quarta-feira, 12 de agosto de 2009

De Nangade até à cidade da Beira

(...) Decorria o mês de Abril de 1972, e todos os motivos eram pretexto para fugirmos ao troar ensurdecedor dos obuses, às colunas de reabastecimento e ao isolamento dos aquartelamentos, que toldavam a nossa liberdade aprisionada entre o arame farpado e o olhar atendo de quem da mata espreitava a todo o momento os nossos movimentos.
Depois de em 1971 ter ido para Nampula tirar a carta de Lista Branca, que me possibilitou mais tarde no regresso à "Metrópole" trocá-la pela civil (que me custou apenas 500 escudos) em 03 Abril de 1972 decidi ir de férias para a cidade da Beira na companhia do meu camarada Camelo (1) também da Companhia de Caçadores 3309.
Recordo-me que tinha pedido à minha mãe Gracinda para me enviar quinze contos para as férias, ao que ela me perguntou muito entusiasmada:
- Com esse dinheiro que me pedes, porque é que não vens cá passar as férias a Santarém?
Compreendi a sua saudade de me voltar a ver e abraçar de novo, mas não resisti em lhe responder num dos últimos aerogramas que lhe escrevi antes de ir de férias:
- Olhe mãe, só quinze contos são para pagar a viagem de avião para Lisboa e com esse dinheiro passo aqui umas férias como nunca passei na minha vida.
Resignada, lá decidiu enviar-me o dinheiro, que não era mais do que algumas das minhas poupanças resultantes da minha passagem pela Marinha Mercante e das parcas remessas que eram enviadas do meu salário desde que chegara a Moçambique, mais concretamente à frente de combate na fronteira com a Tanzânia.
Eu e o Camelo fomos de Táxi-Aéreo de Nangade até Nampula, e daqui para a cidade da Beira num Boieng 737.
O Camelo, como tinha família na cidade da Beira pois tinha um irmão na Força Aérea ficou em casa dele, e eu hospedei-me na Pensão Castanheirense ali próximo da Praça do Município bem no centro da cidade, onde partilhava a minha mesa às refeições com um colono barrigudo e técnico de elevadores, que ainda me tentou convencer a ficar a trabalhar em Moçambique (embora eu não percebesse nada de elevadores) depois de terminar e minha comissão naquela ex-colónia portuguesa.
Embora hospedados em locais diferentes, eu e o Camelo encontrava-mo-nos todos os dias para "emborcarmos" as nossas "Laurentinas" que intercalávamos com as "2M" no café "CAPRI", situado na Praça do Município, bem perto do "Supermercado António Teixeira", ou na esplanada do "SCALA" em frente à "Companhia de Seguros Império" e próximo do "Supermercado Cardoso Lopes".
À noite, com a baforada do calor tropical a convidar-nos para uma ida até ao "Moulin Rouge" depois de uma sessão de cinema no "Novo Cine", ao deambularmos pelo centro da cidade cruzámo-nos com algumas senhoras de tez ocidental que se passeavam pela praça principal da cidade da Beira, que "vasculhavam" de olhos esbugalhados as montras da "Casa Bulha", da "Sissi" e da "Sapataria Guimarães", enquanto os maridos (alguns deles oficiais generais que da cidade decidiam dos destinos de quem na frente de batalha tentava gerir os vários medos de um regresso incerto) pontapeavam uma tosca caixa de madeira de um miúdo - descalço e semi-nu - que insistia em lhes querer engraxar os sapatos, quebrando-lhe todo o material necessário para as "engraxadelas", enquanto diziam com toda a sua arrogância pincelada com poses colonialistas:
- Sai daqui preto d'um cabrão - então não vês que as senhoras querem passar?
Ao fim de um mês de férias bastante relaxante, onde finalmente consegui passar uma vista de olhos pelos meus livros preferidos mas sem esquecer os meus companheiros e o que se estaria a passar naquele momento na frente de batalha, o meu regresso a Nangade já foi bem mais turbulento.
Da cidade da Beira para Porto Amélia fui num velho DAKOTA (onde seguiam poucos civis mas repleto de militares também regressados de férias ou outros que vinham em rendição individual) que tremia tanto que mais parecia uma gelatina, tendo visto o caso "mal parado" quando sobrevoávamos uma zona de forte turbulência que nos deu a impressão de que todas aquelas latas que o revestiam se queriam soltar, o que decerto pouparia algumas balas à FRELIMO se aquela lata ferrugenta se despenhasse na mata densa algures no norte de Moçambique (...)
In: "Quando o sol castiga mais. Crónicas de Guerra. 1970-1973", página 120. Carlos Vardasca. Alhos Vedros 2005.

(1) Francisco Joaquim Camelo, Soldado Condutor Auto Rodas NM15391770 da Companhia de Caçadores 3309.
Fotos 1 e 2: No dia do meu embarque no Táxi-Aéreo em Nangade para Nampula. Nangade, 03 de Abril de 1972.
Foto 3: O meu companheiro de aventura nas férias na cidade da Beira, quando participava na evacuação de um soldado morto em combate na picada de Pundanhar para Palma. (o Camelo está em tronco nu). Na mesma foto pode ver-se também (em primeiro plano e de farda negra) a participar na operação de evacuação, o Furriel Diamantino da C.CAÇ. 3309 mas graduado em Alferes e destacado nos GEs 207.
Foto 4: Praça do Município na cidade da Beira. A Pensão Castanheirense ficava logo a seguir ao pequeno prédio de cor amarelada situado entre os dois edifícios mais altos. Cidade da Beira, 1971 (foto retirada da Internet).
Carlos Vardasca
13 de Agosto de 2009

segunda-feira, 20 de julho de 2009

"A sorte não protege os audazes". 20 de Julho de 1971


Por me ter sido pedido por um camarada de armas da Companhia de Caçadores 3309 colaboração no relato do sucedido num acidente em Nangade, norte de Moçambique em 20 de Julho de 1971, e salvo algumas falhas de memória, aqui vai o que me recordo.

(...) Ainda estávamos no 1º semestre do ano de 1971, numa bela manhã de um sol derradeiro, estava eu junto ao depósito de géneros no inicio do aldeamento Macua no aquartelamento de Nangade quando ouvi uma grande explosão que facilmente identifiquei por ser o rebentamento de uma forte mina e, ao olhar para o vale que tinha uma vista fantástica do local onde me encontrava, logo me apercebi que havia acidente dado que há hora em que estávamos era normal que várias viaturas descessem ao vale; ora com pessoal para carregar água junto ao rio Litinguinha ou para levar gente para as machambas (hortas), ou até gente da população nativa que ali se deslocava para lavar roupa, percurso que de uma forma habitual era quase todos os dias feito pelo Sr. Comandante à época Tenente Coronel Vasconcelos Porto, zona absolutamente controlada pelas nossas companhias militares, e que nada fazia querer poder ser uma zona de grande risco.
Mas naquela manhã quis o destino que a 1ª viatura que desceu para o vale fosse aquele Unimog 404 que transportava 16 vidas, 14 negros civis habitantes das aldeias sobre o nosso controlo mais dois militares nossos da Companhia de Caçadores 3309, sendo um deles o 1º Cabo Condutor Victor (1) que se ofereceu para efectuar aquela missão e que levava com ele um camarada da sua companhia, o Albino Dias de Sousa (2) ao que mais tarde vim a saber este ia na viatura a seu convite dado que nunca tinha ido à Machamba, acabando os dois por morrer na dita explosão de uma mina anti-carro fortemente reforçada, assim como seis dos civis negros, ficando ainda mais 5 feridos graves e 3 ligeiros. Eu ao me aperceber do que estava a acontecer do local onde me encontrava, peguei rapidamente na minha bolsa de enfermagem que estava sempre por perto de mim e bem apetrechada, na minha arma, e corri para a descida acompanhado de mais uma meia dúzia de companheiros, que sem olhar a meios nos metemos numa viatura e chegamos ao local. Recordo que fui uma das primeiras pessoas a chegar junto dos sinistrados, “mortos e feridos por todo o lado com um forte cheiro a pessoas queimadas”, e aí de uma forma consertada com os outros companheiros batemos toda a zona a tiro com o objectivo de obrigar o inimigo a retirar-se caso por ali ainda houvesse alguém por perto.
Ao fazer uma rapidíssima inspecção ao sucessivo, como mandam as regras, comecei por assistir aos casos mais graves deixando os que já não tinha solução para mais tarde.
Depois de chegar o pessoal da Companhia de Artilharia 2745 que não tardaram e que nos foram proteger, então com as devidas precauções pedi que removessem à força de braços a viatura minada de onde retirei o cadáver do nosso camarada e meu amigo Victor, que antes desta operação era difícil vê-lo pois estava debaixo dos destroços da viatura minada.
Estava bastante esmagado embora a sua cabeça e cara não tivessem sido muito atingidas, quanto ao outro camarada, tinha alguns ferimentos mas à minha chegada também já estava morto no terreno. Julgo que o número elevado de mortos foi provocado pelo rebentamento, tendo em conta a forte onda de choque de calor e sobro que a potente mina produziu. Quanto aos restantes feridos foram todos evacuados por helicóptero a partir do local para o Hospital de Mueda e os mortos negros ficaram em Nangade. Os nossos militares feridos que seguiram em helicópteros para Mueda mais tarde foram enviados deste hospital para Nampula, onde eu posteriormente me desloquei para os visitar e apoiar.
Quando recordo a minha passagem por África sempre retrato o Victor, pois era um bom companheiro e um jovem de bom carácter, muito voluntarioso e bem humorado, e a propósito disto, lembro-me alguns dias antes da sua morte termos pessoal da CCS do Batalhão de Artilharia 2918 fora do arame em patrulha de reconhecimento na picada (onde o Acácio Pedrosa, Cabo de Transmissões da minha companhia morreu com um tiro na cabeça - 10 de Maio de 1971) um grupo de voluntários no aquartelamento ao saber da noticia quis sair de imediato para o mato para resgatar o cadáver, e o Victor, foi de rápido o condutor que se ofereceu para conduzir a Berliet "rebenta minas" que se deslocou ao local (...)

Espero que este relato sentido te ajude na elaboração da tua obra
(3)
Um abraço Amigo

Mário Fernando Silva
ex- 1º Cabo Enfermeiro
da CCS do Batalhão de Artilharia 2918

(1) Victor Manuel da Silva, 1º Cabo Condutor Auto NM 11694170 da Companhia de Caçadores 3309, falecido em combate em 20 de Julho de 1971.

(2) Albino Dias de Sousa, Soldado dos Serviços Auxiliares NM 07013070 da Companhia de Caçadores 3309, falecido em combate em 20 de Julho de 1971.

(3) Texto enviado por Mário Fernando Silva para ser editado no livro da História da Companhia de Caçadores 3309 com o título "Do Tejo ao Rovuma. Uma breve pausa num tempo das nossas vidas". Carlos Vardasca. Alhos Vedros, 2008
Fotos 1 e 2: Anúncio do jornal "O Século" do ano de 1971, informando do falecimento do Victor Manuel da Silva, e uma foto sua no Aquartelamento de Tartibo. Maio de 1971.
Foto: 3 e 4: O Albino Dias de Sousa na companhia dos seus pais e de uma criança sua amiga na vila de Lavra (Matosinhos) 1968, e numa foto tirada no Aquartelamento de Nangade. Abril de 1971.
Fotos 5 e 6: Os nomes de Victor Manuel da Silva e de Albino dias de Sousa inscritos no Mausoléu em homenagem aos combatentes tombados na Guerra Colonial. Belém, Lisboa.
Foto 7: Estado em que ficou o Unimog 404 após a explosão da mina anti-carro onde faleceram os companheiros Victor e Sousa. Nangade. Norte de Moçambique. 1971.

sábado, 18 de julho de 2009

"A arte de bem escapar ao arroz com peixe"

(...) No Aquartelamento de Nangade, a cozinha ficava debaixo de um aglomerado de cajueiros que lhe emprestavam frondosa sombra, protegendo quem nela trabalhava dos calores tórridos que aqueciam o Planalto dos Macondes.
Antes do cozinheiro de serviço fazer soar, numa barra de ferro pendurada numa das árvores estridentes sons, que lembravam que o rancho estava "pronto a servir", já as bichas de soldados serpenteavam desalinhadas de marmita em riste, para receberem algo empapado que se colaria no seu fundo e que dificilmente se despegaria se não fosse tão depressa removido.
Ali não havia ementa previamente anunciada, pois todos nós há muito que a tínhamos decorado.
Uns dias era peixe com arroz e nos outros arroz com peixe, e assim sucessivamente, acompanhado por um líquido de tez já não muito escura, que diziam ser vinho e que fora bastas vezes alvo de várias "bênçãos" para lhe aumentar o volume desde que saíra da Manutenção Militar na Metrópole. Por vezes o menu lá era alternado (como se a rara variedade fosse sinónimo de qualidade) com uma carne intragável, excessivamente salgada (vinda no Nord-Atlas que fazia o abastecimento aéreo) transportada em barricas de madeira que não se sabia bem a sua origem (dizia-se que era da Argentina) e que faziam aos poucos aumentar o protesto de quem se sentia estar a ser alimentado para "unicamente se manter de pé" enquanto os "Chicos" iam "enchendo os bolsos" de comissão em comissão.
Misturados com os soldados, vagueavam sempre alguns miúdos dos aldeamentos das etnias Macua e Maconde que ladeavam o aquartelamento, que ao ouvirem o chamamento para o rancho se aproximavam da cozinha militar, sempre na ânsia de que sobrasse no fundo daquelas marmitas ou nos caldeirões da cozinha alguns restos. Ao mínimo gesto, corriam apressados, atropelando-se uns aos outros, exibindo as suas barrigas disformes na direcção de quem lhes estendia a marmita mesmo que no seu fundo não restasse quase nada, mas que funcionava como moeda de troca para justificar a lavagem da palamenta de alumínio.
Dava pena olhar para aqueles miúdos. Agachados debaixo do alpendre das casernas onde os soldados comiam sentados no chão ou em toscas mesas feitas de pedaços de madeira, de olhos muito esbugalhados, olhando-os insistentemente como que a implorar para que aquele sofrimento fosse muito breve. Quantos de nós, perante aqueles olhares tristes, muitas das vezes não tivemos vontade de "lamber o fundo da marmita", mas nos vimos quase que obrigados a deixar algo no fundo para enganar a fome daquelas frágeis crianças.
Como tudo na vida, todos nós fomos "obrigados" a desenvolver (algumas vezes com requintes de malvadez) a "arte de bem escapar ao arroz com peixe".
Era das incursões aos aldeamentos, de que o "FOZ" (1) era especialista (e de quem alguns de nós copiámos o jeito) que resultavam grandes "caçadas" que nos permitia fazer esquecer o arroz amassado e o peixe chamuscado do rancho, e "chafurdarmos" nos frangos besuntados de gindum bem picante para justificar a sua inundação com as fresquíssimas "Laurentinas".
No Aquartelamento de Tartibo a coisa não era nada diferente (embora não houvesse aldeamentos) mas onde também se fazia do peixe com arroz e do arroz com peixe a "arte de bem cozinhar", com a cumplicidade da falta de imaginação do vago-mestre que também tentava "sobreviver" com a escassez de abastecimentos. Ali, a monotonia do menu era comparável à sensação de isolamento a que estavam sujeitos os militares da Companhia de Caçadores 3309 ali estacionados, não fosse alguma peça de caça morta no decurso de alguma operação militar; de uma outra feita prisioneira numa das armadilhas colocadas fora da barreira defensiva do Aquartelamento, ou de um "golpe de mão" desencadeado ao galinheiro do Capitão (2), estes últimos "troféus arduamente conquistados", que faziam a alegria de quem com eles se banqueteava perante a irritação daquele oficial, que via os seus galináceos reduzir de número e a "desertarem para outras paragens" (...)

Carlos Vardasca
18 de Julho de 2009

(1) Alcunha de Eduardo da Silva Machado, Soldado Condutor Auto Rodas NM 15189470 da Companhia de Caçadores 3309, do qual, até aos dias de hoje não mais soubemos do seu paradeiro.
(2) Hélio Augusto Moreira, Capitão Miliciano de Infantaria NM 36048760, Comandante da Companhia de Caçadores 3309.
Foto 1: Em Nangade na bicha para o rancho. Na foto podem ver-se junto a mim (entre outros) o Soldado Condutor Auto Rodas João da Silva Arteiro NM 15393470 da Companhia de Caçadores 3309.
Foto 2: Para fugirem à tortura do "arroz com peixe" elementos da C.CAÇ. 3309 assam uma peça de carne de gazela abatida numa ida ao mato para apanhar lenha. Na foto estão (entre outros) o Mendes, 1º Sargento Barreto NM 50037311 (falecido após o nosso regresso em 1975) e o 1º Cabo Auxiliar de Enfermagem Azevedo NM 05802970. Aquartelamento de Tartibo. Norte de Moçambique 1971.
Foto 3: Diziam eles que estavam a proceder a "uma operação cirúrgica". Na foto estão o Alfredo, Cardoso, Lopes, Óscar (que dizia estar a segurar no frasco do soro) e o Gonçalves, que procedem à assadura de uma peça de caça, também com o objectivo de se livrarem do tormento do "arroz com peixe". Aquartelamento de Tartibo. Norte de Moçambique 1971.

domingo, 5 de julho de 2009

Quando o "Alentejano" nos deixou. (05 de Julho de 1972)

(...) Inesperadamente, o futuro parece ter parado ali mesmo. Interrompido por um estrondo ensurdecedor que se ouviu a quilómetros de distância, espalhando a intranquilidade tanto em Nangade assim como no 3º pelotão da 3309 que fazia segurança à Companhia de Engenharia e se camuflava na mata, esse mesmo futuro, que terminava ali mesmo envolto num fumo enegrecido que se elevava ao quilómetro nove, em forma de cogumelo; mas dos venenosos que estrangulam esperanças adiadas, acabava de fundear naquele momento como se fora um navio sem escala, ancorado, sem vida, à espera de entrar num estaleiro de desmantelamento.
Os corvos; quais aves de rapina que esperam tranquilamente uma presa, ainda esvoaçavam por cima do aquartelamento de Nangade enquanto dois Unimogs 404, apressados, apinhados de soldados, se dirigiam, também eles angustiados, para o local do rebentamento tentando ainda recuperar alguma alma perdida, salvando-a daquele inferno que montou acampamento nas proximidades e ao quilómetro nove de Nangade.
Transportadas as vítimas para Nangade numa Mercedes que seguia atrás da Berliet minada e num Unimog 404 que entretanto ali chegara para prestar apoio, junto ao posto médico já muitos militares e elementos da população se acotovelavam para observarem de perto aquele cenário trágico, onde jaziam corpos envoltos em poeira avermelhada, que tentava tingir o verde camuflado das fardas feitas em farrapos que já não podiam camuflar a sua mutilação.
Logo após o estrondo do rebentamento, a preocupação apoderou-se de quem na caserna dos condutores começava a folhear as folhas amareladas de “A Rua” de Manfred Gregor, virando de imediato o seu pensamento para aquele pelotão que acabara de sair para o mato, e, em especial, para aquela figura franzina, doente, mas porque ferida no seu orgulho, preferiu correr em direcção à morte vinte e dois anos após ter nascido sobre as espigas ondulantes das searas alentejanas.
Inerte, estupefacto, tremendamente emocionado pelo o que acabava de presenciar, com as lágrimas desordenadas a correrem-lhe pela face como cascatas a libertaram-se das águas revoltas, Braz, que se fazia acompanhar pelo Nabais, do Foz, do Almeida de outros soldados da 3309, permanecia imóvel, sem conseguir exprimir qualquer sentimento de revolta:
- É a guerra! - disse baixinho Braz para que ninguém o ouvisse e fosse injustamente mal compreendido.
Os corpos, ali estavam amontoados, jaziam, inocentes, sem compreenderem porque é que a tragédia logo tinha que bater à sua porta e não a outra para assim a poderem comentar.

O “Alentejano” (1), com o crânio desfeito, adormecia agora encoberto por um camuflado que ainda "cheirava a sobreiro e a suor do seu povo", e, os seus olhos, semi abertos, pareciam dizer-nos que o deixassem fugir ao encontro das ondas turbulentas das searas que o embalaram em criança. No outro canto do Unimog 404, ao lado do Baltazar também ferido, agonizavam o Portugal, o Vaz, o Sousa de entre as doze vítimas daquela explosão, na companhia de outros dois soldados de origem africana; dos que tinham sido incorporados nas fileiras do exército na cidade de Lourenço Marques e enviados para o norte de Moçambique, para bem longe, tal como os restantes soldados da 3309, das suas aldeias e dos seus afectos agora dramaticamente violentados.
Em silêncio, ao lado de outros soldados feridos no mesmo rebentamento da mina anti-carro que destruiu a Berliet em que seguiam e que aguardavam o helicóptero para os evacuar para o hospital de Mueda, repousavam num sono profundo rostos que denunciavam uma certa angústia porque adivinhavam que jamais ouviriam os batuques dos tambores das suas aldeias; não voltariam a sentir os braços frágeis dos seus filhos nem a humidade das lágrimas das suas mulheres, que continuariam a cair numa qualquer poça de água barrenta feita pelo pisar da lama por uma qualquer bota colonial.
As hélices dos helicópteros, antes de se imobilizarem na pista, provocaram uma turbulenta tempestade de areia, levantando uma nuvem de pó que ofuscou todos os presentes, e que se preparavam para se despedir do seu companheiro morto e dos feridos em combate.
Ainda os helicópteros não se tinham elevado por cima da copas dos cajueiros e das acácias, já os lenços verdes se levantavam em acenos descompassados, ao som de rajadas de metralhadora, numa última homenagem a quem acabava de tombar, sem jeito, nem prosa.
O resto do dia em Nangade terminara cinzento, triste e terrivelmente dramático, sem que o semblante expresso nos rostos dos soldados da 3309 conseguisse exteriorizar algo mais que não fosse uma certa mágoa e uma nítida e indisfarçável angústia, rodeada de um ensurdecedor silêncio deveras perturbador (...)

In: "fardados de lama", páginas 236, 237 e 238. Carlos Vardasca, Alhos Vedros 2008
(1) António José Pereira, 1º Cabo Atirador NM 11934670 da Companhia de Caçadores 3309, falecido em combate no dia 05 de Julho de 1972.
Foto 1: O "Alentejano" (em primeiro plano) numa operação no rio Metumbué, na companhia de outros elementos do seu Grupo de Combate da Companhia de Caçadores 3309. (1971)
Foto 2: O "Alentejano aos 17 anos em Aljustrel (1966) e no Aquartelamento de Nangade junto ao monumento em homenagem aos Combatentes da 1ª Grande Guerra 1914-1918 (1971).
Foto 3: Berliet minada após o rebentamento da mina anti-carro, sendo rebocada para Nangade por uma máquina da Companhia de Engenharia 2736. (05 de Julho de 1972)
Foto 4: Berliet minada em Nangade (05 de Julho de 1972). Ao canto em destaque uma foto do "Alentejano" tirada no Aquartelamento de Nova Torres (1971)

terça-feira, 16 de junho de 2009

Exemplos que marcam os heróis

Depois de ter abandonado o Aquartelamento de Nova Torres devido às cheias, e ter aberto em 25 de Setembro de 1971 um novo aquartelamento a que se deu o nome de Tartibo, a Companhia de Caçadores 3309 finalmente foi rendida, com a chegada a este Aquartelamento de dois Grupos de Combate da Companhia de Artilharia 3506 em 03 de Fevereiro de 1972.
Por razões de ordem táctica, de 14 a 20 de Junho de 1972 inicia-se a Operação "INTEGRAL" comandada pelo Capitão Barros (1) onde participaram 2 Grupos de Combate desta Companhia, com o objectivo de fazer protecção às máquinas de Engenharia na abertura do itinerário entre Tartibo e as coordenadas (1059-3959) onde foi aberto o novo Aquartelamento de Muidine. Entretanto, 2 Grupos de Combate desmontaram a Aquartelamento de Tartibo, carregaram e transportaram todo o material da Companhia em coluna-auto para Muidine onde a Companhia de Artilharia 3506 ficou instalada, onde Grupos de Combate da Companhia de Caçadores 3309 ali se deslocaram por variadíssimas vezes em missão de protecção, mais concretamente o 3º Grupo de Combate que ali permaneceu de 23 de Setembro a 25 de Outubro de 1972.
É neste contexto, e no período de rendição da C.CAÇ. 3309 pela C.ART. 3506 que em Março de 1972 ocorre algo insólito, que comprova o espírito de camaradagem existente entre os soldados em teatro de guerra, mesmo que os actos de coragem sejam exercidos em circunstâncias também adversas, mas em que o inimigo não é a FRELIMO mas o próprio meio natural. Por ser um acto louvável, digno de registo e um exemplo que marca os heróis, passo a transcrever a seguinte Ordem de Serviço emanada do Batalhão de Artilharia 3876, que louva a acção do 1º Cabo Luís Filipe Lopes Gomes, da Companhia de Artilharia 3506:

(...) Que em treze de Junho de 1972, foi louvado o 1º Cabo NM 01535171 Luís Filipe Lopes Gomes, porque no dia dezasseis de Março de 1972, tendo-se oferecido voluntário para uma patrulha de barco no rio Metumbué, quando o grupo em que seguia foi atacado por um enxame de abelhas selvagens, ataque esse em que as abelhas se contavam por milhares e durou cerca de seis horas, deu mostras de abnegação e força de vontade surpreendentes.
Apesar de ser dos mais atingidos, quando viu que o seu comandante de Companhia já estava praticamente sem forças e estando todos metidos dentro do rio, esteve durante perto de duas horas a segurar fora de água a cabeça do Comandante de Companhia impedindo que o mesmo se afogasse. Quando mais tarde, depois do sol pôr no regresso rio acima, num barco em condições muito deficientes, foi ainda o 1º Cabo Gomes quem com muito sacrifício, apesar de gravemente doente e praticamente sem ver, conduziu o barco rio acima até à Companhia, podendo dizer-se sem receio de exagero, que se deve à sua actuação não ter havido consequências mais graves.
Demonstrou o 1º Cabo Gomes grande admiração, espírito de sacrifício e espírito de camaradagem, pelo que é digno de ser louvado e apontado como exemplo a seguir por todos os seus camaradas (...)

(Ordem de Serviço nº 112 de 13 de Junho de 1972 do Batalhão de Artilharia 3876)


In: Região Militar de Moçambique. Batalhão de Artilharia 3877. História da Companhia de Artilharia 3506, 3º Fascículo, período de 25 de Maio de 1972 a 25 de Junho de 1972, páginas 2 e 3. Arquivo Histórico Militar de Lisboa, 2008.

(1) Gabriel Monteiro Magno de Barros, Capitão da Companhia de Artilharia 3506 (de alcunha o "Capitão Pistolas") falecido em 28 de Abril de 1992.
Foto 1: Mapa da localização do Aquartelamento de Muidine. (Cedido pelo ex-Alferes Miliciano Bernardino Cassiano da Companhia de Caçadores 4243, que foi render a Companhia de Artilharia 3506 a Muidine). No mesmo mapa estão assinalados com uma cruz, os locais e as datas do falecimento em combate de militares da Companhia daquele ex-Alferes.
Foto 2: Vista aérea do Aquartelamento de Muidine, vendo-se no canto inferior direito uma extensa lângua onde as nossas tropas se abasteciam de água. No topo da foto pode ver-se o rio Rovuma e as montanhas da Tanzânia.
Foto 3: 1ª Secção do 3º Grupo de Combate da Companhia de Caçadores 3309 comandada pelo Furriel Leite (o único que não está em tronco nu), quando esteve em missão de protecção no Aquartelamento de Muidine.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Que Império?


Que Império ?

Este país que mais amo,
mais houvera, não sentia igual,
oh...que descobertas tão mentidas
como te sentes pequeno Portugal.

Vestiste África por medida
fixas-te valores que não eram teus,
iludiste a tua identidade,
colonizaste os filhos meus.

Impuseste a opressão colonial
amordaçando a voz que não era tua,
mergulhaste no silêncio das viúvas
mentiste, secas-te o suor de quem sua.

Fizeste embarques triunfais
de tropas famintas por desertar,
com mulheres acenando ao vento,
sob peso de botas a marchar.

Regressaste de África nu,
a tudo perdeste o direito,
com o saco das vitórias vazio
nas viúvas a angústia no peito.

Hoje choras com saudade
a orgia colonial que findou,
Portugal, que lindo és
tão pequeno tão saudável,
tão país que ficou.

Esta é a dimensão real
pedaço térreo que somos,
p´ra quê fingir...que Império ?
se colonizados sempre fomos.

Carlos Vardasca
10 de Junho de 2009
Foto de Alfredo Cunha

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Aquartelamento de Nova Torres. Onde a dignidade sobreviveu enlameada

(...) No dia seguinte, e após a chegada às margens do rio rio Metumbué onde os aguardava um dos pelotões da Companhia de Artilharia 2745 que ali tinham chegado em barcos pneumáticos ou a nado, para garantir a segurança da coluna no resto do percurso até ao aquartelamento de Nova Torres, foi aquele momento saudado por todos os presentes como se aquele local fosse a meta de uma qualquer prova desportiva e, exaustos, famintos e extenuados pela noite mal dormida, os soldados depois de sacudirem o pó que acumularam e lhes encardiu as entranhas, finalmente iriam repousar um pouco naquela terra cor de tijolo que ficava a cerca de vinte e cinco quilómetros de Nangade.
Meio desbotada, erguida num tronco de uma árvore que parecia seca, adormecida, flutuava uma bandeira já esfarrapada onde o verde e o vermelho já não brilhavam nem davam expressão a uma presença prenhe de conquistas que embelezaram uma expansão salpicada de massacres, mas que ali assinalava o aquartelamento improvisado
[1], que parecia adormecido entre vários intervalos, que se misturavam entre a beleza da paisagem e o sentimento estranho de quem acaba de chegar e não pretende perturbar a tranquilidade que aparentemente parecia ali reinar, e o ambiente desolador que se vivia naquela frente de batalha, com o aquartelamento de Nova Torres (situado entre dois rios) totalmente inundado pela junção das águas dos rios Rovuma e do Metumbué devido às chuvas torrenciais que se abatiam naquela zona na época das chuvas.
Num breve olhar por todo o aquartelamento que se situava num pequeno morro para evitar a sua inundação, não fora a guerra e as fardas camufladas dos soldados que por ali vagueavam enlameadas por entre todo o material bélico, parte dele submerso, Nova Torres, que ficava a poucos metros de distância dali, assemelhava-se ao Éden propagandeado por qualquer vulgar panfleto religioso. Na cor barrenta das águas do Rovuma emergiam por vezes hipopótamos e crocodilos desconfiados pela presença humana que há muito lhes interrompia a tranquilidade, enquanto pequenos troncos de árvores navegavam no seu leito transportando pequenos pássaros que faziam uma pausa no seu trajecto ao sabor da corrente. No céu, pincelado de um cinzento tumultuoso, esvoaçavam em formação desordenada várias espécies de aves, que num processo migratório acabavam de chegar ao que consideravam ser sua casa e, com o seu piar inquieto, pareciam estar incomodadas com uma presença que há muito consideravam estranha naquelas paragens (...)


In: "Fardados de Lama", páginas 51 e 52. Carlos Vardasca. Alhos Vedros 2008.

[1] A que foi dado o nome de código de “Posição DAMA”, que viria também a ser inundada obrigando as tropas ali estacionadas a abandonar aquela posição e refugiarem-se numa outra elevação e aí montar novo aquartelamento provisório a que se denominou “Posição FLECHA”.
Foto 1: Aquartelamento de Nova Torres. Nas margens do rio Rovuma na fronteira com a Tanzânia. Moçambique 1971.
Foto 2: Aspecto geral do Aquartelamento de Nova Torres antes das inundações. 1971.
Foto 3: Totalmente alagado, o Aquartelamento de Nova Torres apresentava este aspecto desolador. Na foto está o 1º Cabo Auxiliar de Enfermagem NM 05802970, António da Silva Azevedo da Companhia de Caçadores 3309. Moçambique 1971.
Foto 4: Outro aspecto do Aquartelamento totalmente alagado, vendo-se na foto o Soldado Atirador NM 08857867, Luís Joaquim Mendes (de alcunha o "Noivo da Morte") da Companhia de Caçadores 3309, falecido em 1994. Nova Torres 1971.