sábado, 29 de março de 2008

" O sossego do barbeiro"

(...) Tinha todos os dotes da arte de bem barbear e do esquartejar das fartas cabeleiras, que não resistiam às tórridas temperaturas que sopravam do Índico e se transformavam em carecadas exemplares que diziam pulsar de fresquidão. O Rodrigues (1) de alcunha o "barbeiro", depois de chegar do mato e de descansar o tempo que lhe era permitido, lá ia direitinho ao seu "posto de trabalho" à espera dos fregueses a quem cobrava algumas "quinhentas", que investia sem demora na frescura das 2M (2) que exibia como troféu e dizia ser o lucro possível da sua arte de bem "tosquiar". A "barbearia", na ausência daquele profissional que se encontrava no mato em operações integrado no seu Grupo de Combate, tornava-se um lugar inóspito, por vezes interrompido pelo chapinhar da água que escorria de um bidom meio ferrugento, que transformava aquela "oficina de um barbeiro ausente" num imenso balneário colectivo onde os "guerreiros do império" se livravam das poeiras do tempo e das angústias da guerra. De regresso ao Aquartelamento, logo que podia, sentava-se nos pequenos degraus esculpidos no tronco onde pendurava as ferramentas, e ali esperava pela clientela que não tardava, enquanto vasculhava as notícias do jornal regional que recebia com alguma regularidade e lhe anunciavam notícias da terra (...)
Carlos Vardasca
29 de Março de 2008
Foto: O "Barbeiro", aguarda tranquilo que a freguesia se aproxime do seu atelier de "corte e penteadura" no Aquartelamento de Tartibo. Moçambique 1971
(1) Artur Salgado Rodrigues, Soldado Atirador da Companhia de Caçadores 3309
(2) Marca de cerveja de Moçambique.

É hora do tacho em Nangade

(...) Ao som de pancadas que tilintavam fortes num ferro pendurado no cajueiro, os soldados aproximavam-se em fila indiana da cozinha, respondendo àquele chamamento que indicava que se aproximava a "hora do tacho" em Nangade. Como aquele som era audível nos dois aldeamentos que ladeavam o Aquartelamento, as crianças corriam desordenadamente para junto da cozinha militar na ânsia de também poderem partilhar daquele "manjar", onde aguardavam, sentados de cócoras, até ao final pela sua distribuição pelos militares. Dos caldeirões negros fumegava um odor que nos recordava uma ementa bastas vezes ingerida (que não fosse a escassez de alimentos jamais seria tragada) onde, num acto de malabarista, a solidez do arroz o mantinha colado à marmita e o cachucho meio queimado há muito que adivinhava a sua sorte. Cada soldado, depois de receber o seu quinhão de um cozinheiro mal humorado, sentava-se onde podia; no chão à porta da caserna ou em mesas de madeira meio toscas, construídas com tábuas de barris já sem qualquer proveito, enquanto algumas crianças, sentadas em pontos estratégicos esperavam ansiosamente por qualquer sobra. Os seus olhos, onde o brilho há muito já perdera qualquer reflexo, olhavam-nos vigilantes, sempre atentos a qualquer movimento que lhes devolvesse qualquer esperança, em partilhar o resto do rancho que acabava sempre por sobreviver a um canto da marmita. Quem é que comia tranquilo sabendo à sua frente crianças desnutridas, famintas, que desesperadamente se debatiam com a fome, com os seus olhos a implorar compaixão? A comida do rancho não era farta nem sobre a sua qualidade havia qualquer dúvida; era simplesmente intragável, mas, à falta de melhor, lá se conseguia "empurrar" com a ajuda de um copo de "água de Lisboa" (1) que já vinha caldeada da Manutenção Militar, o que era notório pela sua transparência que deixava ver o fundo do copo. Era raro o militar que não deixava uns restos para saciar o apetite devorador da criança mais próxima (sempre a troco da lavagem da marmita) e era impressionante ver como as suas mãos frágeis, feitas em concha, tentavam levar à boca aqueles escassos bagos de arroz que a muito custo conseguira juntar, misturados com pequenas lasca de peixe que teimosamente se mantinham acomodadas às espinhas, e que serviam de complemento à sua dieta diária, composta (ano após ano) por farinha de mandioca triturada no pilão da família, e por massarocas de milho apanhadas nas machambas um pouco distantes e muito para lá do arame farpado (...)
Carlos Vardasca
29 de Março de 2008

Foto: Eu (de calções e meias até ao joelho) o Arteiro (de calções e camisa camuflados) e outros companheiros do Batalhão de Artilharia 2918, aguardamos na "bicha"a nossa vez para recebermos "arroz com peixe" junto à cozinha no Aquartelamento de Nangade.

terça-feira, 25 de março de 2008

"Não sei se volto desta"


(...) Era de manhã, bastante cedo, pelas 05,00 horas da madrugada que os soldados eram acordados de um sono que fora bastante irrequieto. O Aquartelamento tinha sido atacado nessa noite, a havia que fazer o reconhecimento na área circundante, para depois se partir em direcção à picada ao encontro da coluna de reabastecimento que já partira de Pundanhar com destino a Nangade. No meio da azáfama dos preparativos para a operação, os olhos dos soldados cruzavam-se numa cumplicidade que era partilhada por todos, e que se misturava numa intensa preocupação que se diluía no colectivo da incerteza.

- Vá lá malta, temos que sair cedo antes que os turras cheguem lá primeiro que nós - dizia o Alferes que ia comandar o Grupo de Combate a quem fora incumbida a missão, que foi logo interrompido por um soldado que estava mais próximo:

- Oh meu Alferes, deixe-se de tretas, se calhar eles ao saberem que está prestes a passar uma coluna na picada nem dormiram esta noite, e já lá estão à nossa espera.
Era assim, neste ambiente de incerteza que se vivia diariamente cada vez que se saía para uma operação, com os soldados a deixarem arrumadas todas as suas pertenças nas tendas, como se o pressentimento de um regresso incerto pairasse por cima das suas consciências como a humidade do cacimbo que sobrevoava sobre o capim.
- Epá, estás a deixar isso tão arrumadinho, até parece que é desta que já não voltas ao quartel!
- Sei lá! - disse o "Pragal" (1) - continuando com o seu desassossego:
- A FRELIMO tem feito tantas emboscadas ultimamente, que um gajo já nem sabe se é desta que nos calhada a nós "lerpar que nem um tordo".
Antes de o Pelotão iniciar a marcha e mergulhar naquela mata densa, o "Pragal" ainda voltou à tenda e entregou ao soldado que estava mais próximo um pequeno impresso amarelado, dizendo-lhe muito baixinho:
- Olha! - mais logo, se o helicóptero vier, mete-me este "bate estradas" (2) no saco do correio, pois "eu não sei se volto desta".
Era nesta constante incerteza que se vivia na frente de batalha, com os soldados a questionarem diariamente a sua sobrevivência, que estava sempre dependente de factores externos à sua própria vontade e em resultado da lógica da guerra.
No dia seguinte, de regresso ao quartel, todas as angústias eram afogadas nas "Laurentinas" (3) que se emborcavam para saciar a sede, enquanto outro Grupo de Combate acabava de sair para nova patrulha, como se fossem "anjos protectores" de quem agora fazia por descansar um pouco, ainda envolto pelo pó que tornava irreconhecível o rosto tisnado pelo calor e pela terra da cor do barro que se soltava da picada (...)
Carlos Vardasca
25 de Março de 2008
Foto: Soldados da C.CAÇ. 3309 numa patrulha na picada entre Tartibo e Pundanhar. Moçambique, 1971
(1) Alcunha do 1º Cabo Atirador Manuel das Dores Ricardo da C.CAÇ. 3309 (falecido na Vila do Pragal em 2005)
(2) Aerograma
(3) Marca de cerveja de Moçambique

domingo, 23 de março de 2008

"A minha África"


(...) Quando se partilha de uma certa tranquilidade, é sempre o momento propício para rever alguns filmes que nos fascinaram pela sua história, pela beleza paisagística, e pelo sopro dos ventos de África que nos trazem o cheiro do capim queimado, ao som da excelente música escrita por John Barry. "África minha" é uma dessas belezas da Sétima Arte que preenche de uma certa nostalgia quem por lá andou, embora noutras circunstâncias que eram de facto bem diferentes. Quando recordo África não é pelas mesmas razões da história desse belíssimo filme, mas por outras que foram moldando o meu tempo e o modo como hoje ainda as vivo. Ao olhar África a esta distância, recordo-me do momento em que embarquei no Niassa e os meus olhos pareciam fotografar o seu pôr-do-sol; as queimadas que diziam iluminar a noite na mata densa invadida pela escuridão, assim como o choro angustiante das hienas que rondavam os aquartelamentos. Quando me recordo de África, assalta-me a memória as cumplicidades partilhadas com os meus companheiros no fundo do porão do navio que nos transportou para aquele inferno; os momentos gélidos quando a Companhia de Caçadores 3309 mergulhou no Índico para fazer a sua aproximação às praias de Palma e os momentos dramáticos vividos nas margens do rio Rovuma. África obriga-me a recordar imagens de rara beleza mas que não as podíamos beber com a contemplação que exigia o momento, pois caminhávamos exaustos pelo capim com outras preocupações que nos prendiam a respiração e nos estrangulavam a alma, não fosse o sopro de uma bala nos "rasgar aquele quadro pintado sobre a copa dos embondeiros e das acácias" e nos fazer tombar na berma da picada. Ainda hoje África me recorda o rufar dos tambores por cada companheiro tombado sem jeito nem glória, ao serviço de "uma pátria que os pariu e os enjeitou" para endeusar falsos heróis que bebiam na mesma gamela dos fazendeiros e se espojavam nos lucro dos cafezais. A África que me recordo traz-me à memória as longas noites ensurdecedoras dos batuques, iluminadas pelas fogueiras que ajudavam a clarear o Planalto dos Macondes, e que ajudavam a queimar as memórias de tantas infâncias agora distantes, enquanto o orvalho da manhã transformava em gotas o cacimbo que teimosamente escorria sobre o capim. África recorda-me o imponente pôr-do-sol que se escondia para lá das montanhas da Tanzânia, e que no seu recolhimento deixou escurecer a juventude de milhares de jovens que nele se aqueciam, para tombarem sem jeito nem prosa "ao serviço de uma pátria que não os mereceu e deles se serviu em troca de nada". Não posso recordar as fascinantes paisagens de África e do seu deslumbrante pôr-do-sol, sem me lembrar das baixas ocorridas em combate por parte do Batalhão de Caçadores 3834:
Companhia de Caçadores 3309 - 4
Companhia de Caçadores 3310 -14
Companhia de Caçadores 3311 - 1
Assim como dos seus feridos em combate, alguns deles com alguma gravidade:
Companhia de Comando e Serviços - 3
Companhia de Caçadores 3309 - 23
Companhia de Caçadores 3310 - 44
Companhia de Caçadores 3311 - 10
A África que eu recordo é tudo isto, mas também os encontros onde nos reunimos anualmente com uma imensa felicidade, onde homenageamos todos aqueles que já não estão connosco e que, "no seu sono eterno" nos fazem ainda recordar os laços de camaradagem que se fortaleciam com o clarear da savana e o troar dos canhões que jamais os farão apagar da nossa memória (...)
Carlos Vardasca
23 de Março de 2008
Foto: Pôr-do-sol em Cabo Delgado. Moçambique 1971

sexta-feira, 21 de março de 2008

"... Sucumbiu à nossa ingratidão e teve um fim inglório"


(...) Não fosse a sua anterior utilidade, aquela caixa não nos despertaria tanta angústia apesar da sua "nova missão". Ali estava ela, inerte, pendurada no tronco da palmeira que servia também de pau de bandeira, sempre pronta a deixar-se esventrar, sempre indiferente a quem nela depositava as suas "lamurias" e outros tantos segredos, para serem lidos por alguém que deles necessitava como da sua própria existência.
Outrora fora um cunhete de munições onde repousaram granadas de morteiro 81mm, mas agora aquela caixa cumpria a missão de fazer de "Marco do Correio" do Aquartelamento de Nova Torres.
Era nela que os soldados da Companhia de Caçadores 3309 ali estacionados depositavam todas as esperanças em clarificar algumas incertezas forjadas pela distância ou diluídas pelas cheias do Rovuma; questionavam a ausência de notícias que começaram a escassear pela distância; tentavam dar algum alento a amores bastas vezes traído pela ausência, ou então jurar e reivindicar fidelidades a quem se prometera na hora da partida.
Aquela caixa, apesar da sua robustez (que talvez impressionasse os frágeis aerogramas nela depositados) era uma fiel confidente dos lamentos e das inquietações de todos quantos ali tentavam sobreviver, dando-lhes a confiança de que as várias confissões e incertezas ali depositadas seriam, lá longe, numa qualquer aldeia de xisto ou no rebuliço da urbanidade, desfeitas ou confirmadas e outras tantas mal resolvidas, algumas delas depois de serem vasculhadas pela PIDE, não fossem elas transportar nas entrelinhas pequenas revoltas ou alguma ingenuidade traduzida pelo descontentamento.
Embora confidente daqueles soldados durante vários meses, aquela pequena caixa agora sem qualquer utilidade, também ela sucumbiu sem nenhum lamento à nossa ingratidão e teve um fim inglório, tal como foi inglória a nossa presença naqueles "subúrbios do céu", deixada para traz quando o Aquartelamento foi abandonado e entregue à voracidade das águas barrentas do rio Rovuma (...)
Carlos Vardasca
21 de Março de 2008
Foto: "Marco do Correio" do Aquartelamento de Nova Torres, na fronteira com a Tanzânia nas margens do rio Rovuma. Moçambique 1971.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Para dormir tinhamos que subir às árvores




(...) Havia muito pouco tempo que a Companhia de Caçadores 3309 tinha chegado a Nova Torres, mas tinha sido impossibilitada de se instalar naquele Aquartelamento de onde já se tinha retirado a Companhia de Artilharia 2745. Ambas as Companhias encontravam-se agora refugiadas na "Posição DAMA", nome de código atribuído e uma pequena elevação a cerca de 600 metros do Aquartelamento de Nova Torres, que se encontrava totalmente alagado pelas cheias e em consequência da junção das águas dos rios Rovuma e Metumbué. Embora ali refugiados, ninguém estava tranquilo, pois as águas continuavam a subir substancialmente, ao ponto de estar também eminente a inundação daquela pequena elevação, sendo urgente encontrar nova posição de emergência pois foi necessário os soldados durante a noite refugiarem-se no cimo das árvores onde passaram a viver durante algumas semanas. Para o efeito saiu um Grupo de Combate em barcos de borracha que, depois de encontrarem um novo local a sul do rio Metumbué, denominaram essa nova pequena elevação de "Posição FLECHA", e aí ficaram instalados provisoriamente todos os efectivos de ambas as Companhias. Apesar de totalmente alagado, do Aquartelamento de Nova Torres ainda sobressaíam ao longe pequenas elevações, onde se refugiavam das inundações alguns animais selvagens uma vez que toda a área circundante estava alagada, sendo visível bastantes crocodilos que vagueavam agora pelas trincheiras inundadas do Aquartelamento.
Foram momentos dramáticos vividos por ambas as Companhias, especialmente pela Companhia de Caçadores 3309 que ali ficou estacionada, dado ter rendido a Companhia de Artilharia 2745 que ao fim de alguns dias se deslocou para Nangade, Aquartelamento situado já no Planalto dos Macondes onde as cheias já não se faziam sentir, "nem o desespero de quem ficou nas áreas inundadas se fazia ouvir" (...)


Carlos Vardasca
19 de Março de 2008

Foto 1: 1º Cabo Apontador de Metralhadora José Gomes Gonçalves e o 1º Cabo Atirador Jaime Pereira Marques da C.CAÇ. 3309, em plena Operação nas proximidades do Aquartelamento de Nova torres.
Foto 2: 1º Cabo Apontador de Metralhadora José Gomes Gonçalves, 1º Cabo Atirador Jaime Pereira Marques e o Soldado Baltazar da Silva Carneiro da Companhia de Caçadores 3309, durante a mesma operação na área inundada próximo do Aquartelamento de Nova Torres.

terça-feira, 18 de março de 2008

"Quem cala consente"

Bartoon por Luis Afonso
Jornal "Público" de 18 de Março de 2008