Vejo que ainda estás na posse dos teus recursos. Na verdade BINGASTE.
É mesmo o nosso camarada Barros.

O operador de imagem para o casting foi este teu humilde amigo que,  para as artes da fotografia, tenho de reconhecer, ainda me encontrava na fase de ESTAGIÁRIO.

Mas, falando de forma mais séria, a intenção destes e outros documentos fotográficos, é apenas  transportarmos o nosso subconsciente para aquele período difícil, mas rico na relação que tem permanecido ao longo de tantos e tantos anos.

No caso concreto, apenas pretendo enviar o meu abraço àquele camarada e amigo com quem privei momentos inesquecíveis, não subestimando todos os outros, onde tu, irmão Leite, te incluis.

Qualquer fotografia ou outro documento, tem uma história. E no caso, vou tentar em rápidas palavras descrever as razões pelas quais o irmão Barros se encontrava em topless, numa delas e noutra em pleno streap-tease. (Ele que me perdoe a inconfidência).

O Tartibo estava cercado de água. As patrulhas ou eram feitas de Zebro ou em progressão apeada, praticamente sempre dentro de água.

No local onde fizemos aquela paragem para pernoita, era dos poucos onde se pisava terra firme.

Em plena época das chuvas e com as fardas encharcadas, resolvemos proceder ao descasque das mesmas e pô-las a secar até para contrariar as investidas do mosquito Anopheles que, como sabes, eram o principal agente transportador do paludismo (malária).

E aqui fica esta pequena recordação, para que cada um de nós possa ler aos netos. Não vão eles, se tiverem acesso as estas fotos sem qualquer legenda elucidativa, pensar que aquilo que os avós viveram há quarenta e tal anos atrás, era uma uma grande "rebaldaria".

Se o Carlos Vardasca quiser postar no seu blogue, por mim, está à vontade.


Abraço para ti e todos os nossos camaradas.


Filipe Pinto

terça-feira, 7 de abril de 2009

Os "ABORÍGENES" do Tartibo

Antes de a Companhia de Caçadores 3309 ocupar o Aquartelamento de Nova Torres, quem lá estava era a Companhia de Artilharia 2745 que, no âmbito da Operação Novo Rumo ocupou aquela área, muito próximo de uma base da FRELIMO entretanto abandonada e que se denominava Cantina Manica e Sofala, importante posto fronteiriço de infiltração dos guerrilheiros na zona de Cabo Delgado (coordenadas: 39º 51',5 Leste - 10º 52' Sul) e a quem a C.CAÇ 3309 foi render em 1 de Março de 1971.
Os momentos ali vividos foram deveras dramáticos tanto para a C.ART. 2745 assim como para a C.CAÇ. 3309, tendo em conta os testemunhos aqui relatados pelo ex-Capitão Jorge Duque daquela Companhia de Artilharia e retirados de um extenso documento que fazem parte das suas memórias, algumas delas vividas em conjunto com a chegada da C.CAÇ. 3309 àquele Aquartelamento.

" (...) O rio Rovuma subiu mais na noite de 10 de Janeiro de 1971, após a visita do Coronel Dinis, segundo Comandante do Sub-Sector de Mueda, na qual foi dada ordem peremptória de não abandonar aquele local.
O Aquartelamento ficou completamente submerso durante quatro meses; A C.ART. 2745 teve de se afastar uma centena de metros do leito normal do rio para evitar as derrocadas provocadas pela torrente; atarefou-se a colocar o material mais leve sobre as árvores; estabeleceu um novo posto de comando com o rádio e antenas sobre uma delas. A profundidade mínima na área do quartel, que apesar do pequeno ajustamento do dispositivo continuava localizado na proximidade das margens do rio era superior a 1,50 metros; na maioria dos locais não havia pé; a corrente era fortíssima e ruidosa; viam-se grandes árvores com animais sobre elas (aves, macacos etc) a serem arrastadas na corrente; o local de terra firme mais próximo de nós situava-se a mais de 7 quilómetros, na margem sul do rio Metumbué que, com a cheia, se unira ao Rovuma.
Apesar disso a C.ART. 2745 manteve sempre ligação com o Comando de Sub-Sector localizado em Nangade. O posto de Comando e o centro de comunicações continuou sempre operacional. Os abastecimentos da cantina foram distribuídos gratuitamente e equitativamente a todos os militares. Não houve acidentes pessoais por milagre; revelou-se de grande utilidade o facto de, nos meses precedentes, todos os militares da Companhia haverem aprendido a nadar nos períodos do banho no rio Rovuma.
Os militares organizados em equipas tácticas de 5 elementos passaram a viver em cima das árvores; esses árvores foram seleccionadas especificamente para o efeito pelo comandante de companhia, de acordo com critérios tácticos, de conforto e de segurança; algumas das árvores não resistiram à torrente e foram arrastadas pelas águas, mas isso não aconteceu com nenhuma das que estavam ocupadas pelos militares; cada militar recebeu uma dotação reforçada de munições, medicamentos e outros abastecimentos de emergência; as armas pesadas e equipamentos colectivos foram distribuídos pelas equipas das árvores; a reserva de abastecimentos (munições, medicamentos e rações de combate) foi metida nos 4 botes de borracha disponíveis; a ligação entre os elementos da Companhia fazia-se a nado sobre colchões de borracha, tal como na praia; as viaturas foram amarradas a coqueiros para não serem arrastadas pela torrente; apesar disso muitos artigos foram arrastados pelas águas; por exemplo os bidões de combustível apareceram meses depois nas praias da zona de Palma, após um percurso de quase duas centenas de quilómetros.
Também houve alguns sustos com crocodilos, que, felizmente apenas queriam sobreviver como nós.
Neste período a Companhia alimentou-se a rações de combate e a pacotes de leite que eram lançados de helicóptero para a água, obrigando os militares a autênticas pescarias dos abastecimentos que ficavam a flutuar e se iam deslocando na corrente.
Dormia-se em cobertores presos aos ramos das árvores com arames.
Entretanto parte de um Grupo de Combate da C.ART. 2745 estava destacado em Nangade pois na altura das cheias estava em missão de escolta na estrada Nangade-Palma.
Imagine-se o espectáculo que seria quem passasse por perto de avião ou helicóptero na savana e deparar-se com um conjunto de árvores com cerca de 100 homens instalados nos ramos, quais frutos exóticos ou aborígenes frutívoros (...)
Jorge Fernando Duque
Coronel de Artilharia
Comandante do CIAAC-Cascais
Julho de 2007

In "A Companhia de Artilharia 2745 em Moçambique", páginas 10 e 11, Julho de 2007 de Coronel Jorge Fernando Duque, actual Comandante do CIAAC-Cascais, ex-Capitão de Artilharia NM 50530311 da Companhia de Artilharia 2745, em missão em Moçambique de 23 de Julho de 1970 a 08 de Setembro de 1972.
Foto1: O Capitão Jorge Duque (de pé, o terceiro a contar da esquerda) com outros oficiais de C.ART. 2745 na companhia de jornalistas no dia da chegada daquela Companhia a Nova Torres. Moçambique, 05 de Setembro de 1970. (em destaque foto actual do ex-capitão Duque)
Fotos 2 e 3: Retirada da Companhia de Artilharia 2745 do Aquartelamento de Nova Torres devido às cheias resultantes da junção das águas dos rios Metumbué e Rovuma. Moçambique, 1971.
Foto 4: Aspecto do Aquartelamento de Nova Torres parcialmente destruído e totalmente alagado. Moçambique, 1971.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

"Houve troca nos temperos"

“…A outra história toda a gente conhece, principalmente o “Serrinha”(1) por ter sido ele, segundo ouvi, o principal actor.
Era mais ou menos assim: Em data que também não recordo, andava toda a gente na Companhia com um enorme desejo de comer batatas com bacalhau à maneira, mas havia grande dificuldade em arranjar batatas.
Depois de porfiadas diligências consegui arranjar batatas, graças aos esforços de um piloto chamado Quental que as entregou na Delegação da Manutenção Militar em Porto Amélia e que depois vieram para Palma e daí para o Aquartelamento de Tartibo, creio que de avião ou helicóptero, já não me lembro bem disto.
Um belo dia fez-se uma coluna de reabastecimento e aproveitámos, a par de outras coisas, trazer um bidão de azeite por causa do tal “bacalhau à maneira”.
Quando a coluna chegou ao rio Metumbué estava a anoitecer e houve alguém que teve a ideia peregrina de que se não fosse possível descarregar tudo ao menos que se levasse o bidão do azeite para o aquartelamento para temperar à maneira as batatas com bacalhau.
Com enorme esforço lá levaram o bidão aos robulões, durante a noite desde a margem do rio Metumbué até ao aquartelamento que ficava a pelo menos 2 bons quilómetros.
Quando chegaram, depois de tanto esforço verificou-se que afinal se enganaram: - o bidão era de vinho em vez do azeite, porra!... (2)


Hélio Augusto Moreira
ex- Capitão Miliciano NM 36048760 da Companhia de Caçadores 3309
Linhares, 06 de Janeiro de 2006

(1) 1º Cabo Atirador NM 13382970, António Natálio Sequeira Serrinha da Companhia de Caçadores 3309.
Foto 1: O Capitão Hélio Augusto Moreira (em baixo) durante um operação de reconhecimento próximo do rio Metumbué, onde o Grupo de Combate envolvido matou uma enorme cobra que foi logo esfolada e limpa no local. Na foto podem ver-se ainda (em pé da esquerda para a direita): O "Cartaxo", Alferes Martins, Furriel Gonçalves e "Pragal" (estes dois últimos já falecidos), Rodrigues e outros Soldados naturais de Moçambique incorporados na Companhia de Caçadores 3309 a quando da sua deslocação para Cabo Delgado.

Foto 2: O Capitão Hélio Augusto Moreira na companhia do Alferes Mendes (Atirador) e dos Furriéis Felisberto Costa (Vague Mestre) e José Maria da Silva (Enfermeiro) da Companhia de Caçadores 3309, durante um breve intervalo para o almoço no Aquartelamento de Nova Torres. Em destaque uma foto actual do ex-Capitão Hélio Augusto Moreira.

(2) in "Do Tejo ao Rovuma. Uma breve pausa num tempo das nossas vidas", página 200. Carlos Vardasca, Alhos Vedros 2009.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

"Fugimos de um para nos atolarmos num outro inferno"






(...) Os homens estavam exaustos. Um grande número de soldados encontravam-se já evacuados no hospital de Mueda ou em Nampula devido ao paludismo, desidratação e diarreia ou outras complicações que os faziam urinar sangue, em resultado das condições desumanas em que foram obrigados a viver durante a época das chuvas e as sucessivas inundações de que foi alvo o Aquartelamento de Nova Torres. Era insustentável continuar a ocupar aquele Aquartelamento apesar da insistência dos altos comandos militares, que argumentavam ser aquela zona um local de infiltração dos guerrilheiros da FRELIMO em Moçambique e que por esse facto não poderia ser abandonada. Sem correio e sem pão uma vez que os sacos atirados do helicóptero ou da DO caíam na maioria das vezes no lodo ou na zona inundada, alimentados a ração de combate para além dos limites considerados normais em tempo de combate, há cerca de duas semanas que as tropas estacionadas em Nova Torres viviam em cima das árvores, fazendo aumentar o tom dos protestos que reivindicavam uma mudança de local e a construção de novo Aquartelamento numa zona mais alta onde estariam mais resguardadas das inundações das águas dos rios Metumbué e do Rovuma.
Depois de muita insistência e de algum mal estar entre as tropas, a Companhia de Caçadores 3309 lá foi autorizada a iniciar a sua retirada de Nova Torres e a desencadear a construção do novo Aquartelamento numa pequena elevação a que se denominou Tartibo.
Foi a 25 de Setembro de 1971 que se iniciou essa retirada e a construção do novo Aquartelamento de Tartibo que ficou concluído a 30 do mesmo mês, no mesmo local onde outrora fora uma pequena base da FRELIMO conquistada pela C.CAÇ. 3309 em 03 de Setembro, quando no âmbito de uma operação que se propunha procurar uma nova localização para o Aquartelamento deparou com aquele aglomerado de palhotas escondidas pela copa das árvores e pelo intenso capim, tendo havido confrontos de onde resultou a morte de cinco guerrilheiros e a captura de duas Kalashnikov e vários documentos com alguma importância.
Em Tartibo a C.CAÇ 3309 iniciava uma nova fase da sua permanência no norte de Moçambique, mais concretamente em Cabo Delgado onde as dificuldades se foram agravando, dado que o novo Aquartelamento ficava mais exposto aos ataques da FRELIMO como se veio a verificar enquanto a C.CAÇ. 3309 ali permaneceu.
Não resistindo ao desespero num dos ataques da FRELIMO a Tartibo, houve alguém que desabafou no meio do tiroteio:
- "Porra! fugimos de um para nos atolarmos num noutro inferno" (...)

Carlos Vardasca
25 de Setembro de 2008
Foto 1: Aspecto do Aquartelamento de Nova Torres após uma das várias inundações de que foi alvo. Na foto pode ser-se o 1º Cabo Auxiliar de Enfermagem NM 05802970, António da Silva Azevedo da C.CAÇ. 3309.
Foto 2: Momento da retirada da C.CAÇ. 3309 de Nova Torres em 25 de Setembro de 1971.
Foto 3: Fase da construção do Aquartelamento de Tartibo com o apoio da Companhia de Engenharia 2736 destacada em Nangade.
Foto 4: Momento da chegada da C.CAÇ. 3309 ao Aquartelamento de Tartibo em 01 de Outubro de 1971, vendo-se em primeiro plano o Alferes Miliciano NM 17548968, Manuel António Filipe Gonçalves da C.CAÇ. 3309.
Fotos 5 e 6: Aspecto final do Aquartelamento de Tartibo após a sua construção, o que evidencia o total isolamento a que a C.CAÇ. 3309 ficou sujeita enquanto ali permaneceu até à sua rendição.

sábado, 7 de junho de 2008

"Breves pausas em tempo de guerra"


(...) Passada a incerteza recortada pelo olhar cansado, distante e desconfiado, onde o medo transformava o seus rostos já meio desfigurados por noites mal dormidas, era no aconchego do regresso ao aquartelamento que se voltavam a estreitar as amizades e se forjavam por outro lado novas preocupações pelas notícias do correio trazidas pelo helicóptero.
De gargantas ressequidas, sacudidos do pó que se entranhara pelo camuflado levantado pelo caminhar lento na picada e refrescados agora pelo banho de chuveiro, cuja água fora trazida do rio Metumbué, aqueles corpos repousavam agora gastos de cansaço. A Operação que durara cinco dias, com caminhada intensa por entre as lianas que obstruíam a progressão no terreno, terminara sem qualquer contacto com a FRELIMO, e era agora, à mesa, depois de um descanso bem merecido, que grupos de soldados mergulhavam em petiscos improvisados e refrescados pelas "latinhas" de cerveja e as temíveis "Bazookas" (como a que o Pereira (1) se sacia) desvanecendo todos os medos, enquanto a noite se abatia sobre as tendas de lona meio ressequidas pelo sol abrasador que se escondera para lá das montanhas da Tanzânia.
A aldeia distante, a família em constante desespero, os horrores da guerra e o simples questionar da nossa presença - ali tão longe de tudo, transformava-se num novelo de conversas à luz forçada de um gerador desconjuntado, que roncava forte no seu trabalhar, assemelhando-se às saídas das granadas de morteiro 82mm da guerrilha, que nos obrigavam a fugir de emergência para a segurança dos abrigos.
Eram de facto momentos únicos que nos permitiam fingir ignorar os horrores da guerra. Tudo era pretexto para juntar à volta da mesma mesa "Mouros" e "Ratinhos", tragando nacos de frango (saqueados numa incursão relâmpago ao aldeamento ou ao galinheiro do capitão) saboreados com satisfação até ao lamber dos dedos, desde que logo empurrados pela fresquidão das "Laurentinas", que escorregavam logo atrás de um pedaço de carcaça bem untada do molho já coalhado, que cobria o tabuleiro de alumínio já meio escurecido pela servidão.
Pela noite dentro, com os very-lights lançados pela guerrilha a sobrevoarem e a iluminarem todo o aquartelamento, transmitindo-nos outros tantos momentos de insegurança pela eminência de um ataque, o silêncio, que conseguia pairar por entre os intervalos do roncar do gerador como se fora o cacimbo a humedecer pela manhã a fragilidade do capim, deixava que outros, quais crianças embaladas, adormecessem, esquecendo momentaneamente o que decerto estaria espreitando impaciente para lá do perímetro defensivo do aquartelamento, no interior da mata densa e a coberto da folhagem escurecida pela noite (...)

Carlos Vardasca
07 de Junho de 2008
Fotos: A malta da Companhia de Caçadores 3309 na hora do tacho no Aquartelamento de Tartibo e num petisco na oficina auto em Nangade.
(1) Alfredo Bernardino Pereira, Soldado Condutor Auto Rodas NM 1540770 da C.CAÇ. 3309, natural de Algés e falecido em 1975.




sábado, 29 de março de 2008

" O sossego do barbeiro"

(...) Tinha todos os dotes da arte de bem barbear e do esquartejar das fartas cabeleiras, que não resistiam às tórridas temperaturas que sopravam do Índico e se transformavam em carecadas exemplares que diziam pulsar de fresquidão. O Rodrigues (1) de alcunha o "barbeiro", depois de chegar do mato e de descansar o tempo que lhe era permitido, lá ia direitinho ao seu "posto de trabalho" à espera dos fregueses a quem cobrava algumas "quinhentas", que investia sem demora na frescura das 2M (2) que exibia como troféu e dizia ser o lucro possível da sua arte de bem "tosquiar". A "barbearia", na ausência daquele profissional que se encontrava no mato em operações integrado no seu Grupo de Combate, tornava-se um lugar inóspito, por vezes interrompido pelo chapinhar da água que escorria de um bidom meio ferrugento, que transformava aquela "oficina de um barbeiro ausente" num imenso balneário colectivo onde os "guerreiros do império" se livravam das poeiras do tempo e das angústias da guerra. De regresso ao Aquartelamento, logo que podia, sentava-se nos pequenos degraus esculpidos no tronco onde pendurava as ferramentas, e ali esperava pela clientela que não tardava, enquanto vasculhava as notícias do jornal regional que recebia com alguma regularidade e lhe anunciavam notícias da terra (...)
Carlos Vardasca
29 de Março de 2008
Foto: O "Barbeiro", aguarda tranquilo que a freguesia se aproxime do seu atelier de "corte e penteadura" no Aquartelamento de Tartibo. Moçambique 1971
(1) Artur Salgado Rodrigues, Soldado Atirador da Companhia de Caçadores 3309
(2) Marca de cerveja de Moçambique.

sexta-feira, 14 de março de 2008

"... Na aldeia de Astérix"

(...) A vasta mata foi desbravada para dar lugar a um minúsculo aquartelamento a que se deu o nome de Tartibo. De condições muito rudimentares, cada um desenrascou-se como pode para inventar da natureza as condições ideais para se acomodar e propiciar um sono mais tranquilo.
Dos pequenos troncos que sobraram do derrube das árvores para a construção dos abrigos, surgiram então tão rudimentares camas que nunca se imaginou suportarem tanta intranquilidade.
À noite, e depois de um dia de patrulhamento, desbravando mato à força de catanas para fugir aos trilhos tradicionais e montar emboscadas aos guerrilheiros da FRELIMO, ou regressado de uma coluna sem que o cantil já vertesse qualquer gota de água, quem caísse naquelas camas dormiria com a mesma facilidade, não se apercebendo da sua fragilidade devido ao cansaço que na sua pressa não deixava tempo para despir o camuflado.
Numa das muita vezes que fui ao Tartibo em colunas de reabastecimento, cheguei a dormir numa daquelas camas devido à hospitalidade que me foi reservada pelo Valoura, simples habitante daquela espécie de "aldeia de Astérix", que me cedera a sua cama para nela sonhar com aquele guerreiro gaulês na sua luta incansável contra os invasores de Roma, protagonizados pelos pequenos troncos que facilmente fugiam debaixo de nós a cada movimento por um melhor aconchego.
As camas de ferro contavam-se pelos dedos, e estavam reservadas para quem daquela guerra dizia ter direito a outros confortos.
Costuma-se dizer que "um corpo cansado dorme em qualquer lado" mas para "Astérix e seus guerreiros", diziam bastar uns pequenos troncos e uma placas de cartão para lhes servir de leito, não fosse o farto conforto não os deixar atentos à "invasão romana que a cada momento podia surgir do lado de fora do perímetro defensivo, saída do escuro da mata circundante" (...)
Carlos Vardasca
14 de Março de 2008
Foto: Caserna dos soldados da Companhia de Caçadores 3309 no Aquartelamento de Tartibo.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

"... Olha o hélio ... olha o hélio"


(...) Olha o hélio...olha o hélio! era uma espécie de "grito de guerra" que era entoado logo que ao longe se avistava aquele minúsculo ponto muito para lá da copa das árvores, refugiado entre as nuvens para fugir ao alcançe das anti-aéreas da FRELIMO. Mal se ouvia aquele barulho tão familiar das suas héliçes e o helicóptero já sobrevoava a baixa altitude, aquele ritual surgia como se tivesse sido ensaiado, o que levava o capitão Hélio Moreira da Companhia de Caçadores 3309 por vezes a indignar-se, de desconfiado que ficava se nas entre-linhas daquela imensa alegria não houvesse ali algum motivo de chacota. O helicóptero deslocava-se ao Aquartelamento de Tartibo com uma periodicidade de quinze em quinze dias, levando àquele amontoado de tendas protegido em todo o seu redor por montes de areia, e encravado no final das escarpas do Planalto dos Macondes, alguns abastecimentos frescos e o tão almejado saco do correio, que era o verdadeiro motivo daquele ritual que por vezes parecia ser cantado em coro. Depois da distribuição da correspondência e com os ânimos já mais tranquilos, uma certa ansiedade abatia-se sobre o Aquartelamento, onde cada um se refugiava no seu canto para saborear aqueles "gatafunhos", que se acotovelavam entre as apertadas linhas azuis mas com sabor a notícias frescas. Quem estivesse de parte a observar, descortinava no meio daquela "meditação colectiva" uma mistura de vários silêncios, por vezes interrompidos; ora pelo franzir do rosto ou pelo brilhar de uma lágrima que teimava em cair, muitas vezes motivado pelo nascimento de um filho que tardou em nascer ou pelo anúncio de um amor bastas vezes traído pela ausência.
Depois de vazio, o saco do correio era inglóriamente atirado para um dos cantos da secretaria, e ali jazia até que no seu interior se acomodasse um novo amontoado de envelopes e "bate-estradas"(1) prenhes de "lamúrias", até que o helicóptero os levasse de volta, indiferente às lamentações e a uma ténue alegria, que seriam depois entregues numa qualquer aldeia distante, onde uns lábios carentes as iriam soletrar vezes sem conta (...)

Carlos Vardasca
13 de Fevereiro de 2008

Foto: Soldados da Companhia de Caçadores 3309 assistem à distribuição do correio no Aquartelamento de Tartibo. Cabo Delgado. Norte de Moçambique 1971.
(1) Aerogramas.

sábado, 12 de janeiro de 2008

"Quando passámos uma rasteira ao Vagomestre"



(...) Como os recursos eram escassos, a alimentação não variava muito para além do arroz com peixe ou do peixe com arroz, passando pelos "ciclistas" com atum (1) e da esparguete acompanhada por uma carne intragável, daquela que vinha não se sabe bem de onde em barricas de madeira, e que exalava um cheiro nauseabundo. Um dia, inesperadamente, o rancho no aquartelamento de Tartibo onde estava estacionada a C.CAÇ. 3309 foi melhorado, graças ao Pelotão comandado pelo Furriel Garcia (já falecido após o nosso regresso de Moçambique). Iniciado o regresso ao aquartelamento depois de concluída a operação, aquele Grupo de Combate ouviu um barulho estranho no capim e, pensando ser guerrilheiros da FRELIMO em patrulha, todos logo se abrigaram na mata para no momento certo fazer a sua intercepção. O barulho, cada vez mais próximo, começou a tornar-se mais familiar assemelhando-se a um cavalo a esfregar os cascos na terra, e logo a tranquilidade se apoderou de todos ao verificarem que as suspeitas eram infundadas, pois tratava-se apenas de uma Impala que por ali vagueva sozinha. Assustada por ter dado pela presença dos militares, a Impala ainda tentou fugir mas logo caiu por terra com um tiro certeiro do Furriel Garcia, para contentamento de todos os presentes que elogiaram os seus dotes de caçador. Na altura houve até quem dissesse:

- Porra pá! Hoje vamos ter rancho melhorado. Hoje vamos passar uma "rasteira" ao Vagomestre (2). Ele que ponha o arroz com peixe com que nos vem atafulhando todos os dias nas bordas do cu .

Devido ao barulho do tiro e para que a posição daqueles militares não fosse detectada pela FRELIMO, improvisou-se apressadamente uma pequena padiola para transportar o animal, e o Grupo de Combate reiniciou em marcha apressada o regresso ao aquartelamento. À noite, e contrariando as previsões da ementa já pré estabelecida, o rancho foi de facto bem melhorado, onde se abriram muitas latas de cerveja que ajudaram a afogar as tristezas e esquecer o isolamento (...)


Carlos Vardasca
12 de Janeiro de 2008
(1) Feijão frade
(2) Furriel Costa
Foto: Soldados da Companhia de Caçadores 3309 exibem o troféu. Tartibo 1971

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

03 de Setembro de 1971

(...) Como já vinha sendo hábito na época das chuvas, as águas do rio Rovuma e do rio Metumbué ao transbordarem das suas margens, alagavam totalmente o aquartelamento de Nova Torres que ficava situado entre aqueles dois rios. Foram dias dramáticos que a C.CAÇ. 3309 passou, ao ponto dos seus soldados terem que dormir em cima das árvores durante cerda de quatro semanas; receberem a sua correspondência e os víveres que eram lançados de helicóptero e que regra geral caiam dentro da água. Havia uma necessidade urgente de se encontrar uma outra posição mais elevada para se construir novo aquartalamento, e é com esse objectivo que no dia 03 de Setembro de 1971 três grupos de Combate da C.CAÇ. 3309 iniciam a Operação "BARCA 1" de patrulhamento e interdição da fronteira, sendo detectado um acampamento da FRELIMO com 5 palhotas. Foi efectuado um golpe de mão sobre o acampamento IN, sendo abatidos 5 elementos da guerrilha e capturadas duas Kalashnikov, assim como variado material de guerra. É precisamente neste local onde se situava a pequena base da FRELIMO, que mais tarde se vai construir o futuro aquartelamento da C.CAÇ.3309 a que se dá o nome de Tartibo, e onde esta Companhia irá passar os momentos mais dramáticos da sua missão no norte de Moçambique (...)
Carlos Vardasca
05 de Setembro de 2007
Nota 1: Na foto, elementos da C.CAÇ.3309 depois da conquista da base à FRELIMO.
Nota 2: Elementos retirados do Arquivo Histórico Militar. Região Militar de Moçambique. Batalhão de Artilharia 2918. História da Unidade, 14º Fascículo, página 1 (Setembro de 1971)

segunda-feira, 30 de abril de 2007

Uns chamavam-lhe o "Vale da Morte", outros o "Vietname"

























(...) Em nosso redor não sussurrava nenhum vestígio de civilização. A barreira psicológica do arame farpado nem existia, e em todo o perímetro do aquartelamento de Tartibo apenas um amontoado de areia nos servia de protecção. Lembro-me de ouvir dizer que, quando a RTP lá foi fazer as filmagens de natal, houve até um piloto do helicóptero que disse para o reporter de televisão que o acompanhava na reportagem quando avistou o aquartelamento do ar:
- Estes gajos até pareçe que foram enviados para aqui para morrer!
O isolamento era de tal ordem perturbador e a inquietação uma constante, que até o barrulho do vento a assobiar nas árvores nos sobressaltava. Foram meses de isolamento, que obrigaram os soldados da C.CAÇ. 3309 a gerir os seus medos, e a interpretar os vários silêncios que circundavam e espreitavam a todo o momento o aquartelamento (...)
Carlos Vardasca
30 de Abril de 2007