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segunda-feira, 8 de junho de 2009

Aquartelamento de Nova Torres. Onde a dignidade sobreviveu enlameada

(...) No dia seguinte, e após a chegada às margens do rio rio Metumbué onde os aguardava um dos pelotões da Companhia de Artilharia 2745 que ali tinham chegado em barcos pneumáticos ou a nado, para garantir a segurança da coluna no resto do percurso até ao aquartelamento de Nova Torres, foi aquele momento saudado por todos os presentes como se aquele local fosse a meta de uma qualquer prova desportiva e, exaustos, famintos e extenuados pela noite mal dormida, os soldados depois de sacudirem o pó que acumularam e lhes encardiu as entranhas, finalmente iriam repousar um pouco naquela terra cor de tijolo que ficava a cerca de vinte e cinco quilómetros de Nangade.
Meio desbotada, erguida num tronco de uma árvore que parecia seca, adormecida, flutuava uma bandeira já esfarrapada onde o verde e o vermelho já não brilhavam nem davam expressão a uma presença prenhe de conquistas que embelezaram uma expansão salpicada de massacres, mas que ali assinalava o aquartelamento improvisado
[1], que parecia adormecido entre vários intervalos, que se misturavam entre a beleza da paisagem e o sentimento estranho de quem acaba de chegar e não pretende perturbar a tranquilidade que aparentemente parecia ali reinar, e o ambiente desolador que se vivia naquela frente de batalha, com o aquartelamento de Nova Torres (situado entre dois rios) totalmente inundado pela junção das águas dos rios Rovuma e do Metumbué devido às chuvas torrenciais que se abatiam naquela zona na época das chuvas.
Num breve olhar por todo o aquartelamento que se situava num pequeno morro para evitar a sua inundação, não fora a guerra e as fardas camufladas dos soldados que por ali vagueavam enlameadas por entre todo o material bélico, parte dele submerso, Nova Torres, que ficava a poucos metros de distância dali, assemelhava-se ao Éden propagandeado por qualquer vulgar panfleto religioso. Na cor barrenta das águas do Rovuma emergiam por vezes hipopótamos e crocodilos desconfiados pela presença humana que há muito lhes interrompia a tranquilidade, enquanto pequenos troncos de árvores navegavam no seu leito transportando pequenos pássaros que faziam uma pausa no seu trajecto ao sabor da corrente. No céu, pincelado de um cinzento tumultuoso, esvoaçavam em formação desordenada várias espécies de aves, que num processo migratório acabavam de chegar ao que consideravam ser sua casa e, com o seu piar inquieto, pareciam estar incomodadas com uma presença que há muito consideravam estranha naquelas paragens (...)


In: "Fardados de Lama", páginas 51 e 52. Carlos Vardasca. Alhos Vedros 2008.

[1] A que foi dado o nome de código de “Posição DAMA”, que viria também a ser inundada obrigando as tropas ali estacionadas a abandonar aquela posição e refugiarem-se numa outra elevação e aí montar novo aquartelamento provisório a que se denominou “Posição FLECHA”.
Foto 1: Aquartelamento de Nova Torres. Nas margens do rio Rovuma na fronteira com a Tanzânia. Moçambique 1971.
Foto 2: Aspecto geral do Aquartelamento de Nova Torres antes das inundações. 1971.
Foto 3: Totalmente alagado, o Aquartelamento de Nova Torres apresentava este aspecto desolador. Na foto está o 1º Cabo Auxiliar de Enfermagem NM 05802970, António da Silva Azevedo da Companhia de Caçadores 3309. Moçambique 1971.
Foto 4: Outro aspecto do Aquartelamento totalmente alagado, vendo-se na foto o Soldado Atirador NM 08857867, Luís Joaquim Mendes (de alcunha o "Noivo da Morte") da Companhia de Caçadores 3309, falecido em 1994. Nova Torres 1971.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

"... Quando os sinos não dobram"

(...) Quase era capaz de reconstruir na íntegra todos os dias passados no "Ultramar". Pormenores aparentemente sem grande importância persistem em vir de quando em quando à superfície. Foi, mais uma vez, o que aconteceu há pouco ao ler uma mensagem do Vardasca que pedia a todos o contributo de uma história.
Apesar do "Niassa" e das Berliet's nos depositarem lá nos confins do sertão africano, a uns quantos quilómetros de distância, permaneceu sempre em cada um de nós, fossemos ou não saudosistas, um apego muito forte ao sítio onde nascemos e, até então, tínhamos vivido. Era insustentável, até por este motivo, uma guerra, longa como aquela, travada numa terra que não era nossa e longe da que nos lembrávamos todos os dias.
Penso que há um significado no que vou contar. Pelo menos para mim tem.
(...) Como sabeis, o segundo acampamento de Nova Torres, apesar de montado numa pequena elevação para o interior, veio a sofrer também com a enorme cheia do Rovuma. Todos os dias uns centímetros eram acrescentados ao nível das águas. Até que se decidiu, por já não ser viável viver-se ali, procurar outro lugar mais alto na margem direita do Metumbué.
Durante a noite que antecedeu a nossa patrulha que iria ser feita em botes (Zebros), pouco ou nada se conseguiu dormir. A água dava-nos pela barriga e alguns julgaram mais conveniente subir para as acácias e aí descansar, atando as extremidades das mantas aos galhos e fazer uma espécie de cama de rede.
Eu não me aventurei a isso e resolvi passar a noite, envolto num impermeável, em cima de um "bidon" a fumar cigarros atrás de cigarros até se fazer hora de partir.
Eis senão quando, no meio dessa noite cerrada e chuvosa, um dos que tinha adoptado os hábitos do "Tarzan", estatelou-se com estrondo na água vindo dos galhos.
Logo todos começaram a meter-se com o pobre que tinha caído. Risada na noite. Daí a pouco, já tudo serenado, ouvi aquela vítima comentar:
- É pá, até estava a ouvir os sinos da minha aldeia!...
Não sei quem era o então rapaz a quem aquela guerra separou dos sinos da aldeia. Oxalá que hoje os possa ouvir.
O retorno às nossas raízes haveria de durar ainda mais dois anos.
Infelizmente para alguns essas raízes foram cortadas radical e abruptamente na idade em que são legítimas todas as esperanças (...)

Fernando Manuel Pêgo da Silva Barros
ex- Alferes Miliciano NM 10124269
da Companhia de Caçadores 3309
In "Do Tejo ao Rovuma. Uma breve pausa num tempo das nossas vidas". História da Companhia de Caçadores 3309. Carlos Vardasca.2008.
Foto 1: O Alferes Barros em formatura com o 1º pelotão da C.CAÇ. 3309 no Aquartelamento de Tartibo. 1971
Foto 2: O Alferes Barros no intervalo de uma operação junto do rio Metumbué. 1971

segunda-feira, 14 de julho de 2008

A FRELIMO ainda tentou recuperar o barco.


"No período de 5 a 12 de Julho de 1971 a actividade da FRELIMO resumiu-se a uma tentativa de golpe de mão ao Aquartelamento de Nova Torres, muito provavelmente no intuito de recuperar o barco "Dory" capturado pela Companhia de Caçadores 3309 em 25 de Junho de 1971 e visando igualmente os restantes barcos presos à margem junto ao quartel, tentativa esta que foi abortada pelas nossas tropas ali estacionadas. Assim, no dia 08 de Julho de 1971, durante a tentativa de golpe de mão aos barcos, o accionamento de uma armadilha colocada pelas NT causou à FRELIMO vários feridos prováveis, tendo em conta os vestígios de sangue deixados no terreno".


Foto: "Dory" capturado à FRELIMO pela Companhia de Caçadores 3309. Ao fundo pode ver-se a Tanzânia
In relatório da Região Militar de Moçambique. Batalhão de Artilharia 2918. História da Unidade, Duodécimo fascículo (mês de Julho de 1971) página 2. Arquivo Histórico Militar de Lisboa.




quarta-feira, 25 de junho de 2008

"A odisseia". 25 de Junho de 1971



(...) Quando o helicóptero se aproximava do Aquartelamento de Nova Torres para levar o correio e alguns abastecimentos frescos, o seu piloto avistou no rio Rovuma um pequeno barco de fibra que tentava atravessar a fronteira com alguns guerrilheiros da FRELIMO a bordo. Ao chegar ao Aquartelamento, transmitiu o que vira ao capitão Hélio Moreira que comandava a Companhia de Caçadores 3309 ali estacionada e, de imediato, ao contactar com o Furriel Arlindo se estava disposto a comandar e a fazer parte do grupo de intervenção, logo este formou um pequeno Grupo de Combate que foi transportado para as proximidades do local com vista à captura do barco e impedir que aquele grupo de guerrilheiros atravessasse o rio para território de Moçambique. Ao avistarem o helicóptero e sentindo-se detectados, logo os guerrilheiros da FRELIMO se dirigiram na direcção da Tanzânia transpondo os vários bancos de areia que se formavam no rio na maré baixa, abandonando o barco à deriva, levando consigo o depósito do combustível.
Enquanto uns militares eram lançados sobre o barco que era levado pela corrente, outros elementos do Grupo de Combate seguiam no helicóptero na perseguição dos guerrilheiros (cerca de oito) que entretanto deixaram de se avistar embrenhando-se na mata densa já do lado da Tanzânia.
Já com o barco capturado, seguindo ao sabor da corrente e quando a noite já se tinha abatido sobre aquela "odisseia", via rádio foi pedido ao Aquartelamento que enviasse reforços em seu auxílio, vindo mais tarde ao seu encontro um Grupo de Combate em barcos de borracha e outro por terra, tendo todos juntos navegado rio abaixo até se avistar o Aquartelamento de Nova Torres onde chegaram no avançado da noite (...)

Foto 1: O Grupo de Combate da C.CAÇ. 3309 que fez parte da operação de captura do barco à FRELIMO era composto por:

Furriel Miliciano NM 17730770 Arlindo Gonçalves Rodrigues
1º Cabo Auxiliar de Enfermeiro NM 10147770, José Fernando Pinto Silva
1º Cabo Atirador NM 13393970, Portugal Henriques Barreto
Soldado Operador de Transmissões NM 03426970, Mário Augusto da Silva Carlão
Soldado Atirador NM 10737670, Manuel de Jesus
(Todos agraciados com a Cruz de Guerra de 4ª Classe)

Foto 2: O respectivo Grupo de Combate posa para a foto no Aquartelamento de Nova Torres dentro do barco capturado, vendo-se ao fundo a Tanzânia.


domingo, 18 de maio de 2008

"estar ou não estar do lado errado"


(...) Há muito que os 1º e 2º Pelotões da Companhia de Caçadores 3309 se encontravam isolados do resto da Companhia no aquartelamento de Nova Torres, na companhia de dois pelotões da Companhia de Artilharia 2745 que ansiavam pela sua rendição que parecia tardar.
Aquela frente de batalha já vinha necessitando há muito de ser guarnecida com mais meios humanos, dado que o aquartelamento era bastante visível aos observadores da FRELIMO que, do outro lado da fronteira, facilmente observavam as nossas movimentações dada a proximidade das duas margens do rio Rovuma, observações essas que poderiam ser favoráveis às suas acções de intervenção em território de Moçambique. Foi com esse objectivo que, ao fim de alguma insistência que os 3º e 4º Pelotões da C.CAÇ. 3309 se juntaram à restante Companhia, ao mesmo tempo que se procedia à rendição do pessoal da C.ART. 2745, operação que se revestiu de alguma tragédia, aliás como já vinha sendo hábito na generalidade das intervenções do nosso exército em operações militares, dada a intensa e crescente actividade dos guerrilheiros da FRELIMO no norte de Moçambique, mais concretamente na zona de Cabo Delgado.
No dia 09 de Maio de 1971 deu-se início à Operação "Baldeação" com o objectivo de finalmente se proceder à rendição da C.ART. 2745 pela C.CAÇ. 3309, aproveitando-se essa coluna para se fazer o reabastecimento do Aquartelamento de Nova Torres que já se debatia com alguma carência em abastecimentos.
Em 10 de Maio de 1971 e no seguimento da referida operação, ao proceder-se à descarga das viaturas junto ao rio Metumbué, um elemento da C.CAÇ. 3309 de origem africana (1) accionou uma mina anti-pessoal a cerca de 10 metros da picada ficando gravemente ferido, tendo sido evacuado de helicóptero para o Hospital de Mueda onde lhe foi amputada uma perna.
Recordo-me que, em diversos comunicados que a FRELIMO espalhava pela mata com alguma regularidade, por vezes aquela organização fazia alusão aos soldados africanos que combatiam nas fileiras do exército português dizendo:
" - Aos nossos irmãos moçambicanos que combatem a FRELIMO no seio exército Marcelista, dizemos-lhes que ainda estão a tempo de escolherem o lado certo da barricada e lutarem pela libertação da nossa pátria do jugo colonial: acrescentando de seguida o comunicado:
" - Se assim não entenderem e por muito que nos custe, irão ao longo desta guerra de libertação pagar um elevado preço por se colocarem do lado das forças ocupantes" (...)

Carlos Vardasca
18 de Maio de 2008

Fotos: Fase da Operação "Baldeação" com o atravessamento das Berliets do rio Metumbué, vendo-se o local onde se deu o incidente próximo de árvore que se vê em primeiro plano na foto a cores.
(1) Elias Riça, Soldado NM 71269470 da Companhia de Caçadores 3309 (Grupo de integração 55)

sexta-feira, 21 de março de 2008

"... Sucumbiu à nossa ingratidão e teve um fim inglório"


(...) Não fosse a sua anterior utilidade, aquela caixa não nos despertaria tanta angústia apesar da sua "nova missão". Ali estava ela, inerte, pendurada no tronco da palmeira que servia também de pau de bandeira, sempre pronta a deixar-se esventrar, sempre indiferente a quem nela depositava as suas "lamurias" e outros tantos segredos, para serem lidos por alguém que deles necessitava como da sua própria existência.
Outrora fora um cunhete de munições onde repousaram granadas de morteiro 81mm, mas agora aquela caixa cumpria a missão de fazer de "Marco do Correio" do Aquartelamento de Nova Torres.
Era nela que os soldados da Companhia de Caçadores 3309 ali estacionados depositavam todas as esperanças em clarificar algumas incertezas forjadas pela distância ou diluídas pelas cheias do Rovuma; questionavam a ausência de notícias que começaram a escassear pela distância; tentavam dar algum alento a amores bastas vezes traído pela ausência, ou então jurar e reivindicar fidelidades a quem se prometera na hora da partida.
Aquela caixa, apesar da sua robustez (que talvez impressionasse os frágeis aerogramas nela depositados) era uma fiel confidente dos lamentos e das inquietações de todos quantos ali tentavam sobreviver, dando-lhes a confiança de que as várias confissões e incertezas ali depositadas seriam, lá longe, numa qualquer aldeia de xisto ou no rebuliço da urbanidade, desfeitas ou confirmadas e outras tantas mal resolvidas, algumas delas depois de serem vasculhadas pela PIDE, não fossem elas transportar nas entrelinhas pequenas revoltas ou alguma ingenuidade traduzida pelo descontentamento.
Embora confidente daqueles soldados durante vários meses, aquela pequena caixa agora sem qualquer utilidade, também ela sucumbiu sem nenhum lamento à nossa ingratidão e teve um fim inglório, tal como foi inglória a nossa presença naqueles "subúrbios do céu", deixada para traz quando o Aquartelamento foi abandonado e entregue à voracidade das águas barrentas do rio Rovuma (...)
Carlos Vardasca
21 de Março de 2008
Foto: "Marco do Correio" do Aquartelamento de Nova Torres, na fronteira com a Tanzânia nas margens do rio Rovuma. Moçambique 1971.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Para dormir tinhamos que subir às árvores




(...) Havia muito pouco tempo que a Companhia de Caçadores 3309 tinha chegado a Nova Torres, mas tinha sido impossibilitada de se instalar naquele Aquartelamento de onde já se tinha retirado a Companhia de Artilharia 2745. Ambas as Companhias encontravam-se agora refugiadas na "Posição DAMA", nome de código atribuído e uma pequena elevação a cerca de 600 metros do Aquartelamento de Nova Torres, que se encontrava totalmente alagado pelas cheias e em consequência da junção das águas dos rios Rovuma e Metumbué. Embora ali refugiados, ninguém estava tranquilo, pois as águas continuavam a subir substancialmente, ao ponto de estar também eminente a inundação daquela pequena elevação, sendo urgente encontrar nova posição de emergência pois foi necessário os soldados durante a noite refugiarem-se no cimo das árvores onde passaram a viver durante algumas semanas. Para o efeito saiu um Grupo de Combate em barcos de borracha que, depois de encontrarem um novo local a sul do rio Metumbué, denominaram essa nova pequena elevação de "Posição FLECHA", e aí ficaram instalados provisoriamente todos os efectivos de ambas as Companhias. Apesar de totalmente alagado, do Aquartelamento de Nova Torres ainda sobressaíam ao longe pequenas elevações, onde se refugiavam das inundações alguns animais selvagens uma vez que toda a área circundante estava alagada, sendo visível bastantes crocodilos que vagueavam agora pelas trincheiras inundadas do Aquartelamento.
Foram momentos dramáticos vividos por ambas as Companhias, especialmente pela Companhia de Caçadores 3309 que ali ficou estacionada, dado ter rendido a Companhia de Artilharia 2745 que ao fim de alguns dias se deslocou para Nangade, Aquartelamento situado já no Planalto dos Macondes onde as cheias já não se faziam sentir, "nem o desespero de quem ficou nas áreas inundadas se fazia ouvir" (...)


Carlos Vardasca
19 de Março de 2008

Foto 1: 1º Cabo Apontador de Metralhadora José Gomes Gonçalves e o 1º Cabo Atirador Jaime Pereira Marques da C.CAÇ. 3309, em plena Operação nas proximidades do Aquartelamento de Nova torres.
Foto 2: 1º Cabo Apontador de Metralhadora José Gomes Gonçalves, 1º Cabo Atirador Jaime Pereira Marques e o Soldado Baltazar da Silva Carneiro da Companhia de Caçadores 3309, durante a mesma operação na área inundada próximo do Aquartelamento de Nova Torres.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

"...Quando as cheias nos inundaram alma"


(...) O que está acontecer no vale do Zambeze, com as cheias a inundarem vastas zona de Moçambique provocando o êxodo das populações, também a Companhia de Caçadores 3309 foi vítima desse flagelo quando ocupou o Aquartelamento de Nova Torres nas margens do rio Rovuma, junto à fronteira com a Tanzânia. Sabendo de que a zona era uma zona facilmente inundável e não tinha condições de habitabilidade devido às chuvas sazonais que provocavam grandes inundações no Aquartelamento, as chefias militares do sector insistiam para que a C.CAÇ. 3309 permanecesse naquele local dado tratar-se de uma zona de infiltração da guerrilha da FRELIMO, apesar de saberem que os soldados daquela Companhia já vinham à cerca de duas semanas improvisando camas em cima das árvores, atando os cobertores aos troncos e aí se refugiarem das águas revoltas dos rios Metumbué e do Rovuma que se juntavam, cujo caudal era engrossado pelas fortes chuvas que se abatiam sobre aquele minúsculo perímetro defensivo. Foram momentos dramáticos vividos, principalmente pelos 1º e 2º Pelotões da C.CAÇ. 3309 que para ali foram enviados inicialmente para render a Companhia de Artilharia 2745 que iria dar início à sua rotação mais para sul, dado que surgiram problemas de saúde na maioria dos soldados originando a evacuação de alguns para o Hospital de Mueda. Alimentados a ração de combate, sem poderem servir-se do forno improvisado para cozer o pão que passou a ser abastecido de helicóptero (que muitas das vezes caía dentro do lodo tornando-o impróprio para consumo), sem água potável e com o correio a ser lançado da mesma forma inutilizando muita da correspondência quando o saco do correio caia em cima das árvores e se rasgava espalhando-o por toda a área inundada, era normal que o moral das tropas se ia esgotando diariamente e a inquietação já estava a não ser fácil de conter.
Tal como em 1971 e no final das escarpas do Planalto dos Macondes, hoje, e em maior dimensão (o que acontece anualmente) as cheias em Moçambique provocam tragédias humanas de dimensões dramáticas, provocando o êxodo de populações das aldeias e das suas áreas de cultivo, contribuindo para o agravar das situações de má nutrição e de doenças num país tão fustigado pela fúria das catástrofes naturais.
É justo que a minha solidariedade seja transmitida àquele povo tão martirizado, embora sabendo que dos salões ministeriais do Maputo tardam soluções para a sua resolução, não sendo justo ainda atribuir ao regime colonial (após 33 anos de independência) a causa de tanto sofrimento.

Carlos Vardasca
29 de Janeiro de 2008

Fotos: 1) Cheias em Moçambique em 2008.
2) Aquartelamento de Tartibo inundado pela junção das águas dos rios Rovuma e
Metumbué, vendo-se em primeiro plano o 1º Cabo Enfermeiro Azevedo da Companhia da Caçadores 3309. Moçambique 1971.




terça-feira, 25 de setembro de 2007

... Finalmente, retirámos do aquartelamento de Nova Torres


(...) Viver em Nova Torres era insustentável. As constantes inundações do aquartelamento tornavam a vida ali bastante difícil, para além de ser uma posição fácilmente observável do outro lado da fronteira, e a necessidade de retirar daquela zona era uma questão de humanidade, pois o moral das tropas já vinha sofrendo algumas brechas, e os protestos, apesar de em surdina, já vinham subindo de tom embora circunscrito a um número restrito de militares mais esclarecidos. É com esse objectivo que se inicia no dia 25 de Setembro de 1971 a operação "OCULAR 2" para abertura do novo estacionamento da Companhia de Caçadores 3309 nas coordenadas 3946,2.1056,2. Nesta operação (de grande envergadura envolvendo vastos meios militares) estiveram envolvidos 3 Grupos de Combate da Companhia de Artilharia 2745, 1 Grupo de Combate da C.CAÇ. de Mocimboa da Praia, 2 Grupos de Combate da Companhia de Caçadores 3309, Grupo Especial 210, 11º Pelotão de Artilharia/GAC 6 (destinada a reforçar a C.CAÇ. 3309 com sede ainda em Nova Torres) 1 Pelotão da Companhia de Engenharia 2736 e 1 Esquadrão de Morteiros 81mm. Durante o período de construção do Aquartelamento, o 5º Pelotão de Artilharia da 2ª Bateria/GAC 6 efectuou em Nangade 40 tiros de Obus para as zonas prováveis de ataque inimigo. A operação de retirada de Nova Torres terminou em 01 de Outubro de 1971, com a totalidade da C.CAÇ. 3309 finalmente estacionada no novo Aquartelamento.
O novo Aquartelamento passou a denominar-se Tartibo, situado numa pequena elevação que o protegia das inundações constantes resultante da junção das águas dos rios Rovuma e Metumbué, mas que continuou a ser o prolongamento do inferno a que a Companhia de Caçadores 3309 esteve sujeita durante a sua permanência no norte de Moçambique, junto à fronteira com a Tanzânia (...)
Carlos Vardasca
25 de Setembro de 2007
Nota: Na foto, o momento da retirada de Nova Torres da Companhia de Caçadores 3309 rumo ao novo Aquartelamento de Tartibo.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

"...um troféu que soube a pouco"


...Quando um helicóptero se dirigia para o aquartelamento de Nova Torres para lá deixar alguns víveres e o saco do correio, um dos pilotos observou que lá em baixo no rio Rovuma se deslocava um pequeno barco com onze guerrilheiros a bordo, e que se dirigiam da Tanzânia para Moçambique. Após ter chegado ao quartel, comunicou ao Capitão da C.CAÇ. 3309 ali estacionada (Hélio Moreira) o que tinham observado, onde foi dada ordem de se constituir um Grupo de Combate com o objectivo de capturar o barco. De imediato, esse grupo foi constituido e enviado para o local, tendo observado que os guerrilheiros, ao observarem o helicóptero se puseram em fuga através de uma ilhota situada a meio do rio Rovuma junto de um banco de areira, cuja extensão permitiu que se refugiasem na Tanzânia, levando consigo o depósito de combustível e outros equipamentos indespensáveis ao manuseamento do barco, assim como as próprias amarras deixando o barco à deriva. A equipa foi dividida em duas, uma perseguiu os guerrilheiros e a outra foi lançada sobre o objectivo. Capturado o barco e com a equipa já reunida, dado não terem encontrado vestígios dos guerrilheiros, rumaram em direcção ao aquartelamento dirigindo o barco aprisionado sempre a favor da corrente, tendo encontrado já ao escurecer, na margem, ainda longe de Nova Torres, um pelotão das nossas tropas que foram enviadas em seu auxilio, assim como outros soldados num barco Zebro que os guiaram até ao aquartelamento. O barco de origem Belga (de fibra de vidro com pintura camuflada preto e verde, com um motor fora de bordo EVINRUDE e de cinco metros de comprimento) posteriormente foi enviado para Lourenço Marques (Maputo) para ser exibido numa exposição de material de guerra capturado à FRELIMO. A equipa de intervenção que participou na captura do barco foi; Furriel Miliciano, Arlindo Gonçalves Rodrigues (que comandou o Grupo de Combate), 1º Cabo Auxiliar de Enfermagem, José Fernando Pinto Silva, 1º Cabo Atirador, Portugal Henriques Barrêto, o Soldado Operador de Transmissões, Mário Augusto da Silva Carlão e o Soldado Atirador, Manuel de Jesus com a colaboração do piloto do helicóptero, Furriel Miliciano Piloto Aviador, Luis António Vilar Pereira da Silva da A.M. 51. Decorria o dia 25 de Junho de 1971 e este Grupo de Combate só jantou por volta da meia noite e leu a sua correspondência à luz de uma candeia mal iluminada, saboreando as notícias dos seus familiares com os camuflados enxarcados com àgua barrenta do Rovuma e o rosto gasto de cansaço...
Foi um "troféu que soube a pouco", porque se constou posteriormente que tudo tinha sido uma encenação propositada para desviar as atenção das tropas estacionadas na fronteira, uma vez que ao mesmo tempo que ocorria o aprisionamento do barco, num outro local, a FRELIMO fazia entrar em Moçambique um forte contingente de guerrilheiros que os permitiria reforçar os seus efectivos numa das suas bases no interior de Moçambique. Em troca daquele aprisionamento os intervenientes naquela façanha "trágico marítima" receberem a Cruz de Guerra de 4ª Classe, e os guerrilheiros, passados mais três anos a libertação da sua pátria...
Carlos Vardasca
25 de Junho de 2007

quinta-feira, 10 de maio de 2007

10 de Maio de 1971


(...) Desde o dia 09 de Maio de 1971 que se iniciara a Operação "Baldeação", que consistia numa coluna de transporte, com vista a concretizar o 2º escalão de rendição em Nova Torres da Companhia de Artilharia 2745 pelos 3º e 4º Pelotões da Companhia de Caçadores 3309 que estavam em Nangade, e agora se juntavam ao resto da Companhia em Nova Torres. Nesta operação, aproveitou-se esta coluna para fazer o reabastecimento daquele aquartelamento. No dia 10 de Maio de 1971, ao proceder-se à descarga dos mantimentos das viaturas junto ao rio Metumbué, um elemento da C.CAÇ. 3309 accionou uma mina anti-pessoal a cerca de 10 metros da picada, ficando gravemente ferido, tendo-lhe sido amputada uma perna.

O companheiro em causa era o Soldado Atirador, NM 71269470 Elias Riça, que pertencia ao Grupo de Integração nº 55 oriundo daquela ex-colónia, e que fora incorporado na C.CAÇ. 3309 na sua missão no norte de Moçambique.

Ao recordar este facto passados que são 36 anos do ocorrido, presto aqui uma justa homenagem a todos os companheiros africanos que integraram o exército colonial, e que regressaram às suas terras estropiados pelos horrores da guerra, e aos que "não mais voltaram a ouvir os batuques nas suas aldeias, nem sentir o cacimbo das manhãs, envoltos nos seios quentes das suas mulheres" (...)

Para todos eles, um abraço solidário de quem sobreviveu.

Carlos Vardasca
10 de Maio de 2007
Na foto: Transbordo das mercadorias no rio Metumbué, onde se deu o acidente.

terça-feira, 1 de maio de 2007

No refúgio das árvores


(...) Na época das chuvas, era frequente as águas do rio Rovuma se juntarem com as do rio Metumbué ao transbordarem as suas margens, o que provocava enormes cheias na zona. O aquartelamento da C.CAÇ. 3309 em Nova Torres ficava no meio daqueles dois rios e, por esse facto, era constantemente alagado, causando enormes dificuldades de mobilidade e de sobrevivência. Antes de anoitecer a malta atava os cobertores e as capas de oleado aos troncos das árvores e ali se refugiava. No dia seguinte, e em todos os outros enquanto durou as cheias, os helicópteros ou as DOs lançavam os sacos do correio e do pão e de outros víveres em voo rasante, indo aqueles haveres cair regra geral no lodo ou na zona alagada...
Por esse facto, a C.CAÇ. 3309 teve que abandonar aquela posição e mudar de local, e construir novo aquartelamento, que foi construído numa zona mais elevada e a cerca de cinco quilómetros de Nova Torres a que se deu o nome de Tartibo (...)


Nota: Na foto está o enfermeiro Azevedo da C.CAÇ. 3309.(Nova Torrres, 1971)

Carlos Vardasca
03 de Maio de 2007