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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

"D Tejo ao Rovuma". História da C.CAÇ. 3309. Moçambique 1971-1973 (Carta a todos os companheiros e amigos)

Capa e Contra-capa do livro "Do Tejo ao Rovuma. Uma breve pausa num tempo das nossas vidas"Carta a todos os companheiros e amigos.
Clique em cima dos documentos para os visualizar.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Quem são os Macondes?

Como seria compreensível, para a maioria de nós, o contacto com as populações autóctones só passou a ser uma realidade devido ao eclodir da Guerra Colonial, apresentando-se-nos através dos manuais do regime Marcelista aquelas populações e a sua revolta contra um sistema colonial que os oprimia como potenciais inimigos, cuja expressão se traduzia no apoio à formação de Movimentos de Libertação do jugo colonial.
Foi o caso da FRELIMO em Moçambique com quem nós ex-combatentes da Companhia de Caçadores 3309 viemos a tomar contacto mais directo, cujos guerrilheiros lutavam contra uma ideia de “Império”, pela libertação e independência do seu povo, conflito que contrastava com a evolução das sociedades democráticas que apoiavam o desenvolvimento e a libertação dos povos sujeitos a regimes coloniais, sendo Portugal condenado nas instâncias internacionais, nomeadamente na Organização das Nações Unidas (ONU) devido à sua política colonial.
A visão colonial seguida por Portugal nas colónias africanas impediu que, devido a uma lógica imposta pelo regime Marcelista, que a maioria de nós tivéssemos conhecimento da verdadeira expressão cultural daqueles povos, sendo uma das preocupações do exército ocupante controlar e acantonar as populações junto dos aquartelamentos militares para que mais facilmente no terreno, se pudesse dar combate ao seu exército de libertação, a FRELIMO, e evitar o seu contacto com as populações impedindo que estas pudessem prestar apoio aos seus guerrilheiros.
Os textos que se transcrevem na íntegra e que foram extraídos de obras editadas sobre as duas etnias mais representativas da zona geograficamente denominada por Planalto dos Macondes (os Macondes e os Macuas) e onde foi o centro da actividade militar da Companhia de Caçadores 3309, são a expressão mais cabal de que para além do epíteto de “terroristas” com que eram classificados pela potência colonial devido à geo-estratégia política determinada pela “Guerra Fria”, existia naqueles povos toda uma riqueza de vivência e de costumes sociais enriquecidos por uma diversidade cultural por nós desconhecida e que aqui, em jeito de uma pequena homenagem, se transcreve algumas passagens das obras que são referenciadas na bibliografia. (1)
Carlos Vardasca
16 de Julho de 2010
(1) In: "Do Tejo ao Rovuma. Uma breve pausa num tempo das nossas vidas. Moçambique 1971-1973. História da Companhia de Caçadores 3309", página 53. Carlos Vardasca. Alhos Vedros, 21 de Setembro de 2009.

(...) A região ocupada pelos Macondes de Moçambique é uma área de cerca de 40.000 km2, onde, além deste grupo étnico, se encontram outros povos. A chamada circunscrição dos Macondes cobre uma área de 22.200 km2, havendo também elementos deste povo em várias circunscrições vizinhas.
Os Macondes moçambicanos encontram-se distribuídos nesta área de maneira desigual e devem perfazer na sua totalidade cerca de 130.000 habitantes segundo estimativa de 1962.
A densidade da população com base na mesma estimativa variava muito entre o planalto de Mueda e as baixas de Nairoto e Negomano. Enquanto nestas últimas a densidade era de 1, ou inferior a 1 habitante por km2, em certas partes do planalto é cerca de 30.
O planalto, habitado exclusivamente por Macondes, é o centro de cultura da área que, na sua periferia, se vai tornando marginal pelos contactos que estabelece com outras etnias.
Antes da desarticulação dos agregados familiares imposta pela política colonial, que privilegiava a concentração das populações junto dos aquartelamentos militares a pretexto da sua defesa mas que o principal objectivo era o seu controlo para que não pudessem prestar auxilio aos guerrilheiros da FRELIMO, cada aldeia era uma unidade independente que obedecia ao seu chefe, embora esta ouvisse a opinião dos chefes de família do seu grupo.
As aldeias nesse período eram dotadas de mobilidade (o que na verdade inspirou a guerrilha) mudando-se segundo a vontade do chefe para qualquer outro lugar, longe ou perto da antiga povoação conforme os interesses do grupo o que se veio a alterar com a instituição de Administrações que estabeleceu regulados com áreas definidas.
A distribuição das aldeias dependia muito das áreas. Nas baixas ou no centro do planalto as aldeias encontravam-se mais afastadas umas das outras, perdidas no isolamento do mato.
No bordo do planalto, especialmente na região de Miteda e Muatide, a concentração era muito maior. (2)
(2) In: "Os Macondes de Moçambique", de Jorge Dias e Margot Dias, Volume III, Vida Social e Ritual, páginas 11, 12 e 212. Edição da Junta de Investigação do Ultramar. Centro de Estudos de Antropologia Cultural. Lisboa 1970.
Quem são os Macondes
(...) Os Macondes são um povo da África Oriental, que habita 3 planaltos do norte de
Moçambique e sul da Tanzânia. Têm como actividades principais, a agricultura e a escultura. Sendo apreciados mundialmente pela suas belas máscaras e esculturas de madeira, que reflectem a sua estética e cultura ricas.
A maioria dos cerca de 1.260.000 Macondes mantêm uma religião tradicional embora parte da população seja hoje cristã. Os Macondes são um povo Bantu provavelmente originário de uma zona a sul do Lago Niassa – fronteira entre Moçambique, Malawi e Tanzânia. A hipótese desta origem foi apurada a partir da análise de fontes escritas e orais, e é ainda reforçada por semelhanças culturais com o povo Chewa, que ainda hoje habita uma vasta zona a sul e sudoeste do Lago Niassa, no Malawi e na Zâmbia. Os Macondes teriam assim pertencido, em tempos remotos, a uma grande federação Marawe, que teria iniciado a sua migração para nordeste, ao longo do Vale do rio Lugenda, em tempos bastante longínquos.
Mantiveram-se muito isolados até tarde, pois só no século XX é que os portugueses, que na altura colonizavam Moçambique, conseguiram controlar as zonas por eles habitadas. Isto deveu-se à sua localização, protegida por zonas íngremes de difícil acesso e por florestas densas. O facto de os Macondes terem ganho uma imagem de violentos e irrascíveis, também ajudou ao seu isolamento. Desta forma, conseguiram manter uma forte coesão cultural, que apesar de ter diminuído nos anos que se seguiram à chegada dos portugueses, ainda assim conseguiu resistir em vários aspectos. Também a religião tradicional se manteve dominante, tendo as conversões ao cristianismo começado apenas por volta de 1930 (...)
[3]

Foto 1: Elementos da etnia Maconde num postal de 1952. Instituto de Investigação Científica Tropical de Lisboa.
Foto 2: Família Maconde. Nangade 1971 (foto do autor).

In: "Do Tejo ao Rovuma. Uma breve pausa num tempo das nossas vidas. Moçambique 1971-1973. História da Companhia de Caçadores 3309". Páginas 55,56 e 57. Carlos Vardasca. Alhos Vedros, 21 de Setembro de 2009.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

"Ninguém morre besuntado de azeite"

(…) Em data que não consigo lembrar-me, num fim de tarde, chegou ao Aquartelamento de Tartibo antigo (Nova Torres) uma coluna de abastecimentos. Não me perguntem se a coluna correu bem ou mal, não faço a mínima ideia. Do que eu me lembro bem é que nesse dia não se conseguiu arrumar todo o material transportado, ficando a maior parte em pilhas junto do depósito de géneros e da secretaria. Aconteceu que nessa noite, depois de passada a “hora Maconde” resolvi procurar o escriturário para abrir a porta da secretaria para ir lá escrever umas cartas e talvez algum aerograma. Lembro-me que com o escriturário veio outro militar de que não consigo lembrar-me. Lembro-me também de que à porta da secretaria se encontrava a poucos metros um Unimog 404 parcialmente descarregado de bidões de vinho e azeite.
Estávamos na secretaria todos os três, bem calados, a escrever, eu, o escriturário e o outro militar acima referido, quando caiu bem perto dali uma morteirada. Fora da secretaria estava tudo às escuras, mas a reacção dos nossos Obuses de artilharia não se fez esperar e começaram logo a bater todos os pontos prováveis de ataque. Eu abriguei-me de imediato debaixo do Unimog 404 e suponho que o escriturário e o outro militar fizeram o mesmo.
Lembro-me como se fosse hoje, comecei a sentir que estava molhado numa das pernas. Apalpei e tive na altura a sensação de que estaria ferido porque confirmei que estava mesmo molhado, com um líquido quente e pegajoso e receei que naquele momento tinha chegado o meu fim. Presumo que desmaiei e a certa altura dei por mim quando alguém me puxava por uma perna e perguntava:
- “… meu capitão, meu capitão, está ferido?
- “Respondi que não, mas só depois de confirmar a minha integridade física dos braços e das pernas. Verifiquei no fim que não perdi sequer uma gota de sangue e que apenas me encontrava sujo de terra e azeite ou óleo alimentar ainda quente devido à exposição ao sol deste produto durante o percurso da coluna e que na altura se derramou por não se encontrar o bidão bem fechado, ou por efeito de algum estilhaço. Não indaguei por motivos óbvios por se tratar de uma história pouco edificante (...)

Hélio Augusto Moreira
ex-Capitão Miliciano NM 36048760 da Companhia de Caçadores 3309
Linhares, 06 de Janeiro de 2005

In: "Do Tejo ao Rovuma. Uma breve pausa num tempo das nossas vidas". História da C.CAÇ. 3309. Moçambique 1971-1973, página 191, Carlos Vardasca. Alhos Vedros, 21 de Setembro de 2009.

Foto 1: O Capitão Miliciano Hélio Augusto Moreira (em primeiro plano com uma garrafa de cerveja na mão) na companhia de: (da esquerda para a direita) Saavedra (Soldado Condutor), Pepino (Soldado Corneteiro), Costa (Furriel Vague Mestre), Leite (Soldado Condutor), "Françês" (Soldado Cozinheiro) e do Cardoso (1º Cabo Auxiliar de Enfermagem), num petisco onde se comemorava o 1º aniversário da C.CAÇ. 3309. 24 de Janeiro de 1972.
Foto 2: O Capitão Miliciano Hélio Augusto Moreira, na companhia do Alferes Mendes (Checa) e dos Furrieis Milicianos Felisberto João de Almeida Costa (Vague Mestre) e José Maria Ferreira da Silva (Enfermeiro), quando almoçavam no Aquartelamento de Nova Torres, 28 de Junho de 1971.
(Em destaque uma foto actual do autor do texto).

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

“Quem me dera que a tropa fosse sempre assim ...”

(...) Tínhamos atravessado o rio Metumbué, afluente do rio Rovuma, para a instalação do novo aquartelamento no Tartibo, na margem direita daquele rio, já que na esquerda vislumbrávamos a Tanzânia e o nosso inimigo. Tudo isso nos deixou de rastos, — corpos desnudos num calor infernal.
Arrastávamo-nos cambaleantes, pois não existiam pontes nem barcaças.

Não sei como nem porquê, ficámos especados naquele imenso matagal. O resto da malta já havia destroçado para o aquartelamento.
E nós, meia dúzia de gatos-pingados, ficáramos ali não sei se esquecidos ou como guardas do
material que ainda ali ficara. Com muito medo e muito capim à nossa volta, perplexos e exaustos, desconhecedores da picada, perguntámos:
— E agora?
Sair dali era perigo iminente, a emboscada espreitava a cada passo, embora fossemos portadores duma G3.
— E o material?
O calor abrasava e a sede apertava. Beber água do Metumbué era suicídio certo; esta água era imprópria para lavar roupa…
— “Eureka”! — gritou alguém que no meio daquele material vislumbrou uma pipas amontoadas por entre o material. Era vinho.
Bebemos… e tanto bebemos que nos esquecemos de deixar de beber… depois, vendo vários trilhos, orientámo-nos pelo do meio anteriormente recalcado pelos nossos camaradas.
G3 às costas ou a tiracolo. Posição de tiro “nem pó”… risos provocados pelo elixir de Baco e a descontracção natural de qualquer turista de visita a terras de África.
Chegado ao aquartelamento (cerca de seis quilómetros) dirigi-me mais ou menos sóbrio ao Capitão e perguntei-lhe o porquê de tanta demora. Tínhamos sido esquecidos …
Recebemos uma menção honrosa pelo nosso destemor. No dia seguinte foram buscar o resto do material. Entre nós (os esquecidos e ainda estupefactos pela nossa pseudo-ousadia) houve alguém que comentou:
— Quem me dera que a tropa fosse sempre assim (…)

João da Silva Arteiro
ex-Soldado Condutor Auto Rodas NM 15393470 da Companhia de Caçadores 3309
Vila do Conde, 27 de Abril de 2007


Foto: João da Silva Arteiro na secretaria da C.CAÇ. 3309 em Nangade (1971) na companhia do 1º Sargento de Infantaria NM 50037311, Joaquim Eduardo Carvalho Barreto (falecido em 1975) e do Soldado dos Serviços Gerais NM 07013070, Albino dias de Sousa (em último plano na foto) falecido em combate em 20 de Julho de 1971 em virtude de um rebentamento de uma mina anti-carro no Unimog 404 onde seguia, conduzido pelo 1º Cabo Condutor Auto NM 11694170, Victor Manuel da Silva (também da C.CAÇ. 3309) que veio a falecer, assim como os restantes oito ocupantes da viatura, na sua totalidade trabalhadores agrícolas que se deslocavam para as machambas junto ao rio Litinguinha nas "Águas" do Aquartelamento de Nangade. (Em destaque uma foto actual do autor do texto).

In: "Do Tejo ao Rovuma. Uma breve pausa num tempo das nossas vidas". História da Companhia de Caçadores 3309. Moçambique 1971-1973, página 189.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

História da Companhia de Caçadores 3309

Informação

Cumpre-me informar que, graças à prestimosa e generosa colaboração de todos quantos se dignaram enviar os seus “Álbuns de Guerra”, contribuindo e tornando possível dessa forma a edição em livro da História da Companhia de Caçadores 3309 e aos quais estou imensamente agradecido, que a respectiva obra já se encontra concluída e em condições de ser editada.
Para o efeito, e com o objectivo de tornar aquela obra mais acessível em termos monetários aos ex-combatentes da C.CAÇ. 3309 e a todos, para além de nós, que se mostrassem interessados e a viessem adquirir, contactei com várias entidades para que as mesmas pudessem patrocinar o livro, tendo enviado o orçamento por elas posteriormente solicitado, como condição para que o respectivo apoio fosse concedido.
Depois de lhes ter enviado
[1] com alguma antecedência o orçamento que considerei o mais acessível de entre as várias tipografias por mim contactadas; o da Tipografia Belgráfica, Lda. (Alhos Vedros) cujo orçamento para a edição de mil exemplares é de 10.575,00 Euros, informo todos vós que até ao presente momento (para além de alguma intenção manifestada) ainda não recebi qualquer resposta concreta no sentido de viabilizar a edição do livro, obra que narra ao longo de 382 páginas a “Epopeia Trágico-Marítima” da Companhia de Caçadores 3309, desde o IAO em Chaves até às margens do rio Rovuma em Moçambique e que tem por título, “Do Tejo ao Rovuma. Uma breve pausa num tempo das nossas vidas”.
Tendo em conta o exposto e após este esclarecimento, informo que é de todo impossível concretizar o lançamento da respectiva obra no XIX Encontro Nacional da Companhia de Caçadores 3309 a realizar em Vila Viçosa no dia 07 de Março de 2009 como era o meu objectivo, continuando no entanto os meus esforços e possivelmente encetar outros contactos para além dos já efectuados, com o objectivo de viabilizar a edição daquele documento, que considero de toda a importância histórica, não só para quem como nós participou e viveu aquele conflito colonial de má memória, mas também para quem (ao adquirir o livro) pretenda com esse gesto preservar um pedaço da nossa memória colectiva, não querendo esquecer que foi nele que grande parte da nossa juventude sentiu “que um pedaço das suas vidas lhes foi arrancada sem jeito nem prosa”.

O autor
Carlos Vardasca
(Braz)
Ex-Soldado Condutor Auto Rodas
da Companhia de Caçadores 3309

[1] Construções Pintal (S.João da Madeira) e Cafés Delta (Campo Maior).
Foto: Capa e contra-capa do livro "Do Tejo ao Rovuma. Uma breve pausa num tempo das nossas vidas".

sexta-feira, 4 de maio de 2007

"A curiosidade matou o gato"


Peguei nesta frase apenas por a consierar muito sugestiva para classificar alguém como eu. Estou de facto a tentar escrever um livro foto biográfico, que relata a história da Companhia de Caçadores 3309 durante a sua missão em Cabo Delgado, na fronteira com a Tanzânia. O seu título é "Do Tejo ao Rovuma. Uma breve pausa num tempo das nossas vidas". Já tem cerca de 250 páginas, e penso editá-lo em Março de 2008, pois é quando a C.CAÇ. 3309 faz precisamente 35 anos do seu regresso de Moçambique. Para a elaboração do mesmo, tenho-me deslocado com alguma regularidade ao Arquivo Histórico Militar em Lisboa, onde já adquiri bastante documentação que servirá de suporte aos temas que serão desenvolvidos no livro, e tenho contado também com a excelente colaboração de muitos companheiros meus que pertenceram à C.CAÇ. 3309 com o envio de imensas fotos, que foram introduzidas no livro após alguma selecção que tinha que ser necessária, dada a sua diversidade, privilegiando as fotos em grupo ou as que encerram em si alguma história que tenha significado ser contada com a sua ilustração.

Portanto amigos, e principalmente para o amigo Vitor Baião (ex-Oficial Miliciano da C.CAÇ. de Moçimboa da Praia de 1967/68) que mostrou interesse em saber algo sobre o livro, aqui fica um pequeno "cheirinho" da situação em que se encontra a obra, e para aguçar ainda mais o apetite de quantos estão interessados na edição da mesma, aqui vos deixo a capa para já terem uma ideia do mesmo...
Carlos Vardasca
04 de Maio de 2007