
(...) Já há alguns dias que os abastecimentos em Nangade escasseavam, e as tropas se socorriam das rações de combate para sobreviver. A actividade da FRELIMO era bastante intensa, e por cada coluna de reabastecimento que se efectuava regra geral duas Berliets eram destruídas pelas minas anti-carro montadas pelos guerrilheiros na picada.
Com o Aquartelamento de Nangade carente de abastecimentos, foi necessário realizar nova coluna de reabastecimento a Palma, tendo esta saído de Nangade de madrugada, pelas 05,00 horas ainda o cacimbo flutuava sobre o capim. No seu caminhar lento e agonizante, as Berliets seguiam penetrando na densa mata verdejante indiferentes à beleza de alguns dos seus recortes, apesar da chuva que ameaçava cair.
Ao quilómetro 12, um estrondo imenso veio interromper a falsa tranquilidade que envolvia os militares que faziam escolta à coluna, e uma nuvem medonha de cor muito escura elevou-se por cima da copa das árvores e envolveu toda a mata circundante, enquanto as Kalashnikov dos guerrilheiros matraqueavam da mata flagelando as viaturas que seguiam logo atrás do "Rebenta Minas". Avaliados os estragos daquela violenta explosão de duas minas anti-carro e da emboscada que foi desencadeada logo de seguida, verificou-se a existência de dois mortos e quatro feridos, um deles com gravidade, tendo sido de imediato pedida a sua evacuação para o Hopital de Mueda. O Alferes que comandava a coluna de reabastecimento seguia ao meu lado na viatura com o soldado rádio telegrafista, e quando ouvia a sua comunicação do ocorrido para Nangade e a pedir os helicópteros, notei que a sua expressão se alterava significativamente. Em Nangade, quem comunicava com a coluna era o Tenente Coronel Vasconcelos Porto do Batalhão de Artilharia 2918, e perguntava ele ao Alferes se as Berliets tinham ficado muito danificadas.
Insurgindo-se contra esta falta de sensibilidade, o Alferes, não respeitando a comunicação que era obrigatório ser efectuada em código, respondeu-lhe imediatamente em claro e bastante indignado:
-Oh meu Coronel! - Então nós estamos aqui debaixo de uma chuva torrencial, com dois mortos e quatro feridos à espera do helicóptero, e em vez de me perguntar pelo estado dos homens pergunta-me se as Berliets estão muito danificadas?
Ao que o Tenente Coronel respondeu do outro lado:
- Sabe meu alferes, os homens requisitam-se a vêm às carradas dentro dos navios e as Berliets custam 400 contos cada uma.
Antes de esperar qualquer resposta da parte do Alferes o Tenente Coronel prosseguiu:
- E já agora, por questionar a minha observação e por ter violado o código de transmissões em plena acção de combate, ordeno-lhe que, quando regressar dessa missão, que se apresente no edifício de comando que eu quero ter uma conversa consigo.
Regressado ao fim de quatro dias da missão de reabastecimento, aquele Alferes, depois de se ter apresentado no edifício de comando, foi levado por dois agentes da PIDE/DGS para Lourenço Marques e nunca mais se soube do seu paradeiro (...)
Carlos Vardasca
19 de Abril de 2008
Foto: Momento da evacuação dos soldados vítimas daquele ataque dos guerrilheiros da FRELIMO à coluna de reabastecimento, efectuado na picada entre os Aquartelamentos de Nangade e Pundanhar.






