quarta-feira, 5 de setembro de 2007

03 de Setembro de 1971

(...) Como já vinha sendo hábito na época das chuvas, as águas do rio Rovuma e do rio Metumbué ao transbordarem das suas margens, alagavam totalmente o aquartelamento de Nova Torres que ficava situado entre aqueles dois rios. Foram dias dramáticos que a C.CAÇ. 3309 passou, ao ponto dos seus soldados terem que dormir em cima das árvores durante cerda de quatro semanas; receberem a sua correspondência e os víveres que eram lançados de helicóptero e que regra geral caiam dentro da água. Havia uma necessidade urgente de se encontrar uma outra posição mais elevada para se construir novo aquartalamento, e é com esse objectivo que no dia 03 de Setembro de 1971 três grupos de Combate da C.CAÇ. 3309 iniciam a Operação "BARCA 1" de patrulhamento e interdição da fronteira, sendo detectado um acampamento da FRELIMO com 5 palhotas. Foi efectuado um golpe de mão sobre o acampamento IN, sendo abatidos 5 elementos da guerrilha e capturadas duas Kalashnikov, assim como variado material de guerra. É precisamente neste local onde se situava a pequena base da FRELIMO, que mais tarde se vai construir o futuro aquartelamento da C.CAÇ.3309 a que se dá o nome de Tartibo, e onde esta Companhia irá passar os momentos mais dramáticos da sua missão no norte de Moçambique (...)
Carlos Vardasca
05 de Setembro de 2007
Nota 1: Na foto, elementos da C.CAÇ.3309 depois da conquista da base à FRELIMO.
Nota 2: Elementos retirados do Arquivo Histórico Militar. Região Militar de Moçambique. Batalhão de Artilharia 2918. História da Unidade, 14º Fascículo, página 1 (Setembro de 1971)

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

"...fomos para a guerra, mas nem todos eramos ingénuos..."


(...) É bastante compreensível que a grande maioria dos soldados tivessem ido para a guerra colonial com aquele espírito patriótico de "defender a pátria dos terroristas", embora transportassem em si todos os medos que lhe estavam associados, devido à sua participação num conflito com aquelas dimensões. O regime Marcelista assim o impunha, apoiando-se num povo com condições sócio-económicas muito frágeis, na sua grande maioria inculto e bastante vulnerável às "conversas em família". Uma pequena "minoria esclarecida" desertou, recusou-se a ir e por esse facto foi presa pela PIDE/DGS ou, por diversas circunstâncias, outros viram-se na obrigação de participar naquele conflito de má memória, sentindo que, se não fossem, as represálias do regime se fariam sentir sobre os seus familiares. Eu fui daqueles (entre muitos outros) que participei no conflito colonial com a perfeita convicção de para onde ia e o que estava em jogo (embora contrariado e com uma tremenda revolta dentro de mim) mas, apesar de tudo, todos nós, os que nos encontrávamos nessas circunstâncias, fomos para a guerra mas não eramos ingénuos.

Havia sempre formas de exteriorizar os nossos pensamentos (embora de uma forma bastante discreta) ora conversando em surdina, ou pintando nas paredes das casernas algo que se relacionasse com esse descontentamento. Sabendo das minhas convicções, alguns elementos da C.CAÇ. 3309 um dia disseram-me:

- É pá Braz! tu que tens algum jeito para o desenho, pinta lá qualquer coisa mais sujestiva aqui na oficina, para que as paredes não fiquem assim tão deslavadas.

Eu sabia muito bem o que eles queriam dizer com "sujestiva", mas havia que ter bastante cautela com aquilo que diziamos ou faziamos, porque haviam sempre olhos bem atentos aos nossos movimentos. Ainda estava bem presente em mim o famigerado movimento de contestação de Maio de 68 e da Guerra do Vietname que acompanhei com bastante interresse através dos jornais e da televisão; o festival de Vilar de Mouros (formato antigo) que assisti em 1968 com apenas 18 anos, onde ouvi pela primeira vez ao vivo Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira entre outros; o Festival de Woodstock em 1969 que assisti à distância; todo aquele aparato do movimento Hippie que vivi com bastante entusiasmo, assim como o programa Zip-Zip da RTP que de certa forma transmitiu coisas muito interessantes para a época.

Então, lembrei-me (e como na altura; 08 de Agosto de 1971, estava a decorrer o Festival de Vilar de Mouros onde actuaram Elton John, Manfred Mann, Quarteto 1111 entre outros, como foi o caso de Amália Rodrigues que me pareceu nada ter a ver com aquele estilo de festival, mas enfim...) de desenhar nas paredes da oficina da C.CAÇ. 3309 no aquartelamento de Nangade, algo alusivo aos movimentos hippies e que está exposto na foto, que fiz acompanhar com os nomes dos camaradas que faziam parte da "Ferrugem" (1) e das suas terras de origem para lhe dar um ar mais discreto e inofensivo.

A coisa parecia ingénua, mas a mensagem de protesto e de contestação à guerra estava lá, (Make Love Not War) tanto que o "grafitti" não foi lá muito do agrado do nosso capitão que ainda insinuou para que o apagasse-mos. Entretanto, e como ele foi destacado para o aquartelamento de Tartibo, aquelas paredes, para nossa satisfação continuaram decoradas ao nosso gosto. Era naquela oficina que se faziam os grandes petiscos e nos refugiavamos da rotina do "arroz com peixe", mas também era ali que, encharcados em "Laurentinas" ou "2M" e empanturrados por galinhas gamadas nos aldeamentos" que os nossos desabafos se transformavam em lamentos e estes em protestos, e se exteriorizavam as nossas inquietações, embebidas em revolta por nos terem enviado para aquela guerra "sem jeito nem prosa" (...)


(1) Denominação atribuída aos militares com a especialidade de Condutores e Mecânicos da Companhia de Caçadores 3309.


Carlos Vardasca
24 de Agosto de 2007

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

23 de Agosto de 1971


(...) Decorria o dia 23 de Agosto de 1971, e a coluna de reabastecimento seguia lentamente num movimento agonizante, debaixo de um calor abrasador que nos encharcava o camuflado e nos queimava o rosto carregado de incertezas. Tendo saído de Palma pela manhã com destino ao aquartelamento de Pundanhar, antes deste aquartelamento e ao quilómetro 10, a viatura onde eu seguia accionou uma mina anti-carro que me projectou do volante para as traseiras da viatura, onde apenas sofri pequenas escoriações num braço e sem qualquer gravidade. Como logo de seguida a coluna fora atacada com armas automáticas pelos guerrilheiros da FRELIMO, só após o cessar do tiroteio é que se pode tratar dos soldados feridos em virtude do rebentamento da mina. Ao lado da Berliet com a parte de frente totalmente destruída, agonizava um soldado africano das nossas tropas e pertencente à Companhia de Caçadores 2703 estacionada em Pundanhar, que, ao saltar da viatura após o rebentamento da mina anti-carro, accionou uma armadilha colocada na berma da picada, onde um dos estilhaços da granada lhe perfurou profundamente a cabeça, ligeiramente acima do olho. Antes de chegar o enfermeiro, ainda tive tempo de lhe tapar o ferimento com vários lenços e até com parte do meu camuflado que rasguei na tentativa de lhe estancar o sangue, mas, tal era a profundidade do ferimento que o sangue não parava de sair em golfadas. Passados quase 35 anos, parece que ainda estou a ouvir aquele soldado a implorar-me (e mais tarde ao enfermeiro que entretanto chegou) que o salvasse, dizendo ao mesmo tempo (no meio da sua agonia que o fazia triturar as palavras à medida que ia desfalecendo) como se adivinhasse a sua "sorte":

- Salvem-me, porque ainda quero ver os meus filhos a brincar no aldeamento onde nasci...

- Salvem-me por favor, porque ainda quero ouvir o som dos batuques da minha aldeia, e cheirar a mandioca esmagada no pilão pelos braços frágeis da minha mulher...

Não cheguei a saber o nome deste soldado porque não pertencia à minha Companhia, mas seguia ali na coluna de reabastecimento fazendo parte de um pelotão de protecção à mesma. Antes de o helicóptero de evacuação chegar, já o soldado africano tinha falecido apesar dos esforços do enfermeiro, sendo evacuado para o Hospital de Mueda, assim como outros feridos com alguma gravidade em resultado da emboscada que se seguiu ao rebentamento da mina anti-carro, e às várias armadilhas que rebentaram e que estavam espalhadas pela mata circundante.

Porque também alguns soldados moçambicanos foram vítimas da violência colonial. Porque a "bota colonialista" também esmagou e enlutou mulheres moçambicanas, aqui fica um abraço solidário de quem sobreviveu.

Carlos Vardasca
23 de Agosto de 2007

Nota: Na foto, o momento da evacuação do 1º Cabo Atirador NM 13382970 da Companhia de Caçadores 3309, António Natálio Sequeira Serrinha, gravemente ferido em 14 de Julho de 1971.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

"a liberdade de escolhermos os nossos livros"


(...) desde muito criança que tenho hábitos de leitura. Nem sempre os livros que passaram pelas minhas mãos foram os melhores, mas era o que se arranjava na altura. Tive experiências traumatizantes no que se relaciona com o acesso à leitura mas, neste caso, por imposição do colégio onde me encontrava internado. Quando a Guerra Colonial começou, em 1961, tinha eu 11 anos, e encontrava-me no Colégio Nuno Álvares Pereira em Lisboa e, por paradoxo que pareça (isto contado ninguém acredita) todas as noites, antes de nos deitarmos e apesar da nossa tenra idade, obrigavam-nos (como se nós percebesse-mos alguma coisa do que se estava a passar) a ouvir os comentários do famigerado comentador do regime Ferreira da Costa, que, via rádio, informava o país dos últimos acontecimentos em Angola. Um dia, para nosso espanto, foram-nos distribuídos (o que nunca deveria ser feito a crianças daquela idade) pequenos livros, cujas ilustrações se referiam ao conflito colonial em Angola, onde se podiam ver famílias de colonos e seus colaboradores massacrados pela UPA. É claro que o objectivo do regime era tentar moldar o pensamento daquelas crianças, e torná-las permeáveis à assimilação, através do medo, a uma lógica colonialista em que muitas delas (como foi o meu caso) mais tarde foram obrigadas a participar.

Vejam lá! isto tudo a propósito de leitura. De facto as conversas são como as cerejas. Apesar de naquela "clausura" do colégio e da manipulação das consciências de que muitas crianças foram vítimas na maioria das instituições do Estado Novo, cada uma delas hoje tem personalidade própria, e os seus hábitos de leitura não têm nada a ver com os que lhes tinham sido impostos. Isto tudo para vos dizer que, como já vem sendo hábito quando vou de férias, levei para ler dois livros bastante interessantes (aliás, um já ia quase meio lido) e que me deram bastante prazer. Um deles foi, "A ilha da trevas" de José Rodrigues dos Santos, romançe que retrata a situação em Timor-Leste desde a invasão indonésia até à independência. É de facto um livro dramático sobre a história de um povo sofrido, mas que soube lutar pela sua liberdade. O outro, "mais leve", com o título, "As mulheres do meu pai" de José Eduardo Agualusa, que nos transporta para o fascínio de África, revela-nos a intensa procura da personagem pelas mulheres de seu pai, que se reparte por Angola, África do Sul e Moçambique. Este livro é escrito de uma forma que, à medida que nos vamos envolvendo na sua história, vamos "saboreando" os vários frutos tropicais, sentindo a humidade do cacimbo e o fascínio do pôr do sol em África.
Se querem saber a minha opinião, são de facto dois livros que se recomendam (...)


Carlos Vardasca
23 de Agosto de 2007

sexta-feira, 20 de julho de 2007

As nossas primeiras baixas


(...) O aquartelamento de Nangade ficava situado num planalto (Planalto dos Macondes) e, na época, procedia-se à construção de uma estação de tratamento de àguas que passariam a ser bombeadas do rio Litinguinha, que ficava num vale a cerca de três quilómetros de distância. Naquele dia, de manhã, era necessário levar trabalhadores agrícolas membros da população local, que iam trabalhar nas machambas situadas junto àquele rio, e o Victor (Didiá) ofereceu-se para ser ele o condutor de serviço. Pelo caminho, encontrou o Sousa (Básico) também da Companhia de Caçadores 3309 que acabara de sair de reforço onde estivera toda a noite, convidando-o para ir com ele ao que este acedeu de imediato embora estivesse com mais vontade de se ir deitar.

- Anda daí "Básico", faz-me lá companhia: - nós não demoramos nada e voltamos num instante.

Depois de os trabalhadores agrícolas e um Furriel que estava adido ao Batalhão de Artilharia 2918 entrarem para o Unimog 404, O Victor inicou o percurso na picada com uma descida muito íngreme logo à saída de Nangade e que dava acesso ao vale, não se prevendo que algo de trágico estaria para acontecer.

Depois de terem percorrido cerca de dois quilómetros e meio e prestes a chegar ao posto avançado situado junto ao rio, dá-se uma violenta explosão de uma mina anti-carro altamente reforçada, causando a morte de 8 trabalhadores agrícolas, ficando cinco deles gravemente feridos, assim como o Furriel que também seguia na viatura que sofreu ferimentos ligeiros. O Sousa, teve morte imediata, mas o Victor, com a violência da explosão ainda foi cuspido para fora da viatura indo cair no mato sem qualquer ferimento, sendo no entanto esmagado pelo Unimog 404 que, devido ao impacto de explosão, se elevou no ar e foi precisamente cair em cima dele, esmagando-o, provocando a sua morte.

A Companhia de Caçadores 3309 estava em Cabo Delgado à apenas cinco meses quando no dia 20 de Julho de 1971 sofreu logo aqueles duas baixas de uma forma tão trágica. Em Tartibo, onde a C.CAÇ. 3309 estava estacionada, a notícia foi recebida com grande consternação e pesar, uma vez que tanto o Victor como o Sousa eram dois bons companheiros e amigos e, acima de tudo, dois excelentes camaradas (...)

Aqui fica a singela homenagem e um abraço solidário de quem sobreviveu.


Carlos Vardasca
20 de Julho de 2007


Nota: Na foto pode-se ver o estado em que ficou o Unimog 404 após a explosão, assim como as fotos do Victor e do Sousa.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

"Uma infância que nos foi roubada"


(...) Foi de facto um período "sem infância e sem brinquedos". Colocado desde os quatro anos de idade em sucessivos colégios onde senti que me tentavam moldar "o espírito e a alma", afinal dei naquilo que sou hoje; um "empertigado inconformista", rebelde, "ateu invertebrado" mas tremendamente solidário. Como fora possível que aquele menino de calções curtos, de meia alta até ao joelho e de fitinha no braço da 1ª comunhão, extremamente carente de afectos, viesse a ser a "personagem" que hoje sou? Foi ali mesmo, naquele colégio de freiras em S. João do Estoril que começou a ser moldada a minha personalidade, por paradoxo que seja. Tinha eu sete anos de idade (1956) quando de visita ao colégio, marinheiros da Marinha de Guerra dos EUA ali se deslocaram para ofertar brinquedos àquelas crianças à muito carentes do aconchego familiar. A mim calhou-me um pequeno comboio (uma máquina e duas carruagens) que rodava numa pequena linha em círculo. Até aí nunca tivera um brinquedo, e o fascínio que sentia dentro de mim moldou nos meus lábios vastos sorrisos e uma alegria imensa que parecia do tamanho do mundo. Só brinquei com o comboio naquele dia e inesplicávelmente nunca mais o vi, o mesmo acontecera com os restantes brinquedos que foram oferecidos aos outros meninos. No mês seguinte, deslocou-se ao colégio uma equipa de cinema françês para ali fazer uma curta metragem sobre os meninos "expulsos dos afectos", oferecendo também alguns brinquedos aos que participaram nas filmagens. A mim desta vez coube-me um boneco de pano onde se enfiava a mão e esta gesticulava a sua boca como se o boneco estivesse a falar. Com receio que o boneco tivesse a mesma sorte do comboio, refugiei-me na casa de banho, enquanto sentado na sanita brincava com aquele pedaço de pano que me "olhava desconfiado" e que me parecia querer dizer:

- "Estás triste! porquê? receias que me vá embora"? Cá fora, a Madre Superiora andava atarefada à procura dos meninos que participaram nas filmagens, dizendo que era para se juntarem e tirarem uma foto em grupo para os realizadores da película levarem consigo para o seu país. Ainda tentei ficar mais tempo na casa de banho escondido, mas os murros fortes (bastante agressivos até) que aquela religiosa dava nas portas obrigaram-me a sair.

Em vez da foto, todos os miúdos foram despojados (novamente) dos seus brinquedos para nunca mais os verem. Quando aquele boneco me foi arrancado dos braços senti uma angústia tão grande que até pareceu que me tinham "arrancado um pedaço de mim".

Mais tarde, num dos passeios que era hábito dar-mos pelas ruas de S. João do Estoril na companhia de algumas freiras, estupefactos, reparámos que numa das montras de um estabelecimento lá estavam os nossos brinquedos que nos tinham sido "arrancados sem jeito nem prosa". Por estranho que pareça, e no meio da nossa inoçência, até ficámos felizes por os termos encontrado de novo. Através do vidro da montra, cada um, referindo-se ao seu brinquedo, extasiava-se de alegria, embora sabendo que jamais o poderia ter de volta, mas também não compreendendo (na altura, mas hoje já está bastante claro) como, e porquê e de que jeito é que eles ali foram parar.

Foi de facto "um tempo que nos foi roubado" por aquelas devotas de deus que, associadas a outras por si efectuadas, acabaram por moldar (pelo menos a mim, e não sei se a todos os miúdos que estão na foto da época) um pedaço da minha personalidade (...)

Carlos Vardasca

19 de Julho de 2007

Nota: foto tirada aos sete anos de idade (1956), no dia da 1ª Comunhão em S.António do Estoril (eu sou, na fila em baixo, o último do lado direito).

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Nem sempre eramos camaradas!


...Havia necessidade de se realizar uma coluna de reabastecimento ao aquartelamento de Muidine, e o Furriel do 4º Grupo de Combate da C.CAÇ. 3309 andava atarefado a avisar os elementos do seu pelotão que a saída para o mato estava para breve:

- Malta, vamos lá a despachar que a coluna tem que sair pela fresquinha. Como o 1º Cabo António José Pereira ("Alentejano") se manteve imóvel deixando-se ficar sentado na cama, despertou a curiosidade do Furriel que lhe questionou:

- Epá "Alentejano", tu estás amarelo como o caraças, o que é que tens?

- Estou cá com uma camada de paludismo que nem me aguento nas pernas meu furriel.

Dotado de alguma compreensão, o Furriel ordenou que o "Alentejano" não fosse naquela operação, mas ficasse no quartel a restabelecer-se dos "frios e calores que lhe inundavam o corpo". A um canto da caserna, de especto rude, que fazia lembrar as rugosas montanhas transmontanas, um soldado dirige-se ao Furriel em termos pouco civilizados e remata com alguma violência verbal:

- Olhe lá meu Furriel! então esse "mouro" d'um cabrão não vai para o mato porquê?

- Então não vê que ele está apenas a fazer ronha só para não ir com a malta?

O "Alentejano", apercebendo-se da agressividade do companheiro de pelotão, dirigiu-se ao furriel dizendo-lhe que afinal contasse com ele, pois iria tomar um LM e logo ficaria bom, "só para que não restassem dúvidas e desconfianças sobre a sua pessoa" - disse. O Furriel ainda insistiu para que ele não fosse mas o "Alentejano", teimoso e ferido no seu orgulho insistiu também:

- Não meu Furriel! eu vou só para calar a boca àquele galego de merda.

A coluna acabara de sair pela madrugada do dia 05 de Julho de 1972. O dia estava lindíssimo e nada previa que algo viesse a acontecer, uma vez que o percurso iria ser efectuado pela picada nova que dava acesso ao aquartelamento de Muidine recentemente construído, bastante espaçosa, e onde se pensava ser difícil colocar qualquer mina, uma vez que a mesma era bastante frequentada pelas máquinas da Companhia de Engenharia 2736 que procedia à sua construção.
Pelo caminho e antes que as viaturas militares chegassem ao arame farpado, o "Alentejano" ainda avistou o seu mainato e lhe perguntou pela sua roupa que ele tinha levado para lavar:
- Ernesto! se a minha roupa estiver lavada, guarda-a na tua palhota que amanhã quando vier de Muidine eu vou lá buscá-la - ao que este respondeu:
- Ficar descansado que os teu roupa já estar lavado!
Ainda o pó levantado da última viatura não tinha pousado na terra batida da picada, aconteceu (o que era frequente nas outras picadas) o que ali parecia improvável.
Inesperadamente, ao quilómetro 9, a Berliet que seguia na frente accionou duas minas anti-carro (ficando outras duas por rebentar) causando à C.CAÇ. 3309 14 feridos, quatro deles com alguma gravidade, e um morto.
O morto em causa era o "Alentejano", que a falta de camaradagem (talvez inconsciente) atirou para o meio daquele fumo espesso, enegrecido, que se abateu sobre o seu camuflado que "ainda cheirava a suor brotado depois de um dia abrasador numa qualquer ceifa", e os seus olhos, bem abertos, "pareciam querer ainda olhar pela última vez e acariaciar as espigas ondulantes da sua seara que dizia crescer nos arredores de Aljustrel..."
Fez precisamente, no passado dia 05 de Julho 35 anos do seu falecimento, e aqui lhe presto a sentida homenagem, que os homens simples e justos são dela merecedores.
Carlos Vardasca
18 de Julho de 2007