quinta-feira, 29 de novembro de 2007

"Os 15 anos da minha carcaçinha"


(...) Há momentos de felicidade na nossa vida que nunca ninguém os irá conseguir apagar de nós. Eu, ao contrário de alguns mortais, ao longo da minha existência não tive muitos, mas os poucos que tive o privilégio de viver, fui sabendo saborear o seu fascínio e conviver com todos eles, com a noção de que aqueles momentos foram alguns dos pedaços da minha vida que jamais alguém os irá arrancar de mim. O nascimento de uma segunda filha (a exemplo do que acontecera com a primeira) é sempre motivo de uma tremenda felicidade, e foi precisamente o que aconteceu há quinze anos quando nasceu a minha "Carcaçinha".
A Mafalda faz hoje 15 anos que nasceu no Hospital do Barreiro no dia 29 de Novembro de 1992, e, na noite anterior, não "preguei olho" à espera que aquele rebento respirasse os primeiros ares deste mundo tão injusto.
Era tão pequenina que, num acto de ternura, me lembrei de dizer no momento quando a "arranquei" dos braços da Odília e lhe peguei ao colo:
- Olha a minha filhota já chegou... pareçe um carcaçinha (lembrando-me dos pequenos papo-secos).
E assim, ao longo de todos estes anos e em momentos da nossa convivência que tem sido constante e salutar, continuei a tratá-la desta forma, o que envolve um imenso carinho numa designação carregada de afectos (...)
Carlos Vardasca
29 de Novembro de 2007

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

"...No aconchego do aquartelamento"


(...) Entre nós, e apesar da instabilidade vivida em função dos perigos vividos no nosso dia a dia, ainda sobravam alguns momentos para fortificar o espírito de camaradagem e solidificar a nossa amizade. Quando sabiamos que camaradas nossos estavam para chegar de uma operação (coluna de reabastecimento ou de uma acção de patrulhamento), havia sempre alguém (que tinha ficado no aquartelamento) que se lembrava de atestar os chuveiros (bidões vazios de combustível dos helicópteros) para que, quem acabado de chegar, tivesse a oportunidade de se "libertar das angústias embebidas em suores e de se sacudir do pó barrento que lhes invadia as entranhas". À noite, e sempre que o Furriel Gabriel tivesse recebido as suas "famosas encomendas da Metrópole", a malta reunia na oficina mecânica para aí conviver e soltar algumas raivas acumuladas. Mas nestas coisa dos petiscos havia sempre um ritual a cumprir:

Malta! - dizia o Furriel Gabriel - eu tenho aqui umas coisas que recebi hoje lá da "Santa terrinha" e agora desenrrascem-se:

- Entre todos organizem-se, e haja quem compre as cervejas:

- Já sei também que compete ao Foz (1) ir "comprar" as galinhas ao aldeamento, e da forma tão característica que ele tem, e que é de "bastante agrado dos nativos".
- Quanto ao resto já sabem - logo à noite, e no sítio do costume, há petisco.
Eram assim passadas as noites nos "intervalos entre combates", e que regra geral acabavam sempre encharcadas em "Laurentinas e 2M" e que não ajudavam em nada a conter a revolta. Outros, os mais conservadores, entoavam até à exaustão a canção de Paco Bandeira tão em voga na altura, e que dizia:
Lá longe, onde o sol castiga mais,
não há suspiros nem ais,
há coragem e valor...
Perante tanta lamúria, meio desconjuntada pelo álccol mas que não lhes toldava as ideias, ouvia-se quase em surdina por entre o som das latas de cerveja que se abriam em catadupa:
- Epá, essa canção tem cá uma letra mais reaccionária e patrioteira que até enjoa!
- Cada um chora ao som da música que tem à mão (resposta imediata de quem se sentia atingido).
Era nesta diversidade de opiniões e na partilha de cumplicidades que decorriam os nossos petiscos, quando não eram interrompidos quando chegava a "hora Maconde":
- Morteirada...morteirada - gritava alguém que passava a correr pelo local e batia com tanta violência na porta:
- Todos para os abrigos... os cabrões dos "Turras" estão a atacar Nangade e as putas das granadas estão a cair mesmo dentro do aquartelamento (...)
Carlos Vardasca
21 de Novembro de 2007
(1) Alcunha do Soldado Condutor Eduardo da Silva Machado, que desde que regressámos de Moçambique até hoje, nunca mais deu "sinais de vida", e parece "vegetar pelas agruras da vida" e em parte incerta.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

...aquela giringonça não funcionou


(...) Chegou a uma altura em que as picadas eram intransitáveis devido ao constante rebentamento de minas anti-carro, e à destruição sistemática de viaturas militares, com a consequente perda de vidas que aquelas operações de reabastecimento implicavam. Tentando minimizar os efeitos destruidores das minas que eram colocadas nas picadas, uma "mente brilhante" lembrou-se de adaptar um Unimog (Pincha), comandado à distância, dotado de rodas em cimento colocadas à frente do mesmo, e que devido ao seu peso accionaria as minas que por ventura estivessem montadas na picada. Nos testes efectuados dentro do aquartelamento (Nangade) aquela giringonça funcionou lindamente, dado que o terreno era plano e os obstáculos não eram os mesmos com que iria enfrentar na picada. Para as crianças e adultos dos aldeamentos, cada vez que se procedia aos testes daquele "rebenta minas" a risada era total e sempre acompanhada de comentários:

- "Ai ué! - não admira branco fazer avião voar; meter sardinha dentro de um lato fechada, agora fazer os caro andar sozinho... chi, fazer mesmo cabeço de preto andar mesmo nos roda"!

- "Quando FRELIMO ver isto nos mato vai rir maningue e vai achar branco maluco mesmo..."

Aquela engenhoca, na primeira coluna em que participou, não chegou a transpor a primeira curva que se situava ao quilómetro 3, e teve que ser transportada de volta para o aquartelamento. A ideia era de facto muito interessante e com alguma originalidade, mas nas circunstâncias em que tinha que actuar e à irregularidade do terreno, tornou-se um impeçilho à movimentação das colunas militares e teve que ser retirada de "circulação". Sem utilidade, e encostado a um canto da oficina, era agora motivo de galhofa para as crianças nativas, que dali copiaram o modelo para um dos seus brinquedos que construiram em arame, e que com um pequeno pau o empurravam de olhos fechados dizendo em jeito de chacota para os colegas:
- Sai dos frente pá; - olha que este caro não ter olho para ver os picada! (...)
Carlos Vardasca
09 de Novembro de 2007

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Ainda transporto alguma fragilidade nas minhas emoções...


(...) Todos nós, os que tivemos a sorte de regressar das zonas de conflito, ainda hoje sentimos (uns menos outros mais) algumas fragilidades que tentam desmoronar as nossas emoções. No meu caso, e sentindo-me um privilegiado se comparado com outras situações bem mais dramáticas, ainda hoje, sinto alguma fragilidade emocional quando confrontado com situações que me levam a recordar alguns factos vividos no teatro de operações. Após ter regressado de Moçambique, eram os foguetes das festas das aldeias que me transtornavam, pois recordavam-me o rebentamento das granadas de morteiro quando a FRELIMO atacava os nossos aquartelamentos e as colunas de reabastecimento. Felizmente, e com o passar dos tempos, esse tormento desvaneceu-se, e é com alguma naturalidade que assisto aos fogos de artifício. Embora já liberto daquele tormento, actualmente, ainda sinto uma pequena preocupação do foro emocional e que está relacionado com o som característico dos helicópteros Alouette III. Diáriamente, quando me desloco ao Parque José Afonso na Baixa da Banheira para aí fazer o meu circuito de manutenção, já por várias vezes me confronto com aquele barulho vindo daquelas aéronaves que ocasionalmente sobrevoam o parque vindas da Base Aérea do Montijo, e, acto instantâneo, as lágrimas correm-me pela minha face quase que em cascata como se quisessem inundar as minhas emoções.

Durante a minha permanência na guerra colonial (1971-1973), sempre tive uma relação de proximidade com os Alouette III, devido às colunas militares de reabastecimento em que participei, operações militares essas em que na generalidade ocorriam confrontos com a FRELIMO, resultando daí situações bem dramáticas para quem nelas participava.

Eram os Alouette III que se deslocavam com bastante frequência às picadas ou aos aquartelamentos, para evacuar os mortos e feridos resultantes dos ataques e das emboscadas de que eramos alvo, e aquele som muito característico mas tremendamente ensurdecedor a que fomos sujeitos e que estava sempre associado a momentos de tragédia, ficou gravado em muitos de nós, ao ponto de, passados que são 34 anos do meu regresso, ainda hoje me tolda a resistência e me fragiliza emocionalmente, fazendo com que as lágrimas se soltem à sua passagem, como se fosse uma criança (...)

Carlos Vardasca
06 de Novembro de 2007
Na foto: Evacuação de um soldado morto numa emboscada da FRELIMO, efectuada na picada entre Pundanhar e Palma, em 10 de Maio de 1971.

Nem me apetecia olhar para baixo ...


(...) Marcava no calendário o dia 03 de Novembro de 1972, quando o Nord Atlas se fez à pista do Aquartelamento de Nangade, para dar início à rendição de parte da Companhia de Caçadores 3309 para o Aquartelamento de Balama. A impaciência reinava na pista, pois todos nós estávamos bastante ansiosos por abandonar Nangade, e deixar para trás momentos de angústia e sofrimento. Dentro de cada um de nós partia também a imagem dos nossos companheiros que tombaram em combate, e a certeza de que a pátria jamais lhes seria grata. Eu fazia parte desse 1º escalão de rendição, dado que o resto da Companhia seguiria só no dia 13 do mesmo mês de coluna militar até Palma, Aquartelamento junto à costa banhada pelo Índico, para embarcar na Corveta "General Pereira D'Eça" no dia 21 de Novembro de 1972 rumo a Porto Amélia (Pemba). Junto à pista de terra batida e encostado a uma árvore, de mochila às costas e a G3 ao ombro como que a descansar "de sonos bastas vezes interrompidos", eu sentia-me como que "uma criança que sorri de felicidade", por ver tão perto a minha retirada daquele planalto de má memória. Finalmente o Nord Atlas estacionara na pista envolto numa poeira avermelhada, e a ansiedade apoderou-se de todos nós, desejando correr de imediato na sua direcção, penetrar na sua fuzelagem e de lá não sair mais. Antes do embarque vieram-me à memória imagens da minha infância, que me recordaram a imensa alegria quando me aproximava de um carroçel numa qualquer feira, desejoso de montar um dos seus cavalos de pau. Ali estava eu; antes criança e agora feito soldado, impaciente por entrar naquele avião como se fora um brinquedo, "e nele me aconchegar e ali adormecer".

Quando o Nord Atlas levantou voo e já sobrevoava a densa mata e o Aquartelamento de Nangade ia ficando mais longe, instintivamente, e contrariando a minha vontade pois prometera não fazer, olhei por uma das janelas e, num gesto simples e em jeito de homenagem, acenei na direcção do aglomerado de palhotas de telhado de colmo que ladeavam o Aquartelamento, parecendo ver nos seus alpendres alguns amigos da população com quem convivi e ali deixei, alguns deles (é a primeira vez que o digo públicamente) há muito que sabia lutarem em trincheiras opostas (...)
Carlos Vardasca
03 de Novembro de 2007
Foto 1: Embarque da C.CAÇ. 3309 no Nord Atlas em Nangade.
Foto 2: Aquartelamento e aldeamentos de Nangade.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

... foi um autêntico inferno (01 de Outubro de 1971)


(...) Decorria o dia 1 de Outubro de 1971, e a Companhia de Caçadores 3309 acabava de chegar ao novo Aquartelamento de Tartibo, depois de se ter retirado de Nova Torres devido às cheias constantes que inundavam a totalidade do Aquartelamento, e que se faziam sentir na época das chuvas, com a junção das águas dos rios Rovuma e Metumbué. O local onde fora construído o novo Aquartelamento de Tartibo tinha sido até ao mês de Setembro uma pequena base da FRELIMO, e, por esse facto, previa-se que a permanência da C.CAÇ. 3309 naquele local não iria ser pacífica. Fazendo uma avaliação errada da situação, o Capitão da C.CAÇ. 3309 ordenou que a Companhia de Engenharia 2743, que ainda procedia à construção de valas e abrigos que se retirasse para Nangade, sendo sua opinião de que os seus serviços já não eram necessários pois a sua Companhia construiria o resto da protecção necessária ao Aquartelamento. Eram cerca de 17h 45m e o dia já começara a escurecer (em África escurece bastante cedo) quando (sem que as pancadas de Moliére se fizessem ouvir) o primeiro ataque da FRELIMO se desencadeou com o disparo de 15 granadas de morteiro 82mm, das quais 9 caíram dentro do Aquartelamento. Deste primeiro ataque ao Aquartelamento de Tartibo (seguir-se-iam mais três com intervalos de 15 minutos entre cada um deles) resultou um ferido grave, atingido em todo o corpo com estilhaços de uma granada de morteiro 82mm, que foi precisamente cair e rebentar na vala onde o 1º Cabo Pedro Manuel Gaspar Augusto (mais conhecido por "Almada") se tentava proteger do violento ataque. Em Nangade, apesar dos 20 quilómetros de distância, ouviam-se perfeitamente os rebentamentos e adivinhava-se o inferno por que passava a C.CAÇ. 3309 naquele momento, pois, via rádio, ouviam-se os apelos dramáticos dos Rádio-Telegrafistas em Tartibo pedindo com urgência a intervenção da força aérea, com o objectivo de afugentar os guerrilheiros que, naquele dia, pareciam (pela violência do ataque) determinados em querer reconquistar aquela base que já fora sua. Depois de 45 minutos debaixo de fogo (com um último ataque às 18h 30m) finalmente as hostilidades cessaram e procedeu-se à avaliação dos estragos e ao levantamento das baixas sofridas. O "Almada", depois de transportado aos ombros de um companheiro, agonizava agora no posto médico onde lhe eram prestados os primeiros socorros. Como o helicóptero de evacuação então pedido não se pode deslocar ao local do conflito, pois há muito que a noite se abatera sobre o Aquartelamento, a agonia do "Almada" prolongou-se até ao dia seguinte, sempre com uma equipa de enfermagem ao seu lado, incansável, ministrando-lhe até respiração boca a boca durante toda a noite na tentativa de o salvar. No dia seguinte, logo pela madrugada, o "Almada" é transportado para o helicóptero de evacuação e levado para o Hospital de Mueda, sendo posteriormente evacuado para o Hospital de Lourenço Marques (Maputo) onde veio a falecer ainda a caminho daquela unidade hospitalar no dia 02 de Outubro de 1971.
Em homenagem ao "Almada" e a todos os que naquela guerra absurda tombaram "sem jeito nem prosa", aqui fica um abraço solidário de quem sobreviveu.
Carlos Vardasca
01 de Outubro de 2007
Foto 1: O "Almada" aos 9 anos de idade.
Foto 2: Evacuação do "Almada" no Aquartelamento de Tartibo, no dia seguinte ao ataque (02 de Outubro de 1971).
Foto 3: Chegada do corpo do "Almada" ao Hospital de Mueda.
Foto 4: O "Almada" aos 22 anos no Aquartelamento de Nova Torres antes da retirada para Tartibo.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

E a Mónica aí está, desde 26 de Setembro de 1974


(...) Vivia-se de facto uma época muito conturbada. Recentemente chegado da guerra colonial e ainda com os traumas das experiências vividas naquele conflito, "mergulhei com todo o entusiasmo no mar de gente" que em radiante euforia, se congratulava com a queda do regime Marcelista em 25 de Abril de 1974. Talvêz por isso, "e por ter mergulhado tão fundo sem ter tempo de vir à superfície respirar a realidade", não dei demasiada importância "às coisas tão belas e tão tamanhas" que a vida então me proporcionava. A guerra tinha-me transformado num "bloco de gelo que se recusava derreter à mínima demonstração de afecto" o que punha em causa a minha estabilidade emocional e a relação afectiva com os outros. É em 26 de Setembro de 1974, que se dá a minha primeira explosão de alegria, com o nascimento da minha filha Mónica no hospital de Alhos Vedros. Ainda me lembro do dia quando cheguei do trabalho e pedi que me deixassem vê-la, apesar do adiantado da hora e de já não estar na hora da visita. Uma enfermeira trazia ao colo aquela "boneca", bem embrulhada numa manta e, passados que são 33 anos, ainda recordo essa imagem com bastante saudade como se a tivesse gravada no meu peito.
Mais tarde, volvidos alguns anos, e por imposição de lógicas e valores meramente egoístas que não importa agora recordar, reconheço que fizeram de mim um "pai ausente", ao "arrancarem de mim aquela boneca", tal como outros fizeram aos brinquedos que não tive tempo de ter na minha infância. Mas, apesar da distância no tempo e passados que são agora os 33 anos do seu aniversário, a minha filha Mónica continua a ser para mim "aquele pequeno pássaro que muito me encanta ouvir o seu cantar".
Depois de há muito ter reaprendido a dar valor "às coisas tão belas e tão tamanhas", transporto hoje dentro de mim uma imensa alegria, por essas "coisas" me terem devolvido um outro pedaço de felicidade que me fora "arrancado" mas a que tinha direito.
Neste seu dia de aniversário, só desejo à Mónica que a sua vida continue a ser uma constante e imensa "explosão alegria", e que a felicidade continue a transbordar do seu sorriso "como a àgua que se desprende da cascata e mergulha num rio enfeitado de nenúfares" (...)


Carlos Vardasca
26 de Setembro de 2007