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segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

"Para cima das árvores não vou" (2)

O IAO[1] tinha iniciado no dia 21 de Novembro de 1970 indo decorrer até 12 de Dezembro do mesmo ano, e a Companhia de Caçadores 3309 de que eu fazia parte, já estava acampada na Serra da Olga nas proximidades de Chaves à cerca de cinco dias, debaixo de temperaturas negativas sem que o peso da geada fizesse ceder as frágeis tendas de lona que albergavam três soldados cada.
A intensidade do frio era de tal ordem que as sete mantas distribuídas não agasalhavam aqueles corpos franzinos, que se socorriam de pequenas fogueiras para dar mais algum aconchego ao seu corpo, que iluminavam toda a encosta rodeada por enormes rochedos, à semelhança das pequenas lanternas que iluminam os caminhos de pastoreio.
Todas as Companhias do Batalhão de Caçadores 3834 foram distribuídas por diferentes áreas geográficas e em acampamentos distintos, a fim de fazerem a sua preparação operacional, dado que estavam todas mobilizadas para fazerem parte das forças de intervenção no norte de Moçambique, mais concretamente na província de Cabo Delgado, junto à fronteira com a Tanzânia.
No dia seguinte, 26 de Novembro de 1970 e depois de vários exercícios efectuados com armas pesadas, simulando ataques de forças inimigas, já se aproximava a hora do almoço sem que as viaturas que era hábito levarem-nos as refeições confeccionadas no quartel do BC 10
[2] em Chaves, fossem observadas do alto do acampamento. Devido ao adiantado da hora e porque o almoço não havia meio de chegar, um grupo de soldados já um pouco revoltados com a situação, decidiu descer da montanha e deslocar-se a uma pequena aldeia próxima e aí adquirir alimentos. Compraram-se chouriços, pequenos pedaços de toucinho, pão, galinhas e outros géneros alimentícios que a amabilidade das populações nos fez trazer para dar mais condimento ao farnel e para serem confeccionadas no acampamento.
A causa do não aparecimento das viaturas (soube-se mais tarde, sem se comprovar a sua veracidade) deveu-se ao facto de terem sido “assaltadas” por dois pelotões da Companhia de Caçadores 3310 pertencente ao mesmo Batalhão da C.CAÇ. 3309, que estavam acampados em Bobadela, e que decidiram fazer uma emboscada às viaturas que transportavam as nossas refeições, numa medida de força que diziam fazer parte do treino operacional com vista à sua adaptação às condições de combate.
O capitão da Companhia Hélio Moreira estranhou o fraco movimento das suas tropas no acampamento e mandou tocar a reunir, verificando de facto que era evidente um grande número de ausências na formatura e nos quatro pelotões. Depois de se informar do ocorrido, o capitão, na companhia de alguns oficiais foi-se colocar mesmo junto do trilho que dava acesso à aldeia, aguardando aí a chegada dos soldados “desertores” que lhes ia ordenando, à medida que foram surgindo no final do trilho, que formassem no centro do acampamento.
Quando o Nabais viu o capitão no alto do morro disse desorientado:
— Epá Braz, estamos fodidos — fomos apanhados!
— Quem teria sido o cabrão do bufo?
Depois de a formatura estar completa com todos os soldados que tinham abandonado o acampamento, o capitão, denotando uma incontrolável irritação que lhe tingia a face de vermelho foi dizendo:
— Seus maricas! — Não podem passar um dia sem comer que tomam logo atitudes tão reprováveis que não ficam bem a qualquer soldado!
— É assim que se querem preparar para os momentos difíceis que vamos passar em Moçambique? -
Depois de despejar toda a sua indignação sobre a formatura e mudando inesperadamente de expressão, conclui com um sorriso que transbordava de cinismo:
— Então querem galinhas não é?
De súbito (e enquanto lançava um sorriso meio amarelo para os oficiais que o acompanhavam), ordenou que todos subissem para cima das árvores e cacarejassem em coro como as galinhas quando estão a pôr os ovos. Muito poucos subiram e foram logo alvo da chacota de quem assistia àquela humilhação, enquanto o capitão dizia indignado:
— Braz, do que é que está à espera? — Vamos lá a subir para cima da árvore — ordenou o capitão enchendo o peito de autoridade, continuando com a sua provocação que tentava suavizar com um ligeiro sorriso:
— Não pense que é mais do que os outros só porque tem esse aspecto intelectual, meio rebelde, mas mais parecido com um menino de coro.
Já bastante indignado com aquela situação que parecia ter a solidariedade dos outros soldados que ainda não tinham subido para as árvores eu disse-lhe:
— Olhe, pois agora não subo nem canto como as galinhas, pois não vou permitir que me humilhe dessa forma — acabando por concluir:
— Prefiro levar uma carecada do que servir de chacota geral para seu gozo pessoal.
Ao meu lado, o Nabais, o “Alentejano” [3], o “Almada” [4] e um grupo já menos numeroso de soldados, mostraram-se solidários e também disserem concordar com a minha opinião, ao que o capitão, profundamente indignado por não ver satisfeita a sua ordem, mandou chamar o barbeiro ordenando-lhe bastante irritado:
— Rape-me esses gajos todos à escovinha — eles vão se lembrar para o resto das suas vidas do frio que vão passar naqueles cornos.
Carlos Vardasca
26 de Novembro de 1970
Serra da Olga. Chaves.

[1] Instrução de Adaptação Operacional.
[2] Batalhão de Caçadores 10
[3] Alcunha do 1º Cabo Atirador, António José Pereira, NM 11934670 - na foto (que veio a falecer em combate num rebentamento de uma mina anti-carro na picada Nangade-Muidine em 05 de Julho de 1972).
[4] Alcunha do 1º Cabo Atirador, Pedro Manuel Gaspar Augusto. NM 13619570 - na foto (que veio a falecer em combate num ataque da FRELIMO ao Aquartelamento de Tartibo em 01 de Outubro de 1971).
in "Onde o sol castiga mais. Crónicas de Guerra 1970-1973" páginas 3 e 4. Carlos Vardasca. 2005

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

"Num cenário de cartolina em plena Serra da Olga"

(...) O frio parecia passear-se por entre as tendas para que ninguém dissesse que ele não passou por ali. Gélido, meio seco e menos incomodativo do que o que lambe as terras junto à costa atlântica, não deixava no entanto de penetrar por entre os capotes cinzentos que pareciam ter sobrado da II Grande Guerra e toldar os movimentos daqueles jovens que, no cimo da Serra da Olga (nos arredores de Chaves) se treinavam num "cenário de cartolina" em nada comparado com o inferno para onde seriam enviados em breve.
O IAO (1) da Companhia de Caçadores 3309 que se iniciara em 21 de Novembro (assim como de todo o Batalhão de Caçadores 3834) terminava no dia 12 Dezembro de 1970, e em todos os que nele foram envolvidos já se denotava uma certa agressividade imposta pela instrução que lhes foi ministrada por uma Secção de elementos das Operações Especiais (Rangers), que foram simulando, por entre aquele arvoredo que se assemelhava às matas densas de África ou em terreno acidentado, vários ataques com granadas de morteiro que caíram muito próximo de nós e emboscadas cujas balas faziam levantar a terra à nossa frente, alguns deles (fieis defensores do regime colonial e com uma pose exacerbadamente militarista) com o objectivo de nos impressionar mas também para evidenciar e exibir o seu "pseudo espírito superior de senhores da guerra", como se tivessem a treinar algo que consideravam inferior (tropa normal ou macaca - vocabulário que exibiam até à exaustão) simples robôs, que depois de "formatados" estariam aptos para mais facilmente "obedecerem à voz do dono" num conflito que em nada nos dizia respeito, mas que de uma forma imposta serviu para interromper o futuro de milhares de jovens que se viram envolvidos durante os cerca de 14 anos no conflito Colonial, que inundou o nosso país num manto negro a par dos naufrágios que enlutavam as vilas piscatórias de norte a sul.
Irreconhecíveis, exaustos, mais parecendo "prisioneiros de guerra que abandonam um campo de concentração", lá nos concederam alguns dias de Licença das Normas de 18 a 28 de Dezembro, acrescidos de cinco dias de licença à BIFE até 03 de Janeiro de 1971, "besuntados" (os soldados, claro) com uma nota de 500 escudos que se perdia na profundidade dos nossos bolsos como se fora uma "reles gorjeta" de compensação, por a partir daquele momento já estarmos ao serviço da pátria na "defesa de um Império que se viria a desmoronar sem que nenhum de nós ali tivesse algum pedaço", mas que dele muitas vezes iríamos espreitar a morte, que na maioria dos casos caminharia ao nosso lado, percorrendo os mesmos trajectos pejados de incertezas sem que para tal tivesse sido convidada.
Após estas licenças já com sabor a despedida para uma viagem de regresso incerto, todo o pessoal do Batalhão de Caçadores 3834 apresentou-se em Viana do Castelo no Batalhão de Caçadores 9, onde continuou em instrução na 2ª parte do IAO até à véspera do embarque em 23 de Janeiro de 1971(...)

Carlos Vardasca
11 de Dezembro de 2008
Foto 1: Quartel do então Batalhão de Caçadores 10 em Chaves (actual Regimento de infantaria 19) onde a Companhia de Caçadores 3309 (integrada no Batalhão de Caçadores 3834) fez a 1ª parte do IAO antes de embarcar para Moçambique.
Foto 2: Elementos da C.CAÇ. 3309 em plena Serra da Olga (arredores de Chaves) durante a realização da 1ª parte do IAO.
(1) IAO - Instrução de Adaptação Operacional.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Foi uma "carecada geral"


(...) Antes de ser mobilizada para Moçambique, a C.CAÇ. 3309 esteve acampada na Serra da Olga nos arredores de Chaves.

Naquele dia, a refeição que vinha do quartel (BC10) estava demorada, e os militares estavam "esfomeados", dado ter sido um dia intenso de preparação de combate com simulações de ataques com bala real.

Como a refeição não havia meio de chegar, um grupo de soldados (onde eu me incluia) decidiu descer a montanha e encontrar algo de comer na aldeia que ficava na encosta daquele morro.

As populações foram muito amáveis, pois, para além das coisas que comprámos ainda nos ofereceram algumas chouriças, pão e uns "golos" de bagaço que parecia ter-nos aquecido a alma.

Aquele acto foi considerado pelo nosso Capitão como uma "deserção das fileiras" e à medida que iamos subindo a montanha na direcção do acampamento (alguns com galinhas e outros víveres) o Capitão, no alto do trilho por onde iamos chegando, ordenava que todos subissem para cima das árvores e cacarejassem, "em homenagem às pequenas aves que transportavamos com tanto carinho" e como castigo pelo abandono do aquartelamento.

Alguns subiram de imediato para cima das árvores sem contestar a decisão, outros, porque acharam aquela estranha ordem uma humilhação, recusaram-se, preferindo ser castigados de outra forma. Assim, foi ordenada a todos quantos se tinham recusado subir para cima das árvores e servirem de chacota aos restantes militares, que apanhasem todos uma "valente carecada".

Escusado será dizer que, em pleno inverno e com o frio que se fazia sentir, todos nós nos sentimos "despidos", mas ao mesmo tempo conscientes que tinhamos resistido a uma humilhação que alguém que "não conheciamos de lado nenhum" nos queria impor. Foi de facto uma "carecada geral", mas uma "carecada voluntária e de protesto" (...)


Carlos Vardasca

04 de Maio de 2007

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Porra! fomos mobilizados ...


(...) Estávamos acampados na Serra da Olga em Chaves a tirar o IAO, quando nos deram a notícia de que a Companhia de Caçadores 3309 tinha sido mobilizada para o norte de Moçambique, para a Provìncia de Cabo Delgado junto à fronteira com a Tanzânia.
Perante aquela notícia houve alguém que comentou:
- Cabrões! não tinham mais ninguém para enviar para lá senão nós - e para que querem lá tanta gente?
Na tenda ao lado, onde "gemia" uma guitarra que depressa se calou, deu-se lugar ao burburinho prenhe de inquietações que alguns fingiam não estar a acontecer.
Um silêncio tremendamente ensurdecedor apoderou-se de todo o acampamento, sentindo-se "desmoronar dentro de cada um de nós alguns castelos que ainda imaginavamos poder habitar e que deles estavamos a ser expulsos" (...)

Nota: Na foto, aproveitava um dos raros momentos de tranquilidade, e tentava alinhavar umas escassas linhas que serviriam de conforto a alguém bem distante.

Carlos Vardasca
02 de Maio de 2007