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sexta-feira, 5 de novembro de 2010

"Nem sempre fomos bons rapazes". Comentário de José Rui Ferraz, ex-Furriel Miliciano da C.CAÇ. 4243

Amigo Vardasca
Permita-me que o trate assim, embora não tenha o prazer de o conhecer pessoalmente, você é das pessoas que não se conhecendo, logo à partida e pela maneira vertical como expressa as suas ideias se simpatiza.
Tem feito o favor de me enviar alguns E-mails que na generalidade tenho gostado, embora por motivos de ordem profissional, não tenha tido, até aqui, possibilidades de responder como desejaria e dado a minha opinião sobre assuntos versados.
Espero agora reverter essa situação se tal me for permitido, uma vez que chegou a altura de “encostar” às box´s após 47 anos de actividade laboral.
No caso da Guerra Colonial ou do Ultramar ou só da guerra de Moçambique, ou como lhe queiram chamar, todos os que por lá passaram têm uma maneira muito especial de dizer as coisas, o que para muitos foi um simples arranhão para outros são traumatismos profundos e inultrapassáveis.
Certo, certo é que quase todos os que por lá passaram, quando confrontados ou instados a falar sobre a guerra o fazem à sua maneira.
Das histórias contadas ressalta quase sempre o facto do “contador” ter passado aquilo que mais ninguém passou, ”ele” foi o herói, aquele que em condições adversas lutando contra tudo e todos conseguiu sempre dar a volta à situação, mercê do seu abnegando esforço e notável espírito de sacrifício etc. etc.
É pena não se lembrarem de contar as asneiras que também por lá fizeram, algumas por falta de preparação outras pela irreverência da juventude de que éramos portadores.
Embora não nos conhecendo pessoalmente muito provavelmente já nos cruzamos, pois eu fazia parte da Companhia de Caçadores 4243 que vos foi render a Muidine, no longínquo final de ano de 1972.
Digo longínquo ano de 72 tão longe no tempo e no entanto, por vezes, aqui tão perto, gravado no álbum de recordações que é a minha memória.
E é essa memória que não “branqueia” por nada o que os olhos viram, mas que muita boa gente faz por esquecer e a todo o custo tentam denegrir aqueles que continuam a chamar branco ao branco e preto ao preto.
Nem vale a pena relatar as atrocidades que tanto o “pessoal” como os civis cometeram contra as populações indefesas, já que passados estes anos todos, a generalidade dos intervenientes diz que sempre foram democratas que sempre trataram os negros bem etc. etc.
Muito do que é a memória colectiva é baseado na mentira e por isso nada melhor do que pôr uma “pedra” sobre o assunto, antes que se descubra que afinal alguns “democratas” eram e ainda são “faxos” de 1ª.
Atrever-me-ia a dizer QUE NEM SEMPRE FOMOS MAUS RAPAZES.
Pelo menos quando estávamos a dormir éramos “Good Boys” (mesmo assim era preciso não estarmos a sonhar).
Já me estou a alongar e a dar “seca” pelo que vamos ao que interessa e falemos do seu último (?) E-mail enviado por si e que como sempre li atentamente.
Já me tinha apercebido (como disse os afazeres profissionais eram muitos) que tinha ou andava a escrever memórias sobre a guerra colonial, e pode desde já contar que irei adquirir um exemplar “Do Tejo até ao Rovuma. Uma breve pausa num tempo das nossas vidas”, tanto mais que certamente ao relatar a sua vivência irá descrever também um pouco o que por lá passei.
Certamente versará temas relacionados com Muidine, Pundanhar, Palma, Nangade, Lago Namioca, O famoso "Trilho Turra" (ao Km 7).
Desejo-lhe, sinceramente, os maiores sucessos que certamente terá, pois a maneira serena como diz as coisas; o não enveredar por um “heroísmo” balofo que nesta altura é o que mais se vê por ai, primar por um relato objectivo descrevendo sempre da maneira mais simples o que pensa das diversas situações que por lá todos vivemos, tudo isso certamente fará do livro um sucesso e do seu autor alguém a respeitar.
É certo que muita gente irá refutar algumas afirmações, mas como disse atrás, o que para uns é um arranhão para outros é um profundo traumatismo.
Vão dizer que as coisas não foram bem assim, que até lhe explicam como tudo se passou, que se você puder dispor de um pouco do seu precioso tempo, eles que estavam por “dentro” das coisas podem lhe contar em pormenor o porquê das coisas ……………etc, etc.
Dirão que escreve assim, porque não conhece a pessoa; olhe que ele é e sempre foi uma excelente pessoa incapaz de prejudicar alguém.
Por isso é que é tão diferente o que os operacionais passaram daquilo que os “teóricos” falam.
Um abraço
E venha lá essa obra.
José Rui Ferraz

ex-Furriel Miliciano NM 179570/71
da Companhia de Caçadores 4243
Foto: José Rui Ferraz no Aquartelamento de Muidine (Moçambique 1972), e em destaque uma foto sua actual.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A Opinião, esse direito

O texto transcrito em baixo foi editado a pedido do seu autor, e no âmbito da polémica suscitada a propósito do artigo por mim publicado "Nem sempre fomos bons rapazes" e dos comentários que o mesmo gerou em seu redor.
Importa registar um esclarecimento.
No âmbito da liberdade de expressão e dando espaço à livre produção de opiniões, sejam elas quais forem, todos os textos que me forem solicitados para a sua publicação fá-lo-ei (para além daqueles comentários que são colocados directamente neste espaço) desde que não enveredem pela ofensa primária, pela insinuação maldosa ou juízos de valor apressados e intencionais sobre outras opiniões expressas livremente, mas que contribuam para um salutar debate e um esclarecimento responsável dos temas em discussão, independentemente da opinião de cada um.
Carlos Vardasca
A OPINIÃO, ESSE DIREITO
Muitos de nós, para além do destino comum de termos ido à guerra, o que só por si, é razão suficiente para fazermos parte deste pequeno grupo de fazedores de opinião, não se conhecem, ou então, conhecem-se muito mal.
Entendo no entanto que, todas as opiniões sobre um assunto que nos toca tão profundamente, como será o tema da Guerra Colonial, devem ser dadas sem paixões exacerbadas, pois o que está lá para trás, doeu muito, continua a doer e acompanhar-nos-à até ao fim dos nossos dias.
Creio que, para além de nós, serão poucos os que, hoje, estão receptivos a ouvir falar deste tema, mesmo no seio das nossas famílias.
Há e continuará a haver enorme incompreensão em redor dos nossos sofrimentos.
Só nós somos capazes de nos ouvirmos, uns aos outros.
Divergências, havê-las-à sempre; mas respeitemo-nos.
Para mim, todos fomos bravos.
Sejamo-lo também agora, respeitando-nos e às nossas opiniões.
Companheiros!
A maioria de nós, já são avós. Todos temos histórias para lhes contar sobre este tema, mas … se eles nos quiserem ouvir.
Só nós, e entre nós, temos a garantia de que nos entendemos.
É bom sentir a adrenalina no ar. Mas … saibamos lidar com ela.
O Vardasca tem o mérito enorme de estar a trabalhar para memória futura, ocupando um espaço, que retrata de muito perto, a realidade, o viver de gente que foi empurrada para aquele conflito e que são ao fim e ao cabo, o povo deste país.
A ele o meu bem haja.
Ao companheiro Cordovil, quero dizer-lhe que respeito a sua indignação, compreendo-a, mas, se me permite, não se indigne contra o Vardasca.
Há um local próprio para o fazer. Todos sabemos qual é. Será que a si ou a mim, ou a algum de nós, alguém ouvirá?
Eu li as suas palavras e verifico que é, como eu, um pessoa sofrida.
O Vardasca não tem culpa e não o queria ter diminuído, nem, estou certo, pretendeu escamotear os seus valores e convicções.
Apenas e para finalizar. Sou um de 5 irmãos. Quatro estiveram na guerra do ultramar

Filipe Pinto*
06 de Outubro de 2010
*Filipe Manuel Cardão Pinto, ex-Furriel Miliciano NM 14172170 da Companhia de Caçadores 3309, posteriormente destacado para comandar os GEs 212 aquartelados no destacamento de Nhica do Rovuma, no norte de Moçambique, distrito de Cabo Delgado.
Foto: Filipe Pinto (em baixo de frente para a foto) no destacamento do Nhica do Rovuma, assistindo à chegada de uma coluna de reabastecimento (1971). Em destaque uma foto sua actual.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

"Nem sempre fomos bons rapazes" (2)

Caros amigos
Eu quando escrevi o artigo “Nem sempre fomos bons rapazes”, simplesmente me reportava a um determinado contexto, e numa determinada altura em que apareceram alguns oficiais que estiveram na Guerra Colonial a contestar as declarações proferidas pelo escritor António Lobo Antunes, declarações essas que eu próprio também tive oportunidade de contestar. Por outro lado, e se também leram as opiniões daqueles oficiais, é óbvio que também chegaram à conclusão de que a maioria das suas opiniões também não correspondiam à realidade, tendo em conta que, e como eu refiro no meu artigo (e todos nós por uma questão de honestidade intelectual teremos que reconhecer – e penso que alguns já o fizeram) o comportamento da maioria das nossas tropas não foi assim tão exemplar como eles quiseram fazer crer, embora eu compreenda em que contexto se vivia e qual a opinião (que se pode dizer quase generalizada) que a maioria das nossas tropas tinham sobre as populações com quem iam conviver e dos próprios Movimentos de Libertação.
Ao dizer que “Nem Sempre fomos Bons Rapazes”, é óbvio, e a intenção está implícita (Nem Sempreo que quer dizer que também o fomos) de que os comportamentos por mim descritos não se podiam generalizar (é óbvio que “não nos portámos todos mal”) pois reconheço que apesar de sermos a potência ocupante, alguma coisa de útil fizemos em prol daqueles povos (escolas criadas pelo exército para os miúdos aprenderem as primeiras letras, redes de abastecimento de água às populações e de irrigação das machambas, entre outras muitas coisas que não vale a pena enumerar) e muitos de nós os soubemos respeitar na nossa convivência diária que com eles mantivemos nos diversos aldeamentos por onde passámos.
Se leram bem o referido artigo, nele eu apenas me limito a fazer recordar aos oficiais que tentavam fazer crer nas suas opiniões de que a nossa presença em África foi uma espécie de “missão evangelizadora” (quando todos nós sabemos que não foi bem assim) e de que também houve o outro lado negro da guerra mas que eles fingiam ignorar.
Foi simplesmente isto. No respectivo artigo não falto ao respeito a ninguém, não encontram nenhum adjectivo de traidor que eu tivesse atribuído a quem quer que seja, nem coloquei em causa a tomada de posição daqueles que, estando contra a guerra decidiram desertar, ou de outros que, estando na mesma posição, (foi o meu caso e de muitos) decidiram no entanto participar nela por uma questão de consciência, receio das consequências ou por outras razões que não importa aqui analisar, nem tão pouco sobre aqueles que nela participaram com “espírito de missão”.
É claro! E não o digo no artigo porque se tornava bastante extenso (nem sequer a intenção do artigo era essa mas simplesmente avivar a memória daqueles oficiais que se insurgiram contra António Lobo Antunes) mas é óbvio que reconheço que naquela guerra se cometeram atrocidades em ambas as partes intervenientes no conflito, e que nem o "bem" nem o "mal" se encontravam só de um dos lados da barricada, dado que todos nós conhecemos episódios que atestam a sua veracidade, tanto do nosso lado como da FRELIMO.
Mas isto é uma verdade incontornável. Ignorar estes factos é querer passar uma esponja por cima da história e tentar moldá-la às suas conveniências, distorcendo a realidade.
Colocadas as minhas considerações nos devidos lugares, só não compreendo como é que ainda existem pessoas que, fazendo uma leitura errada (porque lhes convém) da história por eles vivida e do conhecimento que têm dos factos, não queiram assumir os mesmos com a naturalidade que deve ser exigida, sem complexos, e, ao analisarem o artigo “Nem sempre fomos bons rapazes” em vez de fazerem uma análise objectiva dos factos tendo em conta o seu contexto, partem logo apressadamente e de uma forma tão injusta para considerações ideológicas ou insinuações abusivas sobre o seu autor, passando da racionalidade para a provocação (e foi por isso que me insurgi contra elas) que em nada contribui para o salutar debate democrático, que se pretende profícuo e esclarecedor.

Um abraço a todos
Carlos Vardasca

Foto 1: Quando aguardava o helicóptero para ser evacuado para Mueda por ter sido ferido em combate (com um tiro numa mão) na picada entre Palma e Pundanhar. Junto a mim, deitado na berma da picada está um soldado de C.CAÇ. 2703 (estacionada no aquartelamento de Pundanhar e que fazia escolta à coluna de reabastecimento) gravemente ferido nessa emboscada e que igualmente aguarda o momento da evacuação. Moçambique (Cabo Delgado) 03 de Janeiro de 1972
Foto 2: Momento da evacuação. Moçambique (Cabo Delgado) 03 de Janeiro de 1972 (em destaque a minha foto actual)

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

"Nem sempre fomos bons rapazes"

Tenho acompanhado de perto a polémica à volta das declarações um pouco infelizes do escritor António Lobo Antunes, sobre o comportamento das nossas tropas em teatro de guerra que não subscrevo na sua totalidade, mesmo que tivessem sido produzidas no âmbito ficcional.
Algumas daquelas declarações poderão não ser totalmente verdade mas evidenciam e contêm um pouco da realidade e do ambiente que se vivia no período colonial, não só nas cidades mas também nos locais mais recônditos onde as nossas tropas estavam aquarteladas.
No momento mais “escaldante” desta controvérsia, apenas fui observando as diversas manifestações vindas das mais variadíssimas proveniências, mantendo-me à distância das mesmas para as poder analisar à luz da minha experiência também como ex-combatente da Guerra Colonial, mais concretamente nos Aquartelamentos de Nangade, Tartibo, Pundanhar, Muidine e Palma, todos em Cabo Delgado, norte de Moçambique, nas margens do rio Rovuma junto da fronteira com a Tanzânia.
Tal como as declarações proferidas por aquele escritor, confesso que também fiquei bastante impressionado e estranhei a forma como alguns ex-combatentes reagiram às mesmas, com declarações pinceladas de um “patriotismo balofo”, como se ignorassem ou fingissem ter esquecido o comportamento da maioria dos nossos soldados para com as populações nativas durante o conflito colonial.
A descrição feita por António Lobo Antunes sobre o comportamento das nossas tropas pode não corresponder totalmente à realidade, mas “que nem sempre fomos bons rapazes” é uma verdade inquestionável que nenhum ex-combatente ousa desmentir, mesmo que isso ainda hoje lhe corroa a consciência.
A grande maioria das nossas tropas (e não faz mal nenhum reconhecer este facto) era oriunda dos meios rurais, de fraca escolaridade, incultas, “embrutecidas” pelos discursos e as ladainhas dos párocos da aldeia, sendo educados desde tenra idade com uma visão da guerra colonial decalcada dos catecismos do regime.
Chegados a África, confrontados com uma população que o regime lhes disse ser inferior e os seus guerrilheiros classificados como terroristas, era natural ver os nossos soldados no seu relacionamento com as populações a exibirem a sua pose de superioridade, mesmo que vinda de um simples trabalhador rural ou de um daqueles emigrantes que na procura de uma vida melhor vegetou nos bidon-vile’s em terras de França e que, sem qualquer superioridade moral para humilhar aqueles povos de cor de pele diferente, os tratavam com alguma arrogância, indiferença ou desprezo, como se fossem seres inferiores.
Embora houvesse excepções (talvez uma minoria pouco expressiva com alguma consciência política) fazer crer que “fomos todos bons rapazes” durante os 14 anos que durou o conflito colonial, é uma outra mentira que nenhum de nós que o viveu de perto e tenha consciência da realidade, acredita, apesar das Políticas de Acção Psico-Social desenvolvidas já no final do conflito e que tinham um objectivo político bem definido e internacionalmente bem encenado.
Tal como as “Cruzadas” ou as “Descobertas”, que não foram nenhuns “passeios evangelizadores” mas invasões férteis em massacres para submeter os ditos povos “infiéis”, a Guerra Colonial também foi palco de comportamentos menos dignos por parte de algumas das nossas tropas, que na convivência diária com aqueles povos colonizados se utilizaram da falsa “superioridade da raça branca” para lhes impor (mesmo que em situações menores do seu dia a dia) a submissão, a humilhação, o roubo e o massacre indiscriminado de populações indefesas nos ataques às bases da FRELIMO, ou a prisão indiscriminada de elementos das populações nos vários aldeamentos (sempre coordenados por agentes da PIDE) a pretexto de colaborarem com os movimentos de libertação.
Para termos a noção de uma realidade que alguns fingem esquecer, quem não se recorda das várias incursões efectuadas de noite aos aldeamentos (que não eram mais do que meros campos de concentração onde o exército português acantonava as populações retiradas das matas para impedir que estas apoiassem a FRELIMO) para se roubarem galinhas ou cabritos para tornar o rancho bem mais melhorado, sob o protesto das populações, que tinham que se submeter perante a exibição bélica dos militares?
Será que todos nós já estamos esquecidos da humilhação a que submetíamos os nossos Mainatos
[1] que na hora da refeição nos fixavam de olhar faminto, na esperança de que sobrasse algum alimento dos nossos pratos, esperança essa frustrada, quando alguém atirava o prato já vazio na sua direcção, dizendo:
― Vá lá Turra
[2] d’um cabrão, o que é que estás à espera para ires lavar essa merda? Ou atirar uma lata de atum já vazia para o meio de um amontoado de crianças que, não sabendo estar a ser enganadas, se guerreavam na ânsia de ali encontrar algo para saciar a fome, enquanto os soldados se pavoneavam rindo à gargalhada perante aquele espectáculo degradante.
Quantas vezes o salário destes Mainatos não foi pago (e isto acontecia com bastante frequência) a pretexto de que a roupa não foi bem lavada e no tempo exigido, ou devido à ausência de um botão (que era arrancado intencionalmente na véspera) para justificar a recusa do pagamento daquele salário.
Quantas mulheres não foram violadas nos aldeamentos com o cano da G3 apontada à cabeça, enquanto outros soldados consumavam a violação colectiva?
Quantos guerrilheiros da FRELIMO depois de aprisionados após terem efectuado uma emboscada às nossas tropas, não foram brutalmente mortos mesmo ali na mata, num acto de desespero e de vingança por um dos nossos camaradas ter falecido nesse confronto?
Quantas crianças indefesas não foram abatidas a sangue frio nos ataques das nossas tropas às bases da FRELIMO, só porque aquelas (ao serem levadas como prisioneiras) seriam um empecilho à progressão e concretização da operação em curso?
Quem não se recorda de ouvir dizer que os guerrilheiros da FRELIMO capturados na mata, eram metidos nos helicópteros (supostamente para serem enviados para as prisões no sul de Moçambique) mas que a PIDE, em pleno oceano Índico, os atirava borda fora com as mãos e os pés atados, sob o olhar incrédulo e de reprovação dos pilotos, enquanto os Pides se justificavam:
― A porta abriu-se e o filho da puta do “Turra” caiu ao mar.
Quantos de nós (influenciados pela propaganda do regime) passámos a admirar a figura do Mercenário Daniel Roxo alcunhando-o de “O terror dos Turras” e, inspirados nas suas façanhas ditas heróicas, nos tornámos (à sua semelhança) mais “guerrilheiros”, apesar de sabermos (e até achávamos isso normal) que as suas milícias utilizavam requintes de malvadez nos métodos de tortura (proibidos pela Convenção de Genebra) sobre os guerrilheiros da FRELIMO capturados, serviços aliás, que, com o fim da Guerra Colonial (como Mercenário que era e a soldo de quem lhe pagasse melhor) os colocou à disposição do regime da África do Sul no tempo do Apartheid na sua ofensiva contra Angola, onde veio a falecer.
Enfim! E como todos nós ainda estamos lembrados, as humilhações com o objectivo de diminuir e enxovalhar socialmente o próximo não eram somente dirigidas às populações nativas pelos soldados dos ramos das forças armadas que conviviam mais próximo das populações, mas também, (por incompreensível que pareça) era prática corrente também entre as nossas tropas devido à rivalidade (fomentada pelo regime) existente entre as ditas “tropas especiais”
[3] e as ditas “tropas normais”[4], chamando aquelas a estas (naquela sua vaidosa pose sempre arrogante e excessivamente militarista) de “tropa macaca”.
Apesar de serem alvo daquele adjectivo depreciativo com o objectivo nítido de as humilhar, era no entanto a “tropa macaca” que sempre no mato passava os maiores sofrimentos com os ataques constantes dos guerrilheiros aos seus aquartelamentos, que convivia diariamente com o rebentamento de minas anti-carro e com as emboscadas durante os patrulhamentos e as colunas de reabastecimento nas picadas, com as consequências bem dramáticas que resultavam desse confronto constante e diário.
As ditas “tropas especiais” (que numa vaidade extrema tinham logo como imediata preocupação ajustar a sua farda ao corpo para, por um lado, exibirem a sua pose atlética mas também (e isso era uma preocupação constante) para se distinguirem da tal “tropa macaca”), eram tropas que regra geral estavam aquarteladas nas cidades (Porto Amélia, Nampula, Montepuez e Beira) num relativo conforto (se comparado com as restantes tropas que passavam todo o seu tempo no mato) eram melhor alimentadas e mais bem pagas.
Quando iam para o mato (depois de alguns meses de descanso a que as outras tropas não tinham direito) e eram enviadas em operações, nalgumas destas nem sequer tinham contacto com os guerrilheiros da FRELIMO, dado que estes, depois de terem massacrado as tropas “ditas normais” durante todo o ano, abandonavam as pequenas bases no interior de Moçambique e se refugiavam na Tanzânia, logo que sabiam da intervenção na sua zona daquelas tropas “ditas especiais”.
Depois de concluída a operação, aquelas tropas voltavam de novo para a cidade para mais um período de “merecido descanso” (enquanto a dita “tropa macaca” continuava “encafuada” nos mais recônditos aquartelamentos durante toda a comissão) onde aproveitavam para contar histórias rocambolescas para evidenciar o seu heroísmo e alimentar a sua vaidade, quando nem sequer em algumas destas operações alguns deles tiveram qualquer contacto com o inimigo.
Para além destas questões aparentemente menores mas que revelam bem o comportamento chauvinista da maioria dos nossos soldados no período colonial (sejam eles de que ramo fossem) será bom não esquecermos (no caso de Moçambique) os massacres de Wiryamu em 16 de Dezembro de 1972, onde foram mortas indiscriminadamente 400 pessoas entre mulheres e crianças sendo este acto condenado a nível internacional. Dos massacres de Inhaminga efectuados pelas nossas tropas em Agosto de 1973 e Março de 1974 e dos massacres de Mucumbura, para de facto reconhecermos “que nem sempre fomos bons rapazes” no nosso relacionamento com os povos que colonizámos, como querem fazer crer alguns ex-combatentes com o objectivo de branquear a história, como se a nossa presença em África tivesse sido uma “missão evangelizadora”, só porque ficaram embevecidos com as Acções Psico-Sociais levadas a cabo já no final do conflito colonial, acções estas que tinham um único objectivo; cativar as populações com a construção de aldeamentos e a oferta de outras benesses que não passavam de meras “bugigangas”, e afastá-las do apoio à FRELIMO.
É certo que estávamos em guerra, e no meio da emoção e do ambiente dramático que muitos de nós vivíamos (longe da família), sempre na incerteza do dia seguinte, reconheço que muita coisa (consciente ou inconscientemente e de que muitos de nós estaremos hoje arrependidos de o ter feito) foi feita debaixo da angústia e da raiva por ver um ou mais companheiros nossos tombados em combate, ou devido ao isolamento a que muitas tropas foram sujeitas em Aquartelamentos sem o mínimo de condições de habitabilidade, mas também às perturbações emocionais de que muitos soldados foram vítimas por terem estado durante muito tempo sujeitos a intensos combates que lhes abalou a racionalidade, lhes toldou a consciência, danos que muitos ex-combatentes infelizmente ainda hoje padecem, passados que são quase quarenta anos do fim daquele conflito de má memória.
Eu reconheço que é polémico falar sobre estas questões, e que muitos dos ex-combatentes, apesar de reconhecerem a veracidade das mesmas, preferem ignorá-las, mas negar ou tentar esconder a existência destes comportamentos por parte das nossas tropas no período da Guerra Colonial não é sério nem ajuda a construir a história que se pretende isenta e factual, nem tão pouco as manifestações “patrioteiras” de alguns ex-combatentes (que se aproveitaram das declarações infelizes daquele escritor para exibirem o seu fervor colonialista mais primário) contribuem ou ajudam a que as novas gerações percebam o que de facto estava em jogo nas matas densas de África, nas três frentes de batalha, na Guiné, em Angola e Moçambique, onde de facto (e isso tenhamos que reconhecer) ficou mais que provado de que “nem sempre fomos bons rapazes”.

Carlos Vardasca
17 de Setembro de 2010

[1] Crianças dos aldeamentos que iam buscar as nossas roupas para serem lavadas pelas mães ou pelas irmãs mais velhas.
[2] Adjectivo que deriva do diminutivo de terrorista.
[3] Unidades militares compostas por tropas Pára-quedistas, Comandos e de Fuzileiros.
[4] Unidades do exército compostas por Batalhões ou Companhias Operacionais de Caçadores, de Artilharia e de Cavalaria.
Foto: Dois guerrilheiros da FRELIMO capturados, aguardam em Nangade para serem transferidos para a prisão, sob o olhar atento de um agente da PIDE (de costas) que era presença permanente naquele Aquartelamento no norte de Moçambique. Nangade 1971.