quinta-feira, 3 de maio de 2007

A liberdade de imprensa não passou por ali!


Já que hoje se comemora o dia Mundial da Liberdade de imprensa, "veio-me à memória uma frase batida": - A liberdade de imprensa não passou por ali!

(...) Em Nangade, bem no centro do Planalto dos Macondes, aguardava-se a visita do então Governador Geral de Moçambique, Eng. Pimentel dos Santos e do General Kaúza de Arriaga (figura parda do regime e comandante das tropas naquela ex-província). Uma semana antes da sua chegada, tal era a azáfama das tropas ali estacionadas em patrulhar a mata circundante, que mais parecia estarmos na presença de uma operação de igual envergadura da "Nó Górdio".

Lembro-me que, antes do "Dakota" onde o governador e o general seguiam começar a sobrevoar o aquartelamento, passaram em voo rasante dois "Fiats" e um bombardeiro T6 em voo intimidatório, não fosse a FRELIMO fazer das suas.

A visita correra com toda a normalidade, só que as notícias da época, com o intuito de criar na opinião pública a ideia de que não havia guerra, diziam que:

Aquelas personalidades se tinham deslocado de Palma a Nangade em viatura ligeira e sem escolta (eram cerca de 100 km de picada intransitável, de difícil acesso mesmo para as Berliets militares e com constantes intervenções da FRELIMO) e que naquele aquartelamento tinham inaugurado uma piscina para o soldados tomarem banho, quando a dita piscina não era mais do que um tanque de tratamento de águas (que eram bombeadas do rio Litinguinha situado no vale) e que abasteciam tanto o aquartelamento assim como as populações locais.

A minha mãe enviara-me um jornal de Santarém (penso que era o "Diário de Notícias") onde se propagandeava aquele evento, e eu ainda colei a sua capa numa das paredes da caserna para que todos testemunhassem aquelas mentiras do regime. Fui aconselhado por alguém que, em tom ameaçador me exigiu que retirasse o que acabara de pendurar, não fosse eu ter "algum amargo de boca e ser levado no primeiro helicóptero para parte incerta" (...)

Na foto: Momento da chegada das personagens do regime colonial a Nangade em 17 de Julho de 1972
Carlos Vardasca
03 de Maio de 2007

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Porra! fomos mobilizados ...


(...) Estávamos acampados na Serra da Olga em Chaves a tirar o IAO, quando nos deram a notícia de que a Companhia de Caçadores 3309 tinha sido mobilizada para o norte de Moçambique, para a Provìncia de Cabo Delgado junto à fronteira com a Tanzânia.
Perante aquela notícia houve alguém que comentou:
- Cabrões! não tinham mais ninguém para enviar para lá senão nós - e para que querem lá tanta gente?
Na tenda ao lado, onde "gemia" uma guitarra que depressa se calou, deu-se lugar ao burburinho prenhe de inquietações que alguns fingiam não estar a acontecer.
Um silêncio tremendamente ensurdecedor apoderou-se de todo o acampamento, sentindo-se "desmoronar dentro de cada um de nós alguns castelos que ainda imaginavamos poder habitar e que deles estavamos a ser expulsos" (...)

Nota: Na foto, aproveitava um dos raros momentos de tranquilidade, e tentava alinhavar umas escassas linhas que serviriam de conforto a alguém bem distante.

Carlos Vardasca
02 de Maio de 2007

Uma conversa entre nós

Para além dos diversos debates havidos sobre o tema da Guerra Colonial, seria interessante que, entre nós, ex-combatentes do Batalhão de Caçadores 3834, em particular os pertencentes à C.CAÇ. 3309 assim como à generalidade de todos quantos partiram para Moçambique "numa viagem de ida mas de regresso incerto" (independentemente da Companhia a que pertenceram) podessemos, com a distância dos anos volvidos após o nosso regresso de África, conversar um pouco sobre o que sentimos quando fomos mobilizados, a visão que tinhamos durante a nossa permanência naquele conflito de má memória, e o que pensamos hoje daquilo que foi a Guerra Colonial.
Aguardo com alguma ansiedade as vossas opiniões, que decerto irão contribuir para uma reflexão informal e mais pessoal da nossa envolvência no conflito para onde nos enviaram "sem jeito nem prosa"...


Nota: Na foto vê-se o aquartelamento de Tartibo, onde a C.CAÇ. 3309 passou um dos piores momentos da sua permanência naquele isolamento no norte de Moçambique. Ao fundo ainda se vê o rio Rovuma e as montanhas da Tanzânia




Carlos Vardasca

02 de Maio de 2007

Batalhão de Caçadores 3834


Do Batalhão de Caçadores 3834 faziam parte as seguintes Companhias e inicialmente foram estacionadas nos seguintes aquartelamentos:

1. Companhia de Comando e Serviços (CCS) Mocimboa do Rovuma

2. Companhia de Caçadores 3309. Nangade, Nova Torres e Tartibo

3. Companhia de Caçadores 3310. Omar

4. Comapanhia de Caçadores 3311. Negomano

terça-feira, 1 de maio de 2007

Patrulha no rio Metumbué


Um dos momentos de uma patrulha da C.CAÇ. 3309 no rio Metumbué. Em primeiro plano vê-se o nosso saudoso António José Pereira ("Alentejano") que no Cais de Alcântara partiu para "uma viagem de ida mas sem regresso". Faleceu no dia 05 de Julho de 1972 na picada de Nangade para Muidine, vítima do rebentamento de duas minas anti-carro. No mesmo acidente ficaram feridos com alguma gravidade 14 elementos da C.CAÇ. 3309 que foram evacuados para o Hospital de Nampula...


Carlos Vardasca
Alhos Vedros, 01 de Maio de 2007




No refúgio das árvores


(...) Na época das chuvas, era frequente as águas do rio Rovuma se juntarem com as do rio Metumbué ao transbordarem as suas margens, o que provocava enormes cheias na zona. O aquartelamento da C.CAÇ. 3309 em Nova Torres ficava no meio daqueles dois rios e, por esse facto, era constantemente alagado, causando enormes dificuldades de mobilidade e de sobrevivência. Antes de anoitecer a malta atava os cobertores e as capas de oleado aos troncos das árvores e ali se refugiava. No dia seguinte, e em todos os outros enquanto durou as cheias, os helicópteros ou as DOs lançavam os sacos do correio e do pão e de outros víveres em voo rasante, indo aqueles haveres cair regra geral no lodo ou na zona alagada...
Por esse facto, a C.CAÇ. 3309 teve que abandonar aquela posição e mudar de local, e construir novo aquartelamento, que foi construído numa zona mais elevada e a cerca de cinco quilómetros de Nova Torres a que se deu o nome de Tartibo (...)


Nota: Na foto está o enfermeiro Azevedo da C.CAÇ. 3309.(Nova Torrres, 1971)

Carlos Vardasca
03 de Maio de 2007

Desembarque em Palma


(...) A Corveta NRP "João Coutinho" que transportava a C.CAÇ. 3309 para o norte de Moçambique, fundeou ao largo de Palma pelas 11.30 horas do dia 23 de Fevereiro de 1971. A C.CAÇ. 3309 foi colocada em lanchas de desembarque que, devido aos bancos de areia, não poderam chegar mesmo junto da praia, ficando ainda a alguma distância do local de desembarque. Com a água pelo peito, a maioria dos soldados fez a sua aproximação à praia com os braços bem levantados para proteger a G3 e as mochilas, enquanto que outros, numa atitude meramente colonialista (talvez inconsciente) eram transportados aos ombros de nativos que se prestaram a fazer aquele serviço a troco de umas "quinhentas".
Enquanto os coqueiros se inclinavam da praia para as águas do Índico "como que a saudarem a nossa chegada", os que eram transportados aos ombros dos nativos diziam para os que "mergulharam" as entranhas nas águas gélidas do Índico:
- Aqueles revolucionários de merda pensam que estão no desembarque da Normandia (...)

Carlos Vardasca
01 de Maio de 2007