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sábado, 3 de janeiro de 2009

"Tão próximo do outro lado do muro"

As Berliet seguiam no seu vagaroso e agonizante andamento, enquanto que na mata circundante se multiplicavam os sons da natureza que enfrentavam a nossa indiferença.
A preocupação dos militares estava muito para além do chilrear das galinhas do mato e de outras aves tropicais que sobrevoavam as viaturas militares muito para lá da copa das árvores (também elas indiferentes aos medos que ali se faziam transportar) mas na mata cerrada, verdejante, que não deixava vislumbrar muito para além das longas lianas que ladeavam a picada e nos sacudiam o corpo à nossa passagem,
“um outro cenário estava prestes a embelezar aquele anfi-teatro encharcado de incertezas”.
Estava-se em plena época das chuvas e o calendário, depois de arrancada a folha anterior, mostrava (tal como hoje) o terceiro dia do mês de Janeiro mas do ano de 1972.
Chovia torrencialmente, e as vinte viaturas tentavam (com alguma perícia dos Soldados Condutores), muito lentamente (sempre com a tracção às quatro rodas) transpor mais uma vez a "Descida dos Paus"
[1], tentando controlar a direcção para que as viaturas não escorregassem para o desfiladeiro que ladeava a picada, ora com a azáfama dos restantes soldados, alguns deles em tronco nu que deixavam inundar as toscas tatuagens que garantiam fidelidades eternas, cerrando troncos de árvores para serem colocados naquele piso lamacento, cuja cor barrenta tantas preocupações e canseiras dava de cada vez que as colunas de reabastecimento por ali passavam durante a época das chuvas.
Embora com alguma demora e dificuldade, aquele obstáculo foi transposto e, depois de passarmos uma pequena ponte improvisada que já fora por várias vezes dinamitada pelos guerrilheiros da FRELIMO, a ansiedade parecia querer aliviar-se com a entrada numa zona da picada com o piso um pouco mais regular, o que facilitava a movimentação das nossas tropas bastante ansiosas por chegar ao Aquartelamento mais próximo (Pundanhar).
Eu seguia no "Rebenta Minas"
[2] com mais quatro militares de um Grupo de Combate da Companhia de Caçadores de Moçimboa da Praia e da Companhia de Artilharia 2745 estacionada em Nangade (que faziam a protecção à coluna de reabastecimento em conjunto com a Companhia de Caçadores 3472[3] e que, por não nos termos apercebido do atraso das restantes viaturas, ficámos isolados e bastante vulneráveis em termos de defesa face a qualquer ataque dos guerrilheiros.
Quando nos vimos sozinhos e demos conta do nosso isolamento e antes que conseguíssemos imobilizar a viatura, ocorreram inesperadamente violentas explosões de três minas anti-carro em simultâneo e accionadas electricamente, na retaguarda da viatura, que a destruiu imobilizando-a de imediato.
Logo após aqueles rebentamentos foi desencadeada uma forte emboscada com armas ligeiras por um grupo avaliado entre 6 a 8 guerrilheiros da FRELIMO
[4] que, sentindo-se em posição favorável face ao nosso isolamento, tentaram a aproximação à viatura ao mesmo tempo que disparavam na nossa direcção, apesar da nossa resistência.
Não fora a chegada das restantes viaturas naquele momento (que forçou os guerrilheiros a refugiarem-se na mata) as consequências poderiam ter sido bem mais dramáticas do que as que ocorreram. Daquela emboscada eu fui atingido numa mão por um tiro de Kalashnikov, e quanto aos restantes ocupantes da viatura, dois ficaram gravemente feridos (no peito e num ombro) e um outro com ferimentos ligeiros (numa perna) em resultado do disparo daquelas armas automáticas.
Efectuado o contra ataque das nossas tropas e restabelecida a calma enquanto eram prestados os primeiros socorros aos feridos, procedeu-se à abertura de uma clareira na mata com o derrube da algumas árvores para facilitar o acesso do helicóptero e efectuar a evacuação, tendo todos nós sido transportados para o Hospital situado mais a sul e no Aquartelamento de Mueda.
Foram momentos dramáticos e, sinceramente, durante toda a minha existência e desde o incêndio da Fragata D. Fernando II e Glória em 03 de Abril de 1963 a que sobrevivi com a idade de 13 anos, nunca como naquele dia me senti tão consciente de estar
“tão próximo do outro lado do muro".

Carlos Vardasca
03 de Janeiro de 2009

Foto 1: Enquanto eu e os restantes feridos da Companhia de Caçadores de Moçimboa da Praia aguardávamos a chegada do helicóptero para efectuar a nossa evacuação para o Hospital de Mueda. 03 de Janeiro de 1972
Foto 2: No Hospital de Mueda. 10 de Janeiro de 1972
[1] “Descida dos Paus”. Itinerário muito íngreme, de piso lamacento e escorregadio devido às fortes chuvadas, sendo necessário colocar troncos de árvores para facilitar a passagem das Berliet que integravam as colunas de reabastecimento entre os Aquartelamentos de Palma, Pundanhar e Nangade.
[2] “Rebenta Minas”. Berliet que seguia sempre na frente das colunas de reabastecimento, reforçada com sacos de areia para resistir ao impacto do rebentamento de minas anti-carro.
[3] Que rendeu a Companhia de Caçadores 2703 no Aquartelamento de Pundanhar em 02 de Janeiro de 1972.
[4] Registado no Relatório da Região Militar de Moçambique. Batalhão de Artilharia 2918. História da Unidade. Décimo oitavo fascículo (Janeiro de 1972) Capítulo II, página 1. Arquivo Histórico Militar de Lisboa.
In "Onde o sol castiga mais". Crónicas de guerra 1970-1973, páginas 15 e 16. Carlos Vardasca, 2005

domingo, 21 de dezembro de 2008

Operação "OCTANA 19". 21 de Dezembro de 1971.

(...) Em 21 de Dezembro de 1971 forças da Companhia de Caçadores 2703 e do GEs 212 que seguiam para o Nhica do Rovuma, detectaram abatizes no local de coordenadas 4011.1050,5.
No mesmo dia 2 Grupos de Combate da Companhia de Caçadores de Moçimboa da Praia iniciaram a coluna de reabastecimento "OCTANA 19", de Palma a Nangade e regresso; no dia seguinte os mesmos 2 Grupos de Combate seguiram de Pundanhar para Nangade tendo pernoitado no itinerário; chegou a Nangade no dia 23 e saiu no mesmo dia para Palma tendo passado por Pundanhar; aqui deixou algumas viaturas a fim de transportar para Palma o 1º Escalão da Companhia de Caçadores 2703 que vai ser rendida pela Companhia de Caçadores 3472. Ali chegou no mesmo dia. Asseguraram protecção do itinerário forças da Companhia de Caçadores 3309, Companhia de Caçadores 2703 e Companhia de Artilharia 2745. Em 23 de Dezembro de 1971, durante esta "OCTANA" uma viatura Berliet accionou uma mina anti-carro entre Pundanhar e Nangade, ficando parcialmente destruída. No mesmo local foi detectada e destruída uma mina anti-pessoal por forças da C.CAÇ 2703.
Forças da C.CAÇ. 3309 destruíram outra mina anti-carro em local de coordenadas 3951,2.1057,2. Ainda durante esta operação foi accionada uma armadilha que causou 2 feridos graves e 3 ligeiros à C.CAÇ. 2703. No mesmo local foi detectada e destruída 1 mina anti-pessoal.
Na região da Lagoa Namioca foram encontradas abatizes para ambos os lados daquela, num total de cerca de 2 quilómetros de extensão, além de uma profunda vala transversal à picada. No dia 23, durante a mesma coluna, uma viatura Berliet accionou uma mina anti-carro em região de coordenadas 3851,5.1054 ficando destruída. No mesmo dia, forças da C.ART. 2745 que se encontravam a montar segurança do itinerário, detectaram a passagem de 2 a 3 elementos calçados com botas, num trilho antigo de sul para norte em direcção à Tanzânia (...)

In: Região Militar de Moçambique. Batalhão de Artilharia 2918. História da Unidade. Décimo sétimo fascículo (Dezembro de 1971) página 3. Arquivo Histórico Militar de Lisboa, 2007
Foto: Elementos da Companhia de Caçadores 3309 que asseguraram protecção à coluna de reabastecimento "OCTANA 19" num momento de descanso. Na foto podem, ver-se em primeiro plano o 1º Cabo Atirador NM 12237870, Franklim de Jesus Sobral (mais tarde graduado em Furriel) o Soldado Atirador NM 10759970, José Gomes Valoura entre outros.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

"O presente era incerto e o futuro tão ausente"

(...) Em 12 de Dezembro de 1971 dois Grupos de Combate da Companhia de Caçadores de Moçimboa da Praia iniciaram a coluna de reabastecimento "OCTANA 18", de Palma a Nangade e regresso. Esta chegou a Pundanhar no mesmo dia, saindo para Nangade onde chegou em 13 de Dezembro de 1971; saiu no dia 14 para Palma onde chegou no mesmo dia. Ao longo do itinerário asseguraram protecção forças da Companhia de Caçadores 2703 e da Companhia de Caçadores 3309. As primeiras detectaram e destruíram em 13 de Dezembro de 1971, entre Pundanhar e Nangade uma mina anti-carro e outra anti-pessoal; as segundas detectaram e destruíram na mesma zona, em coordenadas 3952,2.1057,3 uma mina anti-carro reforçada com uma mina anti-pessoal e com latas de gasolina.
No mesmo dia, um grupo de guerrilheiros da FRELIMO não estimado, emboscou a coluna de reabastecimento em coordenadas 3957,9.1055,7 com um tiro de bazooka e granadas de mão, seguidos de tiros de armas automáticas, sem consequências.
Ainda em 13 de Dezembro de 1971, um grupo de guerrilheiros de cerca de 40 a 50 elementos, vindos da Tanzânia, flagelou o estacionamento da Companhia de Caçadores 3309 (NOVA TORRES) com cerca de 50 granadas de Morteiro de 82 mm e Canhão sem Recuo. Foram encontrados 15 invólucros de Canhão sem Recuo 10,6mm e vestígios de 4 Morteiros de 82mm.
Após o ataque, o IN regressou à Tanzânia. Apenas duas granadas caíram dentro do perímetro do Aquartelamento sem consequências. (1)

Foto 1: Aquartelamento de Nova Torres onde estava estacionada a C.CAÇ. 3309 vista do meio do rio Rovuma.
Fotos 2 e 3: Coluna de reabastecimento no momento que passava a temível lângua já próximo do Aquartelamento de Pundanhar e elementos da C.CAÇ. 3309 numa operação de picagem e detecção de minas na picada entre Pundanhar e Nangade.
(1) in Região Militar de Moçambique. Batalhão de Artilharia 2918. História da Unidade. Décimo sétimo fascículo, página 2 (Dezembro de 1971)

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Cabo Delgado. Moçambique, 12 de Novembro de 1971


(...) No dia 10 de Novembro foi iniciada a coluna de reabastecimento "OCTANA 14", escoltada por 2 grupos de Combate da Companhia de Caçadores de Moçimboa da Praia. Neste dia chegou a Pundanhar, saiu no dia seguinte para Nangade onde chegou às 13 horas; saiu para Palma pelas 14H30, chegou a Pundanhar em 12 de Novembro de 1971 e no mesmo dia a Palma pelas 14h40. Montaram segurança de itinerário forças da Companhia de Caçadores 3309, Companhia de Artilharia 2745, Companhia de Caçadores 2703 e GE 206.
Durante esta coluna, em 12 de Novembro de 1971, uma viatura Berliet (17ª viatura) accionou uma mina anti-carro entre Pundanhar e Nangade causando um ferido grave à CCS do Batalhão de Artilharia 2918. Enquanto as nossas tropas procediam à remoção da viatura minada, um grupo IN muito numeroso flagelou a coluna por duas vezes com armas automáticas, morteiros 60mm e granadas de mão, causando 4 feridos graves, 2 da C.CAÇ. 2703, 1 da CCS do B.ART. 2918 e 1 da C.CAÇ. de Moçimboa da Praia (...)

in relatório da Região Militar de Moçambique. Batalhão de Artilharia 2918. História da Unidade, Décimo fascículo. Novembro de 1971
Foto: Momento da evacuação dos feridos, vendo-se na foto o Joaquim Camelo, Soldado Condutor NM 15391770 (em tronco nu) e o Furriel Diamantino NM11599169 (em primeiro plano) ambos da C.CAÇ. 3309, estando este último destacado nos GEs.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

No dia em que nasceu "Zungo Berliet Tropa"


(...) A coluna de reabastecimento tinha saído de Nangade no dia 20 de Setembro de 1971, tendo chegado a Pundanhar no mesmo dia mas já ao entardecer, devido a uma intensa emboscada de que foi alvo na zona da "Lângua" por parte dos guerrilheiros da FRELIMO e à detecção durante o percurso de várias minas anti-carro que atrasaram a sua chegada. Nessa coluna viajavam também alguns elementos da população dos aldeamentos de Nangade e, entre eles, uma rapariga muito jovem que estava no final da gravidez, sendo seu desejo ir ter o bebé a Palma para onde a coluna de reabastecimento se dirigia. Foi aconselhada a ficar em Pundanhar para aí se proceder ao parto que parecia estar iminente, ao que ela recusou pois pretendia que o bebé nascesse em Palma junto dos seus familiares como era tradição da sua etnia.
No dia seguinte, 21 de Setembro, a coluna saiu de Pundanhar sendo o seu andamento mais rápido durante alguns quilómetros, dado que saíra mais cedo um pelotão da Companhia de Caçadores 2703 ali estacionada que fizera a picagem e detecção das minas até ao quilómetro 15, na direcção do Aquartelamento de Palma.
Como a partir desse local o andamento das viaturas fosse mais lento devido à picagem do terreno, e porque a coluna sofrera nova emboscada e um rebentamento de uma mina anti-carro que danificou a Berliet, causando um ferido grave levando algum tempo a aguardar a chegada do helicóptero para a evacuação do ferido, a coluna, devido ao aproximar do cair da noite teve necessidade por questões de segurança não seguir para Palma e pernoitar na mata.
A jovem nativa à muito que começara a ter muitas dores e o parto estava por momentos. O enfermeiro fora chamado de urgência junto da viatura onde a jovem se encontrava, tendo o parto acontecido mesmo ali em cima de uma Berliet, embora as condições não fossem as mais adequadas. Lembro-me tão bem desta história, porque a mesma aconteceu na noite de 21 de Setembro de 1971, precisamente no dia em que fiz 22 anos de idade.
O mais engraçado deste acontecimento insólito foi que, em jeito de homenagem àquele nascimento e nas condições em que o mesmo se procedeu, o enfermeiro, pertencente à Companhia de Caçadores de Moçimboa da Praia estacionada em Palma que seguia na coluna e prestou assistência ao parto, quis "oficializar" ali mesmo a sua condição de "padrinho" do bebé, atribuindo-lhe um nome, dizendo à mãe:
- "Olha menina, como o bebé nasceu em cima de uma Berliet e fui eu um branco da tropa que tirei esse terrorista cá para fora, ele vai chamar-se Zungo Berliet Tropa (1) - ao mesmo tempo que lhe despejava o resto da água que ainda tinha no cantil por cima da cabeça para dar outro ar à cerimónia.
No meio da escuridão e a intervalar o choro da criança, ainda se ouviu numa das Berliet lá da frente alguém que dizia:
- "Se calhar ajudaste a nascer mais um turra que nos vai fazer a vida negra na mata se esta puta de guerra ainda durar por muito mais tempo" (...)

Carlos Vardasca
21 de Setembro de 2008

Foto: Coluna de reabastecimento após a sua chegada ao Aquartelamento de Palma, vendo-se em primeiro plano alguns soldados da Companhia de Caçadores 3309 (Meira, Gonçalves, Ferreira e o "Pragal" - este último falecido em 2005) e ainda elementos da população em cima das Berliet.
(1) Zungo em dialecto Maconde quer dizer Branco.

domingo, 17 de agosto de 2008

Foi no mesmo dia e em Agosto, mas há 38 anos.


(...) Em 17 de Agosto de 1971, iniciou-se a Operação "OCIDENTE 2", coluna de reabastecimento de Palma a Nangade, efectuada por dois Grupos de Combate da Companhia de Caçadores de Moçimboa da Praia. A coluna chegou a Pundanhar e saiu para Nangade no mesmo dia, tendo ali chegado no dia seguinte. Asseguraram protecção do itinerário 2 Grupos de Combate da Companhia de Caçadores 2703 e dois Grupos de Combate da Companhia de Artilharia 2745.
Os primeiros encontraram na picada panfletos de propaganda do IN (FRELIMO) e os segundos detectaram e destruíram 1 mina anti-carro. Durante esta operação uma Berliet accionou uma mina anti-carro ficando danificada.
Foto 1: Licínio José de Jesus Lopes (de alcunha o "Tremoço") Soldado Condutor Auto Rodas, NM 16985870 da Compania de Caçadores 3309, que ficou ligeiramente ferido após o rebentamento da mina anti-carro nesta coluna de reabastecimento. O "Tremoço" era natural da aldeia da Rasca (Setúbal) e faleceu em Agosto de 1999.
Foto 2: Aquartelamento de Pundanhar onde estava estacionada a Companhia de Caçadores 2703, e onde a Companhia de Caçadores 3309 com regularidade ali ficava estacionada, nos intervalos das suas intervenções na protecção às colunas de reabastecimento ou em operações de patrulhamento.
(In: Relatório da Região Militar de Moçambique. Batalhão de Artilharia 2918. História da Unidade, Décimo terceiro fascículo (Agosto de 1971) Arquivo Histórico Militar de Lisboa).


segunda-feira, 14 de julho de 2008

"E o inferno ali tão próximo". 14 de Julho de 1971



(...) Na pista de Nangade o som ensurdecedor da formação de helicópteros lembrava que estava em curso uma operação de grande envergadura. Introduzidos nos hélis, os vários pelotões do Batalhão de Caçadores Paraquedistas 31 dirigiram-se para o corredor de infiltração da FRELIMO em território de Moçambique, trilho que passava a alguns quilómetros de Nova Torres e de Muidine, no sentido sul em direcção ao Lago Namioca próximo de Pundunhar, onde a FRELIMO detinha uma pequena base de recepção de material vindo da Tanzãnia. Assaltada a base dos guerrilheiros sem qualquer resultados práticos dado que estes pareciam estar bem informados daquela acção abandonando-a com alguma antecedência, dois pelotões da Companhia de Caçadores 3309 dirigiram-se ao encontro daquela formação de Paraquedistas para os encaminhar em direcção à picada e aí serem recolhidos por uma coluna de reabastecimento que estava prestes a passar no local dirigindo-se para Nangade.
Depois de terem atravessado um lângua extensa e reentrado na mata densa, um grupo numeroso de guerrilheiros da FRELIMO emboscou as nossas tropas com armas automáticas e Lança Granadas foguete (LGF), tendo uma destas granadas atingido no peito um soldado Paraquedista daquele grupo de Combate causando-lhe morte imediata. A mesma emboscada causou ferimentos ligeiros em mais 10 soldados do BCP 31, 1 ferido grave à Companhia de Caçadores 3309 e um outro ao GEs 206 que também seguia naquela força de intervenção.
O ferido grave da C.CAÇ. 3309 era o 1º Cabo Atirador Serrinha (1) e do GEs era o Soldado Pedro Mireco (2) (também da C.CAÇ. 3309 mas destacado naquele Grupo Especial).
Durante a confusão do tiroteio e enquanto socorriam os feridos mais graves, o Serrinha, que nem se apercebera que também tinha sido ferido com alguma gravidade numa perna, atingido por um tiro e pelos estilhaços da granada que matara o Soldado Paraquedista (dado que circulavam lado a lado no momento da emboscada), deambulava pela mata gritando desesperado, descontrolado emocionalmente, disparando em todos as direcções, até que alguém o chamou a si, alertando-o de que a emboscada já tinha terminado e tinha sido decretado o cessar fogo para avaliar a situação.
Só depois da situação controlada é que o Serrinha se deu conta das dores horríveis que se apoderaram dele, que o seu caminhar era agonizante e que o seu pé chapinhava no sangue que entretanto se introduzira na bota.
Evacuado para o Hospital de Mueda para ser assistido aos ferimentos resultantes daquela emboscada, o Serrinha ainda teve que ser assistido na secção de Psiquiatria na cidade de Nampula, dado o seu estado emocional necessitar de alguns cuidados, vivendo momentos horríveis quando se lembrava daquele inferno vivido no dia 14 de Julho de 1971 (...)
Carlos Vardasca
14 de Julho de 2008

Foto 1: Momento da evacuação numa clareira próximo do local da emboscada do 1º Cabo Serrinha da C.CAÇ. 3309 ferido gravemente na emboscada.
Foto 2: O Serrinha na secção de Psiquiatria do Hospital de Nampula, na companhia do Gonçalves também da C.CAÇ. 3309 que ali se encontrava em tratamento.

(1) 1º Cabo Atirador NM 13382970 da C.CAÇ. 3309, António Natálio Sequeira Serrinha.

(2) Soldado Atirador NM 70584870 Pedro Mireco do Grupo de Integração nº 55 da C.CAÇ. 3309 mas destacado para os GEs 206.

domingo, 11 de maio de 2008

"Quando o Pedrosa decidiu nos deixar"


(...) Um Grupo de Combate da CCS do Batalhão de Artilharia 2918 e da Companhia de Artilharia 2745, tinham saído de Nangade para uma acção de protecção à coluna de reabastecimento denominada "Operação Bandarilha".
Seguiam ambas as forças na rectaguarda dos picadores, quando ao quilómetro 20 foram surpreendidos por uma emboscada desencadeada por um numeroso grupo de guerrilheiros da FRELIMO (cerca de 20) que, armados de LGF e armas automáticas, emboscou aquelas forças no lado sul a apenas a seis metros da picada, no percurso entre Nangade e o Aquartelamento de Pundanhar, que causou um morto e dois feridos às nossas tropas.
O Pedrosa (1), 1º Cabo Operador de Rádio da CCS do B.ART. 2918 que fora destacado para integrar aquela missão, no meio do tiroteio que se gerou foi atingido mortalmente com um tiro de Kalashnikov (2) na cabeça, o que provocou grande consternação em todos os presentes que integravam aquela operação de reconhecimento e de protecção. Enquanto o helicóptero não chegava para e evacuação dos feridos resultante daquele ataque assim como do corpo do Pedrosa, o silêncio que se abateu sobre a picada era deveras perturbador. O chilrear da vida animal parecia fazer coro com a tristeza que se vivia naquele pedaço térreo, enquanto ao longe uma impala espreitava atenta por entre o capim, "sem compreender porque não a perseguiam, tentando perceber o porquê daquele silêncio, que lhe permitia ouvir o gemido provocado pela ondulação do capim no seu agitado espreguiçar".
Comunicado via rádio para Nangade o ocorrido, de imediato saiu em seu socorro um Grupo de Combate que integrava soldados da Companhia de Caçadores 3309, entre os quais o 1º Cabo Condutor Victor (3), que se ofereceu de imediato para participar naquela operação assim que soube do incidente, uma vez que era grande amigo do militar falecido.
Por ironia do destino, o Victor (que na foto se encontra junto ao corpo do Pedrosa, de mãos na cintura a olhar para quem tirava a foto) viria também a falecer em combate passados dois meses e também em circunstâncias dramáticas (...)
Carlos Vardasca
11 de Maio de 2008
Foto: O corpo do 1º Cabo Operador de Rádio Pedrosa jaz prostrado na picada, aguardando o helicóptero para a sua evacuação. Picada Nangade-Pundanhar. Moçambique,14 de Maio de 1971.
(1 Acácio Carriça Pedrosa, 1º Cabo Operador de Rádio NM 14208669 da CCS do B.ART. 2918.
(2) Arma automática de origem russa usada pelos guerrilheiros da FRELIMO.
(3) Victor Manuel da Silva, 1º Cabo Condutor Auto Rodas NM 11694170 da Companhia de Caçadores 3309, falecido em combate no dia em 20 de Julho de 1971.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

"O que se escondia para lá do arvoredo"


(...) Apesar do seu vaguear lento, por vezes agonizante, as Berliets lá iam rasgando espaço no silêncio da mata, interrompido esporádicamente pelo piar agitado de algumas aves tropicais.
A beleza da paisagem mantinha-se indiferente ao seu esventrar, e por vezes obrigava-nos a mergulhar o olhar na sua frescura verdejante sem que pudéssemos traduzir os medos que fingíamos dispensar. Nós tínhamos consciência disso. Sabíamos que estávamos em guerra e, qualquer descuido para admirar o fascínio do manto esverdeado que nos envolvia poderia ser fatal, mas era totalmente impossível ficarmos indiferentes à beleza que se "espreguiçava" mesmo à nossa frente. Não sabíamos "quem tinha pintado aquele quadro imenso", que apesar de belo nos arrepiava de tanto medo, mas convictos de que cada pincelada que os nossos olhos inquietos conseguiam admirar pareciam ter sido desenhadas num cavalete montado algures por detrás de uma qualquer acácia já estrangulada pelas lianas.
Vezes sem conta a Companhia de Caçadores 3309 percorreu aquela espécie de "anfiteatro", coberto por um manto verde que nos roubava a luz do sol, "onde as pancadas de Molière soavam como um estrondo, anunciando o início da peça tragicamente a levar à cena, onde a escuridão se abatia sobre quem tombava no palco embora não fizesse parte do seu elenco".
Era de facto um percurso muito belo mas que encerrava em si uma tremenda inquietação. Com o suor a inundar os nossos olhares exaustos que iam contando cada planta que caía; cada arbusto que mexia ou tentavam traduzir outros sons que não os do roncar das Berliets, a picada entre Nangade e Pundanhar, apesar do desconforto da guerra "era um gigantesco quadro colectivo que os que se diziam ser seus autores defendiam agora com outros pincéis mais bélicos, de estranhos intrusos que há muito o teimavam como se fora seu".
Debaixo daquelas frondosas mas escuras sombras dissiparam-se tantas esperanças, cuja juventude pereceu "sem que sobre eles fosse derramado um pingo de seiva"; esses sim, verdadeiros heróis daquela façanha trágico-marítima de má memória, desaparecidos sem glória, "para que outros engordassem e se espojassem à volta daquela imensa gamela" só quebrada numa madrugada de Abril (...)
Carlos Vardasca
28 de Abril de 2008
Foto: Algures na Picada entre os Aquartelamentos de Nangade e Pundanhar. Cabo Delgado, Norte de Moçambique (foto cedida por Ilídio Costa).


sábado, 19 de abril de 2008

"Os homens requisitam-se, mas as Berliets custam 400 contos cada uma"



(...) Já há alguns dias que os abastecimentos em Nangade escasseavam, e as tropas se socorriam das rações de combate para sobreviver. A actividade da FRELIMO era bastante intensa, e por cada coluna de reabastecimento que se efectuava regra geral duas Berliets eram destruídas pelas minas anti-carro montadas pelos guerrilheiros na picada.
Com o Aquartelamento de Nangade carente de abastecimentos, foi necessário realizar nova coluna de reabastecimento a Palma, tendo esta saído de Nangade de madrugada, pelas 05,00 horas ainda o cacimbo flutuava sobre o capim. No seu caminhar lento e agonizante, as Berliets seguiam penetrando na densa mata verdejante indiferentes à beleza de alguns dos seus recortes, apesar da chuva que ameaçava cair.
Ao quilómetro 12, um estrondo imenso veio interromper a falsa tranquilidade que envolvia os militares que faziam escolta à coluna, e uma nuvem medonha de cor muito escura elevou-se por cima da copa das árvores e envolveu toda a mata circundante, enquanto as Kalashnikov dos guerrilheiros matraqueavam da mata flagelando as viaturas que seguiam logo atrás do "Rebenta Minas". Avaliados os estragos daquela violenta explosão de duas minas anti-carro e da emboscada que foi desencadeada logo de seguida, verificou-se a existência de dois mortos e quatro feridos, um deles com gravidade, tendo sido de imediato pedida a sua evacuação para o Hopital de Mueda. O Alferes que comandava a coluna de reabastecimento seguia ao meu lado na viatura com o soldado rádio telegrafista, e quando ouvia a sua comunicação do ocorrido para Nangade e a pedir os helicópteros, notei que a sua expressão se alterava significativamente. Em Nangade, quem comunicava com a coluna era o Tenente Coronel Vasconcelos Porto do Batalhão de Artilharia 2918, e perguntava ele ao Alferes se as Berliets tinham ficado muito danificadas.
Insurgindo-se contra esta falta de sensibilidade, o Alferes, não respeitando a comunicação que era obrigatório ser efectuada em código, respondeu-lhe imediatamente em claro e bastante indignado:
-Oh meu Coronel! - Então nós estamos aqui debaixo de uma chuva torrencial, com dois mortos e quatro feridos à espera do helicóptero, e em vez de me perguntar pelo estado dos homens pergunta-me se as Berliets estão muito danificadas?
Ao que o Tenente Coronel respondeu do outro lado:
- Sabe meu alferes, os homens requisitam-se a vêm às carradas dentro dos navios e as Berliets custam 400 contos cada uma.
Antes de esperar qualquer resposta da parte do Alferes o Tenente Coronel prosseguiu:
- E já agora, por questionar a minha observação e por ter violado o código de transmissões em plena acção de combate, ordeno-lhe que, quando regressar dessa missão, que se apresente no edifício de comando que eu quero ter uma conversa consigo.
Regressado ao fim de quatro dias da missão de reabastecimento, aquele Alferes, depois de se ter apresentado no edifício de comando, foi levado por dois agentes da PIDE/DGS para Lourenço Marques e nunca mais se soube do seu paradeiro (...)

Carlos Vardasca
19 de Abril de 2008

Foto: Momento da evacuação dos soldados vítimas daquele ataque dos guerrilheiros da FRELIMO à coluna de reabastecimento, efectuado na picada entre os Aquartelamentos de Nangade e Pundanhar.



terça-feira, 25 de março de 2008

"Não sei se volto desta"


(...) Era de manhã, bastante cedo, pelas 05,00 horas da madrugada que os soldados eram acordados de um sono que fora bastante irrequieto. O Aquartelamento tinha sido atacado nessa noite, a havia que fazer o reconhecimento na área circundante, para depois se partir em direcção à picada ao encontro da coluna de reabastecimento que já partira de Pundanhar com destino a Nangade. No meio da azáfama dos preparativos para a operação, os olhos dos soldados cruzavam-se numa cumplicidade que era partilhada por todos, e que se misturava numa intensa preocupação que se diluía no colectivo da incerteza.

- Vá lá malta, temos que sair cedo antes que os turras cheguem lá primeiro que nós - dizia o Alferes que ia comandar o Grupo de Combate a quem fora incumbida a missão, que foi logo interrompido por um soldado que estava mais próximo:

- Oh meu Alferes, deixe-se de tretas, se calhar eles ao saberem que está prestes a passar uma coluna na picada nem dormiram esta noite, e já lá estão à nossa espera.
Era assim, neste ambiente de incerteza que se vivia diariamente cada vez que se saía para uma operação, com os soldados a deixarem arrumadas todas as suas pertenças nas tendas, como se o pressentimento de um regresso incerto pairasse por cima das suas consciências como a humidade do cacimbo que sobrevoava sobre o capim.
- Epá, estás a deixar isso tão arrumadinho, até parece que é desta que já não voltas ao quartel!
- Sei lá! - disse o "Pragal" (1) - continuando com o seu desassossego:
- A FRELIMO tem feito tantas emboscadas ultimamente, que um gajo já nem sabe se é desta que nos calhada a nós "lerpar que nem um tordo".
Antes de o Pelotão iniciar a marcha e mergulhar naquela mata densa, o "Pragal" ainda voltou à tenda e entregou ao soldado que estava mais próximo um pequeno impresso amarelado, dizendo-lhe muito baixinho:
- Olha! - mais logo, se o helicóptero vier, mete-me este "bate estradas" (2) no saco do correio, pois "eu não sei se volto desta".
Era nesta constante incerteza que se vivia na frente de batalha, com os soldados a questionarem diariamente a sua sobrevivência, que estava sempre dependente de factores externos à sua própria vontade e em resultado da lógica da guerra.
No dia seguinte, de regresso ao quartel, todas as angústias eram afogadas nas "Laurentinas" (3) que se emborcavam para saciar a sede, enquanto outro Grupo de Combate acabava de sair para nova patrulha, como se fossem "anjos protectores" de quem agora fazia por descansar um pouco, ainda envolto pelo pó que tornava irreconhecível o rosto tisnado pelo calor e pela terra da cor do barro que se soltava da picada (...)
Carlos Vardasca
25 de Março de 2008
Foto: Soldados da C.CAÇ. 3309 numa patrulha na picada entre Tartibo e Pundanhar. Moçambique, 1971
(1) Alcunha do 1º Cabo Atirador Manuel das Dores Ricardo da C.CAÇ. 3309 (falecido na Vila do Pragal em 2005)
(2) Aerograma
(3) Marca de cerveja de Moçambique

segunda-feira, 10 de março de 2008

"... O murmúrio dos vários silêncios"


(...) Tinha escurecido, e tudo indicava que iria ser mais uma noite quente. Rodeados pela densa mata, os soldados aconchegavam-se no seu interior ou debaixo das viaturas enfileiradas na picada, e aí presenciavam os vários silêncios emitidos por um estranho desconforto, e pelo recorte das várias silhuetas desenhadas pelas lianas entrelaçadas por entre o vasto arvoredo. A lua emprestava agora alguma claridade, mas sentia-se o seu esforço em penetrar através dos pequenos círculos onde os soldados se atarefavam em abrir as pequenas latas de conserva, débil refeição que a ração de combate nos proporcionava.
Já a noite pairava sobre os dólmens onde se enroscavam "crianças exaustas que pareciam dormir um sono eterno" quando por entre os arbustos alguém se aproximou do local onde tentávamos dormir e perguntou, parecendo falar de dentro de uma concha do mar:
Epá! onde está o enfermeiro a dormir? - está ali uma gaja da população que veio na coluna e está com dores de parto: - só nos faltava mais esta.
Devido ao rebentamento de duas minas anti-carro ao quilómetro 15 entre Pundanhar e Palma, seguido de uma violenta emboscada que provocou duas baixas e três feridos graves entre as nossas tropas, a coluna de reabastecimento teve que interromper o seu percurso e pernoitar na mata, devido ao atraso da chegada dos helicópteros para efectuarem as respectivas evacuações para o hospital de Mueda. Aquela jovem negra fora aconselhada a não prosseguir na coluna e ficar no Aquartelamento de Pundanhar devido ao estado avançado da sua gravidez, tendo recusado, pois era sua intenção ter a criança junto dos seus pais na povoação de Palma.
Os vários silêncios da noite foram interrompidos pelo chorar interrupto daquela criança que acabava de nascer em condições precárias, mas sob a protecção dos soldados e o recorte meio escurecido das Berliets, que também descansavam extenuadas pelo matraquear das balas e pelo cheiro intenso a pólvora, que pareciam ainda vaguear por entre o capim e o cacimbo que penetrava nos camuflados impregnados de terra avermelhada.
A jovem parecia estar feliz, pois os seus olhos reflectiam um brilho intenso que inundava o seu rosto negro, que contrastava com o reflexo muito branco e muito límpido dos seus dentes.
Malta! - quem é que ainda tem água no cantil? - disse o enfermeiro que assistiu ao parto.
Num acto simbólico, fez despejar uma pouca quantidade de água sobre a testa do recém-nascido, ao mesmo tempo que murmurava de forma a que todos os presentes o ouvissem:
"Eu te baptizo, Zungo Berliet Tropa"
Foi assim desta forma um pouco insólita que foi dado nome àquela criança, por ter sido um Zungo (1) que assistiu ao seu parto; por ter nascido em cima de uma Berliet e por ter sido a Tropa a proporcionar aquele nascimento, apesar das condições muito rudimentares em que o mesmo ocorreu.
Apesar da satisfação do soldado enfermeiro por tudo correr sem problemas, este quando se aproximou de mim e antes de se aconchegar no recanto da mata onde iria tentar dormir, ainda desabafou muito baixinho:
Braz! - desculpa-me lá este desabafo: - deus que me perdoe mas se calhar até ajudei a nascer mais um turra que nos irá mais tarde chatear os cornos".
Antes de me enroscar no dólmen e de ter matado algumas formigas de cabeça grande, acastanhada, que já se tinham agarrado ao camuflado, ainda lhe disse:
-Fica tranquilo que quando ele tiver a idade de vir para a mata combater-nos, já nós não estamos cá e, de certeza, pelo caminho que as coisas estão a levar, esta puta de guerra já há muito tem acabado (...)

Carlos Vardasca
10 de Março de 2008

Foto: O Pinheiro e o "Alentejano" (este último falecido em combate no dia 05 de Julho de 1972) aproveitam uma pausa na operação para abrirem uma lata da ração de combate e sentirem o estômago mais aconchegado. Ao fundo ainda se pode ver o Azevedo, todos eles da Companhia de Caçadores 3309.
(1) Branco, em dialecto Macua.




terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

" ... Quando o egoísmo é fabricado pelo medo."


(...) O dia já tinha corrido mal naquela coluna de reabastecimento entre os Aquartelamentos de Palma e Pundanhar, com o rebentamento de uma mina anti-pessoal que amputara a perna ao soldado que a pisara, causando ferimentos ligeiros num outro soldado condutor que estava próximo. Efectuadas as evacuações de helicóptero, a coluna não pode reiniciar a marcha com a falta de um condutor e, por esse facto, houve necessidade de se comunicar com o Aquartelamento de Pundanhar que ficava à distância de 12 quilómetros para que enviassem um condutor para substituir o que tinha sido evacuado. A Companhia que estava estacionada naquele Aquartelamento era a Companhia de Caçadores 2703, e o seu condutor assim que chegou ao local do acidente e viu que tinha que conduzir uma viatura Mercêdes, desguarnecida de qualquer protecção lateral e sem sacos de areia que amortecessem qualquer impacto de uma mina que eventualmente viesse a rebentar no seu rodado, disse logo todo irritado:

- Eu não conduzo essa merda! - ainda por cima faltam-me só quatro meses para acabar a comissão.

O alferes, comandante da coluna de reabastecimento ainda lhe perguntou porquê, ao que ele respondeu:

- Não conduzo porque se rebentar uma mina anti-carro nessa viatura eu "lerpo que nem uma pinta".

Perante tanta recusa e ao saberem que seguia na coluna o soldado Gonçalves da Companhia de Caçadores 3309, que conduzia uma Berliet e que tinha chegado à pouco tempo a Moçambique em rendição individual, logo se encarregaram de exigir àquele soldado que cedesse a sua viatura dado que, por ser Checa(1) teria que "hierárquicamente" (e segundo o conceito tão em voga naquelas mentalidades) que se expôr mais aos perigos do que os mais velhos.

O Gonçalves, (de alcunha o "Lixa") ainda tentou contrariar aquelas intenções que considerou retrógadas e de um egoísmo atroz, mas, obedecendo às ordens do Alferes (que defendeu aquela lógica tão desumana) teve que ceder a sua viatura que muito trabalho lhe deu a reforçar com os meios indispensáveis à sua protecção, e conduzir até Pundanhar a viatura Mercêdes (e posteriormente até Nangade numa distância de cerca de 40 quilómetros), totalmente desprotegida e sujeita a todas as consequências resultantes do rebentamento de minas anti-carro, que eram um dos flagêlos com que conviviam diáriamente os soldados que participavam naquele tipo de operações de reabastecimento.
Conscientemente ou não, este tipo de egoísmo "fabricado pelo medo" (embora não fosse generalizado) era muito frequente e assumido nas nossas fileiras, cultivado por uma falsa hierarquia baseada na "velhiçe", cujo conceito estava empregnado de uma desumanidade encoberta por um falso "direito à existência", como se a vida de cada um "estivesse dependente de um calendário e da vontade dos mais fortes".
Carlos Vardasca
12 de Fevereiro de 2008

Foto: O Soldado Condutor Manuel Teixeira Gonçalves da C.CAÇ. 3309, junto de uma Berliet minada com um dístico que visava impressionar os "Checas".

(1) Nome atribuído pelos soldados mais antigos aos recém chegados às zonas de combate.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

03 de Janeiro de 1972. "Nascido para viver"


(...) As Berliets seguiam no seu vagaroso e agonizante andamento, enquanto que na mata circundante se multiplicavam os sons da natureza que enfrentavam a nossa indiferença. A preocupação dos militares estava muito para além do chilrear das galinhas do mato e de outras aves tropicais que sobrevoavam as viaturas militares, (também elas indiferentes aos medos que ali se faziam transportar) mas na mata cerrada, que não deixava vislumbrar muito para além das longas lianas que ladeavam a picada e nos sacudiam o corpo à nossa passagem. Chovia terrencialmente, e as vinte viaturas tentavam (com alguma perícia dos Soldados Condutores), muito lentamente (sempre com a tracção às quatro rodas) transpor mais uma vez aquela íngreme "Descida dos Paus", tentando controlar a direcção para que as viaturas não escorregassem para o desfiladeiro que ladeava a picada, ora com a azáfama dos restantes soldados, em tronco nu, cerrando troncos de árvores para serem colocados naquele piso lamacento, cuja cor barrenta tantas dores de cabeça dava, de cada vez que as colunas de reabastecimento por ali passavam durante a época das chuvas. Embora com alguma demora e dificuldade, aquele obstáculo foi transposto e, depois de passarmos uma pequena ponte que já fora por várias vezes destruída pelos guerrilheiros da FRELIMO, a ansiedade parecia querer aliviar-se com a entrada numa zona da picada com o piso um pouco mais regular, o que facilitava a movimentação das nossas tropas bastante ansiosas por chegar ao Aquartelamento mais próximo (Pundanhar). Eu seguia na primeira Berliet ("Rebenta Minas") com mais quatro militares (da Companhia de Caçadores 2703) e que, por não nos termos apercebido do atraso das restantes viaturas, ficámos isolados e bastante vulneráveis em termos de defesa face a qualquer ataque dos guerrilheiros. Quando nos vimos sozinhos e demos conta do nosso isolamento, e antes que conseguíssemos imobilizar a viatura, ocorreram inesperadamente violentas explosões de três minas anti-carro em simultâneo, na retaguarda da viatura que a destruiu imobilizando-a de imediato. Logo após aqueles rebentamentos foi desencadeada uma forte emboscada com armas ligeiras por um grupo avaliado entre 6 a 8 guerrilheiros da FRELIMO (3) que, sentindo-se em posição favorável face ao nosso isolamento, tentaram a aproximação à viatura ao mesmo tempo que disparavam na nossa direcção, apesar da nossa resistência. Não fora a chegada das restantes viaturas naquele momento (que forçou os guerrilheiros a refugiarem-se na mata) as consequências poderiam ter sido bem mais dramáticas do que as que ocorreram. Do incidente eu fui atingido numa mão por um tiro de Kalashnikov, e os outros ocupantes da viatura, dois ficaram gravemente feridos (no peito e num ombro) e um outro com ferimentos ligeiros (numa perna) em resultado do disparo daquelas armas automáticas. Efectuado o contra ataque das nossas tropas e restabelecida a calma, e enquanto eram prestados os primeiros socorros aos feridos, procedeu-se à abertura de uma clareira na mata com o derrube da algumas árvores para facilitar o acesso do helicóptero e efectuar a evacuação, tendo os feridos sido transportados para o Hospital de Mueda. Sinceramente, durante a minha existência, nunca como naquele momento me senti tão consciente de estar tão próximo "do outro lado do muro" (...)

Carlos Vardasca
03 de Janeiro de 2008

Foto 1: Enquanto eu e os restantes feridos aguardávamos a chegada do helicóptero.
Foto 2: Momento da evacuação.
(3) Relatório da Região Militar de Moçambique. Batalhão de Artilharia 2918. História da Unidade. Décimo oitavo fascículo (Janeiro de 1972) Capítulo II, página 1. Arquivo Histórico Militar de Lisboa.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

"...Uma insólita prenda de natal"


(...) O Planalto dos Macondes era uma das zonas nevrálgicas no norte de Moçambique onde se fazia sentir a influência da FRELIMO, sendo por esse facto alvo de várias operações por parte de forças operacionais do exército, dos comandos assim como das tropas Paraquedistas.

Foi com esse objectivo que dois Grupos de Combate do Batalhão de Caçadores Paraquedistas 31 acamparam em Nangade durante algum tempo, cuja missão era serem helitransportados para atacar a Base BOANE da FRELIMO próximo do lago Lidede. Dessa força de Paraquedistas fazia parte o Duarte, meu velho amigo e companheiro de Santarém, que durante a sua permanência em Nangade me possibilitou usufruir do rancho melhorado que aquela força de paraquedistas proporcionava aos seus soldados, comparado com o incaracterístico "arroz com peixe" que nos era servido repetitivamente até à exaustão no rancho do Batalhão de Artilharia 2918 estacionado em Nangade. Nessa base da FRELIMO então destruída foram capturadas algumas armas e vários documentos considerados importantes, assim como algumas caixas com propaganda ideológica onde se encontravam vários exemplares do Tomo 1 das Obras Escolhidas de Mao Tsetung. Como em todas as operações, há sempre quem queira ficar com algum "troféu" para recordação, e o Duarte, sabendo das minhas convicções (que por acaso também as partilhava), sem que o comandante do seu grupo de combate se apercebesse (claro que não foi só ele) escondeu nos bolsos do camuflado alguns exemplares daquela obra, apesar das ordens em contrário do mesmo oficial, que ordenou que tudo o que fosse encontrado teria que ser entregue para averiguações. Estavamos na noite do dia 24 de Dezembro de 1971, e quando aquela força de Paraquedistas regressou da operação já com a noite a abater-se sobre o Aquartelamento, a primeira coisa que o Duarte fez, foi (antes de se deslocar para o seu acampamento) dirigir-se ao abrigo onde me encontrava e, acenando-me para que viesse ao seu encontro mas fora do abrigo, dizendo-me baixinho:

- Toma! - eu sei que isto não tem nada a ver com a época mas é a minha prenda de natal. Acrescentando:

- Envolvi-o num velho papel de jornal que encontrei no caminho para o encobrir, mas vais gostar:
- Só peço que não o abras à frente dessa malta toda pois nós nem sabemos em quem confiar.
A minha curiosidade fez com que, mesmo antes de chegar à caserna, rasgasse o papel de jornal onde aquela insólita oferta vinha envolta e (depois de me aperceber do que se tratava) para minha satisfação mas ao mesmo tempo preocupação, refugiei-me na caserna a folhear as páginas daquela obra que já eram naquela altura (embora em surdina) a minha fonte de inspiração ideológica.
Mais tarde, e ainda no mesmo Aquartelamento mas em outras circunstâncias que não interessa ainda descrever (mas que o farei em outra altura que considere adequada) foram-me oferecidos outros volumes da mesma obra que ainda hoje os guardo (apesar de já não me rever naquelas teorias) dentro do "baú das minhas memórias" e relacionadas com aquele conflito, para onde fui enviado "sem jeito nem prosa" (...)
Carlos Vardasca
22 de Dezembro de 2007
Foto: Exemplar do Tomo 1 das Obras Escolhidas de Mao Tsetung (edição em português) encontrado na Base BOANE da FRELIMO, próximo do Lago Lidede (Coord. 3931,9.1101) pelo Duarte, 1º Cabo Atirador do Batalhão de Paraquedistas 31.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

23 de Agosto de 1971


(...) Decorria o dia 23 de Agosto de 1971, e a coluna de reabastecimento seguia lentamente num movimento agonizante, debaixo de um calor abrasador que nos encharcava o camuflado e nos queimava o rosto carregado de incertezas. Tendo saído de Palma pela manhã com destino ao aquartelamento de Pundanhar, antes deste aquartelamento e ao quilómetro 10, a viatura onde eu seguia accionou uma mina anti-carro que me projectou do volante para as traseiras da viatura, onde apenas sofri pequenas escoriações num braço e sem qualquer gravidade. Como logo de seguida a coluna fora atacada com armas automáticas pelos guerrilheiros da FRELIMO, só após o cessar do tiroteio é que se pode tratar dos soldados feridos em virtude do rebentamento da mina. Ao lado da Berliet com a parte de frente totalmente destruída, agonizava um soldado africano das nossas tropas e pertencente à Companhia de Caçadores 2703 estacionada em Pundanhar, que, ao saltar da viatura após o rebentamento da mina anti-carro, accionou uma armadilha colocada na berma da picada, onde um dos estilhaços da granada lhe perfurou profundamente a cabeça, ligeiramente acima do olho. Antes de chegar o enfermeiro, ainda tive tempo de lhe tapar o ferimento com vários lenços e até com parte do meu camuflado que rasguei na tentativa de lhe estancar o sangue, mas, tal era a profundidade do ferimento que o sangue não parava de sair em golfadas. Passados quase 35 anos, parece que ainda estou a ouvir aquele soldado a implorar-me (e mais tarde ao enfermeiro que entretanto chegou) que o salvasse, dizendo ao mesmo tempo (no meio da sua agonia que o fazia triturar as palavras à medida que ia desfalecendo) como se adivinhasse a sua "sorte":

- Salvem-me, porque ainda quero ver os meus filhos a brincar no aldeamento onde nasci...

- Salvem-me por favor, porque ainda quero ouvir o som dos batuques da minha aldeia, e cheirar a mandioca esmagada no pilão pelos braços frágeis da minha mulher...

Não cheguei a saber o nome deste soldado porque não pertencia à minha Companhia, mas seguia ali na coluna de reabastecimento fazendo parte de um pelotão de protecção à mesma. Antes de o helicóptero de evacuação chegar, já o soldado africano tinha falecido apesar dos esforços do enfermeiro, sendo evacuado para o Hospital de Mueda, assim como outros feridos com alguma gravidade em resultado da emboscada que se seguiu ao rebentamento da mina anti-carro, e às várias armadilhas que rebentaram e que estavam espalhadas pela mata circundante.

Porque também alguns soldados moçambicanos foram vítimas da violência colonial. Porque a "bota colonialista" também esmagou e enlutou mulheres moçambicanas, aqui fica um abraço solidário de quem sobreviveu.

Carlos Vardasca
23 de Agosto de 2007

Nota: Na foto, o momento da evacuação do 1º Cabo Atirador NM 13382970 da Companhia de Caçadores 3309, António Natálio Sequeira Serrinha, gravemente ferido em 14 de Julho de 1971.